"Devastamos mais da metade do nosso País pensando que era preciso deixar a natureza para entrar na história: mas eis que esta última, com sua costumeira predileção pela ironia, exige-nos agora como passaporte justamente a natureza".
Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo, um dos motes da fundação do ISA em 1994.
O ISA trabalha em parceria com povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais para elaborar soluções inovadoras para os desafios enfrentados por estas comunidades e povos. Nossas iniciativas apoiam e promovem a defesa de direitos, gestão e proteção territorial, economias do cuidado, processos formativos, restauração ecológica inclusiva e produtiva. Elas são baseadas em processos de experimentações e trocas de saberes transparentes, equitativas e de longo prazo com nossos parceiros, que tem como base a valorização dos modos de vida destas populações e a garantia de seus direitos.
Nossa abordagem de atuação coloca a potência dos saberes tradicionais em diálogo com práticas legais, acadêmicas e de mercado. A inovação, produzida a partir dessa interação entre diferentes mundos, pensamentos e linguagens, oferece caminhos para o reconhecimento pela sociedade brasileira - e mundial -, que são estes povos que cuidam e protegem as florestas que prestam os serviços socioambientais para a própria sobrevivência do planeta e cada um de nós.
Há diversas outras iniciativas que apontam para soluções originais para os desafios enfrentados pelas populações indígenas e tradicionais para garantir o direito à terra, o bem-viver, a preservação de suas florestas e modos de vida, intrinsecamente interdependentes. A formação de jovens comunicadores indígenas, por exemplo, capacita tecnicamente a juventude dos territórios do Xingu e do Rio Negro em dominar a tecnologia para contar suas próprias histórias, defender seus direitos e se conectar com a cultura de seus de seus antepassados. Conheça abaixo outros exemplos de soluções desenvolvidas pelo ISA e seus parceiros locais e nacionais:
Copiô, Parente, o primeiro podcast feito no Brasil para os povos da floresta
Xingu Solar, projeto de promoção de energia fotovoltaica no Xingu
Entre os dias 8 e 10 de agosto de 2024, coletores de sementes nativas e técnicos das redes da Terra do Meio (PA) e de Roraima estarão em Nova Xavantina (MT) para conhecer como funciona a Rede de Sementes do Xingu. A programação reforça a importância do trabalho em rede para o desenvolvimento das cadeias produtivas da restauração e da sociobiodiversidade.
O objetivo do intercâmbio entre as redes articuladas ao Redário é, além de proporcionar a troca de experiências entre grupos de coletores em diferentes estágios de desenvolvimento, capacitá-los em gestão, beneficiamento de algumas espécies, armazenamento, coleta e uso de casas de sementes.
No encontro, as três redes de sementes, apoiadas diretamente pelo Instituto Socioambiental (ISA), também terão a oportunidade de conhecer áreas de restauração e os “quintais produtivos” de coletores da ARSX.
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Preparo de muvuca de sementes durante a 4ª Expedição de Restauração Ecológica da Rede de Sementes do Xingu e do ISA|Bianca Moreno/ARSX/ISA
Danielle Celentano, analista sênior do ISA e responsável pelo projeto Modelos de Restauração Produtiva para a Amazônia, afirma que intercâmbios como este evidenciam a potência do trabalho em rede. “A Rede de Sementes do Xingu acumula uma experiência super importante para acelerar o desenvolvimento e fortalecer redes de sementes mais jovens. Esse intercâmbio, com apoio da União Europeia, mostra a importância da articulação em rede para o desenvolvimento das cadeias produtivas da sociobiodiversidade e da restauração”.
PROGRAMAÇÃO
08/08
Manhã
História, números da ARSX
Troca de experiências
Qualidade de sementes
Tarde
Visita à Casa de Sementes
09/08
Manhã
Visita à Chácara da coletora Valdivina - Vivência de coletor
Visitação à reserva da propriedade, produção de mel, coleta de sementes e área de restauro
Tarde
Conversa sobre o papel do elo, divisão de pedido e beneficiamento.
10/08
Manhã
Visita a área de Mariozam
Roda de conversa, considerações, encerramento.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Kerexu Mirim e Luiz Ketu levam saberes indígenas e quilombolas ao palco principal d’A Feira do Livro
Mesa debateu contribuições para a educação antirracista e contou com tarde de autógrafos com os autores de ‘Roça é Vida’ e ‘Na companhia de Dona Fartura’
Tatiane Klein, pesquisadora do ISA, Luiz Ketu, liderança do Quilombo São Pedro e Kerexu Mirim, liderança da Terra Indígena Tenondé Porã, conversaram sobre educação antirracista e saberes ancestrais em mesa n'A Feira do Livro| Júlio César Almeida/ISA
Na tarde de terça-feira (02/07), os autores Kerexu Mirim, liderança da Terra Indígena Tenondé Porã, em São Paulo, e Luiz Ketu, liderança do Quilombo São Pedro, em Eldorado (SP), levaram saberes indígenas e quilombolas para o palco principal d’A Feira do Livro. A mesa “Saberes ancestrais na sala de aula” teve mediação de Tatiane Klein, pesquisadora do Instituto Socioambiental (ISA) e trouxe reflexões importantes sobre o direito à educação diferenciada e das experiências nas escolas indígenas e quilombolas como caminhos para uma educação antirracista.
Foi reverenciando seus ancestrais que Luiz Ketu, tataraneto de Bernardo Furquim – fundador da comunidade onde vive – deu início à roda de conversa. "Falar do lugar de atuação, de vivência, é falar primeiramente desse lugar de ancestralidade, desse lugar de território de onde eu venho, de onde que eu conto as minhas histórias e conto um pouco da minha experiência", afirmou.
O Quilombo São Pedro, localizado entre as cidades de Eldorado e Iporanga, no Vale do Ribeira, foi fundado entre 1825 e 1830, mas apenas em 2022, quase 200 anos após sua fundação e mais de 130 anos após a abolição formal da escravidão, os moradores conquistaram o título definitivo do território coletivo.
Kerexu Mirim, por sua vez, destacou o processo de retomada que seu povo, Guarani Mbya, vive. Ela explica que, atualmente, na Terra Indígena Tenondé Porã, das 14 aldeias, 12 são áreas retomadas e que o caminho para assegurar e recuperar o acesso ao território e ao modo de vida guarani ainda está sendo percorrido. “Além de retomar o território, também foram retomadas as práticas do cotidiano guarani e a revitalização da casa de reza, dos cantos, dessa conversa das crianças com os mais velhos que foi perdida por causa do espaço pequeno”, explicou.
“Para a gente foi e está sendo muito importante essas retomadas, e a gente também está conquistando, de pouquinho em pouquinho, antes da demarcação, para poder assegurar um pouco da mata que resta aqui em São Paulo e que está segurando esse calor também que faz”, afirmou.
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Kerexu Mirim mostra livros sobre seu povo e família à venda na tenda do ISA n'A Feira do Livro, que acontece em São Paulo|Júlio César Almeida/ISA
Educação diferenciada
Sobre a educação escolar quilombola, Luiz Ketu destacou a morosidade e os entraves que existem na criação de normativas específicas para garantir a educação diferenciada. “O racismo rege essa base estrutural, então ele também vai estar presente nos espaços de poder justamente para a manutenção de uma certa hegemonia. E isso também acontece na educação”, pontuou.
Ketu, que é doutorando em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), também trouxe a importância da presença quilombola nos espaços de produção de conhecimento, como as universidades, para que haja provocações às estruturas vigentes.
Citando a pedagoga Nilma Lino Gomes, a liderança quilombola também lembrou do papel educador do movimento quilombola – seja por meio das associações locais em territórios quilombolas ou de organizações nacionais –, como a Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq), que cumprem o papel de demandar do Estado a garantia dos direitos da população quilombola, principalmente no âmbito da educação.
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O futuro é quilombola! Luiz Ketu, liderança do Quilombo São Pedro (SP) e autor quilombola, assina painel n'A Feira do Livro| Júlio César Almeida/ISA
“O movimento traz essa proposta: se a escola é esse modelo que a gente tem hoje de sentar-se na cadeira, ficar ali, se ele não se deslocar para olhar para fora da janela, a gente não vai ter avanço. Então, se o aluno ou aluna tem uma série de conhecimentos que estão ali todos os dias no espaço no território e isso não está em sala de aula, a gente tem um problema sério: ou temos uma falta de informação ou temos um projeto que começou lá antes de 1500 e que ainda está pautado em vigor com isso”, argumentou.
Na mesma direção, Kerexu Mirim, em sua experiência como professora, compartilhou algumas das questões que têm norteado as discussões sobre educação diferenciada em seu território, como qual tipo de pessoa se deseja formar: “Uma frase que a gente sempre ouve é: ‘você tem que ir para escola para ser alguém na vida’, mas a gente já é alguém”, assinalou.
“É tudo voltado para dinheiro. A gente não quer isso, então a gente usa a disciplina da matemática plantando milho, plantando mandioca, colhendo, então para isso que vai servir a matemática. Não é só para contar dinheiro. Para a gente é assim, o que é levado para a nossa escola Guarani é voltado para nossa realidade”, completou.
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Kerexu Mirim: “Uma frase que a gente sempre ouve é: ‘você tem que ir para escola para ser alguém na vida’, mas a gente já é alguém”| Júlio César Almeida/ISA
Escrever, sem abandonar a tradição oral
Outro aspecto destacado por Kerexu Mirim foi a desvalorização do conhecimento dos anciãos de seu povo, geralmente transmitidos aos mais novos por meio da oralidade e da memória. “A escola veio com essa ideia bem fechada de um lugar de conhecimento, como se os nossos e as nossas antepassadas, nossas mães e nossos pais, não tivessem conhecimento”, criticou.
