A Bacia do Rio Negro se estende pelos estados do Amazonas e de Roraima, no Brasil, e também avança pelos territórios vizinhos da Colômbia, Venezuela e Guiana. Na sua porção no Amazonas, a bacia é uma das regiões mais preservadas de todo o bioma amazônico, com biodiversidade incalculável. Por outro lado, a parte da bacia localizada em Roraima vem sofrendo grande degradação ambiental causada pelo garimpo ilegal de ouro, desmatamento e roubo de terra, ou "grilagem de terra".
Aproximadamente 68% da Bacia do Rio Negro no Brasil está formalmente protegida por um conjunto de unidades de conservação e terras indígenas legalmente reconhecidas. A diversidade cultural da região é enorme: ali vivem 45 povos indígenas e estão localizados dois patrimônios culturais do Brasil – a Cachoeira de Iauaretê e o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro – além do ponto mais alto do Brasil, o Pico da Neblina, lugar sagrado do povo Yanomami.
No Rio Negro, o ISA mantém trabalho de longo prazo e parceria institucional - que nos enche de orgulho - com associações indígenas e suas lideranças, entre elas a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), a Hutukara Associação Yanomami (HAY) e o Conselho Indígena de Roraima (CIR).
Mantemos escritório e equipe na cidade de São Gabriel da Cachoeira (AM), considerado o município mais indígena do Brasil, localizado no Alto Rio Negro. De São Gabriel, também descemos com as águas do Negro para apoiar comunidades e associações indígenas dos municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, ambos no Amazonas. Em 2009, o ISA incorporou a organização Comissão Pró-Yanomami (CCPY), sua equipe e legado, abrindo escritório em Boa Vista (RR) e passando a atuar diretamente com o povo Yanomami e outros povos de Roraima.
Atualmente, o ISA atua na Bacia do Rio Negro com a promoção de processos formativos, articulando parcerias para a proteção dos territórios indígenas, valorização da diversidade socioambiental, segurança alimentar das comunidades, desenvolvimento de cadeias de valor da economia da floresta para geração de renda e produção de pesquisas interculturais que dêem visibilidade aos conhecimentos tradicionais e modos de vida das populações que, há muitos anos, mantém as florestas da região preservadas.
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Cine Japu abre temporada no Rio Negro com o filme ‘Mensageiras da Amazônia’
Produção do coletivo Munduruku Daje Kapap Eypi mostra como jovens usam drones e celulares para denunciar invasões em seus territórios
O Cine Japu está de volta! Na noite desta terça-feira (03/06), a exibição do documentário Mensageiras da Amazônia, produção do coletivo de audiovisual Munduruku Daje Kapap Eypi, marcou a abertura da temporada 2025 do cineclube em São Gabriel da Cachoeira (AM), reunindo comunicadores, lideranças jovens e convidados.
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Documentário conta como jovens Munduruku usam drones e celulares para resistir às invasões no território|Vanessa Fernandes/ISA
O Cine Japu é uma iniciativa do Instituto Socioambiental (ISA), em parceria com a Rede Wayuri, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), o Departamento de Mulheres (Dmirn) e o Departamento de Adolescentes e Jovens do Rio Negro (Dajrn).
O filme escolhido compõe o acervo Ecofalante Play, da Mostra Ecofalante, e conta como três jovens da Terra Indígena Sawré Muybu, no sudoeste do Pará, usam drones e celulares para denunciar invasões em seus territórios e fortalecer a luta em defesa da floresta.
Assista ao trailer:
Após a exibição, a roda de conversa, mediada pela comunicadora indígena do povo Baniwa, Nayra Sthefany, teve a participação de Claudia Ferraz, do povo Wanano, coordenadora da Rede Wayuri, e Jucimery Garcia, do povo Tariano, coordenadora do Dajrn. Elas refletiram sobre o papel da juventude na defesa dos territórios e a força da comunicação indígena como ferramenta de luta e resistência. Para Claudinha, o filme trouxe reflexões importantes sobre como a juventude tem atuado para proteger o território e a importância de mostrar, também pelas redes, o cuidado com as florestas e os rios, e a importância da demarcação das terras indígenas.
Ela destacou que produções como essa precisam circular nas escolas e nas comunidades, como forma de fortalecer a consciência dos mais jovens sobre o futuro dos territórios. “Isso demonstra a importância do papel da Rede Wayuri aqui no nosso território, de mostrar a realidade das nossas comunidades e de como nós mesmos somos os cuidadores do nosso Rio Negro”, afirmou.
Para Jucimery, a exibição do documentário vai de encontro ao trabalho que já vem sendo feito com a juventude no Rio Negro, com a realização de rodas de conversa e formações. Segundo ela, embora ainda não sofram diretamente os impactos do agronegócio e do mercúrio, como em outros territórios, é preciso preparar os jovens para que possam seguir com as lutas das lideranças mais velhas.
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Conversa após a exibição teve participação de Jucimery Garcia e Claudia Wanano e mediação de Nayra Sthefany|Vanessa Fernandes/ISA
“Por aqui, ainda estamos protegidos, porque também sempre tivemos nossas lideranças lutando pela gente. É preciso que os jovens continuem com esse trabalho, para garantir nossos territórios para nossos filhos, para os nossos netos”, disse ela, completando que o filme traz uma mensagem de “parente para parente”.
Circuito Tela Verde
O Cine Japu é um dos 615 espaços selecionados para a 14ª edição do Circuito Tela Verde (CTV), que contará com a exibição de obras que abordam temas relacionados aos povos e comunidades tradicionais, educação ambiental, biodiversidade, meio ambiente, direitos humanos, racismo ambiental, entre outros, no âmbito da Mostra Nacional de Produção Audiovisual Independente, promovido pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).
Iniciado em 2023, o Cine Japu segue como um espaço de troca, formação e fortalecimento das narrativas indígenas por meio do cinema e da comunicação comunitária. As sessões são gratuitas e acontecem quinzenalmente na Sala Dagoberto Azevedo, no Telecentro do ISA, localizado na rua Projetada, nº 70 - Centro.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Rede Wayuri promove debate sobre uso da internet em comunidades indígenas
Workshop no FIB 2025, em Salvador (BA), discutiu desafios e caminhos para garantir conectividade nos territórios indígenas a partir das vozes e experiências do Rio Negro
Nesta quinta-feira (29/05), a Rede Wayuri promoveu o workshop Teias de Conexão: Retrato da Conectividade nas Comunidades Indígenas durante a 15ª edição do Fórum da Internet no Brasil (FIB), realizado em Salvador (BA). Promovido pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), o evento reuniu sociedade civil, governo, comunidade acadêmica e tecnológica e o setor empresarial para discutir a internet no Brasil.
A mesa foi composta por André Fernando Baniwa, escritor e assessor técnico de Medicinas da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI); Edson Gomes Baré, liderança do povo Baré e diretor da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn); Alberto Fernandes, técnico de informática e telecomunicações; e Nicole Grell, doutoranda em Relações Internacionais e pesquisadora do projeto ProIndL, do Center for Artificial Intelligence da USP. A mediação ficou por conta de Ray Baniwa, comunicador da Rede Wayuri e doutorando em Comunicação e Cultura pela UFRJ.
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A mesa discutiu os impactos da conectividade nas comunidades indígenas, tendo como recorte região do Médio e Alto Rio Negro|Arquivo pessoal/Nicole Grall
A proposta partiu do entendimento do acesso à internet como um direito humano fundamental e uma ferramenta estratégica para a promoção da autonomia, preservação cultural, segurança e gestão territorial. O evento proporcionou o diálogo sobre os impactos da conectividade nas comunidades indígenas, tendo como recorte região do Médio e Alto Rio Negro - que abrange os municípios de Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira - a partir das experiências com a implementação do projeto de inclusão digital promovido pela Foirn.
Os primeiros pontos de internet banda larga chegaram às comunidades da região há cerca de 10 anos, por meio do programa Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento ao Cidadão (Gesac), do Governo Federal. Edson Baré relembrou que, antes disso, a radiofonia era a principal ferramenta de comunicação entre as mais de 750 comunidades distribuídas ao longo de mais de 13 milhões de hectares. A conexão à internet via satélite, segundo ele, trouxe avanços significativos nas áreas da saúde, educação e segurança.
“A gente percebeu que a chegada da internet colaborou muito com as escolas e com a saúde indígena. Na época, aproveitamos os pontos do Gesac para também fazer nossas atividades institucionais, reunir com lideranças, e vimos que facilitava. Foi um avanço bastante relevante, pois conseguimos dialogar para o controle de problemas que tínhamos nas comunidades. Antes, nossa comunicação era por recado, depois chegou a radiofonia. A remoção de pacientes muitas vezes levava dias. Com a internet, agilizou o processo. A comunicação nessa parte é bastante importante para nós, e estamos estudando como expandir e manter esses equipamentos em funcionamento”, destacou Edson.
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Da esquerda pra direita: Nicole Grell, Alberto Fernandes, Edson Baré, Ray Baniwa e André Baniwa na tela|Arquivo pessoal/Nicole Grall
O diretor da Foirn chamou atenção para a responsabilidade assumida pelo movimento indígena diante da ausência de políticas públicas efetivas do Estado para a região. Por falta de manutenção, a maioria dos pontos do Gesac deixou de funcionar, e a atuação da Foirn com a implementação das antenas Starlink, há cerca de três anos, foi a alternativa encontrada para preencher esse gargalo. “Na ausência do Estado, nós tomamos a frente. Não é nosso papel, nós somos controle social. Mas quando não há políticas, assumimos esse papel com o apoio dos nossos parceiros”.
Foram mais de 200 pontos de internet instalados na região, em um projeto marcado por inúmeros desafios, não apenas logísticos, mas também financeiros. O alto custo das antenas e das mensalidades está entre os obstáculos enfrentados em um território extenso e de difícil acesso, agravado tanto pela dependência de captação de recursos externos quanto pela ausência de políticas públicas que viabilizem o acesso a tecnologias de operadoras de satélite de baixa órbita nacionais, por exemplo, a custo menores.
“A questão dos dados e da nossa segurança com relação ao uso da Starlink também são preocupações que discutimos, mas fazemos o possível com as soluções que estão ao nosso alcance diante de uma necessidade urgente”, afirmou Edson.
O diretor finalizou sua fala reforçando que as políticas e implementações de inclusão digital, assim como seus benefícios, desafios e impactos, precisam ser discutidas pelos e com os povos indígenas, a partir de suas realidades e modos de vida. “É importante esse olhar para os povos tradicionais, especialmente para nós que estamos no Norte e sempre somos deixados de fora”.
Responsável pela instalação das antenas, Alberto apresentou uma perspectiva técnica do processo e os desafios logísticos em uma região sem estradas, onde a única forma de acesso às comunidades é pelos rios.
Nos trechos de cachoeira, explica o técnico, é necessário descarregar o bote e fazer a travessia carregando a embarcação por terra ou puxando pelas pedras, dependendo do nível do rio e da época do ano. O ritual de descarregar o bote, atravessar as corredeiras e recarregar novamente pode se repetir várias vezes, conforme a localidade de destino. “É uma logística que pode levar quatro, cinco dias, o que aumenta muito o custo”, disse ele.
O processo de instalação e testagem dos equipamentos, segundo Alberto, envolveu os membros das comunidades, como forma de capacitá-los não apenas para o uso, mas também para a manutenção básica dos aparelhos. “Sabemos que a internet pode trazer coisas boas e ruins, por isso é preciso mostrar os dois lados e capacitá-los para que se protejam. Então não é só chegar, instalar e voltar, como já foi feito no passado”.
