A Bacia do Rio Negro se estende pelos estados do Amazonas e de Roraima, no Brasil, e também avança pelos territórios vizinhos da Colômbia, Venezuela e Guiana. Na sua porção no Amazonas, a bacia é uma das regiões mais preservadas de todo o bioma amazônico, com biodiversidade incalculável. Por outro lado, a parte da bacia localizada em Roraima vem sofrendo grande degradação ambiental causada pelo garimpo ilegal de ouro, desmatamento e roubo de terra, ou "grilagem de terra".
Aproximadamente 68% da Bacia do Rio Negro no Brasil está formalmente protegida por um conjunto de unidades de conservação e terras indígenas legalmente reconhecidas. A diversidade cultural da região é enorme: ali vivem 45 povos indígenas e estão localizados dois patrimônios culturais do Brasil – a Cachoeira de Iauaretê e o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro – além do ponto mais alto do Brasil, o Pico da Neblina, lugar sagrado do povo Yanomami.
No Rio Negro, o ISA mantém trabalho de longo prazo e parceria institucional - que nos enche de orgulho - com associações indígenas e suas lideranças, entre elas a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), a Hutukara Associação Yanomami (HAY) e o Conselho Indígena de Roraima (CIR).
Mantemos escritório e equipe na cidade de São Gabriel da Cachoeira (AM), considerado o município mais indígena do Brasil, localizado no Alto Rio Negro. De São Gabriel, também descemos com as águas do Negro para apoiar comunidades e associações indígenas dos municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, ambos no Amazonas. Em 2009, o ISA incorporou a organização Comissão Pró-Yanomami (CCPY), sua equipe e legado, abrindo escritório em Boa Vista (RR) e passando a atuar diretamente com o povo Yanomami e outros povos de Roraima.
Atualmente, o ISA atua na Bacia do Rio Negro com a promoção de processos formativos, articulando parcerias para a proteção dos territórios indígenas, valorização da diversidade socioambiental, segurança alimentar das comunidades, desenvolvimento de cadeias de valor da economia da floresta para geração de renda e produção de pesquisas interculturais que dêem visibilidade aos conhecimentos tradicionais e modos de vida das populações que, há muitos anos, mantém as florestas da região preservadas.
image_map
order
1
Galeria Pessoas
Galeria Imagem
ID Type
rio-negro
Youtube tag
#RioNegro
Lideranças Yanomami, Kayapó e Munduruku discutem no ATL 2025 avanços e desafios da retirada de garimpeiros
Roda de conversa organizada pela Coiab fez balanço das ações de desintrusão e apontou caminhos para fortalecer a proteção dos territórios indígenas
Nesta terça-feira (08/04), na tenda da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), no Acampamento Terra Livre (ATL) 2025, lideranças indígenas se reuniram para discutir diagnósticos, denunciar problemas e propor estratégias conjuntas para a proteção de seus territórios. A presença do Cacique Raoni Metuktire, liderança histórica do povo Kayapó, marcou a roda de conversa.
Cacique Raoni Metuktire, liderança histórica do povo Kayapó, participou de conversa sobre garimpo ilegal|Renan Khisetje/Aik Produções/ISA
O encontro reuniu representantes da Aliança em Defesa dos Territórios — formada em dezembro de 2021 por lideranças Yanomami, Munduruku e Kayapó — e do povo Parakanã, além de especialistas de organizações parceiras, para discutir os desafios da desintrusão de garimpeiros e as medidas urgentes para a recuperação e proteção das Terras Indígenas afetadas pelo garimpo.
Ao longo da conversa, foram compartilhados diagnósticos, experiências e estratégias para enfrentar os impactos das invasões garimpeiras, avaliar as ações adotadas até o momento e fortalecer a luta contínua pela proteção dos territórios indígenas.
Julio Ye’kwana, presidente da Associação Wanasseduume Ye’kwana (SEDUUME), abriu a mesa destacando a persistente ameaça do garimpo em suas terras. Segundo ele, apesar dos avanços após o decreto de emergência na Terra Indígena Yanomami em janeiro de 2023, parte do garimpo continua ativo. "Não estamos no pós-desintrusão, estamos durante e com muita expectativa para que as operações dêem certo", afirmou Julio Ye’kwana.
Imagem
"Não estamos no pós-desintrusão, estamos durante e com muita expectativa para que as operações dêem certo", disse Julio Ye'kwana|Renan Khisetje/Aik Produções/ISA
Ele reconheceu avanços nas áreas de saúde e proteção territorial, mas ressaltou que os desafios ainda são grandes. Como exemplo, citou a persistência da malária, doença que continua fazendo vítimas no território.
“Hoje está melhor, mas a malária ficou — e tem o mercúrio no rio, que a gente não vê”, alertou. Descreveu ainda melhorias no dia a dia das comunidades após a decretação da emergência Yanomami: “Durante o garimpo, os jovens foram aliciados. Depois da emergência, eles começaram a voltar para a comunidade, a estudar e a trabalhar novamente.”
Julio sublinhou a importância de trabalhar em rede, exaltando a forma como a aliança criou estratégias para falar com governo e com ministérios, por meio de intercâmbios e diálogos que articularam soluções dessa luta comum.
Já o Cacique Raoni, uma das figuras mais emblemáticas da luta indígena no Brasil, falou com emoção sobre o compromisso do povo Kayapó com a preservação da natureza. “Os brancos só pensam em fazer coisas ruins que prejudicam nós, a natureza, a nossa vida", disse. Ele defendeu a união dos povos indígenas para combater as invasões e a destruição das florestas e fez um apelo para que as gerações mais novas continuem a luta.
Dário Kopenawa, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami (HAY), reforçou a fala da liderança Ye’kwana, afirmando que a desintrusão da Terra Indígena Yanomami ainda não está concluída e que algumas ameaças persistem. Dário alertou sobre o envolvimento de facções criminosas com a exploração garimpeira e chamou a atenção para a dinâmica transacional desses grupos, o que dificulta a fiscalização.
Imagem
Dário Kopenawa, da Hutukara Associação Yanomami, alertou sobre a ação de facções criminosas no garimpo|Renan Khisetje/Aik Produções/ISA
Ademir Kaba, liderança do povo Munduruku, destacou que as pressões ao seu território persistem, embora a TI tenha sido alvo recente de uma operação de desintrusão, e que o enfrentamento ao garimpo ilegal exige continuidade e reforço nas ações. “Não podemos nos dar ao luxo de estar felizes. O garimpo causa um impacto irreversível”, afirmou, reforçando a importância de medidas consistentes para proteger os territórios indígenas e garantir a responsabilização dos invasores.
Estevão Benfica Senra, geógrafo do Instituto Socioambiental (ISA) que atua em defesa do povo Yanomami há mais de 10 anos, ressaltou que os dados de sensoriamento remoto indicam uma redução significativa na escala da atividade na Amazônia como um todo — resultado da atuação conjunta de lideranças indígenas, organizações da sociedade civil e órgãos de fiscalização.
Segundo o geógrafo, de acordo com a plataforma Amazon Mining Watch houve uma redução de 35% no incremento anual da área afetada pelo garimpo na Amazônia em relação ao ano de 2023, e que esta redução foi impulsionada pela desaceleração observada no território brasileiro .
“É uma luta árdua, mas está valendo a pena”, afirmou. Senra também enfatizou a importância de avançar na regulamentação e fiscalização da cadeia do ouro no Brasil, especialmente nos pontos de origem e comercialização, para impedir que o ouro ilegal continue entrando no mercado formal.
Ao final da atividade, Jorge Dantas, coordenador da frente de Povos Indígenas do Greenpeace Brasil, apresentou o relatório “Ouro Tóxico”, lançado durante o ATL e que reúne dados recentes sobre a devastação provocada pelo garimpo ilegal nas Terras Indígenas Yanomami, Kayapó, Munduruku e Sararé, entre 2023 e 2024.
O documento denuncia a falta de transparência no comércio internacional de ouro — diretamente ligado à destruição ambiental — e propõe medidas urgentes, como a proibição do uso de mercúrio na extração do minério e a destinação do ouro apreendido para financiar a recuperação das áreas degradadas.
O evento foi encerrado com um chamado à união entre lideranças indígenas, movimentos sociais e órgãos públicos, reforçando a necessidade de ações coordenadas e contínuas no combate ao garimpo ilegal e na defesa dos direitos dos povos indigenas e do meio ambiente.
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
"A virada dos tempos": indígenas na Amazônia buscam soluções para a crise climática
Os “assopros de apaziguamento” dos indígenas do Rio Negro para proteger corpos e territórios
Eventos climáticos extremos, como dois anos consecutivos de secas recordes e de calor na Amazônia, deixam marcas. Não só nas paisagens, mas também nos corpos e subjetividades de quem vive nas florestas, cidades e comunidades que formam esse bioma.
Entender como se adaptar e como podemos reagir a este problema de escala planetária demanda habilidade de manejar a angústia e tentar impulsioná-la rumo às soluções. A impotência frente a um mundo manipulado pelo poder econômico das grandes corporações favorece o encasulamento e a desagregação, prejudicando as relações humanas e seus coletivos em tempos de inteligência artificial e solidão nas telas.
As comunidades indígenas na Amazônia, em especial os jovens, têm sofrido sérios impactos na saúde mental. Casos de depressão, suicídio, auto-mutilação e aumento do vício em drogas e álcool mostram um quadro que reflete consequências de violências históricas e atuais, acentuadas ainda mais pelo contexto da crise socioambiental.
A taxa de suicídio entre indígenas no Brasil já supera em quase três vezes a da população não indígena. A proporção destas mortes é mais elevada nos estados do Amazonas e Mato Grosso do Sul, como apontou estudo publicado na Lancet Regional Health Americas, produzido pela Fiocruz e Universidade de Harvard. No município de São Gabriel da Cachoeira (AM), considerado o mais indígena do Brasil, a Prefeitura criou um Comitê Interinstitucional para lidar com a problemática da saúde mental junto aos 23 povos indígenas da região, e em 2024 elaborou um plano municipal de prevenção ao suicídio.
Arlindo Maia (Ye´pârã, nome indígena), guardião dos saberes do grupo Oyeá, do povo Tukano, da Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas, conta que a crise ambiental foi prevista pelo seu avô, Lino Maia, nascido no Rio Papuri, entre Brasil e Colômbia. Lino era conhecedor dos lugares sagrados dos Tukano e previu que chegaria um tempo de doenças e de destruição, no qual toda a humanidade sofreria, não só os indígenas, que já tinham passado pela degradação de seus mundos com a violência dos colonizadores.
