Manchetes Socioambientais
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“O encontro entre índios e brancos só se pode fazer nos termos de uma necessária aliança entre parceiros igualmente diferentes, de modo a podermos, juntos, deslocar o desequilíbrio perpétuo do mundo um pouco mais para frente, adiando assim o seu fim.”
Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo, um dos fundadores do ISA
O tema "Povos Indígenas" está na origem da existência do Instituto Socioambiental. Lá se vão pelo menos quatro décadas de comprometimento e trabalho com o tema, produzindo informações para a sociedade brasileira conhecer melhor seus povos originários. Desde sua fundação, em 1994, o ISA dá continuidade ao trabalho do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), que havia sido iniciado em 1980 e que, por sua vez, remonta ao começo dos anos 1970, quando o então governo da ditadura militar lançava o Plano de Integração Nacional, com forte componente de obras de infraestrutura na Amazônia, região que era então descrita pelo discurso oficial como um "vazio demográfico".
Por meio dos relatos coletados, dados produzidos e pesquisas empreendidas por uma rede de colaboradores espalhada pelas diversas regiões do País, o Cedi ajudou a derrubar essa tese. Ao dar publicidade às informações levantadas por essa rede social do tempo do telex, o Cedi colocou, definitivamente, os povos indígenas e suas terras no mapa do Brasil. Seus integrantes ainda participaram ativamente no movimento de inclusão dos direitos indígenas na Constituição de 1988 e, juntamente com integrantes do Núcleo de Direitos Indígenas (NDI) e ativistas ambientais, fundaram o ISA em 1994.
De lá para cá, ampliando sua rede de colaboradores em todo o País, o ISA se consolidou como referência nacional e internacional na produção, análise e difusão de informações qualificadas sobre os povos indígenas no Brasil. O site "Povos Indígenas no Brasil", lançado em 1997, é a maior enciclopédia publicada sobre as etnias indígenas no Brasil, com suas línguas, modos de vida, expressões artísticas etc. O site é uma das principais referências sobre o tema para pesquisadores, jornalistas, estudantes e acadêmicos.
A atuação hoje é transversal aos territórios onde atuamos, especialmente na Bacia do Xingu, no Mato Grosso e Pará, e Bacia do Rio Negro, no Amazonas e Roraima, e também envolve povos indígenas de todo o Brasil, por meio da atualização permanente do site e de seus mais de 200 verbetes, inclusão de novos textos sobre etnias emergentes e indígenas recém-contatados, além do monitoramento e cobertura jornalística sobre situações de violência e perda de direitos contra estas populações. O tema "Povos Indígenas" ainda é tratado no site "PIB Mirim", voltado ao público infanto juvenil e de educadores.
O monitoramento de Terras Indígenas também é um eixo central do nosso trabalho com o tema, e remonta à sistematização de dados e divulgação de informações iniciada pelo Cedi em 1986, e se dá por meio da produção de livros impressos e mapas temáticos sobre pressões e ameaças, como desmatamento, mineração, garimpo, obras de infraestrutura, entre outras, além do site "Terras Indígenas no Brasil".
Confira os conteúdos produzidos sobre este tema:
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Em formato de enciclopédia, é considerado a principal referência sobre o tema no país e no mundo |
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A mais completa fonte de informações sobre o tema no país |
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Site especial voltado ao público infanto-juvenil e de educadores |
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Painel de indicadores de consolidação territorial para as Terras Indígenas |
Documento será entregue em cerimônia em Brasília, com presença de autoridades federais, incluindo presidente Lula e ministros
O Fórum Memória, Verdade, Reparação Integral, Não Repetição e Justiça para os Povos Indígenas, apresentará ao governo federal a minuta de criação da Comissão Nacional Indígena da Verdade (CNIV), que deve ser instituída pelo Estado brasileiro para promover a reparação integral às violações cometidas contra os povos indígenas no país durante a ditadura militar. O documento será entregue em cerimônia no dia 21 de outubro, às 15h, no Auditório do Centro Cultural de Brasília (CCB).
A iniciativa é liderada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Entre os convidados para o evento estão o presidente Lula e as ministras Sonia Guajajara (Povos Indígenas), Macaé Evaristo (Direitos Humanos), Marina Silva (Meio Ambiente), Anielle Franco (Igualdade Racial), os ministros Ricardo Lewandowski (Justiça), Rui Costa (Casa Civil) entre outros. Também foi convidado o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
“O objetivo é que o Estado brasileiro reconheça e assuma sua responsabilidade pelas graves violações de direitos humanos praticadas por suas próprias instituições contra os povos indígenas, que incluíram assassinatos, remoções forçadas, envenenamentos, sequestros de crianças, contaminação intencional por doenças infecto-contagiosas, além do esbulho de terras”, explica a antropóloga e jornalista Tatiane Klein, que representa o Instituto Socioambiental (ISA) no Fórum. “A criação de uma comissão específica para investigar essas violações foi recomendada pela própria CNV, em 2014, e é fundamental para assegurar o direito à memória desses povos”.
A iniciativa responde a uma recomendação feita pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) em 2014, quando revelou a morte de ao menos 8.350 indígenas por ações e omissões de agentes do Estado durante o período investigado, número quase 20 vezes maior que o total de mortos e desaparecidos políticos (434). A própria CNV reconheceu que o dado estava muito abaixo da realidade, já que a apuração abrangeu apenas dez povos indígenas, entre os 305 existentes no país, e recomendou a criação de uma Comissão Nacional Indígena da Verdade (CNIV) para aprofundar essas investigações.
Fórum
O Fórum é uma iniciativa multissetorial instituída em 2024 para investigar, resgatar a verdade e garantir reparação às diversas formas de violências cometidas pelo Estado brasileiro contra os povos indígenas por meio de órgãos como o Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). O espaço reúne mais de 60 adesões de organizações indígenas como a Apib, entidades da sociedade civil como o ISA, além de representantes de órgãos públicos e instituições acadêmicas.
“O movimento indígena e suas organizações parceiras da sociedade civil foram fundamentais para apoiar o trabalho da Comissão Nacional da Verdade (CNV) há onze anos e agora estão chamando o Estado brasileiro a essa tarefa urgente de continuar investigando as violações de direitos humanos dos povos indígenas – para que elas não sejam esquecidas e parem de ser repetidas”, comenta Tatiane Klein.