Conectividade com protagonismo comunitário
Durante sua participação, André Baniwa destacou o papel estratégico da conectividade no fortalecimento dos saberes tradicionais e na promoção de uma educação intercultural e intercientífica no Rio Negro. Para ele, a internet pode ser aliada na valorização da medicina tradicional e no diálogo entre os conhecimentos indígenas e outras formas de ciência.
Ele contextualizou esse momento como parte de um processo de “reconstrução do bem viver indígena”, iniciado com a Constituição de 1988, que garantiu direitos fundamentais aos povos originários e abriu caminho para a retomada de suas línguas, crenças e práticas. “Depois de séculos de violações, é a partir desses direitos que os povos indígenas estão reconstruindo seus projetos de vida com autonomia”, afirmou.
André compartilhou a experiência da Escola Baniwa e Koripako, no Alto Rio Negro, onde estudantes realizam pesquisas na internet para aprofundar os conhecimentos sobre plantas medicinais mencionadas por pajés e sabedores da comunidade. Ao cruzarem os nomes tradicionais com os científicos, produzem materiais sistematizados que fortalecem a medicina tradicional com o apoio das tecnologias digitais. “Estamos construindo formas de ensinar e aprender que respeitam nosso jeito de viver e pensar o mundo”, completou.
Ele também defendeu a necessidade de políticas públicas que considerem as especificidades culturais dos povos e reforçou que a conectividade, para ser uma ferramenta de transformação, deve ser pensada a partir dos territórios e com a participação ativa das comunidades. Ao final, destacou que o desenvolvimento sustentável e inclusivo passa necessariamente pelo reconhecimento e protagonismo dos povos tradicionais.
Tecnologia e saberes tradicionais
A partir de uma perspectiva acadêmica, a pesquisadora Nicole Grell trouxe reflexões sobre os desafios e oportunidades no uso da tecnologia em contextos indígenas, com base em sua atuação no projeto de Fortalecimento das Línguas Indígenas Brasileiras com IA.
Nicole destacou que, mesmo em comunidades onde a língua indígena ainda é predominante no cotidiano, o contato com a internet tem gerado impactos importantes. “O que a gente percebeu em diversas aldeias foi que, mesmo onde a língua indígena ainda é a língua materna, na hora de escrever no WhatsApp ou nas redes sociais, a língua que prevalece é o português”. Para ela, isso pode representar um risco à continuidade da própria língua, especialmente entre os jovens.
Diante de uma demanda que já se apresentava para a tradução de documentos, como a tradução da Constituição Federal para o Nheengatu, realizada pela Academia Nheengatu de Letras, o projeto iniciou uma articulação com a Foirn, com base em uma consulta prévia, livre e informada, para entender se havia interesse das comunidades no desenvolvimento da tecnologia.
O projeto no Rio Negro está em desenvolvimento junto às comunidades Baré, cuja língua original foi extinta e absorveu o Nheengatu. O objetivo da Foirn é implementar a tecnologia de escrita em cerca de 200 escolas, nas três línguas cooficiais da região: Nheengatu, Baniwa e Tukano.
Ao encerrar, Nicole ressaltou que tratar de línguas indígenas no Brasil envolve também o reconhecimento de contextos sagrados e históricos de resistência.
Línguas indígenas e os desafios digitais
Ray Baniwa, integrante da Rede desde sua criação, reforçou a importância da comunicação feita “por nós e para nós” como instrumento de fortalecimento político, cultural e social. “Ao propor o workshop Teias de Conexão, nós buscamos promover um espaço de escuta, troca de experiências e construção coletiva de reflexões sobre os caminhos da conectividade nos territórios indígenas, a partir dos nossos próprios territórios”, disse.
Para ele, a mesa demonstrou, na prática, o valor de uma discussão conduzida a partir deste lugar. Tanto a iniciativa da Rede quanto a de tantos outros coletivos e organizações da sociedade civil que abordaram a temática de conectividade, territórios e meio ambiente no FIB15, servem como exemplo para o Estado de como o uso das tecnologias e o acesso à internet já vêm sendo debatidos com qualificação dentro dos territórios, com suas próprias demandas e soluções, conforme cada realidade.
O anúncio feito pelo Ministério das Comunicações no primeiro dia do evento, por exemplo, sobre o desenvolvimento do Plano Nacional de Inclusão Digital, foi alvo de críticas por setores da sociedade civil presentes exatamente por ser anunciado com desmobilização de sua estrutura inicial, com redução de seis para dois grupos de trabalho temáticos. Além disso, os dados que fundamentam a construção do plano são considerados defasados, levantando questionamentos sobre sua capacidade de contemplar a diversidade de contextos e as grandes extensões das várias Amazônias e dos vários Brasis dentro de um país com extensões continentais.
Como garantir a participação social de públicos historicamente invisibilizados em 90 dias, prorrogáveis por mais 90? Pisar nesses mesmos chãos, ouvir quem neles vive e garantir que a inclusão digital seja também inclusão política, cultural e social, com respeito, autonomia e soberania popular, deve ser o grande compromisso do Estado na construção de políticas públicas de conectividade efetivas.
Protesto
Ao encerrar a mesa, Edson Baré chamou atenção para os constantes projetos que atacam os direitos indígenas e o meio ambiente, como o PL da destruição, o marco temporal e a desestruturação do processo de demarcação de Terras Indígenas. “Nós vamos nos levantar, nós não vamos ver sentados o que eles estão fazendo. Dizemos a todos vocês: não ao marco temporal e demarcação já!”.
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Floresta no Centro oferece oficina de arte indígena na Virada Cultural 2025, em SP
Gratuita, atividade será conduzida por Elizângela Baré e tem contribuição voluntária em apoio a crianças com câncer
O espaço Floresta no Centro, do Instituto Socioambiental (ISA), participa neste sábado (24/05) da Virada Solidária da Galeria Metrópole — uma programação especial dentro da Virada Cultural 2025 que reúne ações culturais com propósito social — com duas oficinas de arte tradicional das mulheres Baré, conduzidas por Elizângela Baré.
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Oficina acontece em dois horários|Divulgação
Nascida na Terra Indígena Cue-cue Marabitanas, no Alto Rio Negro, Elizângela Baré é uma mulher indígena, artesã, agricultora, mãe, professora, liderança, falante da língua nheengatu e pesquisadora indígena. Atualmente, ela faz Doutorado em Saúde Pública na Universidade de São Paulo (USP).
As atividades acontecem em dois horários — às 10h e às 14h — e oferecem ao público a oportunidade de conhecer elementos tradicionais da cultura Baré, como os fios de tucum e as sementes nativas. Serão produzidos colares, brincos e pulseiras, enquanto se compartilham os significados culturais e os modos de confecção de cada peça.
A participação é por ordem de chegada, sujeita à lotação, sem necessidade de inscrição ou compra prévia de materiais. Será sugerida uma contribuição simbólica, destinada à Organização Beabá, que apoia crianças em tratamento contra o câncer.
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Elizângela Baré é agricultora, mãe, professora, liderança, falante da língua nheengatu e pesquisadora indígena|Juliana Radler / ISA
O ano de 2025 marca a 20º edição da Virada Cultural, um evento que situa a cidade de São Paulo em seu âmbito multicultural. Com o tema "20 anos em 24 horas", a Secretaria Municipal de Cultura remete aos primeiros anos do evento, ao mesmo tempo que expressa uma continuidade da iniciativa, oferecendo uma ampla gama de atrações.
Vale lembrar que durante a Virada Cultural o transporte público funciona de forma ininterrupta, facilitando o acesso popular às atividades.
Oficina:
Local: Espaço Floresta no Centro – Loja 28, 2º andar da Galeria Metrópole, Avenida São Luis, 187, São Paulo/SP. Data: 24/05/2025 Horários: 10h00 e 14h
Evento Presencial | Colaboração voluntária
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Yanomami se reúnem com universidades e órgãos federais para acompanhar ações em saúde, educação e direitos humanos
Indígenas se encontraram com representantes de instituições para definir gestão de recursos extraordinários do Governo Federal
Lideranças da Terra Indígena Yanomami estiveram reunidas, entre 16 e 18 de maio, com representantes de instituições que atuam em projetos de Educação, Direitos Humanos, Saúde da Mulher e Soberania Alimentar. O diálogo foi centrado em recursos extraordinários — verba extra após a crise emergencial — que o Governo Federal destinou para o maior território indígena do Brasil.
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Reunião aconteceu no auditório do ISA em Boa Vista|Fabrício Araújo/ISA
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Lideranças de Roraima e Amazonas estiveram presentes|Fabrício Araújo/ISA
Os indígenas foram informados sobre como os recursos foram destinados e puderam tirar dúvidas sobre a execução diretamente com representantes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de Roraima (UFRR), Colégio Aplicação (CAP/UFRR), Universidade Estadual de Roraima (UERR), Instituto Federal de Roraima (IFRR) e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
“Nos questionamos: será que o governo sabe trabalhar com o povo Yanomami? Conhece nossas aldeias, onde a gente mora? Então, tomamos a iniciativa de fiscalizar esse crédito extraordinário do governo federal, tirar nossas dúvidas para acompanhar as ações com as instituições. Afinal, esse dinheiro não está com as associações, mas com as organizações do governo”, pontuou Dário Kopenawa, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami (HAY), durante a reunião.
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Dário Kopenawa destacou a importância de os Yanomami acompanharem de perto o uso dos recursos federais|Fabrício Araújo/ISA
Além da HAY, a mais representativa associação da Terra Indígena Yanomami, participaram do diálogo Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes (AYRCA), Associação de Mulheres Yanomami Kumirayoma (AMYK), Uhiri Associação Yanomami (URIHI), Associação Wanasseduume Ye’kwana (SEDUUME), Associação Sanöma Ypassali, Associação Parawami Yanomami, Texoli Associação Ninam e Associação Kurikama Yanomami.
O Instituto Socioambiental (ISA) organizou o encontro e mediou a conversa entre associações e instituições executoras dos projetos. (Entenda os projetos abaixo)
“Apesar de existir, dentro da política oficial, espaços como o Fórum de Lideranças, este espaço não é suficiente para gerar o entendimento entre as duas partes. A atividade que fizemos tem o objetivo de aproximar as instituições que receberam os recursos para executar as ações das associações que têm o papel de fiscalizar o uso dos recursos e a qualidade das ações desenvolvidas nas comunidades. Outro objetivo é assessorar no entendimento das propostas, já que muitos projetos foram elaborados no contexto de emergência”, explicou Lídia Montanha, coordenadora adjunta do ISA em Roraima.
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Lídia Montanha, coordenadora adjunta do ISA em Roraima, explicou que a atividade buscou apoiar entendimento dos projetos|Fabrício Araújo/ISA
A emergência à qual Montanha se refere foi instaurada pelo Governo Federal em janeiro de 2023, 20 dias após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tomar posse. Lula viajou em caráter de urgência a Roraima e em Boa Vista visitou a Casa de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kwana (Casai-YY). Em seguida, o governo iniciou uma megaoperação com envio de cestas básicas, reestruturação da saúde no território e retirada de garimpeiros ilegais.
“Pedimos esta reunião para termos explicações do que são os créditos extraordinários, quem recebeu e como está sendo gasto. Já havíamos sido apresentados aos projetos, agora estão nos apresentando os recursos destinados à Terra Indígena Yanomami. Com estas informações podemos dialogar melhor com o governo e depois vamos explicar para quem está nas comunidades o que está acontecendo”, disse Julio Ye’kwana, presidente da Seduume, ao ISA.
Projetos da UFMG
O programa de Direitos Humanos, Educação e Saúde na Terra Indígena Yanomami surgiu após uma fala do xamã Davi Kopenawa em 2022. Ele esteve na UFMG para abrir as comemorações dos 95 anos da universidade.