Imagem
Arlindo Maia, guardião dos saberes do grupo Oyeá, do povo Tukano, da Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas|Juliana Radler/ISA
O começo deste tempo narrado pelo Seu Lino se deu em 2020, na pandemia de Covid 19, revela Arlindo, em conversa gravada na biblioteca do Instituto Socioambiental (ISA), em São Gabriel da Cachoeira, em março deste ano, sobre os impactos da crise climática.
A entrevista com o guardião dos saberes registrou orientações para um ciclo de estudos interculturais voltado para lideranças indígenas do Rio Negro sobre clima, mercado de carbono, adaptação e mitigação às mudanças do clima, em parceria com o ISA e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn).
“Nessa virada do tempo, como dizia meu avô, a humanidade vai diminuir. Teremos muitas mortes coletivas devido à vingança da natureza. Estamos vivendo já as consequências do que os antigos previam. Por um lado, me sinto privilegiado por presenciar e atestar o que eles falavam há anos atrás”, ressalta.
Para a humanidade viver bem na natureza, os pajés do tempo antigo sabiam negociar com os waimahsã, seres às vezes traiçoeiros, que têm um certo ciúme dos humanos, conta Arlindo. Para resolver problemas ambientais, como, por exemplo, falta de chuva ou escassez de peixe, os pajés sabiam fórmulas sagradas para apaziguar a situação e retomar a harmonia, curando o mundo. Em Tukano, esse conjunto de práticas é chamado de bahsese e constitui um amplo e complexo conhecimento sobre a saúde do corpo e do território.
“Em seus benzimentos, eles faziam assopro de conciliação buscando sempre harmonia com a natureza, onde coabitam muitos seres e donos dos lugares. Os não indígenas provocam a fúria e a guerra com estes seres (waimahsã) porque constroem onde não pode, exploram a terra com mineração, barragens e outros empreendimentos que dizem ser para o progresso. Não sou contra o progresso, mas ele não pode acontecer distanciado da cultura, visando o poder e o dinheiro. A palavra poder é que começa a causar o problema”, constata.
Embaralhamento
Na língua Tukano, um dos quatro idiomas indígenas co-oficiais em São Gabriel da Cachoeira, é difícil traduzir a expressão mudanças climáticas. No pensamento de Arlindo, o termo não transmite o que estamos vivendo com o colapso dos ecossistemas. Su´riásche, que em Tukano significa embaralhamento, é o que mais se aproxima do que observamos estar ocorrendo com a natureza, na vivência de Arlindo.
“Estamos sem ordem do clima, do tempo, das estações. Vivemos em um embaralhamento e não podemos mais prever os ciclos naturais”. Este distúrbio retira o encadeamento natural dos ciclos, o que acarreta males em nós seres humanos, explica o guardião.
Assim, ficamos também confusos e perturbados, sem orientação. “Temos que pensar no valor das palavras, porque elas têm muito poder em nós. Nós somos Pamurimasã, que significa gente do surgimento. Neste surgimento existe diversidade e muitas línguas são faladas. E precisamos entender esta diversidade para sobreviver”.
Para os Tukano, nos ensina Arlindo, o clima é observado nas constelações. No céu escuro estrelado está o caminho dos ciclos climáticos que regem a vida na Terra. “As constelações não mudaram e elas ainda nos apontam o caminho. Mas, nós, viventes, causamos este problema de embaralhamento do clima”.
Crisálida
O debate sobre o enfrentamento às mudanças climáticas deve passar pelo fortalecimento da educação indígena, da cultura, da saúde e dos saberes locais sobre o território. Arlindo brinca que a cultura do seu povo está em estágio de “crisalidez”. Esse neologismo expressa um estado de crisálida, quando o ser não se move porque está se transformando em algo novo. Assim ele vê sua cultura nos tempos atuais.
Por isso, Arlindo enfatiza a urgência de criar alternativas que garantam a permanência dos jovens no território, assegurando a continuidade das trocas geracionais e a transmissão dos conhecimentos. Nos últimos anos, a saída de jovens das Terras Indígenas do Rio Negro aumentou fortemente com o vestibular indígena e as cotas nas universidades, como UnB, Unicamp e UFSCAR.
Sem diminuir a importância e a conquista da política de cotas indígenas nas universidades, o que se observa é que é necessário também ter alternativas de formação para quem está no território e almeja estudar em contexto intercultural, fazendo articulações entre saberes indígenas e não indígenas.
Assim, a proposta do ICIPRN - Instituto de Conhecimentos Indígenas e Pesquisa do Rio Negro, que é registrada no Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA Wasu) do Rio Negro, principal documento que indica formulações de políticas e projetos para os territórios dos povos rionegrinos, deve ser priorizada como parte fundamental para o enfrentamento das mudanças climáticas. Além disso, iniciativas como o Fundo Indígena do Rio Negro, que fomenta a sociobioeconomia e atividades da cultura indígena, na visão de Arlindo, precisam ser fortalecidas para que a cultura e os saberes indígenas sobrevivam à virada dos tempos.
Rede de pesquisadores indígenas
Mauro Pedrosa, do povo Tukano, é agente indígena de manejo ambiental (AIMA) e integra uma rede que há 20 anos atua na Bacia do Rio Negro fazendo pesquisas e observações sobre o meio ambiente e a cultura. Os registros são feitos com tablets e diários, onde os AIMAs fazem anotações e descrevem observações relacionadas às suas comunidades, vivências cotidianas e relação com a floresta e o rio.
Em sua rotina de trabalho, Mauro também lê os diários dos outros pesquisadores indígenas e apoia na organização e gestão do conhecimento gerado por essa rede. Tem lhe chamado a atenção as narrativas sobre escassez de peixe, dificuldades de trabalho na roça devido ao calor, perda de cultivos por conta do sol escaldante e de desequilíbrios na fauna, como ataques de caititus (porcos do mato) nas roças de mandioca, assim como apodrecimento de manivas.
“Acredito que as futuras gerações não terão peixe para comer no Rio Tiquié se continuar deste jeito. Os AIMAs contam que os homens estão mergulhando para pegar peixe porque não conseguem pescar. Pari-Cachoeira, por exemplo, não tem mais nada de peixe”, informa Mauro, referindo-se ao segundo maior distrito da TI Alto Rio Negro, no Alto Rio Tiquié, próximo à fronteira com a Colômbia.
Quando ele era criança, recorda, o tempo não era como agora, tão quente e instável. Mauro, que tem 38 anos, lembra que antigamente era possível fazer previsões sobre os ciclos anuais, assim como os períodos de seca e cheia do rio. Ele conta que os AIMAs também têm relatado aumento de temporais, com muitos trovões e raios, mas com menos chuva do que antes.
“Fico preocupado, porque os nossos conhecedores estão morrendo e com eles morrem os conhecimentos. Sem eles, vamos ter mais doenças nas comunidades porque vamos ficar desprotegidos. Por isso é muito importante essas oficinas dos AIMAs com repasse dos conhecimentos dos antigos para os mais jovens. Isso é que precisamos, pois quando o conhecedor está forte na comunidade, ele protege e cuida da comunidade”, conclui.
OMS recomenda prioridade à saúde mental
A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou uma análise de políticas públicas durante a Cúpula Ambiental Estocolmo+50 indicando que o apoio à saúde mental seja incluído nas respostas nacionais às mudanças climáticas. O próprio Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) reconheceu que o aumento acelerado das mudanças climáticas constitui grave ameaça à saúde mental e ao bem estar psicossocial, sobretudo, das populações mais vulneráveis, como os indígenas.
A médica espanhola Maria Neira, diretora do Departamento de Meio Ambiente, Mudanças Climáticas e Saúde da OMS, enfatizou que "os impactos das mudanças climáticas fazem cada vez mais parte do nosso cotidiano, e há muito pouco apoio dedicado à saúde mental disponível para as pessoas e comunidades que lidam com perigos relacionados ao clima e riscos de longo prazo".
A OMS destacou que alguns países vêm construindo um caminho a ser seguido, dando o exemplo das Filipinas, que reconstruíram e melhoraram os serviços de saúde mental após o tufão Haiyan em 2013, um dos mais potentes ciclones tropicais já registrados na história.
*Agradecimentos a Aloisio Cabalzar, Arlindo Maia Tukano, Danilo Bruxellas Parra e Renato Martelli pela revisão e comentários feitos para a publicação desta notícia.
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Em oficina em Manaus, comunicadores indígenas e quilombolas trocam saberes e fortalecem narrativas orais
Rede Wayuri reuniu coletivos amazônicos para explorar novas estratégias de comunicação e fortalecer suas comunidades
Mais de 30 comunicadores indígenas e quilombolas de coletivos do Amazonas, Mato Grosso, Pará, Maranhão e Rondônia participaram da segunda etapa da Oficina de Comunicação Popular da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas do Rio Negro, realizada em Manaus entre os dias 8 e 14 de março.
Entre atividades práticas e trocas de experiências, os participantes levantaram pautas culturais, políticas e estratégias de resistência e fortalecimento de suas comunidades e territórios por meio de ferramentas de comunicação, com foco no rádio, produção em áudio e sua adaptação para outros formatos.
Imagem
Encontro de comunicadores dos estados da Amazônia Legal aconteceu em Manaus e foi liderado pela Rede Wayuri|Vanessa Fernandes/ISA
Imagem
Oficina promoveu intercâmbio entre comunicadores da Amazônia Legal|Vanessa Fernandes/ISA
Imagem
Irinelson Freitas, da Rede Wayuri, grava Mary de Jesus, comunicadora quilombola|Vanessa Fernandes/ISA
Estiveram representados os coletivos Justiça nos Trilhos (MA), Rádio e TV Quilombo Rampa (MA), Guerreiras da Floresta (MA), Guardiões da Floresta (MA), Rede Xingu+ (MT e PA), Comunicadores Indígenas de Rondônia (RO) e Rede de Comunicadores Indígenas Mura (AM).
Sob a condução da jornalista cearense Pâmela Queiroz, criadora do Caatingueira Podcast e técnica em jornalismo na Rádio Unaé, os participantes exploraram as potências das narrativas orais e multiplataformas. Este, inclusive, foi o fio condutor da roda de conversa do primeiro dia de encontro, onde cada coletivo pôde apresentar um pouco do trabalho realizado no território, seus desafios e potencialidades.