Em um ano, foram realizadas 16 plenárias e sistematizadas informações de mais de 80 casos de povos indígenas que tiveram seus direitos violados. O grupo de trabalho coordenado pelo fórum, com participação da historiadora Luma Prado, do ISA, ampliou significativamente o levantamento da CNV, reunindo novas evidências em acervos e arquivos de instituições parceiras, como o Acervo Socioambiental. “A criação da Comissão Nacional Indígena da Verdade (CNIV) é um passo fundamental para aprofundar essas investigações e garantir o direito à verdade, à memória e à reparação aos povos indígenas”, afirma a historiadora.
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Antropólogo que dirigiu o Parque Indígena do Xingu após Orlando Villas-Bôas marcou o indigenismo brasileiro ao nomear os primeiros chefes de posto indígenas na Funai
O Instituto Socioambiental (ISA) se despede de Olympio Trindade Serra com tristeza e deferência. Podemos dizer, sem medo de exagerar, que bem antes de se falar em "protagonismo indígena", ou de estar estruturado o campo político que triunfou na Constituição de 1988 para os direitos dos povos indígenas, houve um antropólogo que, ineditamente, nomeava dois indígenas para assumirem cargos administrativos na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) que, até então, eram exercidos exclusivamente por funcionários não indígenas.
Olympio Serra foi diretor do Parque Indígena do Xingu (PIX) depois de Orlando Villas-Bôas. Aliados e companheiros, Olympio concebeu, delicadamente, seu conceito de gestão do PIX que admitia, ser ali, não uma dádiva da política pública para povos indígenas, mas sim um território que pudesse ser apropriado por quem deu-lhe conteúdo e consistência.
Megaron Txukarramãe e Mairawë Kayabi foram nomeados "Chefes de Posto" do Diauarum (no Médio PIX) e do Kretire (no Baixo PIX) por Olympio Serra. Apenas o Alto PIX, onde se localiza ainda hoje o Posto Indígena Leonardo Villas-Bôas, manteve um funcionário não indígena da Funai que, ainda assim, em 1987 passou a ser gerido por Pirakumã Yawalapiti, expressando o legado de Olympio para a política indigenista naquela terra indígena que, por muitos anos, insistia-se ser a última reserva indígena possível de um Brasil militarizado e desenvolvimentista.
O ISA ouviu a antropóloga Ana Gita de Oliveira, discípula de Olympio Serra, e sua amiga de "todos os momentos", como ela mesma expressa. Gita concorda que foi ele o grande responsável por realizar em uma Funai da ditadura militar, coordenado o setor de estudos e pesquisas da autarquia. São palavras dela: "naqueles tempos sombrios, [Olympio] teve a coragem de chamar antropólogos para implementarem um grande projeto de esperança para os povos indígenas por meio de políticas específicas, uma iniciativa inédita e progressista com grande repercussão no campo indigenista". A consequência da ousadia resultou na demissão dele e de outros tantos antropólogos que se posicionaram contra os desmandos dos militares.
Veja homenagem da ABA:
Fora da Funai, relata Gita, Olympio foi chamado por Aloisio Magalhães para integrar o corpo de pesquisadores da então recém criada Fundação Nacional Pró- Memória, onde me acolheu e, juntos, criamos a setor de Etnias e Sociedade Nacional, inédito no campo das políticas de salvaguarda do patrimônio cultural que teria vida institucional longa. Posteriormente, essa experiência seria integrada ao Departamento do Patrimônio Imaterial do IPHAN, que em sua história recente pode, também de forma inédita, tratar das políticas de salvaguarda dos povos indígenas, dos movimentos negros, quilombolas e das comunidades tradicionais.
Em 1994, Olympio Serra foi chamado por Megaron Txukarramãe, então diretor do PIX, para compor a diretoria da ONG Associação Vida e Ambiente criada por seu tio, Raoni Metuktire, com o apoio de seu amigo, o cantor Sting.
Importante mencionar a defesa de Olympio em favor dos terreiros de candomblé e de todos os movimentos negros – ou de pretos – como dizia. Dentro da Fundação Pró-Memória, herdada pelo Iphan no Ministério da Cultura, ele fazia lembrar, incansavelmente, que a presença da cultura imaterial de pretos e indígenas era tão ou mais importante do que a salvaguarda dos patrimônios de origem europeia geralmente representados pela materialidade de casarões portugueses. A presença indígena nos blocos de pretos do carnaval da Bahia era - e ainda é - como ele insistia, a maior prova dessa sempre viva herança cultural.
Siga em paz, Olympio! Você vai fazer falta.
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Primeira temporada apresenta histórias de resistência e ancestralidade com mulheres do povo Mura, Pankará, Quechua, Guarani e Yanomami
O Instituto Socioambiental (ISA) lança nesta terça-feira (30/09) o segundo episódio da primeira temporada do podcast “Floresta no Centro”, criado para estimular escutas e trocas sobre territórios, culturas e resistências.
Na conversa "Mulheres indígenas na cidade", a artista Auá Mendes, do povo Mura, a pedagoga e doutora em antropologia Chirley Pankará, do povo Pankará em Pernambuco, a artista andina Fernanda Quechua, natural da Bolívia, e Natali Mamani indigena Aymara, cineasta da rede Katahirine, refletem sobre os caminhos e atravessamentos de suas vivências urbanas, marcadas por arte, memória, enfrentamento e pertencimento. Com a mediação de Luma Prado, historiadora, pesquisadora e articuladora no ISA, elas também compartilham formas de resistir nas cidades, mantendo vivas suas raízes e modos de vida.
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O podcast é gravado durante os eventos presenciais no espaço do ISA na Galeria Metrópole, na capital paulista. Lá, saberes de comunidades do Xingu, Rio Negro e Vale do Ribeira, são apresentados para os visitantes por meio de eventos presenciais e oficinas e comercialização de publicações da organização e de parceiros, jóias, objetos de decoração e alimentos.
Com a realização do Instituto Socioambiental (ISA), o projeto faz parte de um esforço coletivo para amplificar vozes originárias e tradicionais.
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Ouça o episódio abaixo
Créditos
Identidade visual: Camaleão
Captação de áudio, identidade sonora e edição: Voz Ativa Produções
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Contribuições seguiram para a etapa estadual, em Manaus, e integrarão o documento único que os povos indígenas levarão como contribuição coletiva à COP30
Nos dias 16 e 17 de setembro, a Casa do Saber da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), em São Gabriel da Cachoeira (AM), recebeu a etapa Rio Negro da Pré-COP Parente, encontro que reuniu cerca de 100 lideranças indígenas Rio Negro. Com a presença da ministra dos Povos Indígenas (MPI), Sonia Guajajara, o seminário abriu espaço para debates sobre territórios, políticas climáticas e a participação indígena na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que será realizada em novembro, em Belém.