“Davi solicitou que houvesse um empenho da UFMG junto aos Yanomami para retomar os projetos relacionados à Educação. Em 2023, tivemos uma grande reunião entre os professores Yanomami de Roraima e do Amazonas e tivemos uma grande proposta de retomada da Educação”, disse Ana Maria Gomes, professora titular da Faculdade de Educação da UFMG e coordenadora do programa de Direitos Humanos, Educação e Saúde na Terra Indígena Yanomami.
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Ana Maria Gomes apresenta situação dos projetos desenvolvidos pela UFMG|Fabrício Araújo/ISA
A UFMG entendeu que o projeto de Direitos Humanos deveria ser voltado às associações Yanomami e desenvolveu uma formação em Direitos Humanos para dois grupos: os novos diretores e lideranças mulheres indicados pelas associações da Terra Indígena Yanomami. Além deste projeto, a UFMG também é responsável pelo desenvolvimento de outros três.
"Saberes Indígenas na Escola” tem como foco a formação de professores indígenas e profissionais do magistério. Também realizado em parceria com o campus Boa Vista do IFRR, esse projeto concentra-se especificamente na valorização e no fortalecimento da prática pedagógica indígena.
Outra iniciativa envolve a construção de espaços comunitários multifuncionais, pensados para atender às demandas das comunidades Yanomami, podendo ser utilizados como escolas. Desenvolvido em diálogo direto com as comunidades e em parceria com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) — responsável pela autorização para construções em Terras Indígenas —, o projeto prevê a edificação de 10 unidades escolares e um centro de formação, distribuídos por diferentes regiões da Terra Yanomami. As duas primeiras estruturas serão destinadas às comunidades Kolulu (na região de Auaris) e Maloca Papiu, atendendo os povos Sanöma e Yanomami.
Por fim, o quarto projeto da UFMG é a criação de uma Rede de Cuidados em Saúde da Mulher, concebida a partir das demandas apresentadas pelas mulheres Yanomami ao longo de 15 anos de mobilização. Essas demandas emergiram tanto no XI Encontro de Mulheres Yanomami quanto nas oficinas de Direitos Humanos voltadas às lideranças femininas. A rede busca fortalecer políticas de atenção integral à saúde das mulheres, respeitando seus saberes e especificidades culturais.
Projetos da UFRR
A Universidade Federal de Roraima (UFRR) desenvolve ações na Terra Indígena Yanomami por meio de quatro Termos de Execução Descentralizada (TEDs). Os projetos são direcionados especialmente à região de Awaris, onde vivem os povos Ye’kwana e Sanöma.
Um dos projetos tem como foco principal a promoção da soberania alimentar, em resposta à grave crise humanitária e alimentar enfrentada pelos povos da Terra Indígena Yanomami. Na área da educação, está em fase de elaboração o Projeto Político Pedagógico (PPP) do ensino médio voltado para os Ye’kwana, com uma escola regular que atende crianças e adolescentes da região.
Já os Sanöma participam de um programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA), voltado ao ensino fundamental, do 1º ao 9º ano. A iniciativa é ofertada pelo Colégio de Aplicação da UFRR e conta com nove módulos, cada um com 150 horas de aulas presenciais e outras 150 horas de atividades desenvolvidas nas comunidades. Até o momento, cinco módulos já foram concluídos.
“Para se encaixar é preciso ter no mínimo 16 anos. Nós atendemos 70 estudantes e para escolher quem passaria pela EJA, escutamos as comunidades, tivemos uma reunião com as lideranças”, explicou Adriana Gomes Santos, professora do CAP/UFRR.
Projeto do IFRR - Campus Boa Vista
O IFRR atua no Ação Saberes Indígenas na Escola, que é um projeto nacional para professores indígenas, desde 2014 com os povos Wai Wai, Macuxi, Ingaricó, Wapichana e Taurepang. Com o apoio extraordinário, serão ampliadas as ações para atender os Ninam, subgrupo dos Yanomami.
“Foi uma necessidade das associações, que procuraram o IFRR. Fizemos a proposta e organizamos para atender aos professores Ninam”, explicou Marilene Alves Fernandes, professora do IFRR e coordenadora do programa Ação Saberes Indígenas na Escola.
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Marilene Alves Fernandes, professora do IFRR e coordenadora do programa Ação Saberes Indígenas na Escola|Fabrício Araújo/ISA
O curso tem a duração de 180 horas para os professores que atuam diretamente nas escolas e 200 horas para os orientadores de estudos - os profissionais que atuam na formação dos professores. Todos que passam pela formação são escolhidos pelas comunidades para receberem treinamentos.
Projetos do IFRR - Campus Amajari
O campus Amajari também atua com projetos voltados à soberania alimentar e apoia atividades de ensino, pesquisa e extensão na Terra Indígena Yanomami sobre piscicultura e pesca artesanal nas regiões de Auaris (Ye’kwana e Sanöma), Alto e Baixo Mucajaí nas comunidades Sikamabiú e Lasasi e na região Ajarani.
Marcelo Pontes, responsável pelo projeto, explicou que serão implementados dois modelos de piscicultura: construção de tanques para a produção de peixes e adaptação in loco. Para o primeiro modelo, o IFRR possui capacidade técnica para a execução. Já no segundo, é necessário contratar serviços de terceiros, uma vez que a instituição não conta com equipe especializada para o desenvolvimento..
O projeto conta com diagnóstico de avaliação e plano de manejo, assessoria técnica de pesca artesanal via workshops e oficinas, bem como cursos de formação com certificação.
Além disso, o campus Amajari também possui um projeto voltado à realização de atividades de ensino, pesquisa e extensão na Terra Indígena Yanomami na área de recursos naturais e produção alimentícia nas regiões de Ajarani, Alto e Baixo Mucajaí e Missão Catrimani.
Leidiane Lima, responsável pelo projeto, explicou que as ações contam com a parceria da Embrapa Bahia no âmbito do fortalecimento dos produtos agrícolas para segurança alimentar. A iniciativa envolve o apoio técnico e de infraestrutura para a produção e distribuição de matrizes de banana, abacaxi e mandioca aos Yanomami de Roraima e Amazonas.
As ações visam abrir novos roçados, fortalecer os já existentes, fomentar a produção de mandioca e frutas, oferecer assistência técnica, promover a recuperação e o manejo sustentável das áreas produtivas, além de incentivar a conservação e o processamento de alimentos. Também está prevista a formação em recursos naturais, com destaque para a certificação no Curso de Agricultor Agroflorestal, com carga horária de 200 horas.
Projetos da Embrapa
A Embrapa em Roraima desenvolve dois projetos principais voltados à Terra Indígena Yanomami: a instalação de Bancos de Sementes Tradicionais (BST) e a implantação de culturas em sistemas agroflorestais, ambos com o objetivo de fortalecer a soberania e a segurança alimentar dos povos indígenas. Além disso, atua no desenvolvimento, adaptação e transferência de tecnologias para a aquicultura e a pesca, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida e a autonomia alimentar das comunidades
Sandro Loris, responsável pelo projeto de pesquisa em aquicultura, indicou que o projeto deverá ser desenvolvido nas regiões de Auaris (comunidade Olomae), Alto e Baixo Mucajaí, Apiaú e Ajarani. O projeto já está em andamento e possui flexibilidade para ser implementado em outras regiões, conforme o desejo dos Yanomami e Ye’kwana.
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38 anos de Foirn: história viva e protagonismo dos povos indígenas do Rio Negro
Artesanatos, comidas, cantos e danças tradicionais marcaram a celebração na Casa do Saber, em São Gabriel da Cachoeira
Abertura da comemoração dos 38 anos da (Foirn) contou com um ritual de benzimento do povo Tuyuka|Vanessa Fernandes/ISA
Com o tema “História Viva, Movimento Indígena, Resistência e Conquistas Coletivas”, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) reuniu lideranças, parceiros e convidados no dia 30 de abril, em sua Casa do Saber, para a celebração dos 38 anos de fundação da instituição que representa os 23 povos indígenas do Rio Negro. Artesanatos, comidas, cantos e danças tradicionais marcaram a celebração, que exigiu cuidados redobrados devido ao aumento de casos de Covid-19 registrado em São Gabriel da Cachoeira nas últimas semanas. O uso de máscaras foi obrigatório, e álcool em gel foi disponibilizado nos espaços.
As boas-vindas ao evento foram feitas pelos jovens comunicadors da rede Wayuri, Imaculada Moreira, do povo Tukano, e Nayra Sthefany, do povo Baniwa, e pela articuladora do Departamento de Jovens, Mariete Pompilho, do povo Baré, nas línguas tukano, baniwa e nheengatu, respectivamente. O benzimento e a apresentação cultural do povo Tuyuka com a Dança de Cariçú também marcaram a abertuvou tentarra da festividade.
Além da atual diretoria da Foirn, representantes de instituições parceiras, públicas e privadas, e lideranças que marcaram a história da Foirn também compuseram a mesa de autoridades.
Sócio-fundador e membro da primeira diretoria da Federação, Pedro Garcia, do povo Tariana, lembrou das dificuldades e pressões sofridas à época, a exemplo de garimpeiros e empresas mineradoras, que motivaram a união e o diálogo dos 23 povos em prol da defesa do território, dando origem à federação em 1987, em assembleia realizada no ginásio da Diocese de São Gabriel da Cachoeira, que reuniu mais de 400 lideranças indígenas que vinham se organizando desde a década de 1970.
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O sócio-fundador e membro da primeira diretoria da Federação, Pedro Garcia, do povo Tariana esteve presente na comemoração|Vanessa Fernandes/ISA
“O movimento não parou, continua vivo! Espero que os novos diretores, as novas pessoas que vêm, continuem levando essa mensagem de vida, da cultura, da riqueza do nosso povo”, desejou Pedro, que foi ainda o primeiro prefeito indígena de São Gabriel da Cachoeira (2009–2012) e, como ele destaca, fruto também da luta do movimento indígena. O atual prefeito da cidade, Egmar Saldanha, o Curubinha, do povo Tariana, também esteve presente no evento.
Liderança histórica no Rio Negro, Maximiliano Correa Menezes, do povo Tukano, falou da importância da maloca Casa do Saber, na sede da Foirn, como um espaço e símbolo de articulação nas lutas e celebração das conquistas. “Aqui a gente resolve do nosso jeito, falamos na nossa linguagem, falamos nas nossas línguas. Se no primeiro momento, ao longo da criação da federação, o lema era terra e cultura, a terra a gente lutou, brigou com o governo, para que o governo reconhecesse essa terra. E essa casa aqui recebeu o ministro da Justiça, que entregou, nas mãos do presidente da Federação das Organizações do Rio Negro, o Pedro Garcia, o decreto da demarcação das terras indígenas. Então, essa casa tem história, essa casa aqui, a Casa do Saber.”
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Maximiliano Correa Menezes, do povo Tukano, reforçou a importância da maloca Casa do Saber, na sede da Foirn para articulação nas lutas|Vanessa Fernandes/ISA
Após 25 anos da criação da Foirn, Almerinda Ramos de Lima, do povo Tariana, foi a primeira mulher eleita para a presidência da entidade (2013–2016). Em seu discurso, ela destacou os desafios enfrentados ao longo das décadas, o fortalecimento da Foirn por meio da gestão compartilhada e a importância da continuidade das lutas coletivas. “Resistiremos sempre. Virão nossos jovens que ocuparão os cargos, tanto aqui na Foirn quanto nas esferas de governo. Esse é o nosso anseio, porque nós precisamos de pessoas que defendam os nossos direitos, que lutem por nós, por todos os nossos direitos conquistados, que hoje são ameaçados, e a gente precisa se fortalecer”, destacou.