A comunicadora e ativista Sâmela Sateré Mawé abriu o diálogo contando sobre sua trajetória na comunicação indígena, em especial seu trabalho na internet como ativista e influenciadora digital, até sua atuação na Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e na Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga).
Imagem
Sâmela Sateré Mawé, comunicadora indígena, conversa com participantes da oficina|Vanessa Fernandes/ISA
“É muito importante que a gente esteja nesses espaços, fortalecendo o espaço da comunicação, porque nós somos protagonistas dessas narrativas. [É] aprendendo uns com os outros esse fazer coletivo que a gente faz tão bem, que é a comunicação indígena”, reforça.
No decorrer dos dias, divididos em grupos e formando pequenas redações, os comunicadores experimentaram as diferentes etapas da produção: elaboração de pautas, escrita, manuseio técnico de equipamentos e pós-produção. Eles puderam aprender observando o fazer de seus parentes e também praticando a comunicação em aulas focadas na prática jornalística multilinguagem”, explica Pâmela Queiroz.
Como oportunidade para exercitar ainda mais a escuta ativa e as técnicas de entrevista, a programação incluiu uma visita a duas iniciativas em Manaus: a rádio Sapupema, o primeiro veículo de comunicação indígena do Amazonas, e o Instituto Witoto, liderado por mulheres e que atua pelo fortalecimento das identidades dos povos indígenas.
Rádio como amplificador de narrativas locais
Localizado no centro histórico de Manaus, o espaço que abriga a rádio web Sapupema conta com uma loja de artesanatos e outras produções indígenas, além de um auditório para atividades culturais, para onde o estúdio foi movido para receber o grupo para um bate-papo, que rolou ao vivo durante a programação que hoje alcança mais de 50 municípios do Amazonas.
Yuri Magno, locutor e fundador da Sapupema, conduziu a conversa com os representantes das iniciativas de rádio: Pâmela Queiroz (Rádio Unaé), Cláudia Ferraz, José Paulo e Juliana Albuquerque (Rádio Wayuri) e Michel Ahid e Mary de Jesus (Rádio TV Quilombo Rampa).
Os participantes falaram do papel do rádio na comunicação comunitária e autônoma e os desafios em cada território. Juliana Albuquerque comentou que a Sapupema foi uma inspiração para a criação da rádio web Wayuri e lembrou de intercâmbio realizado no mesmo local antes de sua implementação. “Estivemos aqui, sonhando com uma rádio online, e hoje ela está completando um pouco mais de um ano no ar”.
Claudia Ferraz reforçou que a rádio online nasceu para ampliar o alcance da comunicação indígena do Rio Negro e chegar cada vez mais às comunidades - que somam mais de 750 na área de abrangência dos muncípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.
“Nosso trabalho e nossa missão são levar informação para dentro dos nossos territórios. Para que nossos parentes fiquem informados, para combater a questão das fake news, com o nosso próprio linguajar, na nossa língua materna, e cada vez mais ampliar e fortalecer a nossa comunicação”.
Imagem
Mais de 30 comunicadores indígenas e quilombolas em visita à Rádio Sapupema, no centro histórico de Manaus|Vanessa Fernandes/ISA
O comunicador Michel Ahid, do Quilombo Rampa, contou que lá a rádio surgiu após a criação da TV, também com o objetivo de melhorar ainda mais a comunicação para dentro, sendo então a primeira rádio quilombola da região. “O pessoal acabava ouvindo a rádio da cidade, a música da cidade, e acabava não sabendo o que estava acontecendo dentro do nosso território, sobre os eventos, manifestações. Aí o Raimundo [Raimundo José, comunicador fundador da TV Quilombo] teve a ideia de criar a rádio, um programa da nossa música local, o nosso tambor de crioula”, lembra Michel.
Mary de Jesus, também comunicadora quilombola, completa que a ideia deu tão certo, que logo a comunidade começou a interagir, a pedir músicas e o famoso “alô” durante a programação. “A gente fica feliz de os mais velhos poderem ouvir as notícias do nosso território sem sair de casa. Às vezes acontece deles irem lá na rádio, pedir pra gente tocar a música e mandar um alô. E pedem pra esperar chegar em casa pra ouvir a música dele e o alô pelo rádio dele”, conta Mary.
A sede da rádio fica no centro do Quilombo Rampa, localizada próximo ao município de Vargem Grande, no Maranhão, e tem uma cobertura de 15 quilômetros dentro do território (FM, em 105,9 MHz). Ela também pode ser ouvida de qualquer lugar do país - e do mundo - por meio do aplicativo e do site da rádio.
Integrada ao Centro Cultural do Cariri Sérvulo Esmeraldo, a rádio Unaé - que na língua do povo Kariri, originário da região, significa sonho - busca promover o diálogo, a informação e a formação para os 29 municípios da região do Cariri cearense em diálogo com iniciativas de rádios comunitárias, rádios web e educativas.
Imagem
Comunicação se faz na prática: oficineiros indígenas e quilombolas participam de gravação na Rádio Sapupema|Vanessa Fernandes/ISA
“Nós pensamos na formação como um pilar principal para a multiplicação dos comunicadores e as narrativas das comunidades. A gente acredita que é muito importante que as próprias pessoas possam construir as suas plataformas de comunicação e comunicarem o que querem a partir dos seus olhares”, reforça Pâmela Queiroz. A grade da rádio conta com 19 programas e pode ser acompanhada pelo site.
José Paulo e Juliana Albuquerque apresentaram a programação da rádio web Wayuri - composta pelos programas Cacuri on-line, Papo da Maloca e Alô Parente - e o programa Papo da Maloca que também vai ao ar às quartas-feiras através da Rádio FM O Dia (92,7).
Para Pâmela, a visita à Sapupema foi especialmente importante porque os comunicadores puderam ter a oportunidade de ver de perto o funcionamento de uma rádio e também de trocar experiências. “E nessas trocas eles também discutiram manutenção, sustentabilidade de uma rádio e também a partir de uma perspectiva de autonomia, de uma comunicação autônoma”.
Casa de conhecimento ancestral na periferia de Manaus
A mais de 22 quilômetros do centro da cidade está localizado o Parque das Tribos, o primeiro bairro indígena de Manaus. Foi para lá que o grupo seguiu para conhecer a sede do Instituto Witoto, onde foram recebidos por sua fundadora, Vanda Witoto.
É lá, no quintal de Vanda, em sua Casa de Conhecimento Ancestral, que mais de 50 crianças indígenas em contexto urbano aprendem sobre sua língua materna, espiritualidade e grafismos tradicionais. Onde mulheres se reúnem para criar peças artesanais e fortalecer suas memórias e identidades com o Ateliê Derequine. E também é onde são realizadas oficinas e rodas de conversas sobre educação e formação política indígena.
Foi neste espaço que os comunicadores puderam conhecer as histórias e lutas de mulheres indígenas em contexto urbano, que atuam tanto nas iniciativas do instituto quanto na Cozinha Coletiva Boca da Mata, um negócio social que surgiu em meio a pandemia para fornecer gratuitamente refeições de qualidade, sem veneno, para famílias em vulnerabilidade no Parque das Tribos.
Imagem
Vanda Witoto, liderança do povo Witoto, fala aos visitantes|Vanessa Fernandes/ISA
Imagem
Comunicadores ouviram histórias de mulheres indígenas em contexto urbano|Vanessa Fernandes/ISA
Imagem
Tradição e comunicação|Jefferson Macurap, Rede de Comunicadore Indígenas de Rondônia
Ao dar boas vindas ao grupo, Vanda puxou um canto do seu povo e os convidou a marcar o passo da dança. “Cantar nessa cidade é o ato de resistência mais potente que nós temos, e pra mim essa é a força que nos mantêm vivos também. Quando a gente olha pra nossa história, enquanto povos indígenas, que é demarcada por muita dor, por muita violência, por retirada de nossos territórios, o que que a gente faz como ato de resistência? Parece coisa muito simples, mas nós cantamos, nós dançamos, nós partilhamos nosso alimento em celebração. Então, o que vocês comeram agora faz parte de um processo de fortalecimento dessa identidade, desse corpo dentro desse território”.
O almoço - baião de dois, com banana da terra assada, peixe assado e farinha - foi preparado pelas mulheres da Cozinha Boca da Mata e servido em caixinhas de delivery, semelhantes às que são entregues às famílias beneficiadas pelo projeto. Todos os ingredientes são adquiridos de uma rede de fornecedores locais, numa forma de valorizar e fortalecer produtores e pescadores artesanais.
Em abril, mês dos povos indígenas, o Parque das Tribos completará 11 anos. Em sua fala, Vania contextualiza que, por oito anos, o local ficou sem acesso à água potável e energia elétrica. Faltava saneamento básico, às ruas eram de difícil acesso e faltava equipamentos básicos, como escola e posto de saúde. “Por que nós éramos sujeitos não reconhecidos como cidadãos de direitos, esses direitos básicos e fundamentais”, completa.
Imagem
Casa de conhecimento Ancestral reúne mais de 50 crianças indígenas em contexto urbano para aulas de sua língua materna|Vanessa Fernandes/ISA
O reconhecimento do território veio, pontua Witoto, “graças a muita luta e resistência de mulheres como Lutana Kokama, liderança desse bairro, que é considerado hoje pelo poder público dentro da cidade de Manaus. E isso é um marco histórico, porque a partir do momento que nós deixamos nosso território, nós não somos reconhecidos na cidade”. Hoje o Parque das Tribos abriga mais de 700 famílias, 32 povos indígenas e 13 línguas faladas.
A jornalista Juliana Radler, articuladora de Clima do Programa Rio Nego do ISA, também integrou a roda trazendo uma perspectiva sobre mudanças climáticas e racismo ambiental, provocando reflexão sobre os impactos observados nas comunidades e territórios - urbanos e rurais - e as discussões sobre adaptação, já há tanto praticada e desenvolvida pelos povos indígenas e tradicionais, e justiça climática.
Encerrado o bate-papo, foi hora de mais prática. Os grupos se reuniram e definiram suas pautas a partir das histórias compartilhadas naquela tarde, e partiram para entrevistas com as personagens, em formatos de áudio e vídeos, posteriormente finalizados e apresentados no ao final da programação da oficina.