O ciclo é realizado em parceria com a Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (Apiam), a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e o MPI.
Durante dois dias de programação, foram discutidos temas como ameaças e defesa dos territórios, crise climática, créditos de carbono, fundos de financiamento climático, sociobioeconomia e sustentabilidade. As lideranças também aprofundaram reflexões sobre o papel das ciências indígenas na mitigação e adaptação às mudanças climáticas e sobre a necessidade de ampliar a presença dos povos indígenas nos espaços de decisão em nível estadual, nacional e global.
Dario Baniwa, presidente da Foirn, apresentou um panorama sobre o contexto territorial do Rio Negro, destacando avanços conquistados pelas comunidades, como as iniciativas de turismo de base comunitária, a Casa de Artesanato Wariró – fruto da organização das mulheres indígenas –, os Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) e a criação do Fundo Indígena do Rio Negro (FIRN), mecanismo voltado para apoiar a implementação desses planos.
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Ele também alertou para os desafios que ameaçam a região, como o garimpo ilegal, o tráfico de drogas, a morosidade na demarcação de terras e os impactos das mudanças climáticas. Dário destacou a importância do evento como “um momento de diálogo, escuta e de trazer nossas demandas, para que as lideranças não apenas levem as discussões à COP, mas também retornem aos territórios e comunidades, compartilhando as informações com os parentes que ficaram”.
O coordenador-geral da Coiab, Toya Manchineri, chamou atenção para os impactos de propostas legislativas que fragilizam os direitos indígenas e colocam em risco a proteção territorial. Ele citou projetos como o chamado “PL da devastação” e o PDL 717/2024, que dificultam ainda mais os processos de demarcação de terras, reforçando a necessidade de fortalecer a mobilização e a articulação política para garantir a integridade dos territórios e os direitos constitucionais dos povos indígenas.
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A ministra Sonia Guajajara, em sua apresentação, destacou o caráter preparatório da Pré-COP Parente e reforçou que o ciclo de encontros, que tem percorrido todos os biomas, tem justamente o objetivo de escutar as lideranças, reunir propostas e fortalecer a presença indígena na COP30. “É uma honra voltar aqui no Rio Negro e neste momento enquanto ministra de Estado dos Povos Indígenas trazendo esse tema da Conferência do Clima. Um tema que é tão real no dia a dia, nas nossas comunidades, nossos povos que já sentem esse impacto das mudanças climáticas”, afirmou a ministra.
Ela ressaltou que a crise climática afeta de forma desigual diferentes regiões e povos, mas que todos já percebem os efeitos do aumento da temperatura e das alterações nos regimes de chuva, o que torna urgente a construção de respostas conjuntas.
A ministra também reafirmou o compromisso do governo em garantir paridade na participação nos espaços de discussão e decisão, defendendo o protagonismo indígena e a paridade na participação entre homens, mulheres, jovens e anciãos. Segundo ela, assegurar equilíbrio na composição das mesas e painéis é essencial para que diferentes visões e cosmovisões indígenas estejam representadas, fortalecendo a contribuição dos povos na construção de soluções para a crise climática.
Carta de Direitos Climático das Juventudes do Rio Negro
Um dos momentos simbólicos do encontro foi a participação da juventude indígena. A coordenadora do Departamento de Adolescentes e Jovens da Foirn Jucimeyre Garcia fez a entrega simbólica da Carta de Direitos Climáticos das Juventudes do Rio Negro à ministra Sonia Guajajara. Construído coletivamente, o documento elenca dez propostas prioritárias para efetivar os direitos climáticos nos territórios da região e ainda passa por ajustes finais antes da entrega oficial.
A carta é fruto de encontros e grupos de estudos sobre justiça climática e racismo ambiental conduzidos em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) e reforça a importância da juventude indígena como protagonista nas lutas por políticas climáticas mais justas e inclusivas.
Num segundo momento, reunidos em grupos de trabalho, as lideranças debateram as demandas territoriais dentro dos eixos prioritários de Direitos Humanos, Ambientais e Territoriais; Fundos de Financiamento Climático; Sociobioeconomia e Sustentabilidade; e Participação Indígena na COP30.
As discussões deram origem a uma carta que reafirma os territórios indígenas como resposta concreta à crise climática. “Por milênios, os povos indígenas do Rio Negro vêm manejando a floresta com sabedoria, mantendo a biodiversidade, cuidando dos rios e garantindo o equilíbrio ambiental essencial para toda a humanidade”, destaca o documento.
Entre as propostas apresentadas, as lideranças defendem que a demarcação das Terras Indígenas seja tratada como uma estratégia estruturante de mitigação e adaptação climática. Destacam a necessidade de que o governo brasileiro inclua metas claras e prazos definidos no compromisso climático nacional (NDC) e que essa agenda seja reconhecida como essencial para a integridade dos ecossistemas e da vida no planeta. Também, reivindicaram que a proteção das terras já demarcadas seja reforçada com maior presença do Estado para fiscalização e monitoramento, especialmente nas áreas de fronteira, diante das pressões que ameaçam a região, como narcotráfico e garimpo ilegal.
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Outro ponto central foi a garantia de financiamento direto às organizações indígenas, sem a necessidade de intermediários e de forma simplificada e desburocratizada, facilitando o acesso pelas associações de base. A reivindicação é que de 20% a 50% dos recursos de fundos climáticos, nacionais e internacionais, como o Fundo Amazônia e o TFFF (Tropical Forests Forever Facility) – proposto pelo Brasil para recompensar países que conservam suas florestas tropicais – sejam destinados a iniciativas protagonizadas pelos povos indígenas. A valorização de mecanismos próprios de gestão, como o Fundo Indígena do Rio Negro (FIRN), além de salvaguardas que assegurem que os recursos cheguem de forma transparente e eficiente até as comunidades, também foram pontuados.
As lideranças também reforçaram a importância de fortalecer os Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) já existentes e de criar políticas públicas específicas para sua implementação. A revogação de leis e projetos que fragilizam os direitos constitucionais indígenas e a proibição da mineração em terras indígenas também foram medidas pontuadas para garantir a integridade cultural e ambiental dos territórios.
