Manchetes Socioambientais
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“O encontro entre índios e brancos só se pode fazer nos termos de uma necessária aliança entre parceiros igualmente diferentes, de modo a podermos, juntos, deslocar o desequilíbrio perpétuo do mundo um pouco mais para frente, adiando assim o seu fim.”
Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo, um dos fundadores do ISA
O tema "Povos Indígenas" está na origem da existência do Instituto Socioambiental. Lá se vão pelo menos quatro décadas de comprometimento e trabalho com o tema, produzindo informações para a sociedade brasileira conhecer melhor seus povos originários. Desde sua fundação, em 1994, o ISA dá continuidade ao trabalho do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), que havia sido iniciado em 1980 e que, por sua vez, remonta ao começo dos anos 1970, quando o então governo da ditadura militar lançava o Plano de Integração Nacional, com forte componente de obras de infraestrutura na Amazônia, região que era então descrita pelo discurso oficial como um "vazio demográfico".
Por meio dos relatos coletados, dados produzidos e pesquisas empreendidas por uma rede de colaboradores espalhada pelas diversas regiões do País, o Cedi ajudou a derrubar essa tese. Ao dar publicidade às informações levantadas por essa rede social do tempo do telex, o Cedi colocou, definitivamente, os povos indígenas e suas terras no mapa do Brasil. Seus integrantes ainda participaram ativamente no movimento de inclusão dos direitos indígenas na Constituição de 1988 e, juntamente com integrantes do Núcleo de Direitos Indígenas (NDI) e ativistas ambientais, fundaram o ISA em 1994.
De lá para cá, ampliando sua rede de colaboradores em todo o País, o ISA se consolidou como referência nacional e internacional na produção, análise e difusão de informações qualificadas sobre os povos indígenas no Brasil. O site "Povos Indígenas no Brasil", lançado em 1997, é a maior enciclopédia publicada sobre as etnias indígenas no Brasil, com suas línguas, modos de vida, expressões artísticas etc. O site é uma das principais referências sobre o tema para pesquisadores, jornalistas, estudantes e acadêmicos.
A atuação hoje é transversal aos territórios onde atuamos, especialmente na Bacia do Xingu, no Mato Grosso e Pará, e Bacia do Rio Negro, no Amazonas e Roraima, e também envolve povos indígenas de todo o Brasil, por meio da atualização permanente do site e de seus mais de 200 verbetes, inclusão de novos textos sobre etnias emergentes e indígenas recém-contatados, além do monitoramento e cobertura jornalística sobre situações de violência e perda de direitos contra estas populações. O tema "Povos Indígenas" ainda é tratado no site "PIB Mirim", voltado ao público infanto juvenil e de educadores.
O monitoramento de Terras Indígenas também é um eixo central do nosso trabalho com o tema, e remonta à sistematização de dados e divulgação de informações iniciada pelo Cedi em 1986, e se dá por meio da produção de livros impressos e mapas temáticos sobre pressões e ameaças, como desmatamento, mineração, garimpo, obras de infraestrutura, entre outras, além do site "Terras Indígenas no Brasil".
Confira os conteúdos produzidos sobre este tema:
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Em formato de enciclopédia, é considerado a principal referência sobre o tema no país e no mundo |
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A mais completa fonte de informações sobre o tema no país |
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Site especial voltado ao público infanto-juvenil e de educadores |
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Painel de indicadores de consolidação territorial para as Terras Indígenas |
Pesquisa em Antropologia de João Paulo Barreto, do povo Tukano, se dedica à desconstrução de termos pejorativos e padronizados de práticas de saúde indígenas
A tradução de conceitos por trás de expressões e culturas indígenas – evitando termos pejorativos e padronizados – permeia a tese “Kumuã na kahtiroti-ukuse: uma ‘teoria’ sobre o corpo e o conhecimento-prático dos especialistas indígenas do Alto Rio Negro”, do doutor em Antropologia João Paulo Lima Barreto, indígena do povo Yebamasã (Tukano). A pesquisa acaba de ser escolhida como melhor tese de Antropologia e Arqueologia de 2022 pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
O desafio de traduzir conceitos é caracterizado por João Paulo Barreto como decolonização pelas palavras. “Decolonizar é primeiro desconstruir palavras que parecem tão inocentes, mas não são. E colocar outras no lugar. Meu pai não é benzedor. Meu pai é Kumu, um especialista indígena. Não temos um conjunto de saberes tradicionais, temos medicina indígena”, afirma Barreto, que vem de uma família de Kumuã (plural de Kumu) e cita seu pai, Ovídio Barreto. Ele explica que as práticas de saúde, que ele chama de medicina indígena, são uma parte de um sistema complexo de conhecimento indígena.
Na tese premiada, Barreto explora a forma como os indígenas, sobretudo do Alto Rio Negro, entendem o corpo e por qual razão esse conhecimento é importante para a construção da relação com o entorno. Egresso do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal do Amazonas (PPGAS/Ufam), ele fez sua defesa em fevereiro de 2021 e foi o primeiro indígena a obter doutorado nessa instituição.
Filósofo e antropólogo, João Paulo Barreto é da comunidade de São Domingos Sávio, no município de São Gabriel da Cachoeira (AM) e vive em Manaus, onde atua como pesquisador do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (Neai/Ufam). Ele é fundador do Centro de Medicina Indígena Bahserikowi.
Logo após saber da premiação da Capes, João Paulo Barreto chegou a São Gabriel para participar do I Encontro da Juventude Yanomami, em Maturacá, no Território Indígena Yanomami. A convite da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), ele falou sobre medicina indígena.
Em entrevista na sede do Instituto Socioambiental (ISA), em São Gabriel, o pesquisador conversou sobre a premiação — considerada por ele fruto do movimento indígena e de políticas afirmativas — os desafios da decolonização e os sonhos que tem de contribuir com projetos que fortaleçam a medicina indígena.
O ISA e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) vêm apoiando encontros de especialistas indígenas para troca de conhecimentos e discussões sobre a medicina indígena na região do Rio Negro. Em 2020, foi realizado um encontro em Serra de Mucura e, no ano passado, a comunidade de Caruru Cachoeira recebeu os conhecedores. Ambas estão no Rio Tiquié.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista com João Paulo de Lima Barreto.
João Paulo, inicialmente eu gostaria que você se apresentasse.
Eu sou Yupuri, da etnia Yepamahsã, mais conhecida como Tukano, sou do Rio Tiquié, da comunidade São Domingos Sávio. Eu sou graduado em Filosofia, mestre e doutor em Antropologia.
Sua tese acaba de ser premiada na 17ª edição do Prêmio Capes de Tese, que reconhece os melhores trabalhos de conclusão de doutorado defendidos no Brasil em 2021. Você pode falar sobre a premiação?
A minha tese é fruto de uma luta de longos anos. Não é só a minha parte, mas uma luta coletiva. Eu digo isso porque eu sou fruto da política de ações afirmativas. A gente sabe que as políticas afirmativas estão sendo implementadas como uma conquista da luta do movimento indígena. Essa luta acontece há mais de 30 anos, mas as ações começaram a ser implementadas pelo governo somente nos últimos anos. Eu sempre falo com os jovens que nossa presença na universidade é de grande responsabilidade, porque vem também de uma luta do movimento.
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Essa premiação é importante para os jovens indígenas que estão entrando agora nas universidades?
O governo e o sistema olham a política afirmativa como um favor. Mas o movimento indígena sempre colocou que a gente reivindica um espaço nas universidades, nas instituições de graduação do ponto de vista das diferenças. O nosso sistema de conhecimento é diferente do sistema de conhecimento científico. Portanto, não dá para a gente discutir um conhecimento homogêneo, o que a gente chama de monocultura. Estamos discutindo a pluricultura. E muitas vezes o sistema de ensino não está aberto para isso.