“Conhecer o Parque das Tribos foi uma experiência incrível para mim, eu não imaginava a luta que aquelas mulheres passavam, a conquista delas. As palavras de Vanda Witoto e de todas ali me inspiraram muito”, relata Ya Yudja, comunicadora da Rede de Comunicadores Xingu +.
Imagem
Missão cumprida: comunicadores indígenas e quilombolas de estados amazônicos exibem certificado de conclusão||Vanessa Fernandes/ISA
Para Claudia Ferraz, a formação proporcionou um grande encontro que possibilitou conhecer outras iniciativas de comunicação, os desafios, as especificidades de cada território e também os pontos de encontro, que era um desejo antigo da Rede Wayuri.
“Para mim foi marcante esse compartilhamento de vivências, outros olhares, outros formatos de produção que outros coletivos fazem. A importância da comunicação indígena, quilombola. Essa união de comunicadores indígenas e quilombolas foi muito marcante”.
Conhecer novas realidades e poder compartilhar conhecimentos e a história do seu povo, conta Mary de Jesus, foi uma experiência única. “Poder sair do meu território, ir para um outro estado, falar da minha história, falar do que a gente vive aqui, é realmente sem explicação. Estou muito feliz de ter participado, de ter conhecido outras pessoas, de ter conhecido outras realidades e ver que a nossa realidade aqui inspira muitos outros jovens, muitas outras pessoas”.
Paula Guajajara, da Terra Indígena Caru, no Maranhão, comenta que a oficina foi bastante importante, especialmente pela participação de comunicadores mais jovens preocupados em mostrar as dificuldades e as coisas boas de cada território, além de proporcionar conhecer outras ferramentas, outros povos e suas realidades, assim como poder mostrar a sua própria enquanto mulher indígena, mãe e acadêmica.
Imagem
Arewana Yudjá, comunicador e cineasta xinguano, com Imaculada Moreira, da Rede Wayuri|Vanessa Fernandes/ISA
Falando em comunicadores jovens, Mayara Mura foi a mais nova entre os participantes. Aos 14 anos, ela foi escolhida por suas lideranças para representar a Rede de Comunicadores Indígenas Mura e a Organização de Lideranças Indígenas Mura do Careiro da Várzea (OLIMCV).
“Tive a oportunidade de conhecer pessoas que eu já acompanhava e admiro muito, e também pude aprender muito com pessoas que já têm uma certa experiência na área da comunicação”, relata.
Arewana Juruna é comunicador e cineasta do povo Yudja e mora na aldeia Tuba-Tuba, localizada na Terra Indígena Xingu, Baixo Xingu, em Mato Grosso.
Ele contou que foi muito interessante conhecer o trabalho da Rede Wayuri e do Quilombo Rampa com as rádios, uma vez que sua experiência na Rede de Comunicadores Xingu+ é mais direcionada a fotografia e vídeo.
Aprender mais sobre esta ferramenta e também aparecer na frente das câmeras, para ele, foi uma experiência nova e positiva.
“É muito importante a gente fazer esse intercâmbio, o intercâmbio dos comunicadores da Amazônia, para a gente trocar essa experiência entre nós, entre os comunicadores indígenas, não indígenas e quilombolas. Eu já compartilhei o que eu aprendi, o que eu conheci, o que eu vi lá também aqui com a equipe da Rede de Comunicadores Xingu+. Acho que uma parte importante é isso”, diz ele, já de volta ao seu território.
Além da capacitação técnica, um dos maiores ganhos da iniciativa, acredita a jornalista Tainã Mansani, coordenadora de Projetos do Instituto para Democracia e Mídia da Alemanha (Idem) no Brasil, foi exatamente essa conexão entre as redes de comunicadores de diferentes estados da Amazônia Legal.
"A Amazônia é quase um continente, e essa conexão entre esses jornalistas populares não existia antes da oficina. Agora, passou a existir. Isso é fundamental para que suas histórias e desafios cheguem mais longe”, destaca.
Tainã considera o encontro um marco, especialmente em um ano que antecede a COP30 que ocorre em Belém no final do ano. "Sabemos que muitos movimentos sociais terão dificuldades para acessar a COP. Por isso, é essencial fortalecer os comunicadores populares, que são a voz das comunidades mais impactadas pelas questões ambientais”, finaliza.
Esta atividade é parte do projeto “MÍDIA-Brasil: profissionalização da mídia indígena para a participação de grupos marginalizados e o empoderamento das mulheres na Amazônia”, executado pelo Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com a Rede Wayuri e Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), com apoio financeiro do Instituto para Democracia e Mídia da Alemanha (Idem) e Cooperação Alemã (BMZ).
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Luiz Lana: guardião da memória e tradição Desana
Liderança, artista e escritor, Luiz Lana tinha 77 anos e deixa um legado de valorização das culturas e direitos indígenas
Luiz Lana no lançamento do primeiro volume da coleção "Narradores Indígenas do Rio Negro", em 1995, em São Gabriel da Cachoeira (AM)|Beto Ricardo/ISA
"Para nós, que somos os irmãos maiores do homem branco, Yebá-gõãmi deu o poder da memória, a faculdade de guardar tudo na memória, os cantos, as danças, as cerimônias, as rezas para curar as doenças... Nós guardamos tudo isso na nossa memória! Nosso saber não está nos livros! Mas ao branco, que foi o último a sair da Canoa-de-Transformação, ele deu o poder da escrita. Com os livros, ele poderia obter tudo o que ele precisaria, ele havia dito. É por isso que o homem branco chegou na nossa terra com a escrita, com os livros. Assim, Yebá-gõãmi havia dito!" — Trecho de depoimento de Luiz Lana para a antropóloga Dominique Buchillet, em 1992.
No último fim de semana, com grande pesar, recebemos a notícia do falecimento, aos 77 anos de idade, de Luiz Gomes Lana (Tolamãn Kenhíri), grande conhecedor, escritor, e artista plástico e liderança do povo Desana.
A criação da Maloca Museu, projeto de revitalização e reconstrução da cultura do povo Desana, e o livro Antes o Mundo Não Existia, escrito ao lado de seu pai, Umusï Pãrõkumu (Firmiano Arantes Lana), são lembrados como grandes exemplos do importante legado deixado por Lana. “Ele realmente revolucionou a forma como o conhecimento indígena é registrado e compartilhado”, acredita Domingos Barreto, liderança do povo Tukano.
Imagem
Capa da 1ª edição, de 1980
Imagem
Capa da última edição, lançada em 2021
Publicada nos anos 1980, unindo tradição oral e escrita, a obra sobre a cosmologia do povo Desana foi o primeiro livro de autoria indígena no Brasil, garantindo que a memória de seu povo fosse preservada e compartilhada para além das fronteiras da oralidade.
Domingos destaca também o papel fundamental de Lana na organização política e cultural dos povos indígenas do Rio Negro, como um dos idealizadores da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e presidente da União das Nações Indígenas do Rio Tiquié (Unirt).
“Entre várias lideranças que conheci, na minha vida pessoal e durante toda a trajetória no movimento indígena, Luiz Lana foi uma liderança onde eu me inspirei. Ele era muito amigo, uma liderança firme na luta pela demarcação das terras indígenas e pelo associativismo, e o que mais tenho admiração dele é sobre a valorização da cultura de cada povo que tem nessa região de Pari Cachoeira”, lembra Domingos.
Luiz Lana soube unir diversos povos em prol da luta pelos direitos indígenas, pelas demarcações dos seus territórios e pela valorização das culturas. Uniu, ainda, dois mundos: a oralidade e a escrita, a tradição e o registro, demonstrando que a memória de um povo se fortalece também quando encontra diferentes formas de transmissão.
“É uma perda irreparável, mas seu espírito permanece vivo na memória de todos que tiveram a honra de aprender com ele. Seu legado seguirá através de suas palavras, ilustrações e da força do conhecimento transmitido”, conclui Domingos.
O Instituto Socioambiental (ISA) lamenta a morte de Luiz Lana e se solidariza com os familiares e amigos.
Que sua memória continue iluminando os caminhos da resistência e do fortalecimento da cultura indígena no Brasil e no mundo.
Veja abaixo um vídeo em que Luiz Lana inicia um canto do seu povo Desana "Folha da Palmeira Inajá":
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Documentário 'Rionegrinas' chega às redes após percorrer festivais de cinema e ser premiado
Filme retrata a mobilização das mulheres no movimento indígena do Alto Rio Negro (AM) e foi destaque em mostras como Ecofalante e Ecocine
Documentário 'Rionegrinas' acompanha a trajetória de lutas e conquistas das mulheres do Rio Negro dentro do movimento indígena|José Miguel Nieto Olivar/Divulgação
Após percorrer festivais de cinema em várias partes do país, o documentário Rionegrinas ficou disponível online a partir deste 8 de Março, Dia das Mulheres. O documentário pode ser acessado no YouTube do ISA e da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn).
O filme narra a história da mobilização das mulheres dentro do movimento indígena do Alto Rio Negro (AM), resgatando memórias e inspirando o futuro. Rionegrinas também marca os 20 anos de criação do Departamento das Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN/Foirn).
Assista ao filme:
Exibido em festivais realizados em pelo menos cinco estados - Pará, Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais -, o documentário foi vencedor do Ecocine 2024 - Festival Internacional de Cinema Ambiental e Direitos Humanos, com o prêmio de “Melhor Filme Povos Originários”.
Criado em 2002, o departamento chegou aos 20 anos em 2022, mas as comemorações aconteceram em 2023 e têm um desdobramento agora, com a história podendo alcançar novos públicos.
Imagem
Exibição do filme 'Rionegrinas' na Maloca da Foirn reuniu lideranças femininas|Ana Amélia Hamdan/ISA
Coordenadora do DMIRN, Cleocimara Reis Gomes, do povo Piratapuya, comemora a participação de Rionegrinas em festivais e, agora, a chegada à internet. “É importante levar o filme Rionegrinas adiante para que as pessoas conheçam as mulheres indígenas do Rio Negro, região onde vivem 23 povos, seus potenciais, suas vivências e seus desafios”, diz.
Cleocimara Reis também fala da emoção em assistir nas telas a história das mulheres que formaram e formam o DMIRN. “É emocionante ver porque o departamento foi criado, como foi na época, como era o espaço pequeno que elas ganharam. E refletimos que hoje estamos conseguindo ampliar nossos espaços, fisicamente e nas lutas de reivindicação”, considera a liderança.