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Almerinda Ramos de Lima, do povo Tariana, a primeira mulher eleita para a presidência da entidade defendeu a continuidade da luta|Vanessa Fernandes/ISA
Representando o Instituto Socioambiental (ISA), Ana Letícia Trindade, assessora em Gestão, ressaltou a importância das conquistas alcançadas ao longo da trajetória da Federação — além das demarcações dos territórios, os avanços nas áreas de saúde e educação, a participação ativa na construção da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental das Terras Indígenas (PNGATI), a consolidação dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) em todas as terras da área de abrangência da federação e o protagonismo na formulação de políticas alimentares que contribuem para a segurança alimentar dos territórios.
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Ana Letícia Trindade (ISA) relembrou conquistas da Foirn, como demarcações dos territórios e o protagonismo na formulação de políticas alimentares dos territórios|Vanessa Fernandes/ISA
“A gente comemora junto essas vitórias porque elas não fazem a diferença só aqui no Rio Negro, mas também em todos os territórios tradicionais do Brasil e impactam todo o mundo. A Foirn tem essa vocação de conseguir ouvir a sua base e dar voz às necessidades dos povos indígenas”, declarou.
Em sua fala, o presidente da Federação, Dário Casimiro, do povo Baniwa, destacou a importância da entidade para a articulação política e ressaltou o crescimento da rede de governança, que hoje conta com 118 associações de base, do alto ao baixo Rio Negro, tendo como grande desafio a extensa área territorial.
Dário também enfatizou o papel da Foirn e dos povos do Rio Negro na preservação ambiental e na valorização dos conhecimentos ancestrais, fundamentais para a gestão dos territórios indígenas. “Nós manejamos o mundo. Então, a essência, a história, os conhecimentos ancestrais são fundamentais, porque é dali que buscamos a nossa fortaleza, a nossa confiança e o nosso compromisso de sermos protagonistas no processo histórico”, disse o presidente, destacando a parceria histórica da Federação com o ISA nesse processo.
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O atual presidente da Foirn, Dário Casimiro, ressaltou o crescimento da rede de governança, que hoje conta com 118 associações de base|Vanessa Fernandes/ISA
Entre os avanços recentes, mencionou a criação do Fundo Indígena do Rio Negro como estratégia para garantir a implementação dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs). Ao final, reforçou a importância das parcerias institucionais no fortalecimento das ações da Foirn e defendeu o engajamento contínuo das lideranças e comunidades para assegurar os direitos das futuras gerações.
Ao final do dia, o médico e escritor Drauzio Varella, que já fez mais de 100 incursões pelo Rio Negro, contou sobre sua relação com a região, que originou o livro O Sentido das Águas – Histórias do Rio Negro (Companhia das Letras), inspirado pelas narrativas escutadas nas viagens e lançado durante a celebração do aniversário da Federação.
Drauzio relatou como se encantou pelas histórias de vida dos moradores, especialmente de um jovem tukano chamado Maxiliano, que lhe contou sobre a canoa de transformação. Ao reencontrar Maxiliano anos depois, ali no evento, contou tê-lo reconhecido pela voz. “Aí vejo aqui chamando o senhor Max, ele está de máscara e não o reconhecia. Mas quando ele falou hoje, eu falei: ‘É ele, não é possível, eu conheço essa voz’. Reconheci o senhor Max pela voz”, revelou.
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O médico e escritor Drauzio Varella conta a sua relação com a região, que originou o livro O Sentido das Águas - Histórias do Rio Negro|Vanessa Fernandes/ISA
Drauzio refletiu sobre a complexidade da região, que considera profundamente desconhecida por grande parte dos brasileiros. Para ele, a Amazônia é resultado tanto da ação da natureza quanto do manejo ancestral dos povos indígenas, e esse conhecimento precisa ser reconhecido e valorizado diante das narrativas históricas coloniais.
O encerramento da festa contou ainda com as apresentações das agremiações Tribo Baré, Tribo Tukano e Filhos do Rio Negro, que se apresentam anualmente no Festival Cultural das Tribos Indígenas do Alto Rio Negro, o Festribal. Por fim, houve o desfile de peças de vestuário, acessórios e utensílios da Casa de Produtores Indígenas do Rio Negro Wariró.
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Aumento de casos de Covid em São Gabriel da Cachoeira acende alerta para vacinação de crianças a partir de 6 meses
Prefeitura decretou a volta do uso obrigatório de máscaras em ambientes fechados e suspendeu aulas da rede pública de ensino
Por recomendação da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) de São Gabriel da Cachoeira (AM), as aulas da rede pública de ensino municipal, estadual e federal de São Gabriel da Cachoeira foram suspensas na última semana como medida de prevenção diante do aumento dos casos de Covid-19 no município. Em decreto publicado no dia 25 de abril, a prefeitura já havia determinado a volta do uso obrigatório de máscaras em ambientes fechados de uso coletivo, públicos e privados, como repartições públicas, estabelecimentos comerciais, escolas, igrejas e transportes coletivos. Também preocupa a baixa cobertura vacinal entre crianças a partir de seis meses de idade, grupo considerado especialmente vulnerável à doença.
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Decreto determina a volta do uso obrigatório de máscaras em ambientes fechados de uso coletivo públicos e privados|Vanessa Fernandes/ISA
O lançamento do Festribal 2025, que aconteceria no dia 26 de abril no Ginásio Arnaldo Coimbra, já havia sido adiado em atendimento ao decreto municipal. Grupos e projetos de convivência da Secretaria de Assistência Social também tiveram suas atividades paralisadas pelo período de 15 dias e o horário de atendimento ao público nos CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) e CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) foi reduzido.
O decreto nº 07/2025 atende a uma recomendação do Polo Rio Negro da Defensoria Pública do Estado do Amazonas, que alertou para o crescimento expressivo dos casos de Covid-19 nas últimas semanas. Em março, dos 197 casos suspeitos, 87 foram confirmados. Até segunda-feira (28/04), a Semsa contabilizou 477 casos positivos entre os 1.258 pacientes testados nas unidades de saúde durante o mês de abril.
Há relatos na cidade sobre pelo menos três óbitos, que a Semsa relaciona a comorbidades pré existentes e afirma que estão em investigação. “A gente tem mortes, sim, sendo investigadas, mas precisamos aguardar o protocolo de apuração dessas mortes suspeitas”, explicou Aline Moreira, coordenadora de Atenção Básica da Semsa.
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Aviso na estrada do escritório da CR Rio Negro da Funai alerta para o uso obrigatório de máscaras|Vanessa Fernandes/ISA
Segundo Aline, as medidas tomadas e recomendadas pelo município são preventivas e visam conter o avanço não apenas da Covid-19, mas também de outras síndromes respiratórias, em especial a Influenza B, que tendem a se agravar com as chuvas. “A gente não está no inverno, mas tem chovido muito em São Gabriel da Cachoeira, então a gente tem que ter essa preocupação e que todos tenham consciência de que não é só o Covid que está rodando. A gente tem vários vírus respiratórios que a gente precisa se cuidar, sim”, reforça.
Nos casos negativos para covid, os pacientes são submetidos a testagem para a Influenza B, malária e dengue, a fim de determinar o tipo de infecção que circula na região.
A coordenadora destacou a preocupação com a baixa cobertura vacinal contra Covid e Influenza entre os grupos prioritários, especialmente em crianças a partir dos seis meses. Por isso, a campanha de vacinação será reforçada para este público, que inclui gestantes, idosos e professores, a partir desta segunda-feira (05) em todas as Unidades Básicas de Saúde do município. Segundo ela, os estoques de kits de testagem, máscaras, álcool em gel e medicamentos também foram ampliados em toda a rede.
Descida em massa preocupa
O decreto municipal também condiciona o acesso às terras indígenas à apresentação de comprovante de vacinação atualizada contra a Covid-19 e teste negativo realizado nas últimas 48 horas. A fiscalização será de responsabilidade do Distrito Sanitário Especial de Saúde Indígena (Dsei).
O fluxo entre as comunidades e a sede do município — comum para atendimentos de saúde, acesso a benefícios sociais e compra de mantimentos — deve aumentar nos próximos dias com a chegada do PREVBarco, unidade flutuante da Previdência Social, a São Gabriel da Cachoeira. A expectativa é de uma “descida em massa” das comunidades, segundo Evaldo Márcio Alencar de Araújo, coordenador substituto da Coordenadoria Regional (CR) da Funai no Rio Negro.
Diante desse cenário, a CR Rio Negro tem articulado com o Dsei e outras instituições estratégias para minimizar os riscos de contágio. “Vamos discutir as estratégias e a viabilidade de montar equipes para fazer o controle e uma triagem lá em cima, e preparar também para recebê-los aqui [na sede do município]”, afirma Alencar. A possibilidade de instalação de barreiras sanitárias em pontos estratégicos do Rio Negro também será discutida.
Por meio das redes sociais, o Dsei Alto Rio Negro informou que não há surto de Covid dentro do território Alto Rio Negro, mas sim um aumento de casos de síndromes gripais, e orienta para que os usuários indígenas atualizem a vacinação, busquem atendimento junto às Equipes Multiprofissionais de Saúde Indígena para testagem, além de fortalecer os cuidados com a medicina tradicional.
Ainda de acordo com o Dsei, todas as equipes são testadas antes de entrar nos territórios e estão munidas de medicamentos e testes rápidos para fazer os atendimentos nas comunidades, além da disposição de transporte adequado para eventuais necessidades de remoção via aérea, fluvial ou terrestre.
Índice vacinal
Conforme dados da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), a cobertura do esquema vacinal primário (primeira e segunda doses da vacina) em São Gabriel da Cachoeira é de 92,9%, estando acima do Estado do Amazonas (73,9%) e de Manaus (81%).
A faixa etária com menor cobertura é entre adolescentes de 12 a 17 anos, que é de 35%. “Precisamos que os jovens também se vacinem”, alerta Aline Moreira.
O que chama a atenção no levantamento é que nas cidades de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos - também na região do Rio Negro - o índice de vacinação (primeira e segunda doses) está abaixo dos 50%. Em Santa Isabel, esse índice é de 38,8% e, em Barcelos, está em 49,2%.
O secretário de Saúde de São Gabriel, Christian Barros, informou que, havendo necessidade, a Secretaria Municipal de Saúde pode promover ações conjuntas com os outros municípios. “O fluxo de pessoas transitando entre esses municípios é grande. E as embarcações que transportam passageiros via fluvial para São Gabriel da Cachoeira, também transportam passageiros para esses municípios”, pondera Barros.
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“Nós também temos ciência”: a travessia acadêmica de três mestres Yanomami
Odorico, Edinho e Modesto superam desafios e fazem história na Universidade Federal do Amazonas (UFAM) com dissertações que valorizam o conhecimento ancestral
Da esquerda para direita: Modesto, Edinho, Davi e Odorico após a conclusão das três defesas|Fabrício Araújo/ISA
“O pensamento vem da floresta, vem do rio, vem da casa”, afirmou Odorico Xamatari na defesa de sua dissertação de mestrado, realizada em 23 de abril, em Manaus (AM). Essa frase resume não apenas uma trajetória acadêmica, mas um marco na história da educação brasileira: pela primeira vez, três Yanomami — Odorico, Edinho Xamatari e Modesto Amaroko — tornaram-se mestres pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
Os três pesquisaram temas da própria cultura com o desejo de que o conhecimento dos pata — os anciãos e lideranças de seu povo — seja registrado e ensinado às futuras gerações. Também enfrentaram grandes desafios — como a seca dos rios e a falta de alimentação, computadores e recursos. Ainda assim, persistiram.
Ao final, suas defesas não aconteceram apenas entre paredes universitárias: ecoaram no auditório lotado da UFAM, mas também entre os xapono — casas coletivas dos Yanomami. Foram, ao mesmo tempo, ritual e resistência, ciência e encantamento.
Davi Kopenawa, xamã e liderança histórica do povo Yanomami, acompanhou com orgulho a trajetória dos três mestres e integrou as bancas de avaliação, amparado por seus títulos de Doutor Honoris Causa concedidos pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e pela Universidade Federal de Roraima (UFRR).
“Quando vocês eram pequenos, eu já lutava para que nosso povo não fosse apagado. Lutava contra um governo que nos matava. Hoje, essa luta floresce em vocês, e isso me enche de orgulho”, disse.
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Davi Kopenawa durante arguição da banca de Edinho|Fabrício Araújo/ISA
Odorico, Edinho e Modesto escreveram seus projetos de pesquisa em língua Yanomami, o que surpreendeu a UFAM. A universidade trabalha com projetos em português, mas entendeu a necessidade de contemplar os projetos em língua Yanomami. A vontade de pesquisar nasceu inspirada pelo trabalho de Davi Kopenawa e sua obra A Queda do Céu, referência fundamental para o trio.
Mas o caminho até a conclusão dos estudos exigiu resistência: enfrentaram até os efeitos das mudanças climáticas, que provocaram uma das secas mais severas do Amazonas que interrompeu o calendário tradicional das aulas. Diante disso, foi preciso se adaptar: os professores seguiram até os xapono dentro da Terra Indígena, onde o conhecimento continuou a circular, mesmo em meio à crise ambiental.
Os trabalhos se concentraram em músicas tradicionais dos Yanomami, xamanismo e como um indígena se torna um hekura (xamã) e sobre o uso da linguagem Yanomami no ensino. Os trabalhos também trazem reflexões sobre a relação dos indígenas mais jovens com a tecnologia, especialmente os celulares que abriram uma nova dimensão de acesso à cultura e idioma dos não indígenas.
Derrubada da barreira linguística
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Da esquerda para direita: Paulo, Odorico, Modesto, Davi, Edinho, Caio, João e Agenor ao fim da defesa de Modesto|Fabrício Araújo/ISA
De acordo com Caio Augusto Teixeira Souto, coordenador do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia da UFAM, o primeiro desafio do programa foi receber os três projetos em Yanomami.
Embora a UFAM já houvesse contado com defesas em línguas indígenas, o mestrado previa apenas a apreciação de projetos em português.
O edital precisou ser retificado e, para viabilizar a tradução dos projetos, o programa contou com a assessoria de Silvio Cavuscens, coordenador da Associação Serviço e Cooperação com o Povo Yanomami (Secoya), organização que atua há mais de três décadas junto aos Yanomami do rio Marauiá.
“Ficou evidente que havia ali não apenas temas consistentes, mas uma lógica própria de construção do conhecimento, com objetivos, justificativas e metodologias profundamente articuladas à cosmologia e à realidade Yanomami”, detalhou Souto ao Instituto Socioambiental (ISA).
Uma vez aprovados, os Yanomami precisavam lidar com um novo desafio: não havia bolsas disponíveis e eles ainda precisariam se deslocar de suas comunidades até o Centro de Estudos Superiores de São Gabriel da Cachoeira da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
“Sem dinheiro, ninguém pesquisa. Sem dinheiro, a gente nem chega nos espaços onde acontecem o mestrado”, resume Odorico. Segundo ele, além do deslocamento, ainda os mestres Yanomami precisavam de alojamento, alimentação e equipamentos básicos para uma pesquisa nos dias atuais. Eles começaram os estudos sem computadores ou notebooks, e fizeram as anotações à mão ao longo do primeiro ano de mestrado.
Modesto e Odorico são do xapono Balaio, Edinho iniciou o curso morando no Pohoroá, depois ajudou a fundar outro xapono, o Cachoeirinha. Todos no Rio Marauiá, de onde os Yanomami levavam em média até quatro dias para se deslocar até o centro de estudos.
Em São Gabriel da Cachoeira, eles foram abrigados na casa de apoio da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn). Para comer, fizeram um acordo com um restaurante e acumularam uma dívida que começaria a ser paga quando recebessem as bolsas.
“Isso foi me deixando preocupado e comi cada vez menos até começar a receber a bolsa”, explicou Edinho.
“No segundo semestre de 2023, com a estiagem severa que atingiu o Amazonas, os rios secaram e eles ficaram presos nos seus territórios, sem conseguir retornar às aulas e sem meios de comunicação com a coordenação do curso. Foi essa situação que nos levou a organizar um deslocamento ao território Yanomami para realizar a orientação e as aulas finais de uma disciplina obrigatória em regime domiciliar”, afirma o coordenador na UFAM, Caio Augusto Teixeira Souto.
Para realizar as aulas no xapono, os professores que orientaram as pesquisas, Souto e Agenor Cavalcanti de Vasconcelos Neto, também tiveram que contar com improvisos. Os docentes foram enviados pela UFAM para São Gabriel da Cachoeira para implementar bolsas concedidas a partir de 2024 por um período de 12 meses.
No entanto, a universidade não tinha condições de custear a ida da dupla ao xapono. Eles pediram apoio à Foirn e conseguiram passagens fluviais até Santa Isabel do Rio Negro. E para chegar à casa dos mestrandos, os professores contaram com ajuda de seus pupilos.
“O próprio Odorico assumiu o protagonismo dessa missão e, num dia, vendo nosso incômodo por não termos conseguido apoio logístico para subir o Marauiá, nos disse: ‘Está tudo pronto. Eu levo vocês na minha rabetinha [pequena embarcação com motor]’. Era um gesto de autonomia e liderança: foi ele quem organizou toda a travessia, juntamente com sua esposa e filha, e mais um parente na pilotagem da pequena embarcação”, contou Caio.
Modesto conta em sua dissertação que houve uma longa conversa com o pata da comunidade para que os professores fossem recebidos com um reahu (festa em Yanomami). A chegada dos professores e a grande festa também foi registrada nos outros dois trabalhos.
“Nós pensamos que esse encontro tinha que mostrar bem claro que nós Yanomami também temos o nosso jeito próprio de ensinar e aprender. Não era só uma visita qualquer. Era uma oportunidade para mostrar aos professores napë (o outro, não Yanomami, não indígena) como é o conhecimento yanomami dentro do xapono”, documenta trecho da dissertação de Modesto.
Segundo Caio, a convivência no xapono se transformou em uma verdadeira troca de saberes: enquanto os professores ensinavam sobre metodologia e pesquisa, os Yanomami ensinavam como atar uma rede e regras de convivência, como não usar uma panela sem permissão porque passa a mensagem que você está rejeitando a comida da outra pessoa.
‘Matohi é arte e é ciência’
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Odorico Xamatari foi o primeiro a fazer a defesa de mestrado|Fabrício Araújo/ISA
“Matohi é arte e é ciência”, escreveu Odorico em trecho da conclusão de sua pesquisa intitulada “Matohi Yanomami: Uma Autoetnografia do Corpo de um Aprendiz de Hekura do Xapono Balaio do Rio Marauiá/AM”.
Odorico Xamatari Hayata Yanomami foi o primeiro a apresentar sua defesa na manhã de 23 de abril. Sua pesquisa investiga os matohi — objetos sagrados utilizados pelos Yanomami no processo de se tornarem hekura, ou xamãs.
Na região em que Davi Kopenawa vive, matohi se escreve matehipë e hekura tem o mesmo significado que xapiri (espíritos e estado de transe alcançado pelos xamãs), conforme relatou o Dr. Paulo Roberto de Sousa. Yanomamɨ, sanöma, ninam, yanomam, ỹaroamë, yãnoma são as seis línguas faladas na Terra Indígena Yanomami.
“O pensamento vem da floresta, vem do rio, vem da casa. É assim que se forma o pensamento que me deu a ideia da autoetnografia. Eu falo do meu corpo que é espírito e arte”, disse Odorico em sua banca de defesa.
Ainda de acordo com a dissertação de Odorico, ele optou por uma metodologia interdisciplinar, que prioriza o respeito pelos costumes do povo dele. A autoenografia estava posta por falar da própria experiência.
“Uma universidade amazônida se reencontra com ela mesma em um momento como este em que trazemos indivíduos como este para ela. Foi um prazer ler o trabalho do Odorico e ele precisa ser publicado”, disse o Dr. Theo Machado Fellows.
Além de Theo, Davi e Paulo como membros da banca, estiveram na avaliação a orientadora Drª Marilena Corrêa da Silva Freitas e os co-orientadores Dr. Agenor Neto e Caio Souto.
Waika Karina
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Edinho Xamatari explicando a dissertação que investiga a língua falada no xapono Pohoroá|Fabrício Araújo/ISA
Edinho Yanomami Yarimina Xamatari foi o segundo a fazer a defesa da dissertação em 23 de abril. Em “Pohoropihiwitéri Pë ã Rii Rë Haiwei - A Língua Materna Dos Yanomami De Pohoroá”, Edinho investiga mudanças na língua Yanomami e formas de garantir o ensino mais tradicional possível - da maneira como a língua é atualmente, antes de novas interferências - para os mais jovens.
Ciente da diversidade linguística entre os povos da Amazônia — inclusive entre os próprios Yanomami —, Edinho decidiu investigar a língua falada no xapono Pohoroá, em Santa Isabel do Rio Negro. Ele a identifica como Waika Karina, idioma específico de sua comunidade.
“Eu sempre soube que queria fazer um trabalho sobre a língua Yanomami e o meu povo me ajudou a construir a minha dissertação. Eu estava buscando, resgatando e construindo tudo em Yanomami para que outros jovens possam saber falar com as palavras Yanomami. Eu gostei muito de fazer este trabalho, este sempre foi o meu pensamento de pesquisa e agora penso que pode servir para o futuro. Estou muito emocionado com o trabalho que eu fiz para o meu povo”, disse ao ISA.
Edinho é professor em sua comunidade e notou que no próprio xapono existem diferenças do Waika Karina entre os rohote (velhos) e ihiru (meninos/crianças). A partir disto, ele criou um glossário com palavras e expressões-chave para a educação das crianças.
“A epígrafe que abre o trabalho dele já é impactante: ‘nós também temos ciência’. E esta é uma frase dele em um trabalho em que ele faz um contraponto entre a educação escolar indígena e a educação escolar Yanomami”, argumentou a Drª Marilina Conceição Pinto, membro da banca.
Embora já existam glossários e dicionários Yanomami, Edinho argumenta que os outros partem da perspectiva de não indígenas, enquanto a dissertação dele representa uma pesquisa a partir da perspectiva de um Yanomami investigando o próprio povo.
‘A todo povo Yanomami’
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Modesto Xamatari apresentou dissertação que originou um documentário sobre os três novos mestres|Fabrício Araújo/ISA
Dedicado “a todo povo Yanomami”, A Pesquisa “Amõa Yanomami: Reflexões Sobre A Função e as Transformações das Amõas (Músicas) Na Vida Do Xapono Balaio Do Rio Marauiá” faz uma relação entre as canções tradicionais e o aprendizado de conhecimentos tradicionais, principalmente a língua.
Modesto Yanomami Xamatari Amaroko encerrou as defesas de dissertação de mestrado dos Yanomami. Na introdução de sua pesquisa, ele explica que optou pela oralidade e por anotações feitas à mão — tanto por respeito à forma tradicional de transmissão de saber entre os Yanomami quanto pela falta de recursos para adquirir um computador no primeiro ano do curso.
Ainda conforme a pesquisa, as amõas são ensinadas desde a infância e há músicas para tudo: dormir, acordar e brincar. No entanto, nem todo mundo pode cantar todas as amõa, há canções específicas para pajés e mulheres.
“Eu pesquisei a minha própria cultura. O mais importante foi poder falar sobre amõa (música). Isso é importante para mim, mas também para as crianças e jovens de onde eu moro, além de ter sido muito proveitoso para os caciques. Mas, não foi nada fácil porque minha família, minha própria comunidade, não queriam liberar o tema para mim. Mas eu insisti e pedi permissão às lideranças para pesquisar amõa”, explicou Modesto ao ISA.
A pesquisa de Modesto reflete ainda sobre a relação dos Yanomami mais jovens com as músicas dos não indígenas desde que os celulares chegaram às comunidades. Modesto pontua que parte dos muitos jovens diz não ser mais Yanomami, mas sim “filhos dos napë” desde que começaram a ouvir forró, sertanejo, funk e outros ritmos musicais.
“O que eu quero dizer sinceramente é: obrigado, Modesto. Obrigado, povo Yanomami. Vocês mudaram o meu pensar e encheram o meu coração de esperança”, disse o Dr. João Gustavo Kienen, membro da banca de Modesto.
O trabalho de Modesto apresenta ainda as sete amõas que foram cantadas quando os professores Agenor Neto e Caio Souto chegaram ao xapono Balaio. Ele explica o significado que cada uma delas tem e ainda apresenta um documentário como produto da pesquisa.
Intitulado “Mestres Yanomami do Rio Marauiá”, o audiovisual conta a jornada dos três mestres a partir de suas próprias palavras orais, como preferem os Yanomami. O material tem duração de 30 minutos e foi exibido pela primeira vez após a palestra de Davi Kopenawa na UFAM, em 22 de abril.
Assista ao documentário abaixo:
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Lideranças Yanomami, Kayapó e Munduruku discutem no ATL 2025 avanços e desafios da retirada de garimpeiros
Roda de conversa organizada pela Coiab fez balanço das ações de desintrusão e apontou caminhos para fortalecer a proteção dos territórios indígenas
Nesta terça-feira (08/04), na tenda da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), no Acampamento Terra Livre (ATL) 2025, lideranças indígenas se reuniram para discutir diagnósticos, denunciar problemas e propor estratégias conjuntas para a proteção de seus territórios. A presença do Cacique Raoni Metuktire, liderança histórica do povo Kayapó, marcou a roda de conversa.
Cacique Raoni Metuktire, liderança histórica do povo Kayapó, participou de conversa sobre garimpo ilegal|Renan Khisetje/Aik Produções/ISA
O encontro reuniu representantes da Aliança em Defesa dos Territórios — formada em dezembro de 2021 por lideranças Yanomami, Munduruku e Kayapó — e do povo Parakanã, além de especialistas de organizações parceiras, para discutir os desafios da desintrusão de garimpeiros e as medidas urgentes para a recuperação e proteção das Terras Indígenas afetadas pelo garimpo.
Ao longo da conversa, foram compartilhados diagnósticos, experiências e estratégias para enfrentar os impactos das invasões garimpeiras, avaliar as ações adotadas até o momento e fortalecer a luta contínua pela proteção dos territórios indígenas.
Julio Ye’kwana, presidente da Associação Wanasseduume Ye’kwana (SEDUUME), abriu a mesa destacando a persistente ameaça do garimpo em suas terras. Segundo ele, apesar dos avanços após o decreto de emergência na Terra Indígena Yanomami em janeiro de 2023, parte do garimpo continua ativo. "Não estamos no pós-desintrusão, estamos durante e com muita expectativa para que as operações dêem certo", afirmou Julio Ye’kwana.
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"Não estamos no pós-desintrusão, estamos durante e com muita expectativa para que as operações dêem certo", disse Julio Ye'kwana|Renan Khisetje/Aik Produções/ISA
Ele reconheceu avanços nas áreas de saúde e proteção territorial, mas ressaltou que os desafios ainda são grandes. Como exemplo, citou a persistência da malária, doença que continua fazendo vítimas no território.
“Hoje está melhor, mas a malária ficou — e tem o mercúrio no rio, que a gente não vê”, alertou. Descreveu ainda melhorias no dia a dia das comunidades após a decretação da emergência Yanomami: “Durante o garimpo, os jovens foram aliciados. Depois da emergência, eles começaram a voltar para a comunidade, a estudar e a trabalhar novamente.”
Julio sublinhou a importância de trabalhar em rede, exaltando a forma como a aliança criou estratégias para falar com governo e com ministérios, por meio de intercâmbios e diálogos que articularam soluções dessa luta comum.
Já o Cacique Raoni, uma das figuras mais emblemáticas da luta indígena no Brasil, falou com emoção sobre o compromisso do povo Kayapó com a preservação da natureza. “Os brancos só pensam em fazer coisas ruins que prejudicam nós, a natureza, a nossa vida", disse. Ele defendeu a união dos povos indígenas para combater as invasões e a destruição das florestas e fez um apelo para que as gerações mais novas continuem a luta.
Dário Kopenawa, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami (HAY), reforçou a fala da liderança Ye’kwana, afirmando que a desintrusão da Terra Indígena Yanomami ainda não está concluída e que algumas ameaças persistem. Dário alertou sobre o envolvimento de facções criminosas com a exploração garimpeira e chamou a atenção para a dinâmica transacional desses grupos, o que dificulta a fiscalização.
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Dário Kopenawa, da Hutukara Associação Yanomami, alertou sobre a ação de facções criminosas no garimpo|Renan Khisetje/Aik Produções/ISA
Ademir Kaba, liderança do povo Munduruku, destacou que as pressões ao seu território persistem, embora a TI tenha sido alvo recente de uma operação de desintrusão, e que o enfrentamento ao garimpo ilegal exige continuidade e reforço nas ações. “Não podemos nos dar ao luxo de estar felizes. O garimpo causa um impacto irreversível”, afirmou, reforçando a importância de medidas consistentes para proteger os territórios indígenas e garantir a responsabilização dos invasores.
Estevão Benfica Senra, geógrafo do Instituto Socioambiental (ISA) que atua em defesa do povo Yanomami há mais de 10 anos, ressaltou que os dados de sensoriamento remoto indicam uma redução significativa na escala da atividade na Amazônia como um todo — resultado da atuação conjunta de lideranças indígenas, organizações da sociedade civil e órgãos de fiscalização.
Segundo o geógrafo, de acordo com a plataforma Amazon Mining Watch houve uma redução de 35% no incremento anual da área afetada pelo garimpo na Amazônia em relação ao ano de 2023, e que esta redução foi impulsionada pela desaceleração observada no território brasileiro .
“É uma luta árdua, mas está valendo a pena”, afirmou. Senra também enfatizou a importância de avançar na regulamentação e fiscalização da cadeia do ouro no Brasil, especialmente nos pontos de origem e comercialização, para impedir que o ouro ilegal continue entrando no mercado formal.
Ao final da atividade, Jorge Dantas, coordenador da frente de Povos Indígenas do Greenpeace Brasil, apresentou o relatório “Ouro Tóxico”, lançado durante o ATL e que reúne dados recentes sobre a devastação provocada pelo garimpo ilegal nas Terras Indígenas Yanomami, Kayapó, Munduruku e Sararé, entre 2023 e 2024.
O documento denuncia a falta de transparência no comércio internacional de ouro — diretamente ligado à destruição ambiental — e propõe medidas urgentes, como a proibição do uso de mercúrio na extração do minério e a destinação do ouro apreendido para financiar a recuperação das áreas degradadas.
O evento foi encerrado com um chamado à união entre lideranças indígenas, movimentos sociais e órgãos públicos, reforçando a necessidade de ações coordenadas e contínuas no combate ao garimpo ilegal e na defesa dos direitos dos povos indigenas e do meio ambiente.
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"A virada dos tempos": indígenas na Amazônia buscam soluções para a crise climática
Os “assopros de apaziguamento” dos indígenas do Rio Negro para proteger corpos e territórios
Eventos climáticos extremos, como dois anos consecutivos de secas recordes e de calor na Amazônia, deixam marcas. Não só nas paisagens, mas também nos corpos e subjetividades de quem vive nas florestas, cidades e comunidades que formam esse bioma.
Entender como se adaptar e como podemos reagir a este problema de escala planetária demanda habilidade de manejar a angústia e tentar impulsioná-la rumo às soluções. A impotência frente a um mundo manipulado pelo poder econômico das grandes corporações favorece o encasulamento e a desagregação, prejudicando as relações humanas e seus coletivos em tempos de inteligência artificial e solidão nas telas.
As comunidades indígenas na Amazônia, em especial os jovens, têm sofrido sérios impactos na saúde mental. Casos de depressão, suicídio, auto-mutilação e aumento do vício em drogas e álcool mostram um quadro que reflete consequências de violências históricas e atuais, acentuadas ainda mais pelo contexto da crise socioambiental.
A taxa de suicídio entre indígenas no Brasil já supera em quase três vezes a da população não indígena. A proporção destas mortes é mais elevada nos estados do Amazonas e Mato Grosso do Sul, como apontou estudo publicado na Lancet Regional Health Americas, produzido pela Fiocruz e Universidade de Harvard. No município de São Gabriel da Cachoeira (AM), considerado o mais indígena do Brasil, a Prefeitura criou um Comitê Interinstitucional para lidar com a problemática da saúde mental junto aos 23 povos indígenas da região, e em 2024 elaborou um plano municipal de prevenção ao suicídio.
Arlindo Maia (Ye´pârã, nome indígena), guardião dos saberes do grupo Oyeá, do povo Tukano, da Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas, conta que a crise ambiental foi prevista pelo seu avô, Lino Maia, nascido no Rio Papuri, entre Brasil e Colômbia. Lino era conhecedor dos lugares sagrados dos Tukano e previu que chegaria um tempo de doenças e de destruição, no qual toda a humanidade sofreria, não só os indígenas, que já tinham passado pela degradação de seus mundos com a violência dos colonizadores.
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Arlindo Maia, guardião dos saberes do grupo Oyeá, do povo Tukano, da Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas|Juliana Radler/ISA
O começo deste tempo narrado pelo Seu Lino se deu em 2020, na pandemia de Covid 19, revela Arlindo, em conversa gravada na biblioteca do Instituto Socioambiental (ISA), em São Gabriel da Cachoeira, em março deste ano, sobre os impactos da crise climática.
A entrevista com o guardião dos saberes registrou orientações para um ciclo de estudos interculturais voltado para lideranças indígenas do Rio Negro sobre clima, mercado de carbono, adaptação e mitigação às mudanças do clima, em parceria com o ISA e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn).
“Nessa virada do tempo, como dizia meu avô, a humanidade vai diminuir. Teremos muitas mortes coletivas devido à vingança da natureza. Estamos vivendo já as consequências do que os antigos previam. Por um lado, me sinto privilegiado por presenciar e atestar o que eles falavam há anos atrás”, ressalta.
Para a humanidade viver bem na natureza, os pajés do tempo antigo sabiam negociar com os waimahsã, seres às vezes traiçoeiros, que têm um certo ciúme dos humanos, conta Arlindo. Para resolver problemas ambientais, como, por exemplo, falta de chuva ou escassez de peixe, os pajés sabiam fórmulas sagradas para apaziguar a situação e retomar a harmonia, curando o mundo. Em Tukano, esse conjunto de práticas é chamado de bahsese e constitui um amplo e complexo conhecimento sobre a saúde do corpo e do território.