A carta final ainda destacou a necessidade de reconhecer as ciências e tecnologias indígenas como parte das soluções globais para a crise climática, defendendo que seus conhecimentos sejam tratados em igualdade com as tecnologias convencionais, com incentivo a pesquisas conduzidas por indígenas, valorização das medicinas tradicionais e fortalecimento de espaços como as Casas do Saber, que promovem a transmissão intergeracional de saberes.
Outro eixo relevante foi o das economias sustentáveis e da soberania alimentar, com propostas de investimentos no fortalecimento da agricultura tradicional, do manejo comunitário e de cadeias produtivas como a pesca, o artesanato e o turismo de base comunitária.
A educação indígena diferenciada também entrou como parte da agenda climática como política estratégica para a justiça social e climática, com escolas e universidades indígenas fortalecidas, currículos próprios, bilíngues e adequados à realidade de cada povo. Além disso, destacaram a importância da formação continuada de professores e da valorização das línguas indígenas como forma de preservar conhecimentos ancestrais.
Por fim, o documento reafirma a urgência de ampliar a representação indígena nos espaços de decisão internacionais, garantindo a presença de mulheres, jovens e anciãos e criando um comitê próprio para monitorar e incidir sobre as decisões da COP30.
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Evento em São Paulo recebe lideranças indígenas Xetá – que foram vítimas de uma tentativa de extermínio nos anos 1940, no Paraná, e hoje usam suas artes e saberes para lutar por seus direitos
No dia 25 de setembro, quinta-feira, às 19h, o espaço Floresta no Centro, em São Paulo (SP), do Instituto Socioambiental (ISA), receberá o evento “Artes e resistências do povo Xetá”, uma roda de conversa com as lideranças indígenas Itakã Xetá (Claudemir da Silva), guardião dos cantos e da língua Xetá, e Arwáj Xetá (Dival da Silva), artesão e guardião das histórias xetá.
O evento tem como objetivo trazer para diálogo as memórias e saberes que vêm sendo utilizadas por esse povo para resistir ao genocídio ao longo de décadas de resistências e retomada.
A mediação fica a cargo do antropólogo não indígena Rafael Pacheco, pesquisador do Centro de Estudos Ameríndios da Universidade de São Paulo (CEstA-USP). O evento é uma realização do ISA em parceria com a Associação Indígena da Etnia Xetá (AIEX).
Nos anos 1940, no Paraná, o povo Xetá resistiu a uma tentativa de extermínio que reduziu sua população, gerando um grave processo de desagregação social. Neste período, a colonização no noroeste do Paraná levou à invasão do território xetá, cujas terras foram ilegalmente cedidas pelo Estado a empresas privadas, como a Companhia Brasileira de Imigração e Colonização (Cobrimco).
Sequestro de crianças, separação familiar, massacres, remoção forçada, destruição de aldeias e exploração de trabalho análogo à escravidão são algumas das graves violações de direitos humanos a que os Xetá foram submetidos por ação ou omissão do estado brasileiro, segundo o relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), em 2014. O caso foi alvo também das investigações da Comissão Estadual da Verdade do Paraná (CEV-PR) e de investigações que estão sendo conduzidas por pesquisadores indígenas da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB).
Hoje o povo se recuperou e são mais de 200 pessoas xetá, que vivem em diferentes regiões do estado do Paraná, e que periodicamente se reúnem em “encontros pela vida” – buscando reunir seus parentes, recuperar sua língua e demarcar seu território, a Terra Indígena Herekarã Xetá – uma área de aproximadamente 3000 hectares, localizada no município de Ivaté, no Paraná, mas que ainda não teve seu processo de demarcação finalizado.
Um dos primeiros encontros foi realizado em 1997, com o apoio do ISA, em Curitiba, reunindo alguns dos sobreviventes do genocídio xetá para discutir perspectivas de futuro para seus descendentes e contornar a disperação e separação forçadas. Em 2019, aconteceu o mais recente desses encontros, que foi relatado por Dival da Silva, Claudemir da Silva e Rafael Pacheco no livro Povos Indígenas no Brasil 2017-2022, do ISA, e reuniu familiares de diversas localidades na TI São Jerônimo da Serra, onde está um dos maiores núcleos populacionais dos Xetá na atualidade.
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O evento abordará os cantos, memórias e histórias Xetá, propondo um mergulho nos aspectos contemporâneos da vida xetá na importância de seus saberes e fazeres tradicionais para fortalecer seu modo de existir. Além da roda de conversa, o evento contará ainda com a venda de artesanatos e a exibição do documentário “Somos Xetá”, dirigido pelos cineastas Nyathe, Tikone e Leandro Xetá.
Serviço
Evento: “Artes e resistências do povo Xetá” – Roda de conversa com lideranças indígenas e guardiões das artes xetá, com Itakã Xetá (Claudemir da Silva) e Arwáj Xetá (Dival da Silva) e Rafael Pacheco (CEstA-USP)
Data: Quinta-feira, 25 de setembro de 2025
Horário: 19h
Local: Floresta no Centro. Av. São Luiz, 187 - Galeria Metrópole - loja 28 - 2º piso - São Paulo (SP)
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Evento gratuito em São Paulo reúne exibições de filmes, mesas de debate e apresentações científicas
A Cinemateca Brasileira promove, nos dias 11 e 12 de setembro, o seminário “Olhares cruzados França-Brasil sobre os desafios da preservação e do acesso ao patrimônio audiovisual: foco na memória audiovisual dos Povos Indígenas”, parte da Temporada França-Brasil 2025 e patrocinado pelo Serpro. O evento, gratuito, contará com tradução simultânea francês-português, interpretação em Libras e transmissão ao vivo pelo canal da Cinemateca no YouTube.
Confira a programação completa
Valorizando a memória dos povos indígenas, o seminário discutirá os desafios da preservação e do acesso ao patrimônio audiovisual, com foco na memória indígena. O encontro inclui mesas de debate e sessões de filmes em São Paulo, a partir de acervos do Instituto Nacional do Audiovisual (INA), da França, e da própria Cinemateca, com apoio do Laboratório de Imagem e Som em Antropologia da USP (LISA) e do Instituto Socioambiental (ISA).