Ela destaca ainda a fala de Edineia Teles, do povo Arapasso, durante o documentário, que diz sobre a importância de lembrar sempre das lideranças do passado, das mulheres que estão atuando hoje e, ainda, daquelas que estão por vir. “Não podemos deixar ninguém de fora”, reflete Cleocimara.
“A exibição do filme traz muita emoção para todas as mulheres, para todas as pessoas que assistem. Porque ali passa um pouco do dia a dia das mulheres do Rio Negro, o que gostam de fazer, qual o pensamento delas, o que elas trabalham, o que reivindicam, a história de luta. E traz muita emoção para nós mesmas aqui do Rio Negro”, completa.
Imagem
Cleocimara Reis, coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas da Foirn, e outras lideranças na condução da sessão de exibição|Ana Amélia Hamdan/ISA
O lançamento de Rionegrinas aconteceu em setembro de 2023, durante a III Marcha das Mulheres Indígenas, em Brasília. Na mesma ocasião foi lançado o livro “As mães do DMIRN – Conquistas e Desafios”, que traz narrativas das lideranças do departamento, e o site do DMIRN.
Além disso, o filme foi exibido em São Gabriel da Cachoeira (AM), onde fica a sede da Foirn e do DMIRN. A sessão especial aconteceu na Casa do Saber - Maloca da Foirn, em novembro de 2023, no encerramento anual do Cine Japu, e foi seguida de roda de conversa com lideranças tradicionais femininas.
Produzido em parceria pelo Instituto Socioambiental (ISA), DMIRN e Foirn, o documentário Rionegrinas tem direção e roteiro da documentarista Fernanda Ligabue e da articuladora de políticas socioambientais do ISA, Juliana Radler, com colaboração de Dadá Baniwa, Carla Dias, Dulce Morais e Ana Amélia Hamdan.
O filme conta, por meio de depoimentos das mulheres indígenas, a luta por espaço, território, renda e sustentabilidade. Desde as roças até as universidades, desde a casa-território até os cargos públicos.
“Me deram uma salinha bem pequenininha. Mal cabiam a mim, uma mesa e uma cadeira. O que eu vou fazer só com essa mesa e a cadeira?”, relembra Cecília Albuquerque, do povo Piratapuia, primeira coordenadora do DMIRN.
Hoje, o DMIRN tem uma coordenadora e cinco articuladoras regionais que possibilitam um diálogo com o território indígena do rio Negro. A coordenação é de responsabilidade de Cleocimara Reis e as articuladoras são: Madalena Fontes Olímpio, Baniwa; Lucilene Veloso, Tukano; Anunciata Rezende, Tukano; Jucileide Pedrosa Brito,Tariana; e Victoria Campos, Tariana.
Entre as pautas prioritárias do DMIRN estão equidade de gênero, direitos das mulheres, apoio às associações de mulheres indígenas, geração de renda e sustentabilidade, fortalecimento de conhecimentos, cuidados, saúde indígena e sistema agrícola tradicional, enfrentamento aos impactos da emergência climática e outras pressões e ameaças ao bem viver.
Festivais com participação do Rionegrinas:
Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental - São Paulo
Programa Ecofalante Universidades/PEU - São Paulo
Semana do Meio Ambiente do Museu do Amanhã - Rio de Janeiro
Cine Kurumin/Festival Internacional de Cinema Indígena - Bahia
Festival de Cinema Latino Americano de Alter do Chão - Pará
Festival de Cinema Ambiental e Gastronomia de Sarandira - Minas Gerais
Ecocine 2024/Festival Internacional de Cinema Ambiental e Direitos Humanos - São Paulo
Festival Natureba - Minas Gerais
Lideranças que deram seus depoimentos em Rionegrinas
Roraima apresentou uma queda de 37% nos focos de calor registrados em janeiro de 2025 em comparação com o mesmo período de 2024. O número de focos de calor caiu de 604 para 384, conforme o monitoramento do Programa Queimadas do do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
A quantidade de chuva dobrou em relação à média observada entre 1923 e 2024. A média de precipitação de chuva para o mês de janeiro em Boa Vista é de 30,9 mm, porém, a cidade fechou o primeiro mês do ano com 63,3 mm. Os dados constam em boletim da Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Femarh) elaborado em 31 de janeiro.
Imagem
Rio Branco [na imagem, em Boa Vista] apresenta áreas secas mesmo tendo um nível positivo. O ideal para o período seco seriam 2,10m|Fabrício Araújo/ISA
“As chuvas ocorreram não só na capital, mas em todo o estado. Consequentemente, contribuíram para diminuição de focos de calor junto às ações do Comitê de Queimadas”, explicou Ramón Alves, meteorologista da Femarh.
Mesmo com a queda, o Estado ainda é o segundo com mais focos de calor do Brasil, ficando atrás apenas do Maranhão que teve 434 registros. Além disso, os cinco municípios com mais detecções de focos de calor em janeiro estão em Roraima.
Normandia (63), Pacaraima (60), Rorainópolis (39), Caroebe (33) e Uiramutã (33) foram os municípios com mais focos de calor. Bonfim (29) aparece em sexto e Iracema (26) em nono. Os outros três municípios que completam o top 10 pertencem ao Pará e Maranhão, sendo Monte Alegre (31) em sexto, Prainha (28) em oitavo e Amapá do Maranhão (25) em décimo.
Gerente de operações da Defesa Civil de Roraima, tenente-coronel Leonardo Menezes|Fabrício Araújo/ISA
De acordo com o gerente de operações da Defesa Civil de Roraima, tenente-coronel Leonardo Menezes, os municípios de Bonfim e Normandia têm sido os mais atingidos pelo fogo, exigindo maior atuação por parte do Corpo de Bombeiras. Além do combate ao fogo, a Corporação tem usado a prevenção através de palestras e orientações aos moradores do interior.
“Pacaraima, que faz fronteira com a Venezuela, tem um bioma diferente. Possui uma vegetação que propicia o fogo. Mas é importante pontuar que focos de calor não significam que há fogo. Muitas vezes observamos um calor de fogo no nosso painel e quando chegamos no local é uma pedra que está muito quente. Pacaraima é uma região serrana com muita pedra, então não necessariamente é fogo”, disse Menezes.
Segundo a delegada de Proteção ao Meio Ambiente, Maryssa Batista, a perícia do Corpo de Bombeiros concluiu que 80% dos casos de incêndio de 2024 foram criminosos. No entanto, apenas 10 denúncias foram formalizadas em uma delegacia.
“A perícia do Corpo de Bombeiros concluiu que cerca de 80% dos incêndios são criminosos, mas há dificuldade em encontrar os autores deste tipo de crime por falta de testemunhas ou imagens que possibilitem identificar suspeitos, principalmente quando ocorrem em municípios distantes da capital”, explicou.
Por outro lado, Batista afirmou que em janeiro de 2025 já foram registradas cinco denúncias sobre incêndios. A delegada acredita que existe receio da população em se indispor com vizinhos, mas que também falta entendimento da gravidade dos crimes ambientais.
“Eu acho que há uma inibição, mas acredito que também há ideia do ‘não é problema meu’, quando, na verdade, é um problema de todos nós. Afeta o meio ambiente, a biodiversidade, mas também é uma questão de saúde pública. Falta consciência das pessoas de que é uma responsabilidade nossa”, afirmou.
O crime de queimadas sem autorização pode ser punido com prisão de dois a quatro anos, segundo Batista. Ela apela para que a população formalize as denúncias, que podem ser feitas em qualquer delegacia, inclusive na Delegacia Virtual usando um computador ou celular, de forma anônima.
“Se o Ministério Público observa que a investigação da Polícia Civil tem provas o suficiente para identificar o culpado, então a Justiça é acionada. As pessoas acham que crimes ambientais não merecem preocupação, mas têm que se preocupar, sim, porque podem ser punidos como qualquer outro crime”, ponderou.
Imagem
Segundo a delegada de Proteção ao Meio Ambiente, Maryssa Batista, citando os Bombeiros, 80% dos casos de incêndio de 2024 foram criminosos|Fabrício Araújo/ISA
Rio Branco e o abastecimento de Roraima
Roraima possui apenas duas estações, chamadas de período seco (de outubro a março) e período chuvoso (de abril a setembro). Apesar disto, o estado registrou chuvas ao longo de de janeiro, o que fez com que o Rio Branco fechasse o mês a um nível de 1,44m. O nível mais baixo ao qual rio chegou no período foi o de 0,27m no dia 26.
Conforme explica o diretor comercial da Companhia de Águas e Esgotos de Roraima (CAER) Cícero Batista, a empresa não prevê aumentos no consumo de água mesmo que a situação se intensifique. “O menor índice que operamos foi em -0,59m, ou seja, no negativo e mesmo assim operamos sem comprometer o abastecimento”, disse, descartando a possibilidade de racionamento ou falta de água.
Imagem
Banhista em banco de areia formado no Rio Branco, em sua passagem na altura da capital roraimense, Boa Vista|Fabrício Araújo/ISA
Segundo o diretor comercial da CAER, bairros da zona Oeste de Boa Vista, como Senador Hélio Campos, sofrem com falta de água porque, já no início da estiagem, se perde 30% da capacidade de produção e há a necessidade de adequar as bombas para diminuir a produção. “Assim, a quantidade de produção de água para bairros específicos seja diminuída e algumas residências ficam sem a pressão de abastecimento ideal. O que faz a água às vezes chegar em mangueiras e torneiras baixas, mas não em toda a encanação”, disse.
Embora a situação esteja controlada em Boa Vista, municípios como Pacaraima, São Luiz e São João da Baliza devem ficar sem produção nas barragens nas primeiras semanas de fevereiro. As cidades serão abastecidas a partir de poços. Pacaraima deve ter o abastecimento feito através de caminhões pipa. A CAER deve fazer o transporte de Boa Vista até o município e distribuir a água.
“Nós não vamos fazer este abastecimento na encanação de cada casa, mas os cidadãos que necessitarem precisam manter recipientes em frente às suas residências para enchermos quando o caminhão passar. Não há cobrança adicional”, afirmou Batista.
No período mais severo da estiagem de 2024, em meados de março, o nível do Rio Branco chegou a -0,39m. A situação chegou a comprometer 30% do abastecimento em Boa Vista e 70% em Mucajaí.
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Comunicação indígena será decisiva para enfrentar mudanças climáticas em 2025
Capazes de conectar saberes ancestrais e práticas decisivas para a preservação da floresta, comunicadores indígenas terão papel crucial nos espaços de decisão a respeito do clima
Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2025 e foi originalmente publicado na Newsletter Farol Jornalismo.