“Em seus benzimentos, eles faziam assopro de conciliação buscando sempre harmonia com a natureza, onde coabitam muitos seres e donos dos lugares. Os não indígenas provocam a fúria e a guerra com estes seres (waimahsã) porque constroem onde não pode, exploram a terra com mineração, barragens e outros empreendimentos que dizem ser para o progresso. Não sou contra o progresso, mas ele não pode acontecer distanciado da cultura, visando o poder e o dinheiro. A palavra poder é que começa a causar o problema”, constata.
Embaralhamento
Na língua Tukano, um dos quatro idiomas indígenas co-oficiais em São Gabriel da Cachoeira, é difícil traduzir a expressão mudanças climáticas. No pensamento de Arlindo, o termo não transmite o que estamos vivendo com o colapso dos ecossistemas. Su´riásche, que em Tukano significa embaralhamento, é o que mais se aproxima do que observamos estar ocorrendo com a natureza, na vivência de Arlindo.
“Estamos sem ordem do clima, do tempo, das estações. Vivemos em um embaralhamento e não podemos mais prever os ciclos naturais”. Este distúrbio retira o encadeamento natural dos ciclos, o que acarreta males em nós seres humanos, explica o guardião.
Assim, ficamos também confusos e perturbados, sem orientação. “Temos que pensar no valor das palavras, porque elas têm muito poder em nós. Nós somos Pamurimasã, que significa gente do surgimento. Neste surgimento existe diversidade e muitas línguas são faladas. E precisamos entender esta diversidade para sobreviver”.
Para os Tukano, nos ensina Arlindo, o clima é observado nas constelações. No céu escuro estrelado está o caminho dos ciclos climáticos que regem a vida na Terra. “As constelações não mudaram e elas ainda nos apontam o caminho. Mas, nós, viventes, causamos este problema de embaralhamento do clima”.
Crisálida
O debate sobre o enfrentamento às mudanças climáticas deve passar pelo fortalecimento da educação indígena, da cultura, da saúde e dos saberes locais sobre o território. Arlindo brinca que a cultura do seu povo está em estágio de “crisalidez”. Esse neologismo expressa um estado de crisálida, quando o ser não se move porque está se transformando em algo novo. Assim ele vê sua cultura nos tempos atuais.
Por isso, Arlindo enfatiza a urgência de criar alternativas que garantam a permanência dos jovens no território, assegurando a continuidade das trocas geracionais e a transmissão dos conhecimentos. Nos últimos anos, a saída de jovens das Terras Indígenas do Rio Negro aumentou fortemente com o vestibular indígena e as cotas nas universidades, como UnB, Unicamp e UFSCAR.
Sem diminuir a importância e a conquista da política de cotas indígenas nas universidades, o que se observa é que é necessário também ter alternativas de formação para quem está no território e almeja estudar em contexto intercultural, fazendo articulações entre saberes indígenas e não indígenas.
Assim, a proposta do ICIPRN - Instituto de Conhecimentos Indígenas e Pesquisa do Rio Negro, que é registrada no Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA Wasu) do Rio Negro, principal documento que indica formulações de políticas e projetos para os territórios dos povos rionegrinos, deve ser priorizada como parte fundamental para o enfrentamento das mudanças climáticas. Além disso, iniciativas como o Fundo Indígena do Rio Negro, que fomenta a sociobioeconomia e atividades da cultura indígena, na visão de Arlindo, precisam ser fortalecidas para que a cultura e os saberes indígenas sobrevivam à virada dos tempos.
Rede de pesquisadores indígenas
Mauro Pedrosa, do povo Tukano, é agente indígena de manejo ambiental (AIMA) e integra uma rede que há 20 anos atua na Bacia do Rio Negro fazendo pesquisas e observações sobre o meio ambiente e a cultura. Os registros são feitos com tablets e diários, onde os AIMAs fazem anotações e descrevem observações relacionadas às suas comunidades, vivências cotidianas e relação com a floresta e o rio.
Em sua rotina de trabalho, Mauro também lê os diários dos outros pesquisadores indígenas e apoia na organização e gestão do conhecimento gerado por essa rede. Tem lhe chamado a atenção as narrativas sobre escassez de peixe, dificuldades de trabalho na roça devido ao calor, perda de cultivos por conta do sol escaldante e de desequilíbrios na fauna, como ataques de caititus (porcos do mato) nas roças de mandioca, assim como apodrecimento de manivas.
“Acredito que as futuras gerações não terão peixe para comer no Rio Tiquié se continuar deste jeito. Os AIMAs contam que os homens estão mergulhando para pegar peixe porque não conseguem pescar. Pari-Cachoeira, por exemplo, não tem mais nada de peixe”, informa Mauro, referindo-se ao segundo maior distrito da TI Alto Rio Negro, no Alto Rio Tiquié, próximo à fronteira com a Colômbia.
Quando ele era criança, recorda, o tempo não era como agora, tão quente e instável. Mauro, que tem 38 anos, lembra que antigamente era possível fazer previsões sobre os ciclos anuais, assim como os períodos de seca e cheia do rio. Ele conta que os AIMAs também têm relatado aumento de temporais, com muitos trovões e raios, mas com menos chuva do que antes.
“Fico preocupado, porque os nossos conhecedores estão morrendo e com eles morrem os conhecimentos. Sem eles, vamos ter mais doenças nas comunidades porque vamos ficar desprotegidos. Por isso é muito importante essas oficinas dos AIMAs com repasse dos conhecimentos dos antigos para os mais jovens. Isso é que precisamos, pois quando o conhecedor está forte na comunidade, ele protege e cuida da comunidade”, conclui.
OMS recomenda prioridade à saúde mental
A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou uma análise de políticas públicas durante a Cúpula Ambiental Estocolmo+50 indicando que o apoio à saúde mental seja incluído nas respostas nacionais às mudanças climáticas. O próprio Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) reconheceu que o aumento acelerado das mudanças climáticas constitui grave ameaça à saúde mental e ao bem estar psicossocial, sobretudo, das populações mais vulneráveis, como os indígenas.
A médica espanhola Maria Neira, diretora do Departamento de Meio Ambiente, Mudanças Climáticas e Saúde da OMS, enfatizou que "os impactos das mudanças climáticas fazem cada vez mais parte do nosso cotidiano, e há muito pouco apoio dedicado à saúde mental disponível para as pessoas e comunidades que lidam com perigos relacionados ao clima e riscos de longo prazo".
A OMS destacou que alguns países vêm construindo um caminho a ser seguido, dando o exemplo das Filipinas, que reconstruíram e melhoraram os serviços de saúde mental após o tufão Haiyan em 2013, um dos mais potentes ciclones tropicais já registrados na história.
*Agradecimentos a Aloisio Cabalzar, Arlindo Maia Tukano, Danilo Bruxellas Parra e Renato Martelli pela revisão e comentários feitos para a publicação desta notícia.
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Em oficina em Manaus, comunicadores indígenas e quilombolas trocam saberes e fortalecem narrativas orais
Rede Wayuri reuniu coletivos amazônicos para explorar novas estratégias de comunicação e fortalecer suas comunidades
Mais de 30 comunicadores indígenas e quilombolas de coletivos do Amazonas, Mato Grosso, Pará, Maranhão e Rondônia participaram da segunda etapa da Oficina de Comunicação Popular da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas do Rio Negro, realizada em Manaus entre os dias 8 e 14 de março.
Entre atividades práticas e trocas de experiências, os participantes levantaram pautas culturais, políticas e estratégias de resistência e fortalecimento de suas comunidades e territórios por meio de ferramentas de comunicação, com foco no rádio, produção em áudio e sua adaptação para outros formatos.
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Encontro de comunicadores dos estados da Amazônia Legal aconteceu em Manaus e foi liderado pela Rede Wayuri|Vanessa Fernandes/ISA
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Oficina promoveu intercâmbio entre comunicadores da Amazônia Legal|Vanessa Fernandes/ISA
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Irinelson Freitas, da Rede Wayuri, grava Mary de Jesus, comunicadora quilombola|Vanessa Fernandes/ISA
Estiveram representados os coletivos Justiça nos Trilhos (MA), Rádio e TV Quilombo Rampa (MA), Guerreiras da Floresta (MA), Guardiões da Floresta (MA), Rede Xingu+ (MT e PA), Comunicadores Indígenas de Rondônia (RO) e Rede de Comunicadores Indígenas Mura (AM).
Sob a condução da jornalista cearense Pâmela Queiroz, criadora do Caatingueira Podcast e técnica em jornalismo na Rádio Unaé, os participantes exploraram as potências das narrativas orais e multiplataformas. Este, inclusive, foi o fio condutor da roda de conversa do primeiro dia de encontro, onde cada coletivo pôde apresentar um pouco do trabalho realizado no território, seus desafios e potencialidades.
A comunicadora e ativista Sâmela Sateré Mawé abriu o diálogo contando sobre sua trajetória na comunicação indígena, em especial seu trabalho na internet como ativista e influenciadora digital, até sua atuação na Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e na Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga).
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Sâmela Sateré Mawé, comunicadora indígena, conversa com participantes da oficina|Vanessa Fernandes/ISA
“É muito importante que a gente esteja nesses espaços, fortalecendo o espaço da comunicação, porque nós somos protagonistas dessas narrativas. [É] aprendendo uns com os outros esse fazer coletivo que a gente faz tão bem, que é a comunicação indígena”, reforça.
No decorrer dos dias, divididos em grupos e formando pequenas redações, os comunicadores experimentaram as diferentes etapas da produção: elaboração de pautas, escrita, manuseio técnico de equipamentos e pós-produção. Eles puderam aprender observando o fazer de seus parentes e também praticando a comunicação em aulas focadas na prática jornalística multilinguagem”, explica Pâmela Queiroz.
Como oportunidade para exercitar ainda mais a escuta ativa e as técnicas de entrevista, a programação incluiu uma visita a duas iniciativas em Manaus: a rádio Sapupema, o primeiro veículo de comunicação indígena do Amazonas, e o Instituto Witoto, liderado por mulheres e que atua pelo fortalecimento das identidades dos povos indígenas.
Rádio como amplificador de narrativas locais
Localizado no centro histórico de Manaus, o espaço que abriga a rádio web Sapupema conta com uma loja de artesanatos e outras produções indígenas, além de um auditório para atividades culturais, para onde o estúdio foi movido para receber o grupo para um bate-papo, que rolou ao vivo durante a programação que hoje alcança mais de 50 municípios do Amazonas.
Yuri Magno, locutor e fundador da Sapupema, conduziu a conversa com os representantes das iniciativas de rádio: Pâmela Queiroz (Rádio Unaé), Cláudia Ferraz, José Paulo e Juliana Albuquerque (Rádio Wayuri) e Michel Ahid e Mary de Jesus (Rádio TV Quilombo Rampa).
Os participantes falaram do papel do rádio na comunicação comunitária e autônoma e os desafios em cada território. Juliana Albuquerque comentou que a Sapupema foi uma inspiração para a criação da rádio web Wayuri e lembrou de intercâmbio realizado no mesmo local antes de sua implementação. “Estivemos aqui, sonhando com uma rádio online, e hoje ela está completando um pouco mais de um ano no ar”.
Claudia Ferraz reforçou que a rádio online nasceu para ampliar o alcance da comunicação indígena do Rio Negro e chegar cada vez mais às comunidades - que somam mais de 750 na área de abrangência dos muncípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.
“Nosso trabalho e nossa missão são levar informação para dentro dos nossos territórios. Para que nossos parentes fiquem informados, para combater a questão das fake news, com o nosso próprio linguajar, na nossa língua materna, e cada vez mais ampliar e fortalecer a nossa comunicação”.
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Mais de 30 comunicadores indígenas e quilombolas em visita à Rádio Sapupema, no centro histórico de Manaus|Vanessa Fernandes/ISA
O comunicador Michel Ahid, do Quilombo Rampa, contou que lá a rádio surgiu após a criação da TV, também com o objetivo de melhorar ainda mais a comunicação para dentro, sendo então a primeira rádio quilombola da região. “O pessoal acabava ouvindo a rádio da cidade, a música da cidade, e acabava não sabendo o que estava acontecendo dentro do nosso território, sobre os eventos, manifestações. Aí o Raimundo [Raimundo José, comunicador fundador da TV Quilombo] teve a ideia de criar a rádio, um programa da nossa música local, o nosso tambor de crioula”, lembra Michel.
Mary de Jesus, também comunicadora quilombola, completa que a ideia deu tão certo, que logo a comunidade começou a interagir, a pedir músicas e o famoso “alô” durante a programação. “A gente fica feliz de os mais velhos poderem ouvir as notícias do nosso território sem sair de casa. Às vezes acontece deles irem lá na rádio, pedir pra gente tocar a música e mandar um alô. E pedem pra esperar chegar em casa pra ouvir a música dele e o alô pelo rádio dele”, conta Mary.
A sede da rádio fica no centro do Quilombo Rampa, localizada próximo ao município de Vargem Grande, no Maranhão, e tem uma cobertura de 15 quilômetros dentro do território (FM, em 105,9 MHz). Ela também pode ser ouvida de qualquer lugar do país - e do mundo - por meio do aplicativo e do site da rádio.
Integrada ao Centro Cultural do Cariri Sérvulo Esmeraldo, a rádio Unaé - que na língua do povo Kariri, originário da região, significa sonho - busca promover o diálogo, a informação e a formação para os 29 municípios da região do Cariri cearense em diálogo com iniciativas de rádios comunitárias, rádios web e educativas.
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Comunicação se faz na prática: oficineiros indígenas e quilombolas participam de gravação na Rádio Sapupema|Vanessa Fernandes/ISA
“Nós pensamos na formação como um pilar principal para a multiplicação dos comunicadores e as narrativas das comunidades. A gente acredita que é muito importante que as próprias pessoas possam construir as suas plataformas de comunicação e comunicarem o que querem a partir dos seus olhares”, reforça Pâmela Queiroz. A grade da rádio conta com 19 programas e pode ser acompanhada pelo site.
José Paulo e Juliana Albuquerque apresentaram a programação da rádio web Wayuri - composta pelos programas Cacuri on-line, Papo da Maloca e Alô Parente - e o programa Papo da Maloca que também vai ao ar às quartas-feiras através da Rádio FM O Dia (92,7).
Para Pâmela, a visita à Sapupema foi especialmente importante porque os comunicadores puderam ter a oportunidade de ver de perto o funcionamento de uma rádio e também de trocar experiências. “E nessas trocas eles também discutiram manutenção, sustentabilidade de uma rádio e também a partir de uma perspectiva de autonomia, de uma comunicação autônoma”.
Casa de conhecimento ancestral na periferia de Manaus
A mais de 22 quilômetros do centro da cidade está localizado o Parque das Tribos, o primeiro bairro indígena de Manaus. Foi para lá que o grupo seguiu para conhecer a sede do Instituto Witoto, onde foram recebidos por sua fundadora, Vanda Witoto.
É lá, no quintal de Vanda, em sua Casa de Conhecimento Ancestral, que mais de 50 crianças indígenas em contexto urbano aprendem sobre sua língua materna, espiritualidade e grafismos tradicionais. Onde mulheres se reúnem para criar peças artesanais e fortalecer suas memórias e identidades com o Ateliê Derequine. E também é onde são realizadas oficinas e rodas de conversas sobre educação e formação política indígena.
Foi neste espaço que os comunicadores puderam conhecer as histórias e lutas de mulheres indígenas em contexto urbano, que atuam tanto nas iniciativas do instituto quanto na Cozinha Coletiva Boca da Mata, um negócio social que surgiu em meio a pandemia para fornecer gratuitamente refeições de qualidade, sem veneno, para famílias em vulnerabilidade no Parque das Tribos.
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Vanda Witoto, liderança do povo Witoto, fala aos visitantes|Vanessa Fernandes/ISA
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Comunicadores ouviram histórias de mulheres indígenas em contexto urbano|Vanessa Fernandes/ISA
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Tradição e comunicação|Jefferson Macurap, Rede de Comunicadore Indígenas de Rondônia
Ao dar boas vindas ao grupo, Vanda puxou um canto do seu povo e os convidou a marcar o passo da dança. “Cantar nessa cidade é o ato de resistência mais potente que nós temos, e pra mim essa é a força que nos mantêm vivos também. Quando a gente olha pra nossa história, enquanto povos indígenas, que é demarcada por muita dor, por muita violência, por retirada de nossos territórios, o que que a gente faz como ato de resistência? Parece coisa muito simples, mas nós cantamos, nós dançamos, nós partilhamos nosso alimento em celebração. Então, o que vocês comeram agora faz parte de um processo de fortalecimento dessa identidade, desse corpo dentro desse território”.
O almoço - baião de dois, com banana da terra assada, peixe assado e farinha - foi preparado pelas mulheres da Cozinha Boca da Mata e servido em caixinhas de delivery, semelhantes às que são entregues às famílias beneficiadas pelo projeto. Todos os ingredientes são adquiridos de uma rede de fornecedores locais, numa forma de valorizar e fortalecer produtores e pescadores artesanais.
Em abril, mês dos povos indígenas, o Parque das Tribos completará 11 anos. Em sua fala, Vania contextualiza que, por oito anos, o local ficou sem acesso à água potável e energia elétrica. Faltava saneamento básico, às ruas eram de difícil acesso e faltava equipamentos básicos, como escola e posto de saúde. “Por que nós éramos sujeitos não reconhecidos como cidadãos de direitos, esses direitos básicos e fundamentais”, completa.
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Casa de conhecimento Ancestral reúne mais de 50 crianças indígenas em contexto urbano para aulas de sua língua materna|Vanessa Fernandes/ISA
O reconhecimento do território veio, pontua Witoto, “graças a muita luta e resistência de mulheres como Lutana Kokama, liderança desse bairro, que é considerado hoje pelo poder público dentro da cidade de Manaus. E isso é um marco histórico, porque a partir do momento que nós deixamos nosso território, nós não somos reconhecidos na cidade”. Hoje o Parque das Tribos abriga mais de 700 famílias, 32 povos indígenas e 13 línguas faladas.
A jornalista Juliana Radler, articuladora de Clima do Programa Rio Nego do ISA, também integrou a roda trazendo uma perspectiva sobre mudanças climáticas e racismo ambiental, provocando reflexão sobre os impactos observados nas comunidades e territórios - urbanos e rurais - e as discussões sobre adaptação, já há tanto praticada e desenvolvida pelos povos indígenas e tradicionais, e justiça climática.
Encerrado o bate-papo, foi hora de mais prática. Os grupos se reuniram e definiram suas pautas a partir das histórias compartilhadas naquela tarde, e partiram para entrevistas com as personagens, em formatos de áudio e vídeos, posteriormente finalizados e apresentados no ao final da programação da oficina.
“Conhecer o Parque das Tribos foi uma experiência incrível para mim, eu não imaginava a luta que aquelas mulheres passavam, a conquista delas. As palavras de Vanda Witoto e de todas ali me inspiraram muito”, relata Ya Yudja, comunicadora da Rede de Comunicadores Xingu +.
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Missão cumprida: comunicadores indígenas e quilombolas de estados amazônicos exibem certificado de conclusão||Vanessa Fernandes/ISA
Para Claudia Ferraz, a formação proporcionou um grande encontro que possibilitou conhecer outras iniciativas de comunicação, os desafios, as especificidades de cada território e também os pontos de encontro, que era um desejo antigo da Rede Wayuri.
“Para mim foi marcante esse compartilhamento de vivências, outros olhares, outros formatos de produção que outros coletivos fazem. A importância da comunicação indígena, quilombola. Essa união de comunicadores indígenas e quilombolas foi muito marcante”.
Conhecer novas realidades e poder compartilhar conhecimentos e a história do seu povo, conta Mary de Jesus, foi uma experiência única. “Poder sair do meu território, ir para um outro estado, falar da minha história, falar do que a gente vive aqui, é realmente sem explicação. Estou muito feliz de ter participado, de ter conhecido outras pessoas, de ter conhecido outras realidades e ver que a nossa realidade aqui inspira muitos outros jovens, muitas outras pessoas”.
Paula Guajajara, da Terra Indígena Caru, no Maranhão, comenta que a oficina foi bastante importante, especialmente pela participação de comunicadores mais jovens preocupados em mostrar as dificuldades e as coisas boas de cada território, além de proporcionar conhecer outras ferramentas, outros povos e suas realidades, assim como poder mostrar a sua própria enquanto mulher indígena, mãe e acadêmica.
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Arewana Yudjá, comunicador e cineasta xinguano, com Imaculada Moreira, da Rede Wayuri|Vanessa Fernandes/ISA
Falando em comunicadores jovens, Mayara Mura foi a mais nova entre os participantes. Aos 14 anos, ela foi escolhida por suas lideranças para representar a Rede de Comunicadores Indígenas Mura e a Organização de Lideranças Indígenas Mura do Careiro da Várzea (OLIMCV).
“Tive a oportunidade de conhecer pessoas que eu já acompanhava e admiro muito, e também pude aprender muito com pessoas que já têm uma certa experiência na área da comunicação”, relata.
Arewana Juruna é comunicador e cineasta do povo Yudja e mora na aldeia Tuba-Tuba, localizada na Terra Indígena Xingu, Baixo Xingu, em Mato Grosso.
Ele contou que foi muito interessante conhecer o trabalho da Rede Wayuri e do Quilombo Rampa com as rádios, uma vez que sua experiência na Rede de Comunicadores Xingu+ é mais direcionada a fotografia e vídeo.
Aprender mais sobre esta ferramenta e também aparecer na frente das câmeras, para ele, foi uma experiência nova e positiva.
“É muito importante a gente fazer esse intercâmbio, o intercâmbio dos comunicadores da Amazônia, para a gente trocar essa experiência entre nós, entre os comunicadores indígenas, não indígenas e quilombolas. Eu já compartilhei o que eu aprendi, o que eu conheci, o que eu vi lá também aqui com a equipe da Rede de Comunicadores Xingu+. Acho que uma parte importante é isso”, diz ele, já de volta ao seu território.
Além da capacitação técnica, um dos maiores ganhos da iniciativa, acredita a jornalista Tainã Mansani, coordenadora de Projetos do Instituto para Democracia e Mídia da Alemanha (Idem) no Brasil, foi exatamente essa conexão entre as redes de comunicadores de diferentes estados da Amazônia Legal.
"A Amazônia é quase um continente, e essa conexão entre esses jornalistas populares não existia antes da oficina. Agora, passou a existir. Isso é fundamental para que suas histórias e desafios cheguem mais longe”, destaca.
Tainã considera o encontro um marco, especialmente em um ano que antecede a COP30 que ocorre em Belém no final do ano. "Sabemos que muitos movimentos sociais terão dificuldades para acessar a COP. Por isso, é essencial fortalecer os comunicadores populares, que são a voz das comunidades mais impactadas pelas questões ambientais”, finaliza.
Esta atividade é parte do projeto “MÍDIA-Brasil: profissionalização da mídia indígena para a participação de grupos marginalizados e o empoderamento das mulheres na Amazônia”, executado pelo Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com a Rede Wayuri e Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), com apoio financeiro do Instituto para Democracia e Mídia da Alemanha (Idem) e Cooperação Alemã (BMZ).
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