O seminário discutirá a colaboração internacional, preservação do patrimônio audiovisual e iniciativas científicas conduzidas pelo INA e parceiros brasileiros, com a presença de representantes de povos indígenas, instituições, profissionais do setor e pesquisadas mesas abordarão os desafios e conquistas na aquisição e preservação de material audiovisual sobre os povos indígenas brasileiros, além da produção audiovisual realizada por grupos indígenas.
Um dos destaques do evento será a Mesa-Redonda 3, às 14h do dia 11, que apresentará e debaterá iniciativas científicas brasileiras relacionadas à memória audiovisual dos povos indígenas, com a presença da antropóloga Tatiana Maira Klein e da bibliotecária Adriana Miranda, ambas colaboradoras do ISA.
Outros especialistas participarão das mesas, como Kerexu'i Martim (documentarista Guarani), Gabriela Sousa de Queiroz (Cinemateca Brasileira), Karkaju Pataxó (Ministério dos Povos Indígenas), Drika de Oliveira (FIAF), Idjahure Terena (pesquisador Terena), Tamara Santos (Cinemateca Brasileira), Géraldine Poels (INA) e Maria Dora Mourão (diretora-geral da Cinemateca).
A exibição de registros dos acervos do INA e da Cinemateca Brasileira mostrará a diversidade da memória audiovisual dos povos indígenas. Também será exibida a cópia restaurada do documentário Quelque Chose De L'arbre, Du Fleuve, Et Du Cri Du Peuple (1980), com debate do diretor Patrice Chagnard. Lançado em 1980, o longa mostra a luta das comunidades camponesas do nordeste brasileiro contra grandes proprietários e empresas multinacionais, em três momentos do despertar da consciência de um povo.
Mesa-Redonda 3 | Apresentações e debate sobre iniciativas científicas brasileiras relacionadas à memória audiovisual dos povos indígenas do país
Dia: 11/09
Horário: 14h
Onde: Cinemateca Brasileira (Largo Sen. Raul Cardoso, 207 - Vila Clementino, São Paulo)
Moderador: Eduardo Morettin - Professor do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão, USP
Painelistas:
Sylvia Caiuby Novaes e Mariana Floria Baumgaertner - LISA - Laboratório de Imagem e Som em Antropologia, USP
Tatiane Maira Klein e Adriana Miranda - ISA - Instituto Socioambiental
Karkaju Pataxó - Coordenador Geral de Promoção a Políticas Culturais do Ministério dos Povos Indígenas (MPI)
Ianara Apolônio Xokó - Historiadora, antropóloga e professora Xokó
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Um desejo de longa data da liderança histórica do povo Kayapó, obra é uma realização do Instituto Raoni e da Companhia das Letras, com apoio do ISA e do ISPN
O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) recebe no dia 09 de setembro, às 19 horas, o evento de lançamento do livro Raoni-Memórias do Cacique. A obra concretiza um desejo de longa data do Cacique Raoni, e é uma realização do Instituto Raoni em parceria com a Companhia das Letras, com apoio do Instituto Socioambiental (ISA) e do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN). O evento será aberto ao público, haverá sessão de autógrafo com o cacique e um diálogo com Raoni, seu neto Beptuk Metuktire e Fernando Niemeyer.
Ropni, aportuguesado como Raoni, pertence ao povo Mẽbêngôkre, também conhecido como Kayapó Cacique, pajé e cuidador de seu povo, tornou-se uma liderança que conheceu o mundo dos brancos, fez alianças pessoais e políticas, dentro e fora do Brasil, e formou uma visão de mundo própria, onde não há diferença entre mito e história, revelando a complexidade do pensamento originário.
O livro foi construído a partir de entrevistas inéditas realizadas pelos tabdjwy de Raoni, seus netos, entre 2020 e 2023. Falando sempre em mẽbêngôkre, e rodeado de parentes, Raoni gravou durante dezenas de horas, em diversas sessões, as histórias e mitos que resultaram neste relato. O material foi traduzido para o português por meio de um trabalho meticuloso e extenso de uma equipe de tradutores Mêbêngôkre, sob a coordenação do antropólogo Fernando Niemeyer, que também supervisionou a redação e edição do manuscrito.
As memórias do cacique nos convidam a enxergar a história do Brasil pela perspectiva daqueles que sempre habitaram estas terras, que testemunharam a chegada dos invasores e que, desde então, elaboram estratégias de resistência. É a perspectiva daqueles que veem a floresta viva e repleta de espíritos como seu principal meio de existência e que lutam por ela como um ato de esperança para o futuro.
"Me comovo quando penso em Raoni, herói mítico do panteão dos guerreiros, líder da resistência nativa no continente americano com quem temos a oportunidade de conviver, alguém de cuja luta podemos ser testemunhas", compartilha Ailton Krenak.
Raoni nasceu em 1937, na região do Kapôt, norte do Mato Grosso, e tornou-se intermediário entre seu povo e os não indígenas em viagens dentro e fora do Brasil para reivindicar seus interesses coletivos e buscar alianças e recursos. Com atuação emblemática na arena política, teve importância decisiva na demarcação de vários territórios e na conquista de direitos indígenas a partir da década de 1970.
Serviço
Memórias do Cacique: Um diálogo com Raoni Mẽtyktire, Beptuk Metuktire e Fernando Niemeyer
Mediação: Danna Dantas
Local: Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília (SCES, Trecho 2 - Asa Sul, Brasília/DF), aberto de terça a domingo, das 9h às 21h
Data: 09 de setembro, às 19h
Ingressos: bb.com.br/cultura ou na bilheteria do CCBB Brasília a partir do dia 8/9, às 12h (via link ou na bilheteria física)
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Relato de intercâmbio entre Ehuana Yanomami e 16 mulheres-liderança do povo Guarani revela laços entre as lutas de mulheres indígenas na defesa de seus territórios
“Elas são como nós, Yanomami”. Essa foi uma das conclusões a que chegou a liderança Ehuana Yaira Yanomami, após percorrer os cerca de 3500 km que separam a aldeia Demini, na Terra Indígena (TI) Yanomami, em Roraima, da aldeia Kalipety, na TI Tenondé Porã, na capital paulista.
Recebida por um grupo de dezesseis mulheres do povo Guarani, que participam do conselho de lideranças de seu território, Ehuana deixou a aldeia com a certeza de que as mulheres guarani são verdadeiras defensoras da floresta e que seus saberes, sua língua e sua cultura estão vivas – mesmo morando tão perto da cidade, onde predomina o modo de vida dos não indígenas, chamados de napë pë em yanomami, juruá em guarani. "Apesar de estar na cidade de São Paulo, cheguei no lugar onde eles fizeram uma floresta", celebrou Ehuana.