Enquanto o mundo assiste a eventos climáticos cada vez mais extremos – como as secas históricas que assolaram a Amazônia em 2023 e 2024, e o sul do país com chuvas torrenciais que inundaram várias cidades no Rio Grande do Sul em maio passado, uma pergunta ecoa: como enfrentaremos a crise climática global? No coração dessa resposta estão os indígenas. Em 2025, os povos originários terão muito a ensinar sobre como enfrentar um fenômeno que já afeta milhares de vidas no planeta.
Na bacia do Rio Negro, localizada no extremo noroeste do estado do Amazonas, onde vivem 23 povos indígenas, comunidades que habitam a região há milhares de anos enfrentam tanto as cheias recordes quanto secas prolongadas que desafiam sua sobrevivência. Foi que aconteceu em 2023, quando a navegabilidade dos rios foi afetada pela seca histórica, dificuldade o acesso à roça, de onde tiram o seu principal alimento, a mandioca. Essas populações dependem da floresta e dos rios para viver. Mudanças no ciclo das chuvas afetam a dinâmica e comportamento dos peixes, das minhocas e até a fertilidade do solo. Esses impactos não são meramente "dados" para os povos indígenas: são vivências que alteram profundamente suas práticas de subsistência, rituais e a sua relação com a natureza.
Nessa região, desde 2005, quem tem feito esses registros são os Agentes Indígenas de Manejo Ambiental, uma iniciativa da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA). Os resultados dessas pesquisas são publicados em uma revista chamada Aru, que está em sua quarta edição, disponível na internet e também circulando no formato impresso na região.
Grupos mostram resultados de pesquisas sobre suas regiões durante o II Encontro Geral dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental - Aimas|Ana Amélia Hamdan/ISA
Mesmo diante dos desafios apresentados pelas mudanças climáticas, os modos de vida tradicionais dos povos indígenas oferecem um farol em meio à crise. Com práticas sustentáveis, como o manejo agroflorestal e o uso de técnicas de pesca e roçado que respeitam os ciclos naturais, essas comunidades demonstram que é possível viver em harmonia com a natureza – eles preferem afirmar que são partes da própria natureza e da terra mãe, por isso, há tanto cuidado e respeito com ela.
As técnicas parecem simples, mas carregam uma sofisticação baseada em milhares anos de observação e interação direta com a natureza – um conhecimento que os cientistas recém começam a reconhecer como essencial no enfrentamento das mudanças climáticas. Isso é comprovado por vários estudos, que deixam claro que os territórios indígenas são os mais preservados no Brasil.
Porém, os povos indígenas, guardiões das florestas, sofrem ataques aos seus direitos e garantias constitucionais todos os dias, seja no Executivo, no Legislativo e Judiciário. Por isso a necessidade de uma mobilização permanente e de luta por essas conquistas.
Em um cenário de mobilização e de luta, a comunicação tem um papel crucial. É aqui que entra a Rede de Comunicadores Indígenas do Rio Negro, a Rede Wayuri. Criada em 2017 para fortalecer as narrativas dos povos indígenas, a rede utiliza podcasts, redes sociais e materiais educativos para divulgar informações que combinam saberes tradicionais e práticas contemporâneas. Além de alertar sobre os impactos das mudanças climáticas, a Wayuri valoriza e compartilha estratégias indígenas de adaptação, aproximando os povos da região e levando suas vozes ao mundo.
Imagem
Comunicadores indígenas de 10 etnias do Rio Negro após a III Oficina de Comunicadores da Rede Wayuri, em São Gabriel da Cachoeira (AM)|Ana Tui/ISA
A Rede Wayuri também age como um radar, registrando os efeitos das mudanças climáticas em territórios indígenas e mobilizando comunidades para agir. Um exemplo é o trabalho realizado para documentar cheias e secas extremas, que não apenas informam os próprios indígenas, mas também ajudam a alertar a sociedade sobre a gravidade da crise. É a prova viva de que os povos indígenas não são apenas vítimas das mudanças climáticas, mas protagonistas na luta por soluções.
Enquanto o planeta busca saídas para a crise em reuniões e eventos como as COPs, os saberes indígenas e a comunicação comunitária se mostram ferramentas indispensáveis. Reconhecer isso não é apenas um ato de justiça histórica, mas também uma estratégia urgente para salvar o futuro de todos. Como a floresta, os rios e as comunidades que nela vivem nos mostram, é preciso conectar saberes, práticas e vozes em uma verdadeira teia de soluções climáticas.
Em 2025, a tendência é que a comunicação popular, as redes comunitárias ocupem os espaços de decisão a respeito do clima, para poder comunicar aos povos da floresta o que se tem proposto para salvar o planeta, pois somos nós que estamos a segurar essa panela de pressão do aquecimento global.
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
“Vitória coletiva”: Maurício Ye’kwana é o primeiro indígena a assumir coordenação da Saúde Yanomami e Ye’kwana
Liderança da região de Auaris deixa a diretoria da Hutukara Associação Yanomami para suceder o médico Marcos Pelegrini, que ocupou o cargo por um ano e quatro meses
Mauricio Ye'kwana em manifestação da Aliança em Defesa dos Territórios contra o garimpo|Cassandra Mello/Teia Filmes/ISA
Maurício Ye’kwana, liderança e ex-diretor da Hutukara Associação Yanomami (HAY), assumiu o cargo de coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami e Ye’Kwana (DSEI-YY). A ministra da Saúde, Nísia Trindade, assinou a portaria publicada no Diário Oficial da União nesta quinta-feira (19/12). Esta é a primeira vez que um indígena assume o cargo de coordenador do DSEI-YY, órgão responsável pela saúde dos indígenas da maior Terra Indígena do Brasil.
“É uma vitória coletiva para o povo Yanomami e Ye’kwana. Eu não esperava essa nomeação, foi uma surpresa, mas eu aceitei esse desafio diante das tomadas de decisões coletivas das associações da Terra Indígena Yanomami. Fico muito animado em ter energias positivas para enfrentar os desafios junto às lideranças”, disse ao Instituto Socioambiental (ISA).
Maurício Ye’kwana tem formação técnica em Gestão Territorial pela Universidade Federal de Roraima (UFRR). Além de diretor da HAY, ele já atuou na Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami e Ye'kwana (FPEYY, da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), trabalhando em operações conjuntas com a Polícia Federal para retirada de invasores, especialmente no combate o garimpo ilegal.
Por cinco anos, fez parte da assessoria indígena do DSEI-YY. Ele agora sucede o médico Marcos Pelegrini, que ocupou o cargo por um ano e quatro meses. Pelegrini pediu exoneração na última segunda-feira (15/12).
“Agradeço a todos pela oportunidade de colaborar na reconstrução do subsistema de saúde indígena e pelo aprendizado que tive em participar desse processo. Estarei à disposição para contribuir com o que for possível”, disse Pelegrini em mensagem de despedida.
Antes, o enfermeiro Leandro Bola ocupava o cargo, tendo sido a primeira nomeação após o governo federal decretar Emergência de Saúde Pública de Importância Nacional (Espin) na Terra Indígena Yanomami.
O governo reconheceu a crise no território em 21 de janeiro de 2023, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou Boa Vista após se chocar com as imagens de crianças e anciãos desnutridos.
Desde então, o governo e os indígenas trabalham juntos para recuperar a Terra Indígena Yanomami da crise causada pelo garimpo ilegal, que atinge o território em diversas áreas, como saúde, educação e desmatamento.
Desafios e prioridades
Seguir no combate das mazelas causadas pelo garimpo ilegal será uma prioridade para Maurício Ye’kwana. Ele afirma que focará também em capacitar conselheiros distritais e restabelecer relações com profissionais da saúde que vivem na Terra Indígena Yanomami.
“Temos foco no combate à malária, que afeta todo o território atingido pelo garimpo. Esse vai ser o maior desafio. Vamos continuar cuidando dos casos de desnutrição e cuidar da saúde mental dos jovens de Auaris e Maturacá”, afirmou.
Segundo a liderança, é preciso melhorar a segurança dos profissionais que trabalham na Terra Indígena Yanomami e fazer um amplo diálogo com os profissionais, principalmente os enfermeiros.
“Eu não vou estar sozinho, terei o apoio de parceiros para trabalhar na crise humanitária que existe na Terra Indígena Yanomami. Vou olhar todos como uma família, pois os Yanomami e Ye’kwana são parentes. Eu aprendi isso convivendo com o Davi [Kopenawa, xamã e presidente da Hutukara Associação Yanomami], que é como se fosse meu segundo pai”.
Imagem
Mauricio Ye'kwana discursa no encontro de Lideranças Yanomami e Ye'kuana, onde os indígenas se manifestaram contra o garimpo em suas terras|Victor Moriyama/ISA
Novo momento
Ele trabalhará diretamente com Weibe Tapeba, chefe da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai). Ambos fazem parte de um grupo de indígenas que integram posições de protagonismo dentro do governo federal para lidar com as questões indígenas.
“A nomeação do Maurício Ye’kwana representa um novo momento na saúde indígena no território Yanomami. A partir do diálogo com lideranças e gestores de organizações indígenas, conseguimos pactuar o nome do Maurício, que concentra atributos importantes para que ele consiga dar continuidade ao planejamento no DSEI. Cumprimos, portanto, com o papel de articulação para que esse importante momento pudesse se tornar realidade”, declarou.
O secretário de Saúde Indígena explicou, ainda, que planeja atender à necessidade de ampliação no número de profissionais a fim de alcançar todas as comunidades indígenas, e de estruturação de equipamentos de saúde e saneamento, além do aperfeiçoamento da rede de assistência em Boa Vista e na Terra Indígena Yanomami, com a implantação do Centro de Referência em Surucucu.
“Será o primeiro do país a ofertar serviços de atenção especializada, implantação de telessaúde em quatro polos bases e na CASAI Yanomami, além da implantação da Unidade Hospitalar de Retaguarda da Saúde dos Povos Indígenas de Roraima”, afirmou.
A execução será uma parceria com a UFRR, sendo resultado de uma parceria entre o Ministério da Saúde, Ministério da Educação e a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH).
Desde 2023, lideranças indígenas assumem cargos estratégicos no governo federal, como Joenia Wapichana sendo a primeira presidente indígena da Funai e Sonia Guajajara sendo a primeira ministra dos Povos Indígenas, criado no início da terceira gestão de Lula.