A luta do momento indígena é nesse sentido: para que nós tenhamos acesso de forma diferenciada, mas como povo diferente, não como política afirmativa. Então, eu tenho me pautado muito na minha vida acadêmica, nessa política de mostrar que a luta do movimento indígena não é do ponto de vista da justiça social, mas das diferenças epistemológicas. Por isso a política afirmativa é uma reivindicação do movimento indígena: para que os indígenas, jovens indígenas, entrem na universidade e levem o conhecimento indígena.
E como essa questão das diferenças entre os conhecimentos está presente na sua tese?
O conhecimento indígena não é melhor nem pior: é diferente. Mas nas universidades há uma relação assimétrica. Daí vem todo um palavreado que é criado para o nosso modelo de conhecimento. Por exemplo, é muito triste ver meu pai, que é Kumu, e meus tios Kumuã serem chamados de benzedores, de curandeiros. Primeiro, que não tem essas categorias dentro do nosso conhecimento. Não tem noção de espírito, de sagrado. Não são nossos conceitos. São conceitos religiosos, dentro da lógica ocidental.
E quando você pega essas categorias ou esses conceitos e aplica pra entender nossa cultura, você distancia, traduz de forma equivocada. Daí vêm essas palavrinhas: sagrado, espírito, rezador, benzedor. Meu pai não é padre, não é freira, não é pastor, ele não está benzendo. No Núcleo de Estudo da Amazônia Indígena (Neai), eu e outros pesquisadores como o Dagoberto Azevedo, povo Tukano, Justino Sarmento, Tuyuka, Gabriel Sodré Maia, Tukano, Sílvio Sanches, Bará e Jaime Moura Fernandes, Desano, buscamos juntos definir palavras, termos que possam expressar aquele sentido que a gente quer falar. Portanto, minha tese vem também desse fruto de compartilhamento coletivo.
A sua pesquisa propõe novos conceitos?
O esforço que a gente faz é pensar o pensamento indígena. É olhar o nosso conhecimento além da mera tradução. O exercício que eu faço é de tradução dos sentidos, dos conceitos indígenas. É entender essa lógica acadêmica e conseguir fazer essa tradução de sentido. Então é necessário parar de ficar reproduzindo palavras. Para mim, decolonizar significa primeiro desconstruir palavras que parecem inocentes, mas não são. E colocar outras formas de expressão. E isso não é fácil, é sofrido e doloroso. Então nesse sentido é desafiador para os jovens indígenas desconstruir, inclusive desconstruir palavras. Para decolonizar tem que começar pelas palavras.
Você poderia dar algum exemplo?
Como estou discutindo a questão da saúde e doença, tento trazer as palavras que médicos e enfermeiros possam entender. Para os Kumuã, estamos usando o termo especialistas indígenas. E usamos também medicina indígena, no lugar de termos como conhecimento tradicional, saberes, conhecimento milenar e tratamento alternativo.
Outro exemplo é sobre esse remédio que a gente compra na farmácia e nada mais é que uma manipulação química das coisas. Mas o Kumu não precisa fazer isso. Ele precisa saber a taxonomia dos vegetais e vai evocar essas características para curar. Então, ele não está rezando, ele está fazendo uma manipulação metaquímica das coisas. Com essa linguagem talvez seja possível as pessoas entenderem o que que está ocorrendo ali.
Você tem novos projetos?
Projeto individual eu não tenho, mas eu tenho sonhos. Sonhos de concretizar o que eu acabo de falar. Eu não quero fazer coisas de forma paralela, sozinho. Nós temos já muita coisa produzida e nós temos muita coisa acontecendo e eu gostaria de ter oportunidade de somar com isso, com a minha comunidade, com as ONGs.
Venho dizendo que não dá pra gente ficar pensando agora porque as coisas estão acontecendo: suicídio, muitas pessoas diabéticas, pessoas com hipertensão. No meu ponto de vista, trata-se de descuido. Porque a gente não faz mais o cuidado da parte das nossas concepções. É importante termos espaços para a medicina indígena e criar informações e dados, acompanhar sistematicamente.
Experiência dolorosa
A tese “Kumuã na kahtiroti-ukuse: uma ‘teoria’ sobre o corpo e o conhecimento-prático dos especialistas indígenas do Alto Rio Negro”, de João Paulo de Lima Barreto, do povo Yebamasã, foi impulsionada por uma experiência pessoal dolorosa do pesquisador.
Em 2009, sua sobrinha, então com nove anos, foi picada por uma cobra em uma comunidade indígena em São Gabriel da Cachoeira. O quadro se agravou e a criança foi levada a Manaus, onde os médicos quiseram amputar a perna ferida.
A família propôs um tratamento conjunto dos médicos e o Kumuã, mas a proposta não foi aceita. Eles então procuraram o amparo do Ministério Público e conseguiram que o procedimento não fosse feito.
A menina foi curada e, apesar de ter perdido o movimento do pé, não teve o membro amputado. Hoje ela vive em São Gabriel da Cachoeira. “O médico dizia que não ia permitir a entrada do pajé no hospital cantando, dançando, pulando, fazendo fumaça. Está no imaginário da sociedade brasileira essa imagem do pajé de cocar. Isso tem que ser desconstruído”, diz Barreto.
Serviço
O mundo em mim - Uma teoria indígena e os cuidados sobre o corpo no Alto Rio Negro
Autor: João Paulo Lima Barreto
Dimensões:17 x 23 cm
Peso: 500g
Formato: Papel / Brochura
Páginas: 260
1a Edição - 2022
ISBN 978-65-87337-12-8
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Lideranças Yanomami e Ye'kwana lançam hotsite e filme inédito para celebrar os 30 anos da demarcação da Terra Indígena Yanomami
Somando às celebrações dos 30 anos de homologação da Terra Indígena Yanomami, as Associações que formam o Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana lançam agora o hotsite especial “Yanomami 30 Anos - O Futuro é Indígena”. Estreiam ainda um mini-documentário sobre o encontro entre lideranças locais e aliados históricos na comunidade Xihopi, no final de maio, para comemorar as últimas décadas e traçar estratégias de enfrentamento ao garimpo ilegal, a principal ameaça à sobrevivência das comunidades.
Durante todo o ano de 2022, o Fórum e seus parceiros organizam eventos e iniciativas culturais para relembrar e reverenciar a conquista histórica que garantiu a homologação em área contínua da maior Terra Indígena do Brasil, em 25 de maio de 1992 e, assim, "segurou o céu" para que os povos Yanomami e Ye’kwana, incluindo os grupos isolados, continuassem a viver conforme sua cultura.
“Não se pode destruir a terra sagrada. Que seja respeitada, junto com as crianças-futuro e também junto com os pajés. O território Yanomami pertence ao povo Yanomami”, afirma o xamã e grande liderança Yanomami Davi Kopenawa.
Além do filme, a plataforma digital apresenta uma linha do tempo da luta dos Yanomami desde os primeiros contatos, em 1950, e uma agenda de eventos que vão ocorrer ao longo dos próximos meses, entre exposições, filmes e livros. Além de muitas imagens e informações, o novo site também convida os visitantes à doar para a Hutukara Associação Yanomami, que precisa do apoio de todos para fazer frente às pressões e ameaças enfrentadas pelo território, comunidades e lideranças.