Para ela, que é filha de um dos pioneiros da literatura nativa no país, o escritor guarani Olívio Jekupé, a escrita se tornou um poderoso instrumento para registrar e valorizar os conhecimentos tradicionais, sem substituí-los. “Hoje [a escrita] é nossa ferramenta de luta. Que a gente e a escola precisam ter, esses livros, esses registros, em português e em Guarani também”, defendeu.
É o que também ressaltou Luiz Ketu, falando da importância da oralidade na transmissão desses conhecimentos agregados ao longo de tanto tempo. Ele, que é um dos autores dos livros Na companhia de Dona Fartura, uma história sobre cultura alimentar quilombola e Roça é vida, destacou que o registro desses saberes por meio da escrita foi assumido como uma missão coletiva, por ele e por outros pesquisadores quilombolas, como Márcia Cristina Américo, Viviane Marinho Luiz, Laudessandro Marinho da Silva, que compartilham a autoria com ele e acompanharam o evento.
As duas obras, disponibilizadas ao grande público pela primeira vez n’A Feira do Livro, trazem informações sobre o Sistema Agrícola Tradicional Quilombola (SATQ) e suas contribuições. Reconhecido em 2018 como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o SATQ consiste em uma série de conhecimentos e práticas tradicionais, que engloba a roça de coivara – um sistema baseado no uso intermitente de pequenas áreas de floresta, com uso para plantação por três anos e períodos de repouso para que o solo e a vegetação se regenerem.
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Da esquerda à direita: Viviane Marinho Luiz, Laudessandro Marinho da Silva, Márcia Cristina Américo e Luiz Ketu| Júlio César Almeida/ISA
Nesse sistema, os quilombolas do Vale do Ribeira desenvolveram o manejo de cerca de 83 espécies florestais e mais de 70 variedades agrícolas, ajudando a conservar parte dos remanescentes de Mata Atlântica no país. Para isso, todos os anos realizam a Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas.
Organizada pelo Grupo de Trabalho da Roça (GT da Roça), composto por 19 Associações das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira e parceiros, o evento previsto para agosto chega em sua 15ª edição neste ano, valorizando os saberes tradicionais quilombolas.
Finalizando a conversa, Tatiane Klein destacou a relevância dos autores quilombolas e indígenas compartilharem em seus livros temas tão complexos, mas tão pouco conhecidos e valorizados, como forma de combate de um racismo epistêmico que coloca os saberes de uns em posições diferentes dos saberes de outros.
“Como o Davi Kopenawa sempre fala em seus livros, ele teve que colocar o pensamento dele em ‘peles de papel’ para que chegasse aos não indígenas. E esse não é um movimento que só o Davi vem fazendo. Inúmeras comunidades indígenas, quilombolas e extrativistas estão fazendo esse esforço para transmitir o que são os modos de vida, para garantir a existência desses modos de vida, a persistência desses modos de vida e acho que a gente só tem a agradecer por estarem fazendo isso“, concluiu.
Na sexta-feira (05/07), o tema volta À Feira do Livro em um bate-papo sobre a obra Diários yanomami: testemunhos da devastação da floresta no Auditório Armando Nogueira. A mesa terá a participação de Darysa Yanomami, Mozarildo Yanomami, Corrado Dalmonego e Hanna Limulja para discutir a obra bilíngue, que é resultado de uma pesquisa intercultural e reúne relatos dos próprios Yanomami sobre os impactos da invasão garimpeira na maior Terra Indígena do Brasil, durante o governo Bolsonaro.
“Brasil indígena, passado e presente”
No domingo (30/06), às 17h30, aconteceu o bate-papo “Brasil indígena, passado e presente”, com a historiadora Luma Prado, do ISA, e a educadora Poty Poran T. Carlos, da Terra Indígena Jaraguá. Na conversa, a educadora do povo Guarani trouxe a importância dos não-indígenas entenderem a sociodiversidade de povos indígenas. “Cada etnia tem um jeito de viver e de ser”, defendeu.
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Poty Poran, educadora Guarani, com a historiadora Luma Prado, do ISA, em conversa n'A Feira do Livro| Júlio César Almeida/ISA
Poty Poran ainda destacou a necessidade de combater as visões estereotipadas dos indígenas. “Se os portugueses não usam mais caravelas, por que indígenas não podem ter acesso à tecnologia, sem deixar de ser indígenas para isso? “, questionou.
Luma Prado, por sua vez, também apontou a problemática de discutir a temática indígena apenas na efeméride do Dia dos Povos Indígenas, em abril. “Precisamos preencher a história do Brasil com a história dos povos indígenas também na sala de aula”, concluiu.
Foto tirada durante o II Encontro do Redário, que aconteceu na Aldeia Multiétnica em Alto Paraíso (GO), em julho de 2023 | Luana Santa Brígida
Entre 4 e 7 de julho, Juazeiro (BA) será a sede do 3º Encontro do Redário – articulação de redes e grupos de coletores de sementes nativas – que deve reunir 150 participantes, incluindo coletores, técnicos e pesquisadores da restauração ecológica. Além disso, a cidade também será palco da V Conferência Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE 2024) entre 8 e 12 de julho.
Cerca de 70 coletores representantes de 24 redes já articuladas e de outras 10 em processo de articulação - sendo cinco do semi-árido, técnicos e entidades parceiras – devem comparecer ao evento.
Conheça as redes que compõem o Redário atualmente aqui.
A programação do dia 5 está voltada para validação de processos internos e estreitamento dos laços entre as redes. Já as atividades do dia 6 acontecem no Centro de Formação D. José Rodrigues, do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada – IRPAA, parceiro na realização do 3º Encontro do Redário.
Lá, cerca 50 convidados da SOBRE 2024 se juntarão aos 98 coletores e técnicos do Redário, em visitação a áreas de restauração do bioma Caatinga e tecnologias sociais do semi-árido. O objetivo é promover a troca de experiências entre coletores e restauradores de diversos biomas e a ampliação das conexões com o mercado da restauração.
No final da tarde, será plantada uma muvuca (mistura) com sementes em área que será monitorada pelo IRPAA. Na noite do dia 6, haverá a tradicional feira de trocas de sementes. O encerramento do 3º Encontro acontece na manhã do dia 7.
Na manhã do dia 8, tem início a V Conferência Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE 2024). O Redário é tema de 18 submissões aprovadas. Coletores e técnicos tomarão parte nas apresentações. Confira mais informações sobre V Conferência Brasileira de Restauração Ecológica aqui.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Catrapovos garante alimentação saudável para crianças e geração de renda em territórios quilombolas
Iniciativa tem incidência inédita no município de Iporanga (SP), onde a merenda escolar será fornecida pelas próprias comunidades, com alimentos frescos e condizentes com seus hábitos alimentares tradicionais
"Adoramos": os irmãos Salomão Gabriel, 4 anos, e Hermógenes Miguel, 10 anos, experimentam a nova merenda escolar, feita com produtos de sua própria comunidade|Fellipe Abreu/ISA
"O Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) é um eixo fundamental para a garantia da Segurança Alimentar e Nutricional no país, calcado no emprego da alimentação saudável e adequada, compreendendo o uso de alimentos variados, seguros, que respeitem a cultura, as tradições e os hábitos alimentares saudáveis [...].”
O direito a uma merenda escolar que respeite a cultura e os hábitos alimentares saudáveis das crianças brasileiras é uma diretriz do Pnae, determinada pelo Ministério da Educação (MEC) por meio do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).
Seus objetivos são múltiplos. Além da garantia da segurança alimentar e nutricional, a oferta de uma merenda escolar adequada tem por fim ainda a contribuição para a aprendizagem e o rendimento escolar dos estudantes, atuando como uma ferramenta para o desenvolvimento biopsicossocial das crianças que acessam a rede pública de ensino do país.
No entanto, entre determinação e realidade há um abismo. Estudo feito pelo Observatório de Alimentação Escolar (ÓAÊ), em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mostra que, entre 2015 e 2019, 61% dos municípios brasileiros não atenderam ao limite de alimentos ultraprocessados na merenda escolar determinado pelo FNDE.
O contexto se torna ainda mais alarmante ao se considerar que a merenda escolar é a principal refeição para milhões de crianças brasileiras. Recorte do estado do Rio de Janeiro reflete esta realidade. Para a maioria (56%) dos estudantes da região metropolitana da capital fluminense, a alimentação feita na escola representa a principal refeição do dia. Os dados são da pesquisa "Conta Pra Gente Estudante - Grande Rio", divulgada em 2023 pelo ÓAÊ em parceria com a Ação da Cidadania.
O caso Yanomami
Se este cenário apresenta uma realidade delicada para as crianças que vivem na zona urbana e têm relativo contato com alimentos industrializados fora do ambiente escolar, o contexto se torna ainda mais agravado nas escolas localizadas em zonas rurais, principalmente naquelas situadas em territórios de povos e comunidades tradicionais.
Foi justamente assim que, em uma visita técnica à Terra Indígena Yanomami no ano de 2016, o Ministério Público Federal (MPF) constatou a relação entre a má nutrição das crianças e a alimentação fornecida pelas escolas locais. “Escassa, inadequada e descontextualizada, com muitos itens industrializados e enlatados, sem qualquer relação com a produção local e com a cultura da comunidade”, conforme consta em sua avaliação.
Ao analisar a situação, o MPF compreendeu que o fornecimento de alimentos para aquelas escolas consumia mais recursos em transporte e armazenamento do que com a compra de alimentos, de fato. Em razão das longas distâncias e da dificuldade de transporte, as comidas não chegavam ou já se encontravam vencidas ao chegar. Em contraponto, a produção local não era aproveitada na alimentação escolar.
Diante disso, foi montada uma comissão composta por instituições dos governos federal, estadual e municipal, movimentos e lideranças de comunidades tradicionais e organizações da sociedade civil numa tentativa de superar o desinteresse governamental e os entraves da legislação e fomentar a alimentação tradicional nestas escolas.
Ali nascia Comissão de Alimentos Tradicionais dos Povos no Amazonas (Catrapoa), berço do que viria a ser a Mesa de Diálogo Permanente Catrapovos Brasil, instituída em 2021 e que tem por objetivo replicar a iniciativa iniciada no estado do Amazonas em todo o país. Atualmente já existem 16 Comissões instaladas em 15 estados da federação e outras quatro em fase avançada de criação.
Como resultado foi editada uma nota técnica que considera que a produção tradicional de alimentos pelos povos e comunidades tradicionais possuem modos próprios de controle de qualidade e conservação e se dedicam ao autoconsumo, o que adequa determinadas burocracias sanitárias e permite sua compra direta pelo poder público.
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O arroz que fornece para a escola da comunidade, Camilo de Matos colheu da roça que alimenta sua família durante o ano todo|Fellipe Abreu/ISA
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Catrapovos contribui para a valorização do Sistema Agrícola Tradicional Quilombola do Vale do Ribeira|Fellipe Abreu/ISA
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Camilo de Matos, do Quilombo Praia Grande, transporta os alimentos produzidos pelo rio Ribeira de Iguape|Fellipe Abreu/ISA
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Camilo de Matos chega até a escola pela manhã com os produtos frescos que colheu em sua roça|Fellipe Abreu/ISA
Iniciativa chega aos territórios quilombolas
Agora em 2024, desde sua criação, pela primeira vez uma Chamada Pública contemplou comunidades e escolas em territórios quilombolas com a compra de alimentos tradicionais pela Catrapovos no estado de São Paulo.
Ao todo, 179 crianças quilombolas serão beneficiadas pela iniciativa em oito escolas localizadas em sete comunidades: Quilombo Bombas, Quilombo Maria Rosa, Quilombo Nhunguara, Quilombo Pilões, Quilombo Piririca, Quilombo Praia Grande e Quilombo Porto Velho. A chamada pública ainda prevê o atendimento a 61 alunos não quilombolas da rede municipal de educação com o fornecimento de alimentos frescos.
Segurança alimentar, cultura e geração de renda
As questões nutricional e social são o foco da iniciativa. No entanto, ela abarca outro ponto fundamental para o desenvolvimento das comunidades, o econômico. Coordenadora da Associação dos Remanescentes de Quilombo de Praia Grande, Edilene Geralda de Matos reforça a importância de todos estes pilares.
“Para nós é uma satisfação muito grande operar a merenda por meio da Catrapovos Vale do Ribeira/SP em nossa comunidade. Esta é uma importante possibilidade de geração de renda que se abre para nós e, mais do que isso, é fundamental para manter nossa própria tradição, porque é da cultura do povo quilombola produzir seu próprio alimento. E ainda temos a garantia de que as crianças vão comer nossos alimentos tradicionais e saudáveis, livres de veneno.”
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A merendeira Regianí Afonso separa os alimentos recebidos dos agricultores quilombolas|Fellipe Abreu/ISA
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Com o acompanhamento da nutricionista Mariana Camargo, Regianí prepara a merenda do dia|Fellipe Abreu/ISA
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Os alimentos produzidos nas roças tradicionais quilombolas garantem uma alimentação saudável e livre de veneno|Fellipe Abreu/ISA
A proposta é que cada comunidade forneça alimentos para as escolas de seus próprios territórios. Esta circularidade reforça ainda mais a conexão entre as crianças, a comunidade e o território. É o que explica Ana Cláudia Ribeiro, mãe de dois alunos que estudam na Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental de Praia Grande e também fornecerá produtos de sua roça para a merenda.
“É uma graça para nós estarmos colocando o nosso alimento dentro da escola onde os nossos filhos estudam. E é bonita a participação da comunidade neste processo. Porque juntamos várias famílias para tratar das crianças que estão estudando. E temos a segurança de que elas vão se alimentar das nossas comidas tradicionais e orgânicas.”
Regianí Benedita Afonso é merendeira da rede municipal de ensino de Iporanga. Em sua avaliação, a Catrapovos é muito benéfica para todos que se relacionam com a iniciativa. “Como merendeira, acho superimportante a questão do alimento natural para as nossas crianças. Sempre preparamos tudo o que chegava com muito amor e carinho, mas agora vai ser muito melhor. Esta relação de todos na comunidade também fica bem mais estreita. É bom para todos.”
No caso de Iporanga, a chamada pública foi possível muito em razão do empenho da nutricionista Mariana Camargo Relva da Silva, que há mais de dez anos cuida da gestão nutricional da alimentação das unidades escolares do município.
Para além da importância crucial da oferta de alimentos frescos aos cerca de 240 estudantes que serão impactados pela iniciativa, a nutricionista reforça a relevância estratégica da Catrapovos para o futuro das escolas nos territórios quilombolas de Iporanga.
“O fortalecimento da escola é um dos nossos maiores objetivos. Com poucos alunos, como é o caso desta unidade, a possiblidade de fechamento da escola é muito grande. Então, com este vínculo mais aproximado e com a economia se movimentando em torno da escola, todos começam a ter mais esperança na escola. A comunidade tem a ganhar em todos os aspectos”, revela.
Assessor técnico do Instituto Socioambiental (ISA), Carlos Ribeiro explica que foi necessária grande articulação das associações das comunidades quilombolas do município, entidades parceiras e a Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale) com a Prefeitura para a viabilização da Chamada Pública em consonância com a nota técnica orientativa do MPF.
E ele resume a importância da iniciativa. “A Catrapovos Vale do Ribeira/SP é importante para as comunidades porque respeita a cultura alimentar das crianças, porque garante a entrega de alimentos frescos e saudáveis nas escolas, além de ser uma ferramenta de garantia da segurança alimentar, de geração de renda local para as famílias e, por fim, de fortalecimento do Sistema Agrícola Tradicional Quilombola do Vale do Ribeira, patrimônio cultural brasileiro tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).”
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Ao lado da mãe, Ana Cláudia Ribeiro, Hermógenes Miguel diz que ficou contente ao saber da novidade na merenda escolar e se mostrou ansioso para poder ter na escola sua comida preferida: arroz com galinha caipira|Fellipe Abreu/ISA
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Iniciativa promove o respeito à cultura alimentar das crianças pela oferta de alimentos da culinária tradicional quilombola|Fellipe Abreu/ISA
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Sistema de alertas mostra que 70% das denúncias da Terra Indígena Yanomami são de invasões
Alimentada pelos próprios indígenas, ferramenta de proteção territorial foi desenvolvida pela Hutukara Associação Yanomami, UNICEF e ISA
Dário Kopenawa, vice-presidente da Hutukara, discursa em eventos sobre a primeira fase do sistema de alertas do UNICEF, ISA e Hutukara - UNICEF/BRZ/Lais Muniz
Sete em cada 10 denúncias recebidas de um sistema de alertas no Território Indígena Yanomami (TIY) são referentes a atividades praticadas por não indígenas no território, incluindo garimpeiros. Os dados são de um novo sistema de alertas apoiado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e implementado pelo Instituto Socioambiental (ISA) e a Hutukara Associação Yanomami (HAY). O sistema abrange, em sua primeira fase, 19 regiões do território e recebeu 70 denúncias desde a sua implementação, entre março de 2023 e abril de 2024.
Os alertas gerados sobre atividades no território incluem temas como invasão e ameaças. Outros 18% dos alertas são relacionados a questões ambientais, como incêndios e água contaminada, e 12% sobre saúde, como casos de desnutrição e surtos de malária.
Para o vice-presidente da Hutukara e líder Yanomami, Dário Kopenawa, o projeto - que encerrou sua primeira fase no mês passado com um evento em Boa Vista, Roraima - apoia comunidades Yanomami e ajuda a denunciar invasões, situações de saúde e a gerir o território.
“Ainda estamos sofrendo, os garimpeiros continuam em nossas terras e continuam passando com seus aviões na cabeça do nosso povo, incomodando o nascimento das nossas crianças com o barulho de motores. Mas com o sistema de alertas temos a oportunidade de comunicar às autoridades sobre o que acontece dentro de território”, declarou Dário.
“Mais da metade dos mais de 30 mil yanomamis no território são crianças e jovens. O sistema de alertas, alimentado pelos próprios yanomami, vem como parte do processo de autonomia e controle do território, servindo como ferramenta para alertar o poder público e conscientizar a população sobre o que acontece na maior terra indígena do Brasil”, disse a coordenadora técnica para Assuntos Indígenas do UNICEF, Léia Vale.
A Casa de Governo, que centraliza a coordenação de 31 órgãos federais atuantes na TI Yanomami e no Estado de Roraima, esteve presente no evento do encerramento da primeira fase de implementação do sistema de alertas. “Hoje o nosso grande objetivo é combater o garimpo em terras indígenas, mas também fora do território. Essas informações que chegam por meio dos alertas são importantes para organizar o nosso trabalho”, explicou o diretor da Casa de Governo, Nilton Tubino.
Além da Casa de Governo, estiveram presentes no evento de fechamento da primeira fase, no dia 24 de maio, órgãos como a Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Defensoria Pública da União (DPU), Ministério Público Federal, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), a Universidade Federal de Roraima (UFRR) e organizações indígenas como a Associação Wanassedume Ye'kwana (SEDUUME) e URIHI Associação Yanomami.
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Sistema de alertas apresenta informações em língua indígena|Evilene Paixão/Hutukara Yanomami
Sistema de alertas
As denúncias e queixas vindas do Território Indígena Yanomami e que antes eram feitas por cartas, visitas presenciais ou mensagens de radiofonia, ganham um novo formato com o atual sistema de alertas. O sistema funciona como uma central onde as próprias comunidades, por meio de um aplicativo de celular, emitem notificações sobre riscos sanitários e ambientais de maneira ordenada.
“Com o projeto, temos um fluxo mais organizado para receber informações do território e com isso, temos melhor acompanhamento da situação e mais qualidade de informações. O sistema de alerta é uma oportunidade de organizar e ter dados com qualidade para acompanhamento mais fino e melhor resposta do poder público”, explica Estêvão Benfica Senra, geógrafo do ISA.
O aplicativo disponibiliza formulários onde a população pode anexar fotos, vídeos, áudios e até mesmo pontos de localização com coordenadas geográficas para relatar o alerta a ser gerado. Após qualificados e validados, os alertas são colocados no painel para que autoridades e instituições parceiras possam ter ciência de qualquer anormalidade que ameace o território. Os registros podem ser feitos offline e a ferramenta disponibiliza as opções nos idiomas yanomami, ye'kwana, sanoma e português.
O projeto do sistema de alertas conta com financiamento da União Europeia, através do Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária (ECHO, na sigla em inglês), e tem o objetivo de aumentar a resiliência e fortalecer a autonomia das comunidades com a integração de um sistema que respeite o contexto e o conhecimento das comunidades indígenas.
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Serras Guerreiras de Tapuruquara: aventura, cultura e hospitalidade indígena na Amazônia
No Médio Rio Negro, o turista se torna um visitante – acolhido e guiado pelos povos que ocupam ancestralmente o território
Começa a tarde na comunidade de Boa Vista, no Médio Rio Negro, Amazonas. As pessoas se preparam para almoçar, seguindo a regra dos anfitriões indígenas, que indicam que os primeiros a se servirem devem ser os visitantes.
Sobre a mesa, há uma diversidade de alimentos da floresta e dos quintais, como cará roxo, beiju, peixe moqueado – ou defumado –, peixe ensopado, buriti, abacaxi, banana, entre outras delícias.
Cozinheiras da comunidade de Boa Vista, no Médio Rio Negro, apresentam os pratos que serão servidos aos visitantes|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
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Peixes, frutas variadas, beiju: os melhores sabores do Rio Negro à mesa/Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
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Expedições das Serras Guerreiras de Tapuruquara oferecem variedade de pratos locais/Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Antes do cochilo na rede, logo após o almoço e com o forte calor amazônico, ainda resta disposição para uma conversa. Seu João Vieira Brazão, do povo Baré, usa o bloco de anotações e uma caneta para começar a rascunhar uma pequena gramática ilustrada de nheengatu, para ensinar um pouco de sua língua.
Desenha um rosto, coloca setas indicativas e vai escrevendo: olho, reçá; nariz, tym; cabeça, yakãga; orelha, nãby, boca, yorou. Em seguida, avança um pouco: meu nariz, se tym; meu olho, se reçá, minha boca, se yorou, minha orelha, se nãby. Como bom professor, vai em frente e forma uma frase: minha cabeça dói ou se akãga sacy.
A aula na língua nheengatu – um tanto improvisada pelo seu João Brazão – não faz parte do roteiro oficial do projeto de turismo Serras Guerreiras de Tapuruquara. Mas dá uma ideia dos encontros possíveis ao conhecer a Amazônia dos indígenas. E acompanhados dos indígenas.
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Crianças da comunidade de Boa Vista, no Médio Rio Negro, Amazonas|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
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Seu João Brazão (primeiro à direita) recebe participantes da expedição|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
O projeto oferece dois roteiros de cultura e aventura. O Maniaka tem ênfase na parte cultural, enquanto o Witera oferece mais aventura (detalhes abaixo).
A viagem acontece no Estado do Amazonas, entre as cidades de São Gabriel da Cachoeira e Santa Isabel do Rio Negro, numa das regiões mais lindas do Estado, com um cenário único onde há serras em meio ao tapete verde da floresta. A visitação acontece de agosto a fevereiro, quando as chuvas diminuem na região, sendo que cada expedição dura de 8 a 12 dias.
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Rio Negro de cima: vista panorâmica no topo de uma das serras|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
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Paisagens de tirar o fôlego se revelam aos visitantes|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Para cada serra, um nome. Vamberto Plácido, do povo Baré, que nasceu e sempre viveu nessa região, conta que as serras que dão nome ao projeto são, na verdade, guerreiros.
“Então, contando um pouco da história das serras guerreiras, vou contar para vocês uma históriazinha dessas serras. Segundo os mais antigos, essas serras, eles eram os guerreiros. Cada uma delas tem seu nome. Por isso que é o Jacamim, a Jacuraru, a Cutia, o Porco, o Trovão e a Anta. Saindo da Colômbia, percorreram a noite toda, mas não conseguiram pegar o destino onde iam guerrear com outra serra, onde ficava a cobra conhecida como cobra do Tukano. Eles não conseguiram chegar até lá e amanheceram o dia e ficaram até hoje. Então, esse projeto já trouxe o nome das Serras Guerreiras de Tapuruquara. Tapuruquara é o antigo nome de Santa Isabel do Rio Negro”, narra.
Para entrar nesse território – que é sagrado –, é preciso benzimento. Com esse ritual, o pajé apresenta os turistas aos verdadeiros donos da área, invisíveis aos não indígenas. Feita a proteção, é hora de aproveitar a viagem!
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Chega a hora de partir e conhecer as belezas do Rio Negro|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
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Banho de rio e amizade com as Serras de Tapuruquara ao fundo|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Variedade de lugares, sabores e experiências
Subida de serras, canoagem, culinária tradicional, oficinas de artesanato, banhos de rio, narrativas indígenas, danças e muita cultura.
Os passeios não se repetem. A depender da época, da seca ou das chuvas, as paisagens e os roteiros mudam – dificilmente o visitante vai nadar duas vezes na mesma praia.
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Roteiros incluem canoagem e passeios pelas praias de areia branca do Rio Negro|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Do alto das serras, é possível ver de cima a copa das árvores da floresta amazônica, o rio serpenteando, o voo das araras.
Depois de percorrer trilhas, ouvir histórias, visitar roças, fazer farinha e artesanato, nadar em praias de areia branca, remar, comer os alimentos tradicionais, você ainda poderá ter contato com a cultura dos 23 povos indígenas do Médio e Alto Rio Negro, que ocupam ancestralmente este território. Nessa região, convivem povos como os Baré, Tukano, Baniwa, Desano, Piratapuya, Arapaso, Nadeb, entre outros.
Na comunidade de Boa Vista, por exemplo, os turistas vão dançar o Mawako e participar de um Dabucuri. O ritual acontece em ocasiões especiais, agradece e compartilha os bons momentos e as farturas.
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Turismo de base comunitária leva os viajantes a uma imersão na culturas dos povos indígenas do Rio Negro|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Na comunidade de Aruti, a artesã Alciene da Silva de Oliveira, povo Piratapuia, ensina a manejar o arumã, usado para as peças artesanais como os tapetes. Em São João 2, Jacson Luis Costa Silva e Marlice Brandão Pinheiro, do povo Baré, convidam para sentir nas mãos a argila dos igarapés amazônicos e moldar pequenas peças seguindo a tradição milenar da arte de fazer cerâmica.
No projeto de turismo de base comunitária, o passeio tem um componente a mais. Além de passear, o turista apoia os indígenas e ajuda a preservar o meio ambiente, contribuindo para uma atividade econômica sustentável. São cerca de 200 famílias beneficiadas em cinco comunidades: Cartucho, Aruti, São João 2, Uábada 2 e Boa Vista.
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Oficina de cerâmica tradicional na comunidade São João 2|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
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Atividade faz parte dos roteiros do Projeto Serras Guerreiras de Tapuruquara|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
E, ao se prepararem para receber os turistas, os indígenas acabam reforçando a própria cultura, inclusive repassando aos mais jovens envolvidos nos projetos da sociobiodiversidade.
Os esforços exigidos nas viagens amazônicas são compensados na hora do descanso. O corpo se ajeita na rede. É hora de dormir como os indígenas.
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Visitantes dormem em redes e conhecem os costumes regionais|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
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Alojamentos permitem uma integração profunda com a natureza|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Na chegada e na saída, há momentos de muita emoção. Na recepção aos turistas, as crianças indígenas cantam para receber os visitantes, na língua indígena. Na despedida, é hora de abraçar os anfitriões, que já se tornaram amigos.
Por volta de setembro, quando as águas baixam no início da estação seca, a paisagem ganha generosas revoadas das borboletas amarelas, que agrupadas no chão formam verdadeiros tapetes vivos.
Coordenador geral do Serras Guerreiras de Tapuruquara, Marcos Baltazar Salustiano, do povo Baré, morador da comunidade do Cartucho, convida para essa visita.
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Marcos Baltazar Salustiano, do povo Baré e morador da comunidade do Cartucho, é coordenador geral do Serras Guerreiras de Tapuruquara|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
“A gente convida você a vir participar do nosso projeto, que é familiar. A gente tem esse contato com as pessoas de fora, mas é um contato assim, de amigo. As comunidades oferecem um carinho enorme para essas pessoas que vêm. E essas pessoas que vêm deixam também um carinho enorme nas comunidades. Por isso que a gente convida todos a participarem do projeto Serras Guerreiras de Tapuruquara, que envolve os 23 povos indígenas de várias etnias, como Baré, Tukano, Desano, Nadeb.”
Puranga Pesika – Sejam bem-vindos!
Depoimentos
Jaciel Manoel Rodrigues, povo Baré, morador da comunidade do Cartucho e coordenador da Associação das Comunidades Indígenas Ribeirinhas (Acir)
Desde o início do projeto, a gente tem essa mentalidade. Todos que chegam, para a gente é como se fosse o nosso vizinho daqui. A gente acolhe com carinho, todos eles. E a gente se sente muito feliz quando eles estão aqui entre a gente.
Elaine da Silva Galvão, coordenadora do projeto Serras Guerreiras de Tapuruquara na comunidade Aruti
A gente convive com outras pessoas. A gente conhece outras pessoas e eles conhecem a gente também, nossa língua, que é o nheengatu.
O que o visitante pode aproveitar da culinária? Bacaba, bacabinha, patauá. Surubi, pirandira, aracu, pacu. Tucupi doce, tucupi azedo, pimenta. Todo tipo de peixe eles pegam, eles trazem para oferecer aos turistas. Tem caldeirada, assado, frito, moqueado e, às vezes, até salgado.
Professor Rosemiro Torres Olar, povo Baré, professor e coordenador do projeto Serras Guerreiras de Tapuruquara na comunidade Uábada II
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Professor Rosemiro Torres Olar, povo Baré, coordenador do projeto Serras Guerreiras de Tapuruquara|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Esses lugares são sagrados. Cada cachoeira tem um nome, tapiracanga, jurupari, outro lá, piramiri, kiuá. Tudo isso aí, ele se envolve em apenas um dono, que é Uaimi, que significa velha. Ela que cuida disso aqui. É dono de tudo esse patrimônio que tem aqui para dentro desse igarapé. Então toda vez que a gente vai para dentro do igarapé pescar, atrás de algum produto, ou vai a passeio, nós temos que pedir permissão a ela.
Um dos pajés, toda vez que a gente recebe o turista, para cá, principalmente pela primeira vez, ele faz um benzimento. Para que esse benzimento? Esse benzimento é para apresentar o visitante para o dono do igarapé, o dono da cachoeira. Então seria apresentar. Por isso, pelo cuidado que temos que ter com o turista. Proteger o nosso visitante.
Orlandino Cordeiro de Oliveira, povo Baré, conhecedor indígena e morador de Aruti, recebe os turistas em sua casa
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Orlandino Cordeiro de Oliveira (camisa pólo azul), povo Baré, conhecedor indígena e morador de Aruti, recebe os turistas em sua casa|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Meu nome é Orlandino de Oliveira, essa é minha família. Somos eu e minha família aqui. Minhas filhas, minhas noras, filhos, genros. Uma partezinha. A maioria está por aí. Sabe por que que possui esse nome de Aruti, essa ilha? Não tem essa pedrazona bem no rabo da ilha? Essa é Aruti. Isso significa, em português, é preguiça, a Ilha da Preguiça. Mas é o nome da ilha, não é porque eu sou preguiçoso. Esse Aruti está em nheengatu, língua de Baré.
João Vieira Brazão, povo Baré, coordenador do projeto Serras Guerreiras de Tapuruquara na comunidade de São João 2
Espero que você venha conhecer aqui. Esperamos de braços abertos, com muito entusiasmo, para que conheçam a nossa realidade, a nossa floresta, o nosso rio, a nossa imagem pessoalmente, ao vivo, conhecer a nossa comida tradicional, conhecer o fruto da nossa região aqui, comer o peixe gostoso, conhecer a nossa farinha, o nosso beiju, a nossa fruta tradicional.
Vamberto Plácido Rodrigues, povo Baré, ex-coordenador do Projeto Serras Guerreiras e atual servidor da Funai
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Vamberto Plácido Rodrigues, do povo Baré, ex-coordenador do Projeto Serras Guerreiras e atual servidor da Funai|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Esse projeto, o benefício que trouxe para foi o intercâmbio das pessoas que vêm de fora conhecer a nossa cultura nas comunidades. Isso faz com que essa cultura se fortaleça. Porque apresentamos aos turistas a dança cultural, a própria língua, a dança.
Bruno Mangolini, coordenador da Poranduba Amazônia, participou da expedição em outubro de 2023
Além de você estar vivendo uma experiência muito peculiar, muito rica, de passear, de conhecer um lugar diferente, uma cultura, isso vai também vai contribuir com as comunidades, inclusive com o resgate da parte cultural. Também gera renda para a comunidade.
O que fica mais marcante fora os passeios, a parte gastronômica, as belezas naturais, é o cuidado dos indígenas que estão nos recebendo. A simpatia, a alegria deles em receber o visitante que vem conhecê-los, acho que isso é muito marcante.
Mari Salim, sócia da Montanero Expedições, participou da expedição em outubro de 2023
A gente percebe o resgate de vários saberes tradicionais, inclusive de saberes que os mais jovens não estavam valorizando tanto. E foi muito bonito perceber que eles estão articulando tudo isso por conta desse trabalho de turismo. Para mim, o que mais encantou foi a mobilização desse resgate, junto às famílias e os jovens, e o quanto eles já estão se sentindo orgulhosos de estar apresentando isso para nós. E fiquei muito contente de ver uma preocupação não só com a segurança, mas com o conforto de todos os visitantes que vêm. Desde os dormitórios, até a culinária e os transportes.
Jéssica Martins, assessora técnica em turismo do Instituto Socioambiental (ISA)
O projeto Serras Guerreiras é sonhado e construído junto com as comunidades, pelas comunidades indígenas do médio rio Negro. Esse é um roteiro que acontece nessa região bem especial, do Noroeste Amazônico, com uma paisagem diferenciada, tanto na questão da natureza, quanto na questão dos povos indígenas e na parte cultural, que é muito rica e muito diversa.
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Até breve! Moradores da comunidade de Boa Vista, no Médio Rio Negro, Amazonas, se despedem dos amigos-visitantes|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Apresentação dos pratos para o almoço na comunidade São João 2|Benjamin Mast/ISA
Merenda com pratos regionais depois de remada na comunidade de Boa Vista|Benjamin Mast/ISA
Roteiros de turismo comunitário convidam a descobrir os sabores da culinária tradicional do Rio Negro|Benjamin Mast/ISA
Indígenas do povo Baré ensinam aos turistas a tradição milenar da arte de fazer cerâmica|Benjamin Mast/ISA
Paisagem na viagem de barco pelo Médio Rio Negro|Benjamin Mast/ISA
Paisagem na viagem de barco pelo Médio Rio Negro|Benjamin Mast/ISA
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Indígenas articulam criação de Rede de Sementes em Roraima
Região da Serra da Lua será o primeiro lavrado a integrar o Redário, que conta com outras 24 redes no Brasil
Participantes do evento identificam possíveis locais para coleta de sementes e recuperação de áreas devastadas na região da Serra da Lua|Fabrício Araújo/ISA
Indígenas de três terras indígenas da Região Serra da Lua articulam a criação da Rede de Sementes de Roraima. Moradores de Canauanim, Malacacheta e Tabalascada estiveram reunidos com representantes do Instituto Socioambiental (ISA) no ‘I Seminário de Produção de Sementes Nativas e Restauração Ecológica de Roraima’ para definir os próximos passos do projeto.
O evento ocorreu na Terra Indígena Tabalascada, no município do Cantá - mesma cidade onde estão localizadas as outras terras indígenas que integram o projeto. Cento e vinte e nove pessoas, sendo 61 homens e 68 mulheres, participaram do evento que ocorreu ao longo do dia 17 de maio de 2024.
“Almejamos chegar a um trabalho contínuo. Ele chega em boa hora, após um período de incêndios, e vai agregar muito à comunidade indígena. Falamos muito em preservar, mas ainda não havíamos percebido a importância da discussão sobre restaurar” disse César da Silva, tuxaua-geral da Serra da Lua.
Na fase inicial do projeto, as sementes coletadas serão usadas para restauração de áreas indicadas pelas comunidades como espaços prioritários a serem restaurados. Com o avanço na estruturação do trabalho da rede, as sementes poderão ser vendidas para quem se interessar - poder público, empresas ou proprietários rurais, por exemplo - em restaurar Roraima com sementes nativas do lavrado e da floresta.
Durante o seminário, os indígenas puderam tirar dúvidas sobre a Rede de Sementes, dar sugestões e explicar os cuidados necessários para avançar com o trabalho dentro das três terras indígenas alcançadas inicialmente pelo projeto.
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Emerson da Silva, assessor do ISA, durante o seminário|Fabrício Araújo/ISA
“Isso é muito especial, principalmente para as mulheres que já coletam sementes desde criança. Com esse seminário, aumentamos o nosso conhecimento para restaurar as áreas degradadas. Isso vai nos ajudar, inclusive, com a nossa medicina tradicional, vamos poder catalogar essas sementes”, disse Alcileia Pinho Cadete, Wapichana da comunidade Canauanim
Os assessores do ISA também explicaram aos indígenas sobre os próximos passos para estruturação da Rede de Sementes, como escolha do nome, definição dos locais para coleta de sementes e das áreas para a restauração. O projeto também apoiará na construção de uma casa de sementes e realizará oficinas sobre as sementes nativas e métodos de conservação, beneficiamento e plantio, inclusive através da Muvuca.
Emerson da Silva Cadete, assessor técnico de produção de sementes e restauração ecológica e a coordenadora do ISA em Roraima Lidia Montanha Castro, foram os responsáveis por passar o diálogo sobre o projeto com o Conselho indígena de Roraima (CIR) definindo a região Serra da Lua.
Na sequência, um longo diálogo com os tuxauas das comunidades Tabalascada, Canauanim e Malacacheta, direcionado pelo Protocolo de Consulta da Região Serra da Lua. Com os devidos consentimentos chegamos a este momento, no seminário reunindo lideranças, professores, alunos e moradores das três comunidades.
“O seminário explicou o projeto que basicamente tem dois eixos: coleta de sementes nativas e restauração ecológica. A ideia era explicar e tudo que fizermos hoje será a partir destas explicações do projeto e dos questionamentos das comunidades. Tudo isso guiará as nossas ações futuras”, explicou Emerson.
Serviços Ecossistêmicos
Durante o evento, Danielle Celentano, analista de restauração ecológica do ISA, explicou sobre a relação da floresta e do lavrado com os serviços ecossistêmicos e o carbono. Ela pontuou que garantir a conservação e a restauração desses ecossistemas garante diversos benefícios, como a provisão de alimentos, água, madeira, assim como o controle de temperatura, a regulação hidrológica, captura de carbono, entre outros.
“O carbono, falando de maneira simples, é o elemento que constitui a tudo que é vivo. Quando temos uma semente de Samaúma, que é tão pequena, mas que cresce e vira uma árvore gigante na floresta é porque ocorre a fotossíntese: a planta vai capturando o carbono que está em forma de CO2 no ar e incorpora ao próprio crescimento fixando o carbono na biomassa”, explica.
Chegada no lavrado
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Evento na Terra Indígena Tabalascada reuniu 129 pessoas para a criação da primeira Rede de Sementes de Roraima|Fabrício Araújo/ISA
Com presença em 24 redes em diversos territórios no Brasil, a finalidade do Redário é fornecer o apoio necessário à produção de sementes nativas, impulsionar mercado e viabilizar as melhores sementes para a recomposição de cada ecossistema.
Há mais de 1.200 pessoas envolvidas na coleta de sementes, sendo 60% apenas mulheres. Em 2022, o Redário comercializou mais de 16 toneladas de 170 tipos de sementes nativas e no ano anterior, 2021, gerou renda para mais de mil famílias de quase 50 comunidades. Até maio de 2024, o ISA e seus parceiros já restauraram mais de 11.000 hectares de florestas utilizando o método da Muvuca.
Para o coordenador de restauração do ISA, Eduardo Malta Campos Filho, o cenário novo impõe experimentação para entender a melhor forma de trabalhar com as sementes nativas.
“O que vamos ter que aprender é quais são as espécies que são mais importantes para recompor a vegetação e vamos fazer isso com o conhecimento que as comunidades indígenas já têm”, explica.
Ainda de acordo com Eduardo, o conhecimento técnico adquirido em outras redes poderá ser utilizado na primeira fase, mas o lavrado precisa mais do que árvores para ser recomposto e, por isso, novas técnicas de recomposição precisarão ser criadas.
“Uma parte muito importante do lavrado é este tapete de plantas nativas, que formam esse capim, esse campo. Além das árvores, tem o capim e as ervas nativas. Tudo me deixou muito feliz, até as perguntas que foram aparecendo porque percebi que são de pessoas que já se imaginam fazendo esse trabalho”, disse.
No segundo semestre, o ISA promoverá oficinas de capacitação dentro das próprias comunidades. Durante estas oportunidades serão definidos o nome da rede, as espécies que serão coletadas, os locais de restauração e quem serão os coletores.
Através do projeto de Produção de sementes nativas e restauração ecológica em Roraima, apoiado pela União Europeia, o ISA também apoiou comunidades indígenas da Região Serra da Lua no combate a incêndios florestais e à seca durante o recorde de focos de calor com doações de alimentação, combustível e ferramentas (bombas costais, terçados, luvas, óculos de proteção, perneiras entre outros).
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Quilombolas geram renda reflorestando áreas degradadas da Mata Atlântica
Em encontro anual, coletores da Cooperativa da Rede de Sementes do Vale do Ribeira apresentam maior número de integrantes desde sua fundação
Um trabalho que rende frutos nos sentidos literal e figurado. Este é o resultado alcançado pela Rede de Sementes do Vale do Ribeira, que oferta sementes para a restauração de áreas degradadas de Mata Atlântica e gera renda para comunidades quilombolas dos municípios paulistas de Iporanga e Eldorado.
A Rede foi criada em 2017 a partir da reunião de quilombolas da região que iniciaram a coleta de sementes de espécies nativas de seus territórios para disponibilizar ao mercado de reflorestamento. O trabalho deu tão certo que, em 2023, foi formalizada a primeira cooperativa quilombola de coletores de sementes. E, desde então, o grupo extrativista só cresce.
Foi o que ocorreu durante o encontro anual da Rede, nos dias 6 e 7 de maio, quando novos integrantes foram incorporados à Cooperativa da Rede de Sementes do Vale do Ribeira, que hoje soma 52 cooperados. Ao longo dos dois dias, em assembleia, os coletores ainda deliberaram acerca dos valores praticados sobre as sementes; apresentaram seu estatuto, com as funções e tarefas de cada participante e socializaram o balanço de 2023, com os números de venda e coleta.
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Coletores e apoiadores da Cooperativa da Rede de Sementes do Vale do Ribeira se reúnem no encontro anual, onde comemoram balanço de 2023 e traçam estratégias de trabalho para 2024|Taynara Borges/ISA
Ao todo, o grupo comercializou R$ 140 mil no ano passado, fruto da venda de mais de uma tonelada de sementes nativas da Mata Atlântica, que reflorestaram 35 hectares do bioma degradado a partir de uma variedade de 81 espécies como Jaracatiá, Araçá, Tapixingui, Guapiruvu e Mamica-de-Porca.
“Eu quero ser sócio porque eu acredito no trabalho que está sendo desenvolvido pela Cooperativa da Rede de Sementes. Não quero ser só mais um. Quero somar neste trabalho de restauração da floresta, porque, para mim, esta também é uma luta”, declarou o novo cooperado, Amarildo Meiri de França , coletor do Quilombo São Pedro.
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A Rede de Sementes trabalha com o plantio a partir da Muvuca: semeadura direta feita com a mistura de diferentes espécies estrategicamente escolhidas para a área a ser restaurada|Andressa Cabral Botelho/ISA
A Rede de Sementes é um exemplo de como se realiza, na prática, a economia da sociobiodiversidade: o uso sustentável da biodiversidade em atividades que geram renda para os povos e comunidades tradicionais, baseadas numa respeitosa relação destas pessoas com a natureza, o que resulta na preservação do meio ambiente, incidindo desde a mitigação dos efeitos críticos resultantes das mudanças climáticas até a garantia da segurança alimentar, ou seja, na melhoria da qualidade de vida de quem historicamente habita e é guardião da floresta em pé.
Pensando em toda esta cadeia, a coletora e secretária da Cooperativa da Rede, Zélia Morato, do Quilombo André Lopes, provoca: “Quem é que fala que dinheiro não dá em árvore? Dinheiro dá em árvore de pé, sim! Aqui está o exemplo disso. Nós não derrubamos. Nós preservamos as árvores e, assim, sempre vamos ter sementes para coletar”.
“No início achei que isso era impossível. Pensei até que era uma brincadeira. Mas logo entendi o tamanho deste trabalho. E é por isso que estou aqui. Estou aqui para reflorestar, para levar árvores para onde não tem, para onde está degradado. E, desde então, além de ajudar a crescer novas florestas, minha família também tem uma nova fonte de renda. Todo mundo sai ganhando”, declara ela que é uma das primeiras coletoras e articuladoras da Rede.
Você sabia que a Economia Circular, a Bioeconomia, a Agroecologia, e Agrofloresta, a Economia Regenerativa e a Bioconstrução são praticadas pelos Povos e Comunidades Tradicionais há séculos?! E que elas são a base da Economia da Sociobiodiversidade?! Entenda o caminho apontado por indígenas, quilombolas, ribeirinhos e tantas outras comunidades como a possibilidade possível de um futuro sem escassez de água, desmatamento e destruição, reduzindo os impactos de devastação da emergência climática. Assista aqui!
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Sementes da Mudança: Adoção do Método da 'Muvuca' para Biodiversidade e Restauração Social
Leia artigo da equipe do Redário, publicado originalmente na página da Década da ONU para Restauração de Ecossistemas
* Artigo originalmente publicado em inglês no site da Década da Restauração de Ecossistemas da ONU
** Autores: Danielle Celentano, Eduardo Malta, Rodrigo Junqueira, Beatriz Murer, Matheus Rezende e Andrea Ono.
A restauração de ecossistemas emerge como uma solução baseada na natureza crucial para enfrentar os desafios da crise climática, da perda de biodiversidade e da escassez de água. Além de sua importância ecológica, a restauração gera impactos positivos diretos e indiretos na economia e no bem-estar humano, da escala local à global. Reconhecendo sua importância e urgência, as Nações Unidas declararam esta a 'Década da Restauração de Ecossistemas'. No Brasil, o Instituto Socioambiental (ISA), uma organização da sociedade civil brasileira sem fins lucrativos estabelecida em 1994, tem se dedicado ativamente à restauração da Amazônia há 20 anos. O ISA é um Ator da Década da ONU e contribui ativamente para seus objetivos. Através da implementação do método de restauração 'Muvuca' e do fortalecimento das redes de sementes nativas de base comunitária, o ISA tem defendido a restauração ecológica com foco em alta biodiversidade. Esta abordagem promove a economia da sociobiodiversidade com a cadeia de sementes nativas e o bem-estar dos coletores de sementes, ao mesmo tempo em que protege territórios e conhecimentos tradicionais.
O Método de Restauração 'Muvuca'
Inspirado pela natureza e aprendendo com o conhecimento tradicional dos povos indígenas, o ISA abraçou o método de restauração da 'Muvuca' através do plantio direto de sementes. Muvuca é uma mistura de sementes de dezenas de espécies nativas em diferentes estágios sucessionais, plantadas todas de uma vez para imitar mecanismos naturais de regeneração, como o banco de sementes no solo e a chuva de sementes. Este sistema inovador emprega uma alta diversidade de espécies e garante eficiência operacional, permitindo a restauração mecanizada com redução no tempo e custo de plantio e manutenção. O plantio pode ser feito manualmente ou mecanizado utilizando tratores e plantadeiras agrícolas, possibilitando escalabilidade e plantio até 20 vezes mais rápido em comparação com o plantio de mudas, a um custo muito menor. Com seus benefícios ecológicos e econômicos cientificamente comprovados,, a metodologia é elegível para acreditação de carbono conforme os padrões do UNDCC.
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Mistura da muvuca de sementes nativas para restauração|Matheus Rezende/ ISA/ Redário
Até hoje, o ISA e seus parceiros já restauraram mais de 11.000 hectares de florestas utilizando o método da Muvuca, com centenas de espécies nativas; isso se traduz em aproximadamente 33 milhões de novas árvores crescendo e sequestrando 80.000 toneladas de dióxido de carbono anualmente. Além de implementar a restauração em suas áreas de atuação na Amazônia, o ISA e seus parceiros também promovem a disseminação do método Muvuca por todo o Brasil por meio de outra iniciativa - 'Caminhos da Semente'. Esta iniciativa está em andamento desde 2018 em parceria com organizações da sociedade civil, redes de sementes, cooperativas, empresas, universidades e instituições de pesquisa.
Passo a Passo do Método da 'Muvuca'
O método da 'Muvuca' pode ser utilizado para o plantio de áreas inteiras, densificação ou enriquecimento de áreas de regeneração natural e plantio de mudas, estabelecimento de áreas de nucleação e criação de Sistemas Agroflorestais regenerativos. A seleção das espécies pode se dar por critérios ecológicos, econômicos ou bioculturais. Os benefícios econômicos de áreas restauradas com Muvuca incluem produção de culturas de ciclo curto nos primeiros anos, madeira, frutas, outros produtos florestais não madeireiros (PFNMs), bem como créditos de carbono e créditos de biodiversidade. Veja abaixo um guia conciso passo a passo do método 'Muvuca' (informações detalhadas e gráficos estão disponíveis em dois guias técnicos) ,:
Passo 1 - Sementes: Obtenha sementes ortodoxas da mesma vegetação e região de onde será realizado o plantio, evite espécies invasoras e armazene as sementes adequadamente. Calcule a mistura Muvuca, considerando várias espécies com diferentes expectativas de vida. Para formar uma floresta, a mistura deve incluir um mínimo de espécies com uma expectativa de vida de até 1 ano, arbustos e trepadeiras com uma expectativa de vida de até 3 anos, árvores com uma expectativa de vida de até 30 anos e árvores centenárias. Todas devem ser misturadas em uma proporção calculada para garantir uma boa cobertura do solo a partir do segundo mês após o plantio (consulte a tabela abaixo como referência).
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Passo 2 - Planejamento do Plantio: Escolha entre o plantio mecanizado ou manual com base no terreno e nas condições socioculturais. Misture todas as sementes usando uma betoneira ou lona e adicione areia para consistência. Plante no início das chuvas. Ajuste a profundidade de plantio com base no tamanho e formato das sementes.
Passo 3 - Preparação do Local: Isole a área de plantio de fatores que possam dificultar a restauração. Elimine ou reduza as plantas daninhas e invasoras (manualmente, por meio de pastoreio ou quimicamente). Faça o revolvimento e a nivelação do solo. Considere a utilização de cobertura morta.
Passo 4 - Semeadura: Utilize a semeadura mecanizada ou manual para espalhar as sementes regularmente por toda a área, em seguida, arar levemente para enterrar as sementes. A semeadura em linhas pode ser feita manualmente ou com máquinas semeadoras. Para semeadura em coveta, semeie manualmente e cubra as sementes com cerca de uma polegada de solo solto. Mudas de espécies recalcitrantes ou outras espécies de interesse podem ser plantadas após a semeadura. Escolha a técnica mais adequada dependendo do tipo de solo, inclinação, condições de regeneração e disponibilidade de máquinas e trabalhadores.
Passo 5 - Manejo até 3 Anos: É crucial seguir um plano de manejo bem definido durante os primeiros 3 meses, quando a maioria das sementes deve germinar e estabelecer uma vegetação densa. Monitore parâmetros de cobertura vegetal, riqueza e densidade de árvores para tomar ações como o controle de plantas invasoras, formigas ou replantio. Colha culturas de ciclo curto como feijão, maracujá e abóboras durante este período.
Passo 6 - Manejo de 3 a 6 Anos: Plante sementes ou mudas nas clareiras. Mudas de espécies recalcitrantes ou de interesse podem ser incluídas nessa fase. Colha frutas e madeira leve. Controle as plantas invasoras, quando necessário.
Passo 7 - Manejo dos 7 Anos em diante: Pode-se fazer a poda para aumentar a luz e promover o crescimento das espécies desejadas. Realize o desbaste e obtenha autorização para cortes de madeira. Desenvolva um plano de manejo considerando os ciclos de frutificação, colheita de madeira e regeneração natural. Sempre observe a regeneração natural em sua floresta para garantir a renovação ao longo desses ciclos. Um dos melhores indicadores para a restauração ecológica é o surgimento de plantas nativas regenerantes que não foram plantadas.
As Sementes da 'Muvuca' - a Iniciativa Redário
O plantio direto com Muvuca requer quantidades substanciais de sementes. A coleta e o processamento de sementes são atividades intensivas em mão de obra, criando oportunidades de emprego e renda para as comunidades locais em seus territórios e estabelecendo uma cadeia de valor que conserva os ecossistemas. Além dos benefícios ecológicos, a restauração com Muvuca promove o desenvolvimento de uma cadeia produtiva de sementes nativas de base comunitária, conhecida como Redes de Sementes. Dezesseis anos atrás, a partir da campanha Y Ikatu Xingu do ISA ("Salve as boas águas do Xingu"), surgiu a Rede de Sementes do Xingu, que agora se tornou uma organização independente reconhecida internacionalmente por seu trabalho, também parceira da Década das Nações Unidas. Em 2020, a rede recebeu o Prêmio Ashden, um prêmio internacional para soluções climáticas. Muitos grupos e redes de coletores de sementes surgiram no Brasil e, em 2022, nasceu o Redário para apoiar sua profissionalização dessas redes e seu acesso ao mercado.
O Redário é uma articulação entre redes e grupos de coletores de sementes, com o objetivo de aumentar os impactos socioambientais positivos dos projetos de restauração no Brasil. Ele enfatiza o comércio justo, a colaboração, a ampla diversidade genética e a rastreabilidade. Os negócios de sementes nativas geram renda e emprego para as comunidades em seus territórios, especialmente para as mulheres. Ele cria oportunidades para inovação e crescimento profissional de jovens a idosos em várias áreas, desde aspectos técnicos relacionados a sementes até contabilidade, marketing e comunicação. Eles possibilitam a diversificação econômica para essas populações, melhorando suas condições de vida e resiliência social. As comunidades quilombolas, ribeirinhas, indígenas, geraizeiros, rurais e urbanas de coletores de sementes fornecem para uma restauração ecológica eficaz e econômica, enquanto as sementes carregam os valores dos territórios conservados, do conhecimento tradicional e da inclusão social na luta contra a emergência climática.
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Vista aérea de participantes de Encontro do Redário em alusão ao logotipo do projeto|Are Yudja/Rede Xingu +
O Redário apoia a profissionalização da governança das redes de sementes, contratos, gestão, capacitação, disseminação de conhecimento, reuniões e trocas, conformidade com a legislação e outros aspectos. Também conectamos pesquisadores nas áreas de sementes nativas e restauração para aprimorar técnicas, análises e influenciar políticas públicas que permitam iniciativas de semeadura comunitária e direta (Confira nossa última Nota Técnica em AQUI). Atualmente, o Redário reúne 24 redes de sementes articuladas e cerca de 1.200 participantes. Até 2023, o Redário comercializou mais de 63 toneladas de sementes de 275 espécies nativas. Isso gerou uma renda superior a 2,5 milhões de reais para os coletores e proporcionou apoio para a restauração de 11.000 hectares por meio do método Muvuca em mais de 95 projetos em diferentes Biomas Brasileiros (Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga).
Desafios e Oportunidades para Promover a Restauração com Sementes
Os desafios na promoção do método de restauração da Muvuca incluem barreiras culturais e o desconhecimento da maioria dos praticantes de restauração no Brasil sobre a técnica. Além disso, dar suporte às redes de sementes nativas representa um desafio significativo, pois requer muita confiança e um delicado equilíbrio entre a demanda e a oferta de sementes. Muitas vezes, as demandas por sementes surgem no último minuto, faltando o aviso prévio que esse processo de coleta de sementes requer devido às condições naturais. Os compradores de sementes para projetos de restauração precisam antecipar sua demanda por sementes nativas, fazendo pedidos antecipados e estabelecendo contratos justos com as organizações de coletores de sementes. Além disso, o fornecimento de sementes nativas para restauração encontra barreiras políticas e legais caracterizadas por regulamentações excessivas e requisitos inadequados, escassez de laboratórios de sementes e falta de diretrizes para testar a qualidade das sementes nativas., Por fim, o valor da semente muitas vezes não é suficiente para cobrir todos os custos necessários para a compensação justa dos coletores e de todo o processo envolvido. Para ampliar a escala, mecanismos financeiros adicionais, como subsídios fiscais, Pagamento por Serviços Ambientais e filantropia, ainda são necessários.
O Brasil se comprometeu com metas ambiciosas de restauração em diversos acordos internacionais sobre clima e biodiversidade. Esses compromissos estão ancorados em leis e políticas públicas que promovem a conservação e restauração tanto em áreas públicas quanto privadas. No entanto, o país ainda não consegue implementar plenamente essas políticas e alcançar as metas estabelecidas. A restauração deve ser integrada a um novo paradigma nacional de desenvolvimento, alinhando benefícios ambientais, socioculturais e econômicos.
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ISA e o UNEP assinaram um Memorando de Entendimento para colaborar durante a Década das Nações Unidas para a Restauração de Ecossistemas|Redário
A sociedade civil organizada, em colaboração com povos indígenas, populações tradicionais e comunidades locais - os guardiões das florestas, campos e savanas - tem muito a contribuir de forma colaborativa. O método de restauração da 'Muvuca' pode contribuir para ampliar os esforços de restauração, oferecendo custos reduzidos e maior diversidade de espécies, restaurando assim ecossistemas com maior resiliência. Ao mesmo tempo, a demanda por sementes nativas cria um ciclo de promoção da conservação e do bem-estar. Essa abordagem colaborativa é essencial para impulsionar a Década das Nações Unidas para a Restauração de Ecossistemas no sentido de alcançar suas metas de restauração na busca de um futuro mais sustentável e resiliente no Brasil e no mundo.
Equipe Redário: Eduardo Malta (ISA/ Redário), Aline Ferragutti (ISA/ Redário), Andrea Ono (Redário), Beatriz Murer (ISA/ Redário), Danielle Celentano (ISA/ Redário), Elisângela Xipaia (ISA/ Redário), Emerson Cadete (ISA/ Redário), Giovanna Bernardes (ISA/ Redário), Juliano Nascimento (ISA/ Redário), Luciano Eichholz (ISA/ Redário), Matheus Rezende (ISA/ Redário), Milene Alves (ISA/ Redário), Rodrigo Junqueira (ISA/ Redário), Diego Lucena (ISA/ Redário), Anabele Gomes (UnB/ RSC/ Redário), Camila Motta (RSC/ Redário), Cibele Santana (RSC/ Redário), André Benedito (consultor), Maria Eduarda Camargo (RSC/ Redário), Natanna Horstmann (RSC/ Redário), Pedro Guimarães (Terrakrya/ Redário), Laura Antoniazzi (Agroicone/ Redário) and Edézio Miranda (Agroicone/ Redário), Henrique Oliveira (Agroicone/ Redário).
A cuia de caxiri, uma bebida fermentada apreciada pelos indígenas do Médio e Alto Rio Negro (AM), juntamente com a pimenta, cipós e chás, constituem elementos tradicionais fundamentais para os povos dessa região. Estes elementos, combinados com outras substâncias, preparos e alimentos, desempenham um papel essencial no fortalecimento das atividades coletivas, na coesão das comunidades, nos laços familiares e nos rituais.
O material aborda o problema do abuso de álcool nessa região, oferecendo diversas estratégias de redução de danos, cuidados e fortalecimento para lidar eficazmente com essa questão.
Apesar da falta de dados oficiais, a percepção dos indígenas, das organizações e de profissionais da saúde é de que o abuso do álcool vem crescendo nas áreas urbanas e nos territórios indígenas.
Deslocado do contexto cultural e ritualístico, o uso da bebida vem ganhando contornos preocupantes. Alguns problemas pontuados na própria cartilha são: mortes causadas por brigas, violências contra as mulheres e as crianças, acidentes, afogamentos e enforcamentos.
A cartilha aborda o tema de forma intercultural e interinstitucional, abrindo para discussão das formas de enfrentamento ao problema.
Desenvolvido pelo Instituto Socioambiental (ISA) e Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), o material foi elaborado em parceria com o Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro (Dsei-ARN) e com apoio de instituições do município.
Coordenador do Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (DAJIRN/Foirn), Elson Kene explica que o conteúdo começou a ser preparado antes da pandemia, sendo que a crise sanitária acabou atrasando a sua divulgação. “Com esse material, vamos ampliar a conscientização e buscar parcerias para minimizar o problema”, explicou.
A liderança indígena Adelina Sampaio, povo Desana, é ex-coordenadora do DAJIRN/Foirn e deu início ao trabalho de construção da cartilha, após rodas de conversas realizadas em escolas de São Gabriel da Cachoeira, onde o problema foi trazido pelos estudantes e professores.
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Trecho de cartilha editada por ISA e Foirn no Rio Negro/Divulgação
“Em 2017, com problemas de homicídios, suicídios e outros problemas sociais, a gente começou a fazer uma conversa dentro das escolas de São Gabriel da Cachoeira. E fizemos esse apanhado para criar essa cartilha. Foi um trabalho muito estruturado com presença do Conselho Tutelar, DSEI, Diocese, Foirn, ISA e outros parceiros. O DAJIRN trabalhou na construção dessa rede. A cartilha não apenas reconhece a existência do problema, algo já discutido durante as rodas de conversa, mas também busca oferecer estratégias para enfrentá-lo. Sabemos que só conseguiremos superar esses desafios com o engajamento de todos”, disse.
A organização é de Dulce Morais, assessora de gênero do Programa Rio Negro do ISA; as ilustrações são de Larissa Ye´padiho Mora Duarte, povo Tukano, e o projeto gráfico e diagramação são de Ray Baniwa, da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas do Rio Negro.
O material está sendo levado ao território indígena pelos articuladores e articuladoras e foi entregue também ao DSEI-ARN, que vem desenvolvendo atividades com apoio do material. A Rede Wayuri também fez a divulgação na programação da rádio web.
Lançamento em São Gabriel da Cachoeira
O lançamento aconteceu em fevereiro, na Sala Dagoberto Azevedo – Suegu, na sede do ISA em São Gabriel da Cachoeira (AM), reunindo parceiros como a Diocese e órgãos da saúde e da educação.
Na sequência, houve uma semana de atividades de formação para que o conteúdo fosse levado e discutido no território indígena. Essa etapa foi conduzida pelas antropólogas do ISA, Carla Dias e Dulce Morais, pela coordenadora do DMIRN/Foirn, Cleocimara Reis, e por Elson Kene.
Os encontros reuniram articuladores e articuladoras de jovens e mulheres indígenas de todas as regiões do Médio e Alto Rio Negro da área de abrangência da Foirn.
O antropólogo Bruno Marques esteve no lançamento da cartilha e participou das oficinas. “No tempo antigo, o uso da bebida era tido como uma prática de cuidado e saúde, fazendo parte de rituais com outros elementos, como os benzimentos”, reforçou.
Terapeuta ocupacional, Maria Antonieta Dias, referência em Centro de Atenção Psicossocial – álcool e drogas (Caps-ad) – e redução de danos, participou da formação de forma remota.
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Equipes da Foirn e do ISA estiveram presente no lançamento da cartilha, em São Gabriel da Cachoeira|Ana Amélia Hamdan/ISA
Jaqueline Gonçalves, referência técnica de saúde mental do DSEI-ARN também contribuiu com a formação. Ela apresentou alguns dados levantados pelo DSEI corroborando a preocupação com o uso abusivo de álcool e o manejo desse problema por meio de políticas públicas de saúde integral e humanizada.
Durante o encontro, houve roda de conversa para que os indígenas pudessem trazer os principais pontos do problema.
Articuladora de jovens Josiane Silva Pereira, do povo Tariano, vive no distrito de Iauaretê, que fica próximo da fronteira com a Colômbia, e participou da oficina representando a sua região. Ela informa que, como articuladora de jovens, fará o trabalho de levar adiante as informações disponíveis na cartilha.
“A gente vê na realidade que é um problema difícil. Tem muito adolescente e jovem com problemas com álcool e até alcoolismo. A gente percebe um aumento enorme. E é complicado reduzir, mas uma forma de avançarmos é pela conscientização”, disse.