“A relação do Estado Brasileiro com os povos indígenas começa a mudar. Agora, gestores indígenas estão ocupando espaços estratégicos da gestão em diversas instâncias do Governo Federal, o que nos permite, implantar um novo modelo de governança e gestão indígena na administração pública”, avaliou Weibe Tapeba.
Ainda conforme Weibe Tapeba, a partir de janeiro de 2025 , a Sesai deve construir uma estratégia com as organizações indígenas em conjunto com Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kwana para o monitoramento e planejamento das ações do DSEI, reforçando a participação social indígena.
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Formação de Promotoras Legais Populares Indígenas fortalece a luta contra a violência de gênero no Rio Negro
Lideranças femininas indígenas promovem o diálogo entre saberes tradicionais e direitos legais, ampliando redes de apoio e proteção em suas comunidades
Entre os dias 11 e 13 de novembro, o segundo módulo do Promotoras Legais Populares Indígenas reuniu cerca de 80 lideranças femininas das cinco coordenadorias regionais da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e da sede do município de São Gabriel da Cachoeira para discutir os direitos das mulheres em conexão com as culturas locais. O objetivo principal foi auxiliá-las para replicar esses conhecimentos em suas comunidades e organizações de base e promover o enfrentamento à violência de gênero, em especial a praticada contra as mulheres.
Imagem
Segundo módulo do Promotoras Legais Populares Indígenas reuniu mais de 80 mulheres rionegrinas na Casa do Saber da Foirn|Vanessa Fernandes/ISA
A iniciativa, promovida pelo Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN/Foirn) em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e o Observatório da Violência de Gênero no Amazonas (OVGAM) da Universidade Federal do Amazonas, combina os conhecimentos jurídicos com os saberes e práticas indígenas, considerando tanto a realidade das mulheres nas comunidades quanto no contexto urbano.
Dulce Morais, antropóloga e assessora de gênero do ISA, explica que o primeiro módulo, realizado no segundo semestre de 2021, após período mais intenso da pandemia de Covid-19, buscou detalhar informações sobre direitos das mulheres e ferramentas jurídicas destinadas à sua proteção, e também ajudou a identificar as estratégias coletivas associadas ao sistema de conhecimentos, cuidados e práticas rionegrinas de prevenção e enfrentamento às violências contra as mulheres, jovens e crianças.
O segundo módulo seguiu a mesma proposta e o início da programação foi dedicado ao resgate de diversas ações de enfrentamento realizadas no Rio Negro desde o ano de 2018. Carla Dias, antropóloga do ISA foi uma das organizadoras da formação e conta que os momentos de trocas coletivas proporcionam o compartilhamento de experiências individuais e a construção conjunta de estratégias de cuidado e acolhimento, fundamentadas nos modos de vida, práticas e conhecimentos indígenas de cada povo e região de atuação da Foirn.
Imagem
Mulheres analisam mapeamento das associações e comunidades de origem na região do Rio Negro|Vanessa Fernandes/ISA
“Foi uma oportunidade também para fortalecer as redes de apoio e parcerias nos cuidados de prevenção e enfrentamento às violências contra as mulheres rionegrinas”, destacou.
Elizângela Costa, liderança Baré e também organizadora da atividade, ressaltou a importância de unir o conhecimento das leis ocidentais, os serviços do Estado e os saberes tradicionais no enfrentamento à violência contra mulheres indígenas. “Hoje, vivemos nesses dois mundos: o tradicional e o contemporâneo. Para continuar existindo nesses dois espaços, precisamos caminhar com esses dois saberes”, afirmou.
Segundo ela, é necessário produzir um entendimento e nomear as violências. “Muitas vezes, dizemos que não sofremos violência porque achamos que é algo cultural. Mas sempre reforço: cultura não é violência. Precisamos saber o que é cultura e também identificar o que é violência”, destaca.
Imagem
Elizângela Baré e Durvalino Dessano contando narrativas de origem da força das mulheres do Rio Negro|Vanessa Fernandes/ISA
Fortalecer práticas locais, como a valorização da língua materna, das práticas de alimentação saudável, benzimentos e o uso de plantas medicinais e a retomada do benzimento pelas famílias foram estratégias mencionadas pelos grupos durante o mapeamento de redes de apoio e estratégias de cuidado e acolhimento, aliado a presença e atuação de estruturas como Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei), Centro de Atenção Psicossocial (Caps), hospital, delegacia e as organizações sociais presentes nos territórios.
Natália Farias, doutoranda do núcleo de pesquisas da Faculdade de Saúde Pública de São Paulo, contribuiu com a apresentação dos serviços públicos de saúde oferecidos na sede municipal de São Gabriel da Cachoeria, especialmente, para casos de violência sexual.
Renata Vieira, advogada do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA), apresentou juntamente com Mayitê Fontes Ambrósio, advogada do corpo técnico da Foirn, informações sobre as leis brasileiras que garantem direitos e proteção às mulheres e os serviços públicos disponíveis para sua proteção.
“É importante que as mulheres conheçam seus direitos, bem como as políticas públicas que o Estado oferece, para poderem reivindicar direitos e exigir políticas específicas para a sua realidade, mas sabemos que há limites tanto da perspectiva legal, quanto dos serviços públicos ofertados, que em sua maioria são inadequados para as especificidades socioculturais e geográficas das mulheres indígenas que vivem na Amazônia. Por isso, é importante que elas se utilizem dos próprios conhecimentos e fortaleçam as redes de apoio locais e familiares para o combate à violência dentro dos seus territórios”, afirmou Renata.
Imagem
Representantes das cinco coordenadorias da Foirn participaram da formação|Vanessa Fernandes/ISA
No último dia do encontro, por meio da atividade de estudo de casos fictícios, baseados em situações reais, as participantes, divididas em grupos, identificaram os tipos de violência ou vulnerabilidades enfrentadas pelas personagens e discutiram como agir diante dessas situações. “Elas puderam exercitar a combinação de práticas locais com os serviços e políticas públicas disponíveis para o manejo das situações, uma potente produção coletiva para as participantes”, finalizou Carla.
Flavia Melo, coordenadora do Observatório da Violência de Gênero do Amazonas (OVGAM) apresentou, de forma dialogada com as participantes, o trabalho de pesquisa “Tecendo a Vida sob Braços Fortes: caracterização da violência contra mulheres na cidade de São Gabriel da Cachoeira”, realizado no âmbito desta parceria interinstitucional, que traz um compilado de dados e análises de boletins de ocorrência com vítimas mulheres coletados na delegacia de São Gabriel da Cachoeira entre os anos 2010 e 2019.
Segundo Flávia, “os números são uma importante ferramenta de incidência política, seja para dar mais visibilidade à violência contra mulheres, para induzir políticas públicas específicas ou para informar o controle social”.
José Miguel Olivar, pesquisador e parceiro desde o início das iniciativas de cuidados com as violências de gênero no Rio Negro destacou que “a partir desses encontros, tem sido possível perceber a troca de informações, de afetos e de compreensões sobre a violência. Esse processo tem ajudado na ampliação e fortalecimento dessas redes de cuidado e luta política”, comentou.
O exercício de fazer o mapeamento georreferenciado das comunidades e bairros de origem das participantes evidenciou a extensa distribuição geográfica da rede de mulheres rionegrinas conectadas à agenda de prevenção e enfrentamento à violência de gênero. O mapeamento geográfico das participantes subsidia a organização dos demais módulos da trilha formativa do Promotoras Legais Populares Indígenas do Rio Negro e o acompanhamento do potencial multiplicador da iniciativa.
Imagem
Mulheres fizeram o exercício de mapear suas associações e comunidades de origem em mapa georreferenciado produzido em tecido por Renata Alves, do ISA|Vanessa Fernandes/ISA
Rede de multiplicadoras
Uma das representantes da região do Médio e Baixo Rio Negro (Caimbrn), Carlinha Yanomami, da comunidade de Maturacá, na Terra Indígena Yanomami no Amazonas, disse estar empolgada com a participação na oficina e que o conhecimento adquirido é de grande importância para elas.
“Nós, mulheres Yanomami, muitas vezes não conhecemos bem nossos direitos. Se estão machucando nós pelo psicológico ou pelo físico, então oficinas como essa, com certeza, vão contribuir muito para nos ajudar. O que a gente aprende, o que a gente tem de conhecimento, a gente compartilha com as que ficaram (nas aldeias)”.
Imagem
Mulheres se organizaram em rodas para discussões em grupo. Os resultados foram apresentados a todas as participantes|Vanessa Fernandes/ISA
Pedrina Gonçalves Gaspar, Baré, representante da região do Alto Rio Negro e Xié (Caibarnx), conta que o que mais ela achou importante foi poder entender questões sobre os direitos das mulheres. “A gente sabia de algumas coisas, mas não de tudo. Aqui, algumas dúvidas foram esclarecidas. Poder vir, ouvir e levar esse conhecimento para outras mulheres, para nossas associações. Trabalhamos com associações de homens e mulheres, e achei fundamental participar para aprender sobre nossos direitos e repassar às mulheres na base”.
Ivaneide Júlio Galdêncio, do povo Baré, vive no município de Santa Isabel do Rio Negro e conta que nunca tinha escutado sobre outros tipos de violência e que o encontro foi importante para que ela aprendesse a identificar e, assim, também levar o conhecimento a outras mulheres, nas reuniões da associação, nas comunidades: “às vezes, nós sofremos [violências] e nem percebemos. Pensamos que violência é só apanhar, levar soco. Mas vai além. Às vezes, os homens falam palavrão, tratam mal e nem percebemos que isso também é uma forma de violência, né”.
“Lugar de mulher é onde ela quiser”
Após o encerramento da oficina, a programação seguiu com a IX Assembleia Geral Eletiva de Mulheres do Rio Negro, que reelegeu Cleocimara Reis para dar continuidade aos trabalhos realizados nos últimos dois anos a frente do Departamento de Mulheres.
Imagem
Reeleição de Cleocimara Reis foi celebrada com presentes e cantos tradicionais. Emocionada, ela agradeceu o reconhecimento|Vanessa Fernandes/ISA.
Cleocimara Reis recebeu 44 votos, do total de 55 das representantes votantes das Coordenadorias Regionais da Foirn. Ela agradeceu, emocionada, e falou do desafio de representar as mulheres de 23 povos das 750 comunidades indígenas da região, distribuídas em três municípios - São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.