Os eventos e conteúdos de celebração dos 30 anos da Terra Indígena Yanomami contam com apoio do Instituto Socioambiental (ISA) e da Embaixada da Noruega e são realizados em parceria com a Descoloniza Filmes, a Aruac Filmes, o Grupo Companhia das Letras, o Museu de Arte de São Paulo (Masp), o Instituto Moreira Salles e a Editora Ubu.
Assista ao mini-doc:
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Human Rights Watch afirmou que o governo brasileiro transformou a Funai em um órgão que coloca os povos indígenas em risco; Saiba essas e outras notícias no Fique Sabendo da quinzena
Bomba da Quinzena
No mês do Dia Internacional dos Povos Indígenas, a organização internacional Human Rights Watch chamou a atenção para as políticas adotadas pelo governo brasileiro que ameaçam os direitos dos povos indígenas. Segundo a organização, foram emitidas normativas prejudiciais aos povos indígenas e suspensas as demarcações de suas terras tradicionais.
“O governo brasileiro transformou a agência encarregada de promover e proteger os direitos indígenas em uma agência que colocou esses direitos em risco”, disse Maria Laura Canineu, diretora da HRW no Brasil.
De acordo com a organização, a Fundação Nacional do Índio (Funai) foi profundamente enfraquecida durante a atual gestão federal, assim como órgãos federais de proteção ambiental, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Além disso, três servidores da Funai e um procurador da República disseram à HRW que o atual presidente, Marcelo Xavier, criou um clima de medo e intimidação no órgão. Servidores também afirmaram, segundo a HRW, que o órgão rotineiramente nega autorização para viagens a Terras Indígenas que estão em processo de demarcação e que introduziu obstáculos burocráticos que dificultam o trabalho de proteção territorial.
Parte desse desmonte pode ser explicado pela queda significativa nos últimos oito anos do orçamento de órgãos federais com funções socioambientais O fundo do poço, porém, foi atingido na atual gestão federal, com o menor valor dos últimos 17 anos. O dado faz parte do relatório “O financiamento da gestão ambiental no Brasil: uma avaliação a partir do orçamento público federal", feito pelo Instituto Socioambiental (ISA) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Os cortes afetam áreas como a do combate ao desmatamento e às queimadas, oficialização e manutenção de Áreas Protegidas e proteção a comunidades indígenas e tradicionais.
Extra
Neste Agosto Indígena, todos os olhares internacionais seguem voltados para o Brasil. A situação dos povos e das Terras Indígenas está na pauta da Organização das Nações Unidas (ONU). Na segunda-feira que antecedeu o Dia Internacional dos Povos Indígenas, a relatora da ONU que monitora a situação dos defensores de direitos humanos, Mary Lawlor, se reuniu com lideranças dos povos Guarani-Kaiowá e com vítimas de ataques sofridos na região de Dourados e Amambai, no Mato Grosso do Sul.
Um dos relatos ouvidos por Lawlor foi o de um adolescente indígena de 14 anos baleado numa operação policial na região de Amambai. Outro relato foi dado por uma estudante indígena que, na mesma operação, recebeu uma bala de raspão na cabeça. Lideranças de outras áreas indígenas também informaram a ONU sobre as constantes ameaças por parte de pistoleiros, principalmente onde há reivindicação pela demarcação das terras.
A pauta deve seguir no radar da organização. Ainda no fim de agosto, entidades da sociedade civil devem se reunir na sede da ONU em Genebra para questionar a situação dos direitos humanos no Brasil e a pauta indígena deve receber bastante destaque.
Isso vale um mapa
Em agosto é celebrado o Dia Internacional dos Povos Indígenas, que busca garantir direitos aos diversos povos indígenas no mundo todo. Segundo as últimas estimativas do IBGE, existem mais de um milhão de indígenas no Brasil (IBGE 2020), com presença em mais de 500 municípios. No Brasil, existem 256 diferentes povos indígenas, espalhados por todo o território. Essas Terras Indígenas somam 726 áreas, ocupando 13,6% do país.
Apesar dos números expressivos, ser indígena no Brasil é ter que batalhar diariamente para manter seus direitos. Segundo uma pesquisa do De Olho Nos Ruralistas, 297 Terras Indígenas estão cadastradas em nome de milhares de pessoas físicas ou jurídicas, por mais que essas áreas sejam protegidas constitucionalmente.
Cinco dessas terras possuem toda sua área sobrepostas ao Cadastro Ambiental Rural (CAR): Maró, no Pará, Herarekã Xetá, no Paraná, Taquara, no Mato Grosso do Sul, Fortaleza do Patauá, no Amazonas, e Jarara, também no Mato Grosso do Sul.
Baú Socioambiental
Para remexer o baú, relembramos a Terra Indígena Yanomami, que recentemente completou 30 anos de demarcação. "Yanomami" na expressão yanõmami thëpë, significa "seres humanos". Localizada entre os estados de Roraima e Amazonas, a TI Yanomami é a maior Terra Indígena do Brasil!
Território de milhares de indígenas de diversos povos, dentre eles os Yanomami, os Ye'kwana e também de isolados, como os Surucucu/Kataroa, a TI Yanomami está sob ataque do garimpo e da violência institucional.
Estima-se que 20 mil garimpeiros explorem ilegalmente a região. A presença do garimpo traz desmatamento e poluição, além de doenças e violações aos povos originários. Para denunciar as ameaças crescentes que pressionam o território, a Hutukara Associação Yanomami produziu o relatório Yanomami Sob Ataque, que entre outras coisas, demonstra que em 2021 o garimpo ilegal avançou 46% em comparação com 2020.
Socioambiental se escreve junto
O mês de agosto conta com uma vasta programação para aqueles que querem conhecer mais sobre os povos indígenas e suas culturas. É o caso do recém-inaugurado Museu das Culturas Indígenas, em São Paulo, que planejou exposições, palestras, performances artísticas e debates ao longo desse mês. Além disso, os visitantes do museu podem também conferir exposições temporárias de artistas indígenas, como Denilson Baniwa e Xadalu Tupã Jekupé.
Em agosto também aconteceu o lançamento de uma websérie produzida por jovens indígenas de quatro povos que se reuniram na aldeia Wani Wani, na Terra Capoto-Jarina, no Mato Grosso, com a missão de se tornarem narradores da própria história.
A websérie conta com sete curtas-metragens e o primeiro episódio já foi disponibilizado nas redes sociais do Instituto Raoni. Os curtas abordam a vida dos povos indígenas através de cenas do cotidiano, com partes encenadas, entrevistas em português e em línguas nativas, além de cenas que resgatam e preservam suas histórias e culturas.
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#ElasQueLutam! Influenciadora e apresentadora leva os saberes tradicionais, a política indigenista e o ativismo climático para o centro do debate com carisma e criatividade
Quando criança, Samela Sateré Mawé gostava de colecionar moedas que sua avó trazia de presente de viagens internacionais, brincar com as roupas de frio da matriarca da família e ver suas fotos em lugares distantes. Como defensora dos direitos das mulheres indígenas, Zenilda Sateré, a avó, vivia levando as demandas das comunidades originárias para fora do país. E foi a estas lembranças que Samela retornou quando ela viajou para Escócia em novembro de 2021, para participar da COP 26.
“Quando eu vi todas aquelas pessoas fazendo entrevista minha, batendo foto minha, eu lembrei de toda essa infância. E isso me tocou muito, porque eu falei: ‘estou traçando o mesmo caminho que a minha avó traçou há muito tempo’”, recorda.
A participação na COP 26 veio porque Samela desponta hoje como uma importante liderança indígena e ativista, cujo campo de atuação reside notadamente na internet. Comunicadora e influenciadora digital, ela já conta com mais de 76 mil seguidores em seu perfil pessoal do Instagram, onde explica pautas da política indigenista e dos costumes dos povos originários com carisma e criatividade.
As mulheres sempre foram referência para Samela, a começar pela avó e pela mãe, Regina Sateré Mawé. “São elas que abriram caminho para mim”, conta. “Mas eu me inspiro em todas elas: na Sônia [Guajarara], na Célia [Xakriabá], na Alessandra [Munduruku]. Eu tenho muito respeito e queria ser algum dia como elas”.
Samela cresceu dentro da Associação de Mulheres Indígenas Sateré Mawé, entidade criada por Zenilda Sateré após sua chegada em Manaus (AM).
A organização promove o artesanato feito pelas mulheres do povo e o protagonismo político dessas lideranças. Desde pequena, ela frequenta reuniões e marchas do movimento indígena.
“Eu sempre participei, mas nos bastidores, vendendo artesanato, ou pintando, acompanhando minha mãe”, conta.
Quando era pequena, lembra, ficava sentada no chão desenhando enquanto escutava as adultas discutindo pautas e reivindicações.
“E sempre foram pelos mesmos objetivos: luta por terra, educação, saúde, língua, identidade”. Por isso, costuma dizer que sempre foi ativista, ainda que só tenha aprendido o significado da palavra quando já era um pouco mais velha.
Ela se recorda bem desse momento: estava nos primeiros anos da faculdade de Biologia na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e comentou que precisaria sair mais cedo para ir a um ato com sua família. Foi quando uma colega perguntou: ‘vocês são ativistas?’ e ela percebeu que não sabia exatamente o que aquilo queria dizer. ‘São pessoas que lutam por alguma causa’, respondeu a colega.
Refletindo sobre a expressão, Samela concluiu que não existe outro jeito de existir sendo indígena. “Não tem um momento da nossa vida em que a gente escolhe sermos ativistas dos direitos humanos, dos direitos dos Povos Indígenas, ativistas ambientais. A gente nasce e todas essas causas se entrelaçam no nosso dia a dia,” aponta. “É uma palavra nova para descrever o que a gente já faz há muito tempo.”
Protagonismo e comunicação
Foi na universidade, também, que Samela começou a ganhar maior notoriedade como jovem liderança indígena. “A gente precisava se reunir para garantir o direito à permanência. E, como eu era uma das pessoas que nasceu no movimento, eu tinha um posicionamento [e] mais embasamento para falar”, afirma. Ela se uniu ao Movimento de Estudantes Indígenas do Amazonas, do qual participa até hoje.
No entanto, o salto de jovem ativista local para nacional se deu durante a pandemia de Covid-19. Quando a Associação de Mulheres Indígenas Sateré Mawé (AMISM) começou a confeccionar máscaras de tecido, foi preciso uma porta-voz para divulgar os produtos, discutir as pressões da pandemia sobre o povo Sateré Mawé e fortalecer a presença online da entidade. Foi aí que Samela entrou.
“As mulheres não tinham muita afinidade com as câmeras. Então, eu vim mais para a parte do ativismo digital, [de participar] de entrevistas, rodas de conversa, lives,” comenta. “Foi como se você passasse a vida toda escutando e chegasse um momento que você colocasse para fora tudo o que você aprendeu”.
O espaço em frente às câmeras foi se tornando mais confortável e Samela se descobriu comunicadora. “A pandemia escancarou as portas da internet para muitas pessoas, e nós fomos entrando nesse universo e demarcando as redes; as telas”, complementa.
A desenvoltura para fazer vídeos e se expressar no meio digital chamou a atenção de outros perfis, como o do Canal Reload, iniciativa que pretende fazer jornalismo para a juventude, com linguagem leve e descomplicada. Samela foi indicada pela equipe do site Amazônia Real, com quem havia participado de uma oficina sobre redes sociais e comunicação digital em 2018 e para quem já era uma jovem comunicadora em potencial. Hoje, Samela é uma das apresentadoras do canal, para quem produz conteúdo sobre as pautas indígenas e socioambientais.
“Foi muito bom, porque eu comecei a dialogar mais, gesticular mais, ser mais desenvolta. E aí eu já comecei a mediar rodas de conversa; uma coisa foi levando à outra”, diz.
Samela também atraiu os olhares de Sonia Guajajara, ex-coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). “[Ela] viu meus vídeos descomplicando as notícias sobre povos indígenas e falou: ‘eu quero essa menina bem aqui’”, ri. Samela passou a integrar também a equipe de comunicação da Apib e da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga), ajudando na gestão das redes sociais, fazendo vídeos-convite para atos e na cobertura de eventos como o Acampamento Terra Livre e a Marcha das Mulheres Indígenas.
Assista ao vídeo com Samela Sateré Mawé!
“A gente se enxerga na nossa etnomídia. Nós somos os protagonistas da nossa história, nós estamos mostrando o que está acontecendo com o nosso povo, nos nossos territórios,” explica. “Então se tornou uma ferramenta de luta, resistência e decolonização.”
Ativismo climático
Também durante a pandemia de Covid-19, a organização Fridays For Future Brasil a procurou para que ajudasse a mapear as necessidades das comunidades indígenas da Amazônia e viabilizar doações de cestas básicas, kits de higiene e ambulâncias.
Samela juntou-se ao movimento, criado pela sueca Greta Thunberg, e se descobriu ativista climática. “A pauta ambiental não se dissocia da pauta indígena, porque os territórios indígenas são os que mais preservam a biodiversidade, a flora, a fauna,” reflete. “Quando há uma grande taxa de desmatamento, há um desequilíbrio no clima. E nós, Povos Indígenas, impedimos que isso aconteça”.
Para Samela, participar das discussões sobre as mudanças climáticas é também conseguir aliar o conhecimento tradicional e o científico, um dos desafios principais que ela, como estudante de Biologia, busca solucionar.
“A gente sempre viu homens brancos discutindo sobre clima, [mas] eles muitas vezes nunca passaram pelo que a gente passa. Eles nunca vão saber o que é desigualdade social,” comenta. “Estamos lutando para ocupar esses espaços [de decisão], porque nós, comunidades indígenas, pretas e periféricas, somos os que mais sofrem as consequências das mudanças climáticas”, argumenta.
Além da COP 26, ela também esteve, mais recentemente, na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano (Estocolmo+50). “Eu fiquei feliz de ver o protagonismo da juventude e dos povos indígenas. Mas [saí] querendo mais, porque a gente só estava nos espaços de construção, não nos de tomada de decisão”.
A mais jovem de uma linha familiar de mulheres guerreiras, Samela reconhece que esta primavera da juventude indígena vem na sequência da tomada de protagonismo por suas mães.
“Antes, [eram] os homens que saiam das suas aldeias para discutir políticas públicas. Quando a gente precisou de uma grande massa de mulheres para fazer a diferença no movimento, elas vieram, mas não vieram sozinhas. Elas trouxeram seus filhos”, explica. Filhos estes que cresceram no movimento indígena, como a própria Samela, e que hoje contribuem com as ferramentas que dominam: a internet e o celular.
“Os desafios são justamente as minhas fortalezas: ser jovem, mulher, indígena”, aponta, uma vez que todas essas categorias vêm, frequentemente, acompanhadas de descrédito, machismo e preconceitos. “Mas eu gosto de ter conhecimento para poder combater tudo isso. As pessoas nem ousam questionar a minha identidade, porque sabem que vão receber uma resposta à altura”, finaliza.
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Exposição do artista indígena conta com mais de 90 desenhos e fica de 29 de julho a 30 de outubro em cartaz
Sonhos, espíritos-xapiri, animais, o cotidiano do povo que segura o céu: meses depois de a Terra Indígena Yanomami completar 30 anos de sua homologação, cenas singulares da Urihi-A, a terra-floresta yanomami, vão ocupar o Museu de Arte de São Paulo (Masp), sob os olhos do artista Joseca Yanomami.
Joseca Yanomami: nossa terra-floresta é a exposição do artista que estará em cartaz entre os dias 29 de julho e 30 de outubro. Ela reúne 93 desenhos, que expressam de forma sensível os detalhes da cosmovisão yanomami, os seres visíveis e invisíveis com quem os indígenas dividem a floresta e a luta cotidiana desse povo para preservar sua identidade diante das ameaças do garimpo ilegal.
“Quando eu aprendi a desenhar, eu ouvia os pajés cantando e eu gravava na minha cabeça para desenhar depois”, Joseca contou ao ISA em 2021. “Desenho os parentes, os animais, árvores, os passarinhos, araras, macacos, antas, peixes”.
Todos os desenhos estavam sob a guarda do Instituto Socioambiental (ISA) e foram comprados de Joseca e doados ao Masp.
Joseca
Joseca nasceu na década de 1970, na região do Demini, Terra Indígena Yanomami, e começou a desenhar e a esculpir animais notáveis em madeira no início dos anos 2000. Antes disso, ele havia sido o primeiro estudioso de línguas e professor da comunidade Watorikɨ, no início dos anos 1990 e também o primeiro Yanomami a trabalhar na área de saúde.
Desde 2003, as obras do artista são exibidas em importantes instituições de arte e ajudam a fortalecer a luta Yanomami e a divulgar os saberes dos indígenas para o Brasil e o mundo. Atualmente, além da exposição no Masp, seus desenhos podem ser vistos na mostra “Les Vivants”, da Fundação Cartier, em Lille (França) e também na exposição “Rooted Beings”, no Wellcome Collection Museum, em Londres (Inglaterra).
Ehuana
À mostra em Lille, somam-se ainda os desenhos de Ehuana Yaira, artista, artesã e pesquisadora da comunidade Watorikɨ. Primeira mulher Yanomami a escrever um livro em sua própria língua e a primeira da sua região a ocupar o cargo de professora, Ehuana se interessou pela arte ao contribuir com uma investigação sobre plantas medicinais, um conhecimento de domínio feminino.
Primeira artista yanomami, suas obras registram o cotidiano das mulheres yanomami a partir da ótica singular com a qual Ehuana retrata sua própria vida. São cenas coletando alimentos na floresta, pescando com timbó, na roça, carregando lenha, cuidando das crianças, facilitando partos, além do ritual da primeira menstruação e outros temas caros ao cotidiano das mulheres yanomami. Ela apresentou seus desenhos pela primeira vez na mostra “Árvores”, que passou por Paris em 2019 e por Xangai, na China, em 2021.
Yanomami Sob Ataque
A maior Terra Indígena do Brasil, distribuída entre os estados de Roraima e Amazonas, está invadida por mais de 20 mil garimpeiros ilegais. De acordo com o mais recente relatório da Hutukara Associação Yanomami, o garimpo cresceu nada menos que 3.350% entre 2016 e 2020.
Conforme denúncias dos indígenas, a atividade ilegal fez explodir os casos de malária no território, promoveu o completo colapso do sistema de saúde e intensificou os ataques de grupos criminosos às comunidades locais.
Serviço
Exposição “Joseca Yanomami: nossa terra-floresta”
Quando: 29 de julho a 30 de outubro
Onde: Museu de Arte de São Paulo (Masp) - Av. Paulista, 1578, Bela Vista, São Paulo
Valores: R$50, com meia-entrada para estudantes, idosos e professores. Gratuito às terças-feiras.
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Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) se uniu ao ato de servidores e também pediu a exoneração do presidente Marcelo Xavier e justiça por Dom Phillips e Bruno Pereira
Uma manifestação multiétnica, com discursos nas línguas Yanomami, Tukano e Baniwa, e organizada pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), se somou à mobilização de servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai) em São Gabriel da Cachoeira, no Noroeste do Amazonas, nesta quinta-feira (23/6).
Em várias partes do país, aconteceram protestos pelo crime bárbaro contra o jornalista Dom Phillips e o indigenista Bruno Pereira e pela saída do presidente da Funai, Marcelo Xavier.
Cerca de 120 pessoas, entre lideranças indígenas, professores, mulheres, crianças e indigenistas participaram do ato em frente à Coordenação Regional do Rio Negro (CR-RNG) da Funai. Em seguida, os manifestantes seguiram em passeata até a Maloca/Casa do Saber, na sede da Foirn. Protestos aconteceram ainda em Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, municípios da região do Rio Negro.
Diretor-presidente da Foirn, Marivelton Barroso, do povo Baré, disse que os indígenas do Rio Negro querem ser reconhecidos por sua riqueza multiétnica, mas demandam políticas públicas e segurança para o território e reforço na estrutura da Funai. “Estamos fazendo o papel do Estado. Foi assim durante a pandemia, no combate à Covid-19, e está sendo assim para garantir a segurança nos nossos territórios”, disse.
Falando em nome dos 23 povos indígenas da região do Rio Negro, Marivelton Baré leu uma carta-manifesto da Foirn contra o desmantelamento da política indigenista no Brasil, denunciando o enfraquecimento proposital das iniciativas de proteção e monitoramento territorial — o que abre espaço para pressão do garimpo e do narcotráfico, atrapalhando as atividades da economia sustentável.
“Nos últimos três anos, as invasões aos territórios indígenas no Rio Negro aumentaram vertiginosamente. Existem no momento registrados pela Funai Rio Negro 10 denúncias de garimpos ilegais na região, assim como denúncias crescentes da atuação do narcotráfico em vários afluentes da margem direita do Rio Negro, como os rios Marié, Téa, Jurubaxi e Uneuixi. A atuação de bandidos na região afeta as atividades produtivas sustentáveis dos povos indígenas, como o turismo de base comunitária e a agricultura, além de trazer medo e insegurança para as comunidades indígenas”, afirma o texto.
São Gabriel da Cachoeira é conhecida por ser a cidade com maior concentração de população indígena no país, reunindo povos como os Baniwa, Tukano, Baré, Yanomami, Arapasso, Tuyuka e Piratapuya.
Com pintura tradicional, o tuxaua Carlos Lopes, do povo Yanomami, morador da comunidade de Maturacá, fez um duro discurso em sua língua, alertando para os constantes ataques dos homens brancos.
A liderança demonstrou tristeza pela morte de Dom e Bruno e se disse preocupado com o avanço do garimpo ilegal e com a morte de crianças. “Eu sou Yanomami real. Quando foi criado o Brasil, já existia Yanomami verdadeiro. Mas como o branco veio querendo destruir a gente?”, questionou.
Presentes no protesto, lideranças femininas denunciaram a falta de políticas públicas e pediram mais saúde, segurança e educação para os indígenas. Diretora da Foirn, Janete Alves, do povo Desana, falou na língua indígena Tukano.
“A gente tem nosso direito, a gente tem nosso Planto de Gestão Territorial e Ambiental, é nosso plano de vida, a gente quer implementar e por isso estamos lutando. Peço o fortalecimento das mulheres, estamos lutando contra a violência. Queremos respeito a nossos direitos e queremos fortalecer o bem-viver dos povos indígenas do Rio Negro”, ressaltou.
A professora e liderança Auxiliadora Fernandes, do povo Dâw, mobilizou estudantes para que participassem do ato. O povo Dâw vive na comunidade Waruá, em frente à principal orla de São Gabriel, e para chegar à cidade precisa atravessar trecho do Rio Negro. Já durante a travessia, o grupo veio levantando faixas de frases de protesto, cobrando seus direitos.
No ato em São Gabriel, os servidores da Funai leram também uma carta-manifesto, intitulada “Nenhuma gota de sangue a mais”. Além de manifestarem profunda tristeza e indignação pelo crime contra Dom e Bruno, os indigenistas cobraram responsabilização dos culpados e exigiram melhoria na estrutura de trabalho e segurança para a execução de atividades para promover e proteger os direitos dos povos indígenas.
Estiveram à frente da mobilização a Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef/Fenadsef), a Associação Nacional dos Servidores da Funai (Ansef) e a Indigenistas Associados (INA), que pedem a saída do atual presidente da Funai, Marcelo Xavier.
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Adorno confeccionado por artesã indígena foi entregue pelo bispo da cidade, Dom Edson Damian, que integra comitiva de 17 religiosos da Amazônia brasileira no Vaticano
Um cocar multiétnico foi levado até o Vaticano pelo bispo Dom Edson Damian, de São Gabriel da Cachoeira (AM), cidade conhecida por ter a maior concentração de população indígena do país. Ele fez parte da comitiva de 17 bispos da Amazônia brasileira que participaram da reunião com o Papa.
A artesã e empreendedora indígena Gilda da Silva Barreto, do povo Baré, moradora de São Gabriel da Cachoeira, recebeu a encomenda para fazer o adorno. “Foi uma honra e pensei num cocar inspirado na Amazônia, com as cores, a beleza, mas também com os problemas do clima. As pessoas só pensam em enriquecer, mas não pensam em preservar. Coloquei penas na cor vermelha na parte de baixo por esse motivo”, explicou. “Vivo na cultura indígena e sou católica. Carrego as duas coisas juntas”, disse.
Ao receber o cocar, o Papa brincou perguntando se era uma mitra, a peça tradicionalmente usada pelo religioso para cobrir a cabeça durante cerimônias.
Participaram do encontro representantes do Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) dos estados do Amazonas e Roraima e do Noroeste (Acre, Sul do Amazonas e Rondônia). O arcebispo de Manaus, Dom Leonardo Steiner, nomeado em 29 de maio como o primeiro cardeal da Amazônia brasileira, também fez parte do grupo.
A reunião já estava programada, mas coincidiu com o caso do assassinato do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Araújo, no Vale do Javari, no Amazonas. O crime levou a mobilizações em várias partes do mundo com pedidos de Justiça e ainda gerou uma série de denúncias sobre o descaso do atual Governo Federal com a Amazônia e seus povos.
Conforme informações do site oficial do Vaticano, o Papa insistiu aos bispos para que “escutem os povos indígenas, escutem as comunidades de base". Após o encontro com o líder da Igreja Católica, Dom Edson Damian falou sobre a gravidade da situação do país e dos ataques à Amazônia. “O Brasil voltou outra vez ao mapa da fome. Há grande número de desempregados e os povos indígenas estão sendo ameaçados em seus territórios, no seu direito de viver, na sua cultura e tradições. As mineradoras, o agronegócio, o garimpo ilegal – tudo isso está acabando com a nossa Amazônia”, lamentou.
Dom Edson ainda agradeceu ao Papa Francisco pelo Sínodo para a Amazônia, realizado em 2019, mas também pela escuta dos povos indígenas que foi realizada antes desse encontro. “Em São Gabriel da Cachoeira, os moradores das comunidades mais distantes receberam questionários e foram ouvidos”, disse. “Essa é a igreja que vive a pluralidade, a diversidade de povos, línguas, cultura, religiosidades espalhadas pelo mundo inteiro”, completou.
O Papa também recebeu de presente um quadro produzido em 1989 por um artista indígena conhecido como Cardoso, com o título “SOS Yanomami” e que já denunciava as ameaças constantes aos povos dessa etnia. Esse presente foi entregue pelo monsenhor Lúcio Nicoletto, administrador apostólico de Roraima. Em abril, a Hutukara Associação Yanomami divulgou relatório sobre a crise humanitária gerada pelo garimpo na Terra Indígena Yanomami.
Recentemente, a Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) denunciou graves problemas relativos à saúde e ao das crianças Yanomami que vivem no Estado do Amazonas, instaurando um Procedimento para Apuração de Dano Coletivo (Padac) com o intuito de investigar possíveis violações aos direitos fundamentais dos Yanomami nos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.
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Segundo os indígenas, as duas meninas, de 12 e 14 anos, foram atacadas no território ancestral Tujury Guapo’y Mirin
No último dia 29 de maio, indígenas Guarani Kaiowá denunciaram que duas crianças de 12 e 14 anos foram sequestradas por fazendeiros em retaliação à retomada do território ancestral de Tujury Guapo’y Mirin, em Amambai-MS. Segundo os indígenas, elas foram estupradas e ameaçadas de morte.
Dois dias depois, a menina de 14 anos foi encontrada distante do território, com sinais de tortura e abuso sexual, mas a de 12 anos ainda permanece desaparecida. Os indígenas informaram que até o momento a Fundação Nacional do Índio (Funai) e os órgãos públicos locais não tomaram providências.
De acordo com a Organização de mulheres Kaiowá e Guarani - Kuñangue Aty Guasua, as vítimas foram arrastadas no meio do milharal por fazendeiros. De longe, podia-se ouvir os pedidos de socorro no galpão onde ficam os seguranças privados da fazenda localizada nos arredores da retomada. Para a organização, tudo indica que os “seguranças” sequestraram as crianças como forma de intimidar a ação do povo indígena.
Conforme relatos das lideranças Guarani, após o resgate da primeira criança, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e a polícia não quiseram prestar atendimento e registrar um boletim de ocorrência.
“Estamos retomando os nossos territórios por uma questão de sobrevivência. As crianças estão sendo violentadas, estupradas e a Funai, militarizada, não fez nada até agora. Ninguém apareceu no território para prestar atendimento médico a essa criança que foi torturada. Estamos com medo de novos ataques”, alertou uma integrante da Organização de mulheres Kaiowá e Guarani - Kuñangue Aty Guasua, que pediu para não ser identificada por motivos de segurança.
A luta pelo território indígena em Amambai-MS, localizado a 355 km de Campo Grande, começou em meados de maio de 2022. Segundo informações dos indígenas, eles foram esbulhados de suas terras por fazendeiros e os indígenas estão reivindicando seu território. “Resolvemos retomar a nossa terra tradicional”, diz o documento, que faz um apelo aos órgãos responsáveis para garantir a proteção do povo que está se organizando autonomamente pelos seus direitos.
Ataques
O povo Guarani Kaiowá vêm sofrendo ataques de fazendeiros locais de forma constante. Desde 21 de maio, outros dois indígenas foram assassinados. Alex Guarani Kaiowá, jovem de apenas 18 anos, foi morto brutalmente a tiros quando sua família tentava voltar para o Jopará, do Tehoka Takuapury, localizado no município Coronel Sapucaia e outro jovem indígena foi morto atropelado por uma camionete, nas margens da mesma região reivindicada pelos indígenas.
Por isso, o povo teme novos ataques e cobra a presença da Funai, do Ministério Público de Ponta Porã (MS) e dos demais órgãos públicos responsáveis.
“É fazendeiro que fuzila e assassina o nosso parente, é caminhoneiro que passa a carreta em cima da família Kaiowá e Guarani, tirando a vida de criança e mais duas pessoas de nossos povo, é o ódio, o racismo que percorrem os espaços urbanos e rodovias contra nós”, diz o povo Guarani em nota nas redes sociais.
O STF determinou a paralisação das reintegrações de posse contra indígenas até o julgamento do Recurso Extraordinário 1.017.367 ou até o final da pandemia. A continuidade do julgamento do recurso estava prevista para o próximo dia 23, mas foi retirada da pauta pelo Presidente do STF.
De acordo com o Relatório “Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil”, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a violência contra os povos indígenas aumentou no governo Bolsonaro. As violências praticadas contra os povos indígenas e seus territórios são condizentes com o discurso e as práticas do presidente, que tem como projeto a abertura das Terras Indígenas à exploração predatória e desde a campanha prometia paralisar as demarcações de terras.
Diversas medidas foram editadas com a finalidade de disponibilizar essas áreas para a apropriação privada e favorecer os interesses de grandes empresas do agronegócio, da mineração e de outros grandes grupos econômicos, como a Instrução Normativa nº 9/2020 da Funai e o PL 191/2020.
Nos três anos de governo Bolsonaro, houve um considerável aumento dos assassinatos de indígenas no Brasil. Em 2020, segundo relatório do Cimi, 182 indígenas foram assassinados – um número 61% maior do que o registrado em 2019, quando foram contabilizados 113 assassinatos.
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Davi Kopenawa, xamã e grande liderança Yanomami, conduziu comemoração dos 30 anos da homologação da Terra Indígena Yanomami, que contou com 500 participantes, entre lideranças de outras regiões do território e aliados históricos
É noite de cinema na aldeia Xihopi, Terra Indígena Yanomami – uma imensidão de vida e floresta na maior Terra Indígena do país, distribuída entre os estados de Roraima e Amazonas. Na tela, iluminando as dezenas de olhos atentos na escuridão, um jovem Davi Kopenawa celebra a assinatura da homologação do território, ocorrida em 25 de maio de 1992.
Depois de anos de luta dentro e fora do Brasil, o xamã e liderança histórica dos Yanomami apontava que a conquista do direito constitucional dos indígenas – assediados na época pela invasão de mais de 40 mil garimpeiros –, não acabava ali. Era o início de um novo ciclo da luta permanente pelo direito à existência.
“O Yanomami é gente. Yanomami tem família. Yanomami tem criança. Yanomami sente fome, chora, fica triste”, buscava sensibilizar o Davi de 30 anos atrás, desde então situando a defesa da humanidade como caminho e finalidade de suas ações. Três décadas depois, ele foi o anfitrião de um encontro de mundos na Urihi A, a terra-floresta yanomami, a mata que Omama, o criador, deu para os Yanomami viverem, de acordo com a cosmovisão deste povo.
Abraçados pela floresta amazônica, 500 participantes, sendo cerca de 80 convidados de outros povos e nacionalidades, testemunharam o 3º Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana e também a consagração da luta de Davi nos 30 anos da Terra Yanomami.
Em uma cena carregada de força, ao final de um ritual de abertura da jornada, Davi foi alçado no ar por xamãs yanomami. No centro da maloca do Xihopi, Davi parecia segurar o céu.
Desembarcaram no Xihopi também diversos amigos e aliados históricos da luta dos Yanomami. "Os Yanomami são a terra. Vou levar comigo o cheiro daqui, a poesia que está expressa em tudo", reflete Ailton Krenak, ativista, pesquisador e escritor indígena.
Assim como há três décadas, a terra, a alma e a própria existência Yanomami estão gravemente ameaçadas. Os 30 anos da Terra Indígena Yanomami foram comemorados em meio a uma nova onda de invasão garimpeira, que avançou 46% em 2021, segundo o relatório Yanomami sob ataque, da Hutukara Associação Yanomami.
Dario Kopenawa, filho de Davi e vice-presidente da Hutukara, é atualmente um dos principais porta-vozes dos Yanomami na defesa dos direitos dos indígenas. “É muito importante denunciarmos o que está acontecendo”, afirma.
Jan Jarab, representante do Escritório da ONU de Direitos Humanos para a América do Sul, esteve no Xihopi durante toda a jornada e pôde escutar dos próprios indígenas denúncias de violências cometidas contra comunidades assediadas pelo garimpo.
"Depois de 30 anos da demarcação de suas terras, os Yanomamis estão enfrentando um novo desafio existencial. São inúmeros os testemunhos", observa Jarab. "O Estado tem que cumprir com suas obrigações – protegendo a legalidade, os Yanomami e outros povos indígenas, expulsando o garimpo das Terras Indígenas, como ocorrido em 1992", ressalta.
O sertanista Sydney Possuelo, também presente no evento, diz que se sente frustrado 30 anos após a homologação da Terra Indígena Yanomami. “É triste o momento, porque 30 anos depois, estamos vivendo uma situação tão ruim quanto”.
Na época, ele era o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) e liderou a desintrusão do território, antes mesmo da demarcação. Provou na prática que é possível expulsar o garimpo ilegal e a megaestrutura milionária que está por trás dele. “É preciso, sobretudo, vontade política”, destaca.
No entanto, mesmo com as ameaças do garimpo, Davi responde com confiança e lança a flecha que determinaria o tom do evento. “Meu sentimento é mais forte, contente e feliz. Estou vendo o futuro, vejo a geração que vai cuidar dos próximos 30 anos”, diz o xamã.
O futuro é indígena
A juventude foi lembrada nos discursos e falas de boa parte dos presentes ao Xihopi. E também se expressou na grande participação dos jovens nas atividades ao longo do evento. Um grupo de jovens comunicadores indígenas Yanomami fez uma cobertura própria, usando telefones celulares para produzir um material audiovisual sobre o encontro.
No último dia, Davi, Dario e diversas lideranças foram ao centro da maloca e formaram com letras pintadas em preto a frase “o futuro é indígena”, eternizando em imagens a esperança de renovação da luta. Correndo ao redor, dezenas de crianças da aldeia atendiam ao chamado do xamã.
“A terra é o direito primordial dos povos indígenas. As novas gerações precisam manter seus valores e seguir defendendo a terra”, lembra a deputada federal pela Rede-RR, Joenia Wapichana – primeira mulher indígena a ser eleita para o Parlamento –, presente na aldeia.
Ela chegou acompanhada da senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), ambas integrantes de comissão de parlamentares que apura violações de direitos humanos na Terra Indígena Yanomami. “Garimpo é crime e assim deve ser tratado. É necessário que o Estado aja conforme a lei”, destaca Joenia.
O alvo primordial dos aliciadores do garimpo são os jovens, segundo Maurício Ye’kwana, diretor da Hutukara e originário da região de Auaris. Lá, os casos de malária explodiram 247% de 2019 para 2020, de acordo com o relatório Yanomami sob ataque. Além disso, a desnutrição infantil atinge 63% das crianças menores de cinco anos na região, localizada na fronteira com a Venezuela.
Maurício conta que é um desafio para a sua geração convencer a juventude a não entrar para o garimpo, pois a promessa de dinheiro fácil é sedutora em um contexto de forte degradação social e abandono do Estado.
“Mas explico que a luta traz muito mais do que dinheiro. Traz a proteção da terra, que é o bem mais importante que temos. Sem a terra, não somos nada.”
Maurício é um dos porta-vozes da Aliança em Defesa dos Territórios, coletivo de lideranças indígenas Yanomami, Ye’kwana, Kayapó e Munduruku, formado em dezembro de 2021. As três Terras Indígenas onde vivem esses povos são as mais devastadas pelo garimpo ilegal no país.
Mulheres indígenas
“Precisamos mostrar aos jovens que nós sabemos produzir de um modo que não destrói a natureza”, diz Alessandra Munduruku durante debate entre membros da aliança.
A liderança, que sofre constantes ameaças por sua luta contra o garimpo no Rio Tapajós, no estado do Pará, reforça a importância de os povos indígenas se unirem frente a uma conjuntura política hostil. “Nossos inimigos estão fortes e articulados, mas nós temos a maior riqueza de todas, que é a nossa união.”
Alessandra e outras lideranças femininas promoveram uma reunião com as mulheres Yanomami para trocar experiências e fortalecer os laços. O encontro de mulheres indígenas de diferentes povos e estados rendeu frutos imediatos, como articulações para futuros intercâmbios.
“Estou há sete anos na luta e não estou nela à toa. Estou para fortalecer a voz das mulheres”, sublinhou Erica Vilela, Yanomami da região de Maturacá (AM) e presidente da Associação de Mulheres Yanomami Kumirãyõma (AMYK). “Quando encontrei mulheres de outros povos aqui, me emocionei muito. Nós vamos fortalecer nossa luta cada vez mais. Estou aqui para lutar junto com outras parentes guerreiras.”
O dia 25 de maio de 2022 terminou coroado com um arco-íris cruzando o céu do Xihopi. Naquela noite, os alertas e propostas dos dias de encontro deram origem a uma carta com reivindicações de lideranças Yanomami, Ye'kwana e de outros povos para interromper a destruição da Terra Yanomami e do planeta.
Se no passado Davi levava praticamente sozinho o grito do povo Yanomami, 30 anos depois a resistência se multiplicou por muitos corpos, gerações e, em muitas vozes, que garantem: o futuro é Yanomami, o futuro é indígena, o futuro é sem garimpo!
As comemorações dos 30 anos da Terra Yanomami e o 3° Fórum de Lideranças Yanomami e Yek’wana aconteceram no final de maio na aldeia Xihopi, Estado do Amazonas e contaram com o apoio da Fundação Rainforest da Noruega, Embaixada da Noruega e Global Wildlife Conservation.
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Dono de bravura e delicadeza, Teseia Panará foi fundamental na vitória judicial histórica do povo Panará sobre o Estado Brasileiro. Ele morreu no dia 13 de maio de 2022, na cidade de Colíder (MT)
“Teseia Panará, era o índio mais alto que eu conhecia. Por causa dele, achavam que os Panará eram gigantes. Ao mesmo tempo que ele era forte e corajoso, era a pessoa mais carinhosa que você poderia conhecer. Ficava tirando carrapicho do seu pé, cuidando de você”, disse André Villas-Bôas, secretário-executivo da Rede Xingu+, na manhã do dia 13 de maio durante o 5º Encontro Xingu+, na aldeia Khikatxi do povo Kisedje. O encontro aconteceu entre os dias 9 e 14 de maio de 2022.
Visite o hotsite "Panará, a volta por cima dos índios gigantes"
Todos sabiam das complicações de saúde que Teseia enfrentava nos últimos tempos. O amigo foi homenageado pelo cacique Kayapó, Megaron Txucarramãe, que estava presente no primeiro contato com o povo Panará e contou a história daqueles momentos. “Nós fomos ameaçados pelos parentes dele e ele falou, conversou, até normalizar aqueles que queriam atacar nós. É assim o trabalho dele, é por causa dele que estou aqui”, contou emocionado.
Nascido por volta de 1945 na aldeia Jowpyjapo, Teseia Panará, filho de Tepã Panará e Pete Panará, faleceu no dia 13 de maio de 2022, na cidade de Colíder (MT). As razões do óbito foram síndrome respiratória aguda grave, pneumonia bacteriana não especificada, doença pulmonar obstrutiva crônica, escarcebação aguda e hipertensão arterial primária sistêmica.
Casado com Kianrasã e pai das lideranças Panará, Perankõ e Parinkô, Teseia foi um grande guerreiro, grandeza que talvez só se iguale com sua doçura e humildade. Segundo o antropólogo João Paulo Denório, pesquisador que recentemente morou com o povo Panará para realização de sua pesquisa de doutorado no Museu Nacional (UFRJ), Teseia era “generoso, tinha uma fala bonita, não falava mal dos outros, era muito trabalhador, gentil, simpático e cativante. Era um topytun, que ao longo da vida construiu algo, uma liderança que convivia com o cacique, tinha fala de autoridade, e sempre se comportou da melhor forma", afirma João. “Teseia tinha essa fala de poder, era o modelo de pessoa bonita, sendo para os Panará o oposto de feiticeiro."
“Partiu um homem de coração gigante, um guerreiro do qual eu só conheci o lado doce, que misturava o sotaque divertido Panará com a sabedoria da idade e de tudo que viveu”, escreveu Manuela Otero, assessora do Instituto Socioambiental (ISA).
Comunicador da Rede Xingu+ e membro da Associação Iakiô, Kunity Metuktire Panará lembrou da história do tio. “Quando ele era jovem, fizeram contato com irmãos Villas-Bôas no Rio Peixoto, onde tem o município de Peixoto de Azevedo. Depois do contato, o povo Panará foi transferido para o Parque Indígena do Xingu [hoje Território Indígena do Xingu], onde meu tio lutou juntamente com cacique Raoni, e participou de vários movimentos e reuniões. Lutou pela Constituição de 1988 junto com cacique Raoni e outras lideranças para defender os direitos dos povos indígenas do Brasil. Também participou de grande movimento em Altamira, junto com outras lideranças para que não construíssem a barragem Kararaô. Ele também lutou muito para que os Panará conseguissem votar no seu território”, narrou.
“Ele nos deixou, mas nós continuamos lembrando dele, da luta dele. Nesse momento nós, Panará, estamos de luto e alguns de nós vamos estar levando um mês para passar o luto. Mas família de verdade, como netos, netas, filhos e filhas vão levar mais tempo”, contou Kunity Metuktire Panará ao se emocionar.
Vitória dos Panará na Justiça
Teseia foi figura central no reconhecimento dos 176 Panará mortos pelo Estado brasileiro durante a abertura da BR-163 (Cuiabá-Santarém). Teseia, juntamente com as anciãs Sarkyarasã, Kyutakriti e Suakiê, identificou as pessoas que morreram de 1973 a 1976 com sua idade aproximada e o clã a que pertencia. Assim, não só não indígenas passaram a ter nome, história e homenagens, mas também os Panará foram humanizados com sua memória.
Este processo foi essencial para que o Estado fosse condenado a indenizar os Panará no início deste século em 4.000 salários mínimos, sendo o primeiro povo indígena a lograr êxito neste tipo de ação no Judiciário responsabilizando o Estado brasileiro e sua desastrosa política para os indígenas. Os Panará assim assumiram um “novo status interétnico” segundo a antropóloga da Universidade de Brasília (UnB), Alcida Rita Ramos.
Isto está bem retratado no livro Panará: A volta dos índios gigantes com ensaio fotográfico e relato de Pedro Martinelli de Ricardo Arnt, Lúcio Flávio Pinto & Raimundo Pinto. Mas a parte mais tocante do livro é o capítulo 6 em que Teseia conta como foi para ele a chegada dos brancos: "Agora acabaram com a nossa terra. Sonsênasan, onde eu cresci, acabou. A terra do meu sobrinho acabou. Acabou minha terra, e não foi eu que pedi eles entrarem lá. Eu entendo da terra. Por isso já peguei de volta o que sobrou". (Teseia, pg. 106)
“Embora ele já não fosse presença constante na última década por não ter mais força de ficar na luta política, ele certamente marcou presença na história do indigenismo da região, na luta dos povos indígenas, dos Panará e das trocas com outros povos, incluindo os brancos”, disse Fabiano Bachelany, antropólogo pela UnB que estudou a caça com os Panará em seu doutorado.
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