Ela, além de liderança, é pesquisadora e artista plástica. Sua ida a São Paulo aconteceu em razão de uma série de palestras que daria em um colégio na cidade, mas a visita à TI Tenondé Porã nasceu do desejo de Ehuana conhecer e dialogar com outras mulheres indígenas em posição de liderança como ela. A demanda foi recebida por Jera Poty Mirim, liderança da tekoa Kalipety, que se prontificou a recebê-la em seu território.
Em comum, elas tinham não só o fato de serem mulheres e lideranças de seus povos, mas também de serem protagonistas do movimento de mulheres indígenas, responsáveis por articular encontros de mulheres em suas terras. Os Encontros de Mulheres Yanomami e as Kunhangue Nhemboaty, assembleias de mulheres guarani, foram destaque na publicação Povos Indígenas no Brasil 2017-2022.
No artigo que publicou com outras mulheres de seu povo no livro, Jera fala da importância das mulheres ocuparem posições de liderança em suas comunidades e territórios: “Quando era criança, tinha constantemente reuniões gerais, nhemboaty guaxu como diziam, e sempre, sempre, eram só homens falando. Acredito muito que a participação das mulheres no trabalho político interno, só vai fortalecer. Não exterminar os homens ou mandar todo mundo pra cadeia, ou coisa do tipo. Vai fortalecer o nhandereko de novo, o nosso modo de ser guarani”.
Hoje, Jera é uma das vozes do conselho de lideranças da TI Tenondé Porã e ajuda a fortalecer outras mulheres guarani para que ocupem posições de liderança em diversos âmbitos da vida no território, como donas de roças, mestras de cantos-rezas, educadoras, artesãs, comunicadoras, motoristas, entre outras.
Para esse intercâmbio cultural e político, ela reuniu outras 16 mulheres-lideranças, representando aldeias como Tape Porã, Yporã, Tape Mirim, Kalipety e Krukutu. A atividade foi articulada pela organização indígena Comitê Interaldeias em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) e contou com o apoio da Hutukara Associação Yanomami (HAY).
“Essa foi a primeira vez que eu conheci os Guarani, foi a primeira vez que eu fui em outra Terra Indígena. Até então eu só tinha conhecido a cidade dos napë. Então eu cheguei até a Terra onde mora Jera Guarani, a liderança que nos recebeu, e quando cheguei até ali, eu ouvi sobre o sofrimento do povo Guarani. Os näpe há 500 anos destroem seu território, seu povo, mas eles fazem a retomada”, constatou Ehuana.
Geovana dos Santos Lima, jovem indígena, estudante de ciências sociais e pesquisadora do Instituto Socioambiental (ISA), é quem narra os trechos a seguir. Ela acompanhou o encontro junto a Tatiane Klein, antropóloga e jornalista no ISA, e Ana Maria Machado, antropóloga indigenista e tradutora do encontro.
Uma ponte entre mundos
por Geovana Lima
A estrada de barro balançava o carro e, com ele, os corpos e as expectativas. Pelas janelas, víamos a mata se adensar, como quem se aproxima de algo vivo, palpitante. A chegada à aldeia Kalipety foi anunciada por placas, cheiros, sons e acolhimentos.
“Apesar de eu estar bem longe da minha terra, cheguei até a terra deles”, observou Ehuana Yanomami.
Ela examinou as roças de batata-doce, mandioca, urucum e a forma como o povo Guarani trabalha, como preparam seus alimentos e como fizeram renascer a mata. "Os napë pë destruíram muito a floresta deles, mas eles replantaram. Hoje, apesar de cercados pela cidade, eles resistem e permanecem em sua terra", contou.
Um café da manhã nos esperava, repleto de xipa (uma espécie de pão frito), batata-doce cozida, mbeju e rora (um tipo de cuscuz) — e da presença animada do cachorrinho Pipoca, que circulava entre as pessoas como um anfitrião atento. O xipa, em especial, nos conquistou.
Logo após o café, fomos caminhar pelo território, onde vimos diversos plantios e roças cuidadas com zelo. “Eu fui até a roça, onde eles plantam batatas doces, macaxeiras, pés de urucum, eu vi essa árvore. E vi também a forma como eles fazem para manter a terra sempre úmida“, detalhou Ehuana, se referindo à cobertura de folhas feita pelos Guarani em seus roçados, para manter a umidade da terra.
A entrada nesse espaço revelou algo fundamental: naquele momento, eram apenas mulheres ali. Cantando, rezando, servindo-se, trocando saberes, compartilhando alimentos, comentando suas trajetórias. Uma cena de força e de escuta, onde a espiritualidade e a política se entrelaçavam com naturalidade.
Em círculo, nos apresentamos. Cada mulher compartilhou sua realidade, desafios e formas de luta. Ehuana contou da emoção ao receber o convite para conhecer o território guarani; disse que seu peito se encheu de alegria. Aline Jaxuka, uma das lideranças guarani, lembrou que a liderança das mulheres começa dentro de suas próprias comunidades. Jera, referência entre as Guarani Mbya, comentou que os grandes encontros de mulheres por vezes se tornavam distantes das realidades locais. Ressaltou que ali estavam reunidas mulheres com trajetórias próprias — algumas fundaram suas tekoa, outras dividem responsabilidades com homens nas equipes de liderança. “Não podemos esquecer do nosso quintal”, disse, lembrando que muitas lideranças se afastam de suas comunidades e perdem a conexão com aquilo que as sustenta.
A conversa fluía em várias línguas, mas sempre com sentido. Ana Maria fazia a tradução simultânea entre Yanomami e português, costurando os fios do diálogo com cuidado e paciência. Ao fundo, xejaryi Rosa e suas filhas pitavam, compondo o cenário com quietude e presença.
O almoço nos reuniu novamente ao redor de um banquete coletivo: galinhada, variedades de batata-doce (assadas, cozidas, brancas, laranjas, roxas), feijão com canjica – um prato que os Guarani chamam de jopara. Depois, uma abundância de frutas: melancia, banana, manga, mamão, laranja, mexerica. Comer juntas era também partilhar mundos.
Depois do almoço farto e das intensas trocas da manhã, o corpo pediu descanso. Dormi por algumas horas.
Enquanto dormia, soube que as Guarani mostraram a Ehuana como preparam alguns de seus alimentos tradicionais, como batata doce, mbeju e avaxi hu'i (milho torrado e pilado), além de trocarem experiências sobre suas culturas e saberes.
Nesse momento, em torno do pilão e da fogueira, Ehuana e a parteira e liderança Yara dos Santos, partilharam experiências sobre um dos temas que as unem: os partos. Yara parteira contou de seu trabalho na valorização dos partos na aldeia e se encantou com os relatos e ilustrações de Ehuana sobre a forma como as mulheres yanomami dão à luz sozinhas na floresta, atualmente Ehuana é pesquisadora do projeto Redes de Cuidado (UFMG), voltada para a melhoria do pré-natal entre as Yanomami
Conheça: Yipimuwi thëã oni: palavras escritas sobre menstruação, de Ehuana Yanomami
Acordei por volta das 16h sob a companhia do gatinho branco e, após um lanche rápido, seguimos para a mata, onde gravamos o depoimento de Ehuana para as mulheres yanomami. Ela falou com firmeza e ternura sobre o que estava vivendo ali. Suas palavras, traduzidas com cuidado por Ana Maria, revelaram a admiração pela resistência das lideranças guarani e a conexão entre suas lutas e as do povo Yanomami.
À medida que o sol se despedia, retornamos à casa de reza. Foi ali que passamos a madrugada inteira em cantos e danças junto aos Guarani. O ambiente era marcado por uma espiritualidade densa e acolhedora.
A madrugada transcorreu num tempo próprio: dormíamos e acordávamos, guiadas não pelo relógio, mas pelo ritmo dos cantos guarani e das pausas. Em uma dessas vezes, despertei com a voz de Ehuana preenchendo o espaço com um canto profundo, que me atravessou de um jeito difícil de descrever. Ao seu lado, Ana Maria seguia a melodia yanomami em harmonia, como quem sustenta com cuidado uma ponte entre mundos. Aquela cena me tocou profundamente — havia algo ali de cura, de força compartilhada, de presença plena. Era como se, por um momento, eu escutasse não apenas com os ouvidos, mas com todo o corpo.
“Eu vim conhecer a forma como seus mais velhos bebem o sumo da planta medicinal, pois eu queria conhecer como fazem“, disse Ehuana. E assim, durante o ritual, foi feita a utilização da medicina tradicional dos Guarani, conduzida por eles em seus próprios termos e saberes. Eu, que não participei desse momento de forma direta, observei com respeito e atenção a força do gesto, compreendendo sua importância naquele contexto sagrado.
Entre um repouso e outro, víamos as brasas acesas.
Por volta das seis ou sete horas da manhã, despertei de vez — os Guarani ainda cantavam, embalando a chegada do sol. O céu clareava, e juntas começamos a arrumar a casa de reza, recolhendo os rastros da noite intensa e bonita que havíamos vivido.
“Ali eu pude ver a forma como seus xamãs cuidam da Terra. Ficamos acordadas até sete horas da manhã. Eu não dormi naquela noite, mas fiquei muito emocionada. Da mesma forma como nós, Yanomami, fazemos xamanismo, eles também fazem pela cura da Terra. Isso me deixou muito feliz. E fiquei muito feliz também por ver jovens e moças ali tomando a medicina deles, anciãs que cantavam toda a noite sem dormir”, relatou posteriormente a Ehuana, em evento registrado no podcast ”Floresta no Centro”. Escute aqui!
Em seguida, tomamos café da manhã e seguimos para a casa de artesanato. Lá, fomos todas presenteadas com peças diversas — colares, pulseiras, brincos — inclusive por Jera, que nos ofereceu seus próprios trabalhos com generosidade e firmeza.
Encerramos o intercâmbio com abraços, risos, fotos e trocas de palavras, enquanto a mata ao redor parecia também se despedir, com seus sons e cheiros.
O carro balançava novamente, como no início da viagem, e a mata ia se esvaindo pelos meus olhos na volta para casa — como quem guarda por dentro aquilo que não quer deixar para trás.
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Minidocumentário faz parte da Mostra Ecofalante Pará, que acontece entre os dias 20 de agosto e 3 de setembro; confira a programação gratuita
“Nosso Modo de Lutar” chega a Belém no dia 22/08, às 20h, como parte da Mostra Ecofalante Pará. O curta-metragem traz o olhar de Francy Baniwa, Kerexu Martim e Vanuzia Pataxó sobre a diversidade na luta e resistência entre os povos indígenas, a partir de filmagens de um dos principais espaços de mobilização indígena do país na atualidade, o Acampamento Terra Livre (ATL). A exibição será no Cine Líbero Luxardo, com entrada gratuita.
Realizada em Belém pela segunda vez consecutiva, a Mostra Ecofalante Pará é reconhecida como o mais importante festival sul-americano para o audiovisual socioambiental. A edição deste ano exibirá 45 filmes, entre 20 de agosto e 3 de setembro, com destaque para a participação feminina.
O curta-metragem “Nosso Modo de Lutar” é fruto de uma parceria entre o Instituto Socioambiental (ISA) e a Rede Audiovisual das Mulheres Indígenas, a Katahirine. Sua gravação aconteceu em abril de 2024, durante a 20ª edição do Acampamento, com um enfoque especial à atuação das mulheres na mobilização. Dos 50 entrevistados, elas são a maioria e explicam os saberes dos cantos, das comidas, das pinturas, passados de geração a geração.
Para conferir a programação completa da Mostra Ecofalante Pará acesse https://ecofalante.org.br/programacao. Todas as sessões e debates têm entrada franca e ocorrerão no Cine Líbero Luxardo e no Sesc Ver-o-Peso.
Serviço
Exibição do documentário “Nosso Modo de Lutar” na Mostra Ecofalante Pará
Dia 22, às 20h
Cine Líbero Luxardo
Entrada gratuita.
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Documento construído coletivamente reforça a luta pela demarcação de suas terras, pela justiça climática e pelo fim das violências contra mulheres indígenas
Na última semana, a IV Marcha das Mulheres Indígenas levou os cantos, danças e reivindicações de cerca de 5 mil mulheres indígenas, de mais de 100 povos, às ruas de Brasília. Organizada pela Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga), a Marcha é realizada a cada dois anos, e reúne mulheres indígenas de todos os biomas do país para debater pautas como a demarcação de seus territórios, violência contra a mulher indígena, saúde, educação e bem-viver.
A caminhada em direção à Praça dos Três Poderes terminou com um uma sessão solene em homenagem à IV Marcha das Mulheres Indígenas, no plenário da Câmara dos Deputados, onde ocorreu a entrega ao Congresso Nacional da Carta dos Corpos-Territórios em Defesa da Vida.
"Para nós, mulheres, é sempre um grande desafio oportunizar esse grande encontro, mas principalmente, esse grande debate que nós, mulheres indígenas, fazemos acerca dos temas que são prioritários para nós e que queremos trazer a Brasília para a gente poder ecoar as nossas vozes, ecoar os nossos desejos, mas ecoar também a defesa dos nossos direitos" , afirmou Joziléia Kaingang, diretora-executiva da Anmiga, na plenária.
Na ocasião, a presidenta da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Joenia Wapichana, destacou a importância do momento: “Estar hoje no Congresso Nacional é reafirmar direitos e também as nossas capacidades”. Ela lembrou ainda as mudanças no cenário político nos últimos três anos, fruto da luta indígena.
Veta, Lula!
Na plenária e nas ruas, o grito “veta, Lula” fortalecia o protesto das mulheres pelo veto à ao Projeto de Lei nº 2159/21, conhecido como PL da Devastação, que coloca em risco a proteção ambiental de seus territórios.
“Esse PL vai causar um grande dano à nossa vida, à nossa saúde, mudando os nossos modos de viver. Porque nós, pajés, vivemos de oração, de cura, das ervas medicinais que ali se encontram e para nós isso é indispensável. Nós protegemos as nossas matas, nós não derrubamos mata em pé.”, lamentou a Pajé Analice Tuxá, do povo Tuxá, em repúdio ao PL.
Ainda na sexta-feira (08/08), o presidente Lula assinou o veto parcial, excluindo 63 dos 400 dispositivos da lei. Agora, o projeto volta ao Congresso, que pode aprovar ainda a derrubada dos vetos.
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Pressão política e eleições 2026
Uma das principais pautas anunciadas na mobilização foi a ampliação no número de mulheres indígenas eleitas no pleito do próximo ano. Atualmente, o Congresso Nacional conta com apenas duas representantes da Bancada do Cocar: Célia Xakriabá e Juliana Cardoso.
"Nós iremos eleger dez deputadas federais para enfrentar a bancada que mais tem atacado o direito dos povos indígenas. Vamos aldear a política e replantar nossas vozes", bradou Célia Xakriabá, durante sessão solene no plenário.
Carta final
A leitura da carta final da IV Marcha das Mulheres Indígenas, “Carta dos Corpos-Territórios em Defesa da Vida”, aconteceu na noite da quinta-feira, e contou com uma apresentação da rapper MC Anarandá, do povo Guarani Kaiowá e um desfile ancestral. “Somos guardiãs do planeta pela cura da terra. Nosso corpo é território. É terra, é água, é semente. E pela força do que somos, vamos transformar o mundo. Estamos em Marcha e caminharemos sempre pelo bem-viver”, afirma o documento.
Conferência histórica e a construção coletiva de políticas públicas
A IV Marcha também foi palco da 1ª Conferência Nacional das Mulheres Indígenas. Realizada entre os dias 4 e 6 de agosto, a Conferência é fruto de uma parceria da Anmiga com os Ministérios dos Povos Indígenas e das Mulheres e integrou a programação da semana.
“Essa conferência nos deu a oportunidade de colocar na mesa do governo federal as propostas prioritárias nos eixos de saúde, educação, emergência climática, defesa dos nossos corpos e gestão ambiental e territorial”, avaliou Joziléia Kaingang.
Ao longo do evento, grupos de trabalho se debruçaram em discussões acerca de cinco eixos temáticos: Direito e Gestão Territorial; Emergência Climática; Políticas Públicas e Violência de Gênero; Saúde; e Educação e a Transmissão de Saberes Ancestrais para o Bem Viver.
Ao fim das discussões, foram priorizadas 49 propostas que integraram o Caderno de Resoluções da Conferência, entregue às ministras Sonia Guajajara e Márcia Lopes em cerimônia de encerramento. O Caderno intitulado “Carta Pela Vida e Pelos Corpos-Territórios: “Nosso corpo é território! Somos as guardiãs do planeta pela cura da terra!”, foi resultado de um processo iniciado nas sete etapas regionais e concluído na Conferência.
Leia o documento completo aqui.
Na cerimônia de encerramento, foi anunciada a assinatura de uma portaria que instaura um Grupo de Trabalho responsável por consolidar as propostas trazidas no Caderno de Resoluções a fim de estabelecer a normativa da Política Nacional para Mulheres Indígenas (PNMI), também anunciada durante o evento. O GT recém instaurado terá caráter interministerial e colaborativo, reunindo diferentes atores como órgãos do governo, lideranças indígenas e representantes da sociedade civil.
A criação do Prêmio Nega Pataxó também foi oficializada na ocasião. Uma homenagem à pajé Maria de Fátima Muniz Andrade, conhecida como Nega Pataxó, do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, o programa tem como objetivo o fortalecimento da autonomia, da participação política e da proteção integral das mulheres indígena.
Além disso, também foi anunciada a criação do Prêmio Mre Gavião, para comunicadores indígenas, em homenagem a Mre Gavião, fotógrafo e servidor do MPI que faleceu neste ano. Por fim, foi anunciada a reestruturação da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) pela presidenta Joenia Wapichana, que se comprometeu a lutar por um orçamento digno para apoiar as necessidades específicas das mulheres indígenas.
Na cerimônia de encerramento da Conferência, também foram anunciadas as homologações de três Terras Indígenas no Ceará. São elas: A Terra Indígena Pitaguary, do povo Pitaguary; Lagoa Encantada, do povo Jenipapo-Kanindé; e Tremembé de Queimadas, do povo Tremembé. A assinatura das portarias aconteceu no Palácio do Planalto, na quarta-feira (06/08).
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Juliana Alves, conhecida como Cacika Irê, do povo Jenipapo Kanindé e atual Secretária dos Povos Indígenas do Ceará, celebrou a decisão durante a Marcha. “Ontem (06/08) foi um dia significativo, foi um dia muito festivo, nós estamos muito felizes em poder estar festejando um momento desse tão significativo na vida dos povos do estado do Ceará, dentro da nossa IV Marcha”.
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