Em sua fala, destacou a importância de enfrentarem, juntas, os desafios e fortalecer a luta coletiva. “Que a gente possa fazer o nosso movimento de mulheres de verdade. Que a gente possa se apoiar para a gente ter a equidade de gênero que a gente fala tanto. A gente acompanha o sofrimento e a luta de cada mulher, seja jovem, criança, adolescente, adulta ou idosa. Precisamos trabalhar contra as desigualdades e a favor da nossa força coletiva”, reforçou a liderança.
Cleocimara Reis também destacou a importância e necessidade de fortalecer as parcerias com setores governamentais e parceiros da sociedade civil organizada, haja vistas que os desafios do DMIRN são muitos e complexos, exigindo assim um trabalho a muitas mãos.
A cerimônia foi encerrada pelas mulheres indígenas rionegrinas com festa e renovação do esperançar. Reunidas, as representantes de cada Coordenadoria Regional ofertaram presentes, como colares e cuias a Cleocimara, e entoaram cantos nas línguas indígenas, com mensagens fortes de agradecimentos, felicitações e desejos de uma boa gestão para os próximos quatro anos. “E como a gente sempre fala, lugar de mulher é onde ela quiser. Muito obrigada”, finalizou a coordenadora reeleita do DMIRN.
O segundo módulo de formação do Promotoras Legais Populares Indígenas e a IX Assembleia Eletiva do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro foram produzidos com apoio da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), da Nia Tero e da Google. As opiniões expressas na reportagem não refletem necessariamente as opiniões dos parceiros apoiadores.
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Pesquisadores indígenas constatam segundo ano seguido de seca no Rio Tiquié, no Amazonas
Extremos de seca e calor foram sentidos e reportados pelos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs), com impactos nas práticas de manejo das comunidades
Em 2025, pesquisadores indígenas de comunidades do Rio Tiquié completarão 20 anos de estudo dos ciclos anuais. Eles são conhecidos regionalmente como Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) e sua pesquisa foca em processos e fenômenos cíclicos, que acontecem todos os anos ou em intervalos de tempo mais longos, mas regulares.
Observam peixes, anfíbios e formigas, que geralmente se reproduzem nos mesmos dias, depois de fortes chuvas que acontecem em algumas estações entre novembro e abril. Também, as plantas que estão dando flores e frutos que alimentam as pessoas e os animais e os esforços dos conhecedores para curar cada época e garantir que transcorram de forma sã, sem infortúnios ou doenças. Diariamente, além de observar esses e outros temas socioambientais, eles também tomam notas em seus cadernos.
Imagem
Participantes da oficina em Cunuri-Ponta (Wapunuhku), no médio curso do Tiquié, representaram 18 comunidades|Danilo Parra
O ano no Rio Tiquié começa quando cai a constelação da Jararaca (Aña poero na língua tukano, conhecida em outras regiões da Amazônia como Boiaçu) e tem início uma estação com chuvas mais regulares (em relação aos três meses anteriores) e alguns repiquetes do rio, nomeados conforme as partes do corpo da cobra que estão alcançando o horizonte ao poente.
Essa estação se estende por novembro e dezembro. Assim, em novembro são realizados encontros entre os AIMAs e a equipe do Instituto Socioambiental (ISA) para ler as anotações e organizá-las para produzir uma descrição conjunta daquele ano. Ao longo dos anos, a persistência em realizar esses encontros motiva os pesquisadores indígenas a manterem e aprofundarem suas observações e anotações.
Neste ano, o encontro ocorreu entre os dias 15 e 23 de novembro, na comunidade Cunuri-Ponta (Wapunuhku), no médio curso do Tiquié. Estiveram presentes todos os atuais 22 AIMAs dessa região, representando 18 comunidades de seis etnias (Tukano, Desana, Tuyuka, Yebamasa, Tariana e Yuhupdeh).
Participaram ainda três conhecedores: Nazareno Marques (Tukano de Moopoea), Teodoro Barbosa (Yebamasa de Pinokope) e Januário Alves (Tuyuka de Ahkãrabua), além de moradores do local, uma equipe do ISA (Aloisio Cabalzar e Danilo Parra, Mauro Pedrosa, com a cineasta Mariana Lacerda).
Além das anotações trazidas pelos AIMAs em seus diários, são levadas para esses encontros informações produzidas em outros contextos e escalas espaciais, que possam contribuir na interpretação do ciclo anual. A principal delas são as narrativas que explicam a estrutura e o funcionamento do território-cosmos tukano, comentadas pelos especialistas presentes.
Na oficina, no primeiro momento, os diários foram lidos e alguns de seus aspectos foram destacados: os pulsos do rio com os nomes das estações, as etapas do trabalho agrícola, as migrações e reproduções dos peixes, e as florações e frutificações das plantas.
Em seguida, foi elaborada uma linha do tempo horizontal, tendo como primeira referência o nível do rio, plotando os outros temas em níveis inferiores do papel. Finalizada essa parte, foram escritos três textos sobre o ano completo, um por sub-região – Alto Tiquié, Rio Castanha e Médio Tiquié – divididos em seções para cada uma das principais constelações que marcam as estações do ano. Ao mesmo tempo, foram elaboradas representações gráficas do calendário anual, também uma para cada sub-região. São desenhos grandes compostos coletivamente.
Imagem
Ismael dos Santos e Andriele Freitas organizam as informações dos diários em oficina|Mauro Pedrosa/ISA
Um assunto que foi desenvolvido nesse encontro com os conhecedores foi a estrutura do universo em camadas e como elas estão interrelacionadas, como o manejo do mundo feito pelos especialistas requer manejar energias, água, ar e outras substâncias vitais entre elas. Essas camadas também estão estruturadas a partir de instrumentos de criação, assim como o corpo humano – banco, suporte-de-cuia, cuia, lança-chocalho, dentre outros.
A cura de doenças é concomitante à cura do mundo em seus devidos tempos. Foram identificadas 13 camadas, começando pela mais profunda, Wamudia, o Rio Umari, até a mais alta, Karãkoditapati, lago de sumo de frutos doces, situada acima da camada das estrelas e da qual se pode buscar alívio para os períodos de quentura extrema.
Em duas rodas de conversa noturnas, esse tema foi exposto pelos conhecedores, assim como benzimentos relacionados. Na segunda sessão noturna, também foram colocadas questões específicas sobre aspectos que chamaram a atenção no ciclo anual que se encerrou.
Imagem
Nazareno Marques, conhecedor, explica para os AIMAs as camadas do mundo|Aloisio Cabalzar/ISA
Esse é o segundo ano de seca extrema em toda a Amazônia, com déficits significativos de chuvas e muitos rios atingindo seus níveis mais baixos já registrados. É o caso dos rios Solimões, Purus e Madeira, cujos leitos se transformaram em extensos bancos de areia, prejudicando o abastecimento de água, o transporte e a pesca.
No porto de Manaus, o Rio Negro atingiu o segundo recorde consecutivo de seca, algo inédito em mais de 120 anos de registros. Como esse local está próximo à confluência com o Solimões, essa medição reflete a influência de ambos, com o Solimões drenando as águas do Negro.
Os pontos de medição do Rio Negro acima também mostraram vazões acentuadas, mas não alcançaram níveis extremos, até porque o período de maior vazão acontece nos primeiros meses do ano nos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel e Barcelos.
O Alto Rio Negro, mesmo sendo uma região significativamente mais chuvosa, teve o segundo ano consecutivo com períodos mais secos e quentes entre os meses de agosto e outubro, com impactos na agricultura familiar e na pesca, principais atividades da economia e soberania alimentar das comunidades indígenas.
Segundo os AIMAs, os tubérculos plantados nas roças não resistiram e tanto as mandiocas quanto frutíferas plantadas e silvestres, secaram com as altas temperaturas. Por outro lado, os verões com vários dias de sol e calor intenso propiciaram a queima de maior número de áreas abertas para novos roçados. Com a queima das roças, apareceram muitos besouros mereasipama nos ingazeiros, que são comestíveis.
Observaram também muitas florações na floresta no final do ciclo passado e nesse, como japurá da beira do rio, mas nem toda floração frutificou. As frutas que produziram muito foram patauá (wahkarika), uacu, umari, pupunha e ingá-de-metro; mas deu pouco buriti e ucuqui.
Aves como tucano, japus e japins apareceram mais nesse último ciclo e migrações dos animais também continuaram, como caititu, queixadas e macacos-barrigudos. Porco caititus e macacos atacaram mais as roças em todo o Rio Tiquié, comendo as frutas plantadas que são alimento. O mesmo aconteceu com periquitos e papagaios comendo muito os frutos das palmeiras ao redor das comunidades.
A pesca ficou mais difícil com a estiagem e a seca dos rios, muitos frutos dos quais os peixes se alimentam nos igapós caíram no solo seco da mata, assim os peixes ficaram magros e sem gordura. As grandes estiagens facilitaram também o emprego de práticas de pescaria mais predatórias, como mergulhos, arrasto com redes nas praias e tinguijamentos nos afluentes, levando os peixes a fugirem para outros lugares. Isso causou a escassez de peixes no Rio Tiquié.
No Alto Tiquié, não foram observadas piracemas de aracu-riscado (Leporinus agassizii) e araripirá (Chalceus macrolepidotus). Também não aconteceram migrações de sarana (Curimatella alburna), já que o rio secou muito.
Tanajuras (dusa) revoaram o ano todo, depois que chovia bastante, e não apenas nas esperadas épocas de reprodução – fenômeno atribuído às mudanças recentes nos ciclos.
O que chamou mais a atenção foram os verões intensos nos últimos meses do ano indígena do Rio Tiquié. Como tem sido repetidamente reportado pelos AIMAs nos últimos anos, o calor forte dificulta a lida nas roças, reduzindo o horário de trabalho às horas de sol menos intenso, e também desregula vários ciclos de vida.
Em 2024, houve o agravante de chegar muita fumaça de longe, com a piora da qualidade do ar, provocando mais doenças, como doenças respiratórias, diarreia e malária. Por outro lado, houve redução do número de suicídios nas festas, com mais preocupação e realização de proteção pelos conhecedores dos rituais.
Os AIMAs seguem vivenciando seus espaços no rio, na floresta, nas roças e capoeiras onde fazem seu manejo cotidiano. Suas anotações, ao longo do tempo, ajudam a entender como essas paisagens vão se reproduzindo e as relações que as constituem se renovam.
Notícias e reportagens relacionadas
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS