Manchetes Socioambientais
As notícias mais relevantes para você formar sua opinião sobre a pauta socioambiental
“O encontro entre índios e brancos só se pode fazer nos termos de uma necessária aliança entre parceiros igualmente diferentes, de modo a podermos, juntos, deslocar o desequilíbrio perpétuo do mundo um pouco mais para frente, adiando assim o seu fim.”
Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo, um dos fundadores do ISA
O tema "Povos Indígenas" está na origem da existência do Instituto Socioambiental. Lá se vão pelo menos quatro décadas de comprometimento e trabalho com o tema, produzindo informações para a sociedade brasileira conhecer melhor seus povos originários. Desde sua fundação, em 1994, o ISA dá continuidade ao trabalho do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), que havia sido iniciado em 1980 e que, por sua vez, remonta ao começo dos anos 1970, quando o então governo da ditadura militar lançava o Plano de Integração Nacional, com forte componente de obras de infraestrutura na Amazônia, região que era então descrita pelo discurso oficial como um "vazio demográfico".
Por meio dos relatos coletados, dados produzidos e pesquisas empreendidas por uma rede de colaboradores espalhada pelas diversas regiões do País, o Cedi ajudou a derrubar essa tese. Ao dar publicidade às informações levantadas por essa rede social do tempo do telex, o Cedi colocou, definitivamente, os povos indígenas e suas terras no mapa do Brasil. Seus integrantes ainda participaram ativamente no movimento de inclusão dos direitos indígenas na Constituição de 1988 e, juntamente com integrantes do Núcleo de Direitos Indígenas (NDI) e ativistas ambientais, fundaram o ISA em 1994.
De lá para cá, ampliando sua rede de colaboradores em todo o País, o ISA se consolidou como referência nacional e internacional na produção, análise e difusão de informações qualificadas sobre os povos indígenas no Brasil. O site "Povos Indígenas no Brasil", lançado em 1997, é a maior enciclopédia publicada sobre as etnias indígenas no Brasil, com suas línguas, modos de vida, expressões artísticas etc. O site é uma das principais referências sobre o tema para pesquisadores, jornalistas, estudantes e acadêmicos.
A atuação hoje é transversal aos territórios onde atuamos, especialmente na Bacia do Xingu, no Mato Grosso e Pará, e Bacia do Rio Negro, no Amazonas e Roraima, e também envolve povos indígenas de todo o Brasil, por meio da atualização permanente do site e de seus mais de 200 verbetes, inclusão de novos textos sobre etnias emergentes e indígenas recém-contatados, além do monitoramento e cobertura jornalística sobre situações de violência e perda de direitos contra estas populações. O tema "Povos Indígenas" ainda é tratado no site "PIB Mirim", voltado ao público infanto juvenil e de educadores.
O monitoramento de Terras Indígenas também é um eixo central do nosso trabalho com o tema, e remonta à sistematização de dados e divulgação de informações iniciada pelo Cedi em 1986, e se dá por meio da produção de livros impressos e mapas temáticos sobre pressões e ameaças, como desmatamento, mineração, garimpo, obras de infraestrutura, entre outras, além do site "Terras Indígenas no Brasil".
Confira os conteúdos produzidos sobre este tema:
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Em formato de enciclopédia, é considerado a principal referência sobre o tema no país e no mundo |
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A mais completa fonte de informações sobre o tema no país |
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Site especial voltado ao público infanto-juvenil e de educadores |
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Painel de indicadores de consolidação territorial para as Terras Indígenas |
Em conversa com financiadores, lideranças Yanomami e Ye’kwana afirmaram que a ferramenta permitiu mostrar as cicatrizes do garimpo ao governo federal
Representantes da Hutukara Associação Yanomami (HAY), Associação Wanasseduume Ye’kwana e Urihi Associação Yanomami em conversa com financiadores do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) reconheceram a importância do Sistema de Alertas da Terra Indígena Yanomami e pediram a expansão da ferramenta para mais regiões e comunidades da maior terra indígena do Brasil, a Terra Indígena Yanomami.
“Nós, Ye’kwana, moramos mais próximos da divisa do Brasil com a Venezuela, moramos onde nascem os rios. É a nossa casa, a floresta, que mantém o bom ar que respiramos e o Sistema de Alertas tem ajudado bastante na limpeza dos rios, já voltamos a ter água para beber e já deixamos os nossos filhos tomar banho. É por isso que queremos continuar com essa ajuda”, disse Geraldo Ye’kwana.
A reunião ocorreu na quinta-feira (28/11) e contou com a presença de representantes do UNICEF, do Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária (ECHO, na sigla em inglês) e do Instituto Socioambiental (ISA).
Para o próximo ano, as lideranças relataram ainda o desejo de que o sistema de alertas tenha forte foco nas informações relacionadas à saúde, pois ainda há diversas comunidades em situação de vulnerabilidade.
“Temos uma responsabilidade compartilhada em melhorar o sistema. Vocês foram pioneiros em uma ferramenta que será replicada em outras áreas indígenas da Amazônia brasileira e peruana”, disse Andres Trivino, oficial de programa do ECHO, após ouvir as lideranças.
O Sistema de Alertas da Terra Indígena Yanomami é uma ferramenta de produção e organização de informações territoriais, que permite aos indígenas monitorar eventos que oferecem riscos para as comunidades e pessoas na Terra Indígena Yanomami, com o objetivo de gerar respostas mais eficientes e orientar ações do poder público e demais atores no território.
“Com o sistema de alertas, nós podemos mostrar as cicatrizes ao governo federal”, afirmou Dário Kopenawa, vice-diretor da HAY, após explicar que o garimpo ilegal causou danos à saúde, educação e proteção da Terra Indígena Yanomami.
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Ainda conforme a liderança, o Estado ainda não havia consolidado experiência no trabalho de proteção a Terra Indígena Yanomami. Portanto, o ISA, juntamente com as organizações indígenas do território Yanomami, e com o apoio técnico e financeiro do UNICEF e do ECHO, desenvolveu as ferramentas que atualmente ajudam na proteção territorial e comunitária, incluindo questões de saúde e saneamento.
Em setembro de 2023, a ferramenta começou a ser implementada após uma oficina para ensinar indígenas da região do Demini a como usar o sistema.
“Para nós, o resultado do Sistema de Alertas é muito positivo, sem ele, o garimpo ainda estaria ativo na nossa terra”, complementou Dário Kopenawa, que também pediu que as oficinas de capacitação para uso da ferramenta cheguem a mais regiões do território, que possui 9.664.975 hectares entre os estados de Roraima e Amazonas.
Apesar da melhora, a liderança Yanomami afirma que ainda há invasores insistentes que fazem a travessia entre Brasil e Venezuela constantemente para continuar explorando a Terra Indígena Yanomami.
“Precisamos entender quais são os êxitos e os desafios para investir na melhoria do sistema. Há muitos alertas, vimos de vários tipos e vimos que muitos, infelizmente, não podem ser atendidas de maneira imediata”, afirmou Daniela D’Urso, representante do ECHO.
Desde a implementação até abril deste ano, sete em cada 10 denúncias recebidas são referentes a atividades ilícitas praticadas por não indígenas no território, incluindo garimpo.
“O Sistema de Alertas tem sido a ferramenta que mais funcionou para aproximar as associações das autoridades que fazem o trabalho de vigilância e proteção”, avaliou Lídia Montanha, coordenadora adjunta do Programa Rio Negro do ISA, em referência ao relatório Yanomami Sob Ataque.
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A Hutukara Associação Yanomami destacou que sempre buscou dialogar com o poder público sobre seus desafios e problemáticas. Nos anos mais recentes, a organização afirma que passou a encontrar maior abertura para o diálogo e reconhecimento de suas demandas. Suas dificuldades foram acolhidas, e houve uma valorização significativa do projeto do sistema de alertas, uma iniciativa essencial para a proteção do território indígena.
O projeto do sistema de alertas conta com financiamento da União Europeia, através do ECHO, e tem o objetivo de aumentar a resiliência e fortalecer a autonomia das comunidades com a integração de um sistema que respeite o contexto e o conhecimento das comunidades indígenas.
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Levantamento mostra que degradação ambiental nas TIs pode comprometer R$ 338 bilhões da economia nacional
As Terras Indígenas da Amazônia influenciam as chuvas que abastecem 80% da área das atividades agropecuárias no país, mostra um estudo inédito. Conduzido por 10 cientistas e endossado por alguns dos maiores especialistas no tema no Brasil, ele aponta que a influência dessas chuvas na economia é significativa: em 2021, a renda econômica do setor agrícola nas áreas mais beneficiadas por essa dinâmica chegou a R$ 338 bilhões — 57% do total nacional.
A conclusão é que o impacto da preservação das TIs vai além do meio ambiente, destacando-se como peça-chave para a segurança hídrica, alimentar e econômica do Brasil. O estudo foi feito por um grupo de pesquisa em ecologia tropical do Instituto Serrapilheira, a partir do cruzamento e análise de diversos dados, como os do MapBiomas, IBGE e Funai.
Acesse a íntegra da nota técnica aqui.
Os dados indicam que 18 estados e o Distrito Federal encontram-se parcial ou totalmente dentro da área de influência dessas Terras Indígenas (TIs) amazônicas. Em estados como o Acre, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná, há regiões onde a chuva proveniente da reciclagem de água feita pelas florestas das TIs amazônicas chega a um terço do total anual de cada local. Até 30% da chuva média que cai sobre as terras agropecuárias do país está diretamente relacionada à eficiente reciclagem de água nesses territórios.
A agricultura e a pecuária estão entre as atividades que mais consomem água no Brasil. Ou seja: a chuva é condição fundamental para essas atividades. “O desmatamento e a degradação das florestas nas Terras Indígenas causam a redução das chuvas e, com isso, acarretam riscos graves à economia do país”, afirma o hidrólogo Caio Mattos, pesquisador de pós-doutorado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e autor do estudo. “A conservação dessas florestas é crucial para garantir a cadeia produtiva do setor agropecuário e, portanto, a produção de uma significativa parcela da economia nacional.”
Apesar disso, Rondônia e Mato Grosso, que figuram entre os nove estados mais influenciados por essa chuva, estão entre os que mais desmataram florestas desde 1985. Os dados mostraram, ainda, que as chuvas provenientes dessas TIs contribuem diretamente para a segurança alimentar nacional: a participação da agricultura familiar no valor da produção total supera os 50% em vários estados influenciados, e grande parte da produção desses pequenos produtores é destinada, justamente, ao mercado interno.
Como Terras Indígenas da Amazônia “irrigam” grande parte do país
Na prática, a Amazônia “irriga” grande parte do país por meio dos chamados “rios voadores”: a umidade reciclada nas florestas das Terras Indígenas amazônicas é transportada pela atmosfera e se torna chuva em outras regiões do Brasil, como o Centro-Oeste e o Sul. Esse mecanismo natural de geração de chuva depende da manutenção de áreas de florestas nativas conservadas, que são responsáveis pelo bombeamento de umidade para a atmosfera.
“A influência dos rios voadores já era conhecida, então o que fizemos foi usar dados já disponíveis desde 2020 para quantificar de fato essa influência – não só do ponto de vista da água, mas também da economia, em uma abordagem interdisciplinar”, explica a matemática e meteorologista Marina Hirota, professora na UFSC. “Ou seja, mais do que mapearmos as chuvas que atingem as áreas de agropecuária, convertemos esse dado em valores econômicos.”
As TIs ocupam aproximadamente 23% da Amazônia Legal, incluem mais de 450 territórios e abrigam cerca de 403,6 mil pessoas. Elas atuam como barreira ao desmatamento ao longo da história: dos 4,4 milhões de hectares desmatados no bioma Amazônia entre 2019 e 2023, apenas 3% (130,2 mil hectares) ocorreram dentro de TIs.
Isso acontece porque grande parte das atividades desenvolvidas em TIs são realizadas de maneira integrada ao ecossistema, envolvendo formas de uso e manejo que não necessariamente implicam na remoção da vegetação nativa. Existe, assim, relação intrínseca entre a proteção territorial de povos indígenas e a conservação de ecossistemas.
A demarcação de Terras Indígenas tem pautado o debate público porque o Supremo Tribunal Federal (STF) discute, nesse momento, a constitucionalidade da lei do marco temporal (lei 14.701/2023). A tese do marco temporal prevê que os povos indígenas teriam direito de ocupar apenas as terras que já ocupavam ou disputavam na data da promulgação da Constituição de 1988. “Os dados que analisamos endossam estudos anteriores. Eles mostram que a proteção e a demarcação das Terras Indígenas são instrumentos fundamentais e urgentes para a conservação da Amazônia”, completa Caio Mattos.
Além de Hirota e Mattos, assinam a nota técnica os cientistas Paulo N. Bernardino, Bruna Stein, Gabriela Prestes Carneiro, Julia Tavares, Adriane Esquivel-Muelbert, Silvio Barreto, André Braga Junqueira e Arie Staal. O estudo foi desenvolvido no escopo de um grupo de pesquisa em ecologia tropical do Serrapilheira – Staal, holandês, é o único dos 10 autores que não é integrante do grupo.
Constituído no início de 2024, o grupo transdisciplinar inclui pesquisadores brasileiros de hidrologia, biodiversidade, ecologia, ecologia humana, matemática, clima, arqueologia, antropologia, políticas públicas, economia e comunicação. “A junção de cientistas com expertises diferentes permitiu essa análise complexa de dados que não são fáceis de se obter”, explica Hugo Aguilaniu, diretor-presidente do Serrapilheira. “É uma ciência sofisticada, que traz uma leitura mais completa do impacto das Terras Indígenas na economia.”
Os autores também são vinculados à UFSC, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade de Utrecht (Holanda), Universidade de Uppsala (Suécia), Cary Institute of Ecosystem Studies (EUA), Museu Nacional de História Natural (França) e Universidade de Birmingham (Reino Unido).
A nota técnica é endossada por outros nomes de peso da ciência: o climatólogo Carlos Nobre, o físico Paulo Artaxo, a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha (os três da USP), o economista Ronaldo Seroa da Motta (Uerj) e a bióloga Mercedes Bustamante (UnB).
Confira a nota técnica aqui.
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Extremos de seca e calor foram sentidos e reportados pelos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs), com impactos nas práticas de manejo das comunidades
Em 2025, pesquisadores indígenas de comunidades do Rio Tiquié completarão 20 anos de estudo dos ciclos anuais. Eles são conhecidos regionalmente como Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) e sua pesquisa foca em processos e fenômenos cíclicos, que acontecem todos os anos ou em intervalos de tempo mais longos, mas regulares.
Observam peixes, anfíbios e formigas, que geralmente se reproduzem nos mesmos dias, depois de fortes chuvas que acontecem em algumas estações entre novembro e abril. Também, as plantas que estão dando flores e frutos que alimentam as pessoas e os animais e os esforços dos conhecedores para curar cada época e garantir que transcorram de forma sã, sem infortúnios ou doenças. Diariamente, além de observar esses e outros temas socioambientais, eles também tomam notas em seus cadernos.
O ano no Rio Tiquié começa quando cai a constelação da Jararaca (Aña poero na língua tukano, conhecida em outras regiões da Amazônia como Boiaçu) e tem início uma estação com chuvas mais regulares (em relação aos três meses anteriores) e alguns repiquetes do rio, nomeados conforme as partes do corpo da cobra que estão alcançando o horizonte ao poente.
Essa estação se estende por novembro e dezembro. Assim, em novembro são realizados encontros entre os AIMAs e a equipe do Instituto Socioambiental (ISA) para ler as anotações e organizá-las para produzir uma descrição conjunta daquele ano. Ao longo dos anos, a persistência em realizar esses encontros motiva os pesquisadores indígenas a manterem e aprofundarem suas observações e anotações.
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Conhecedores da Amazônia
Neste ano, o encontro ocorreu entre os dias 15 e 23 de novembro, na comunidade Cunuri-Ponta (Wapunuhku), no médio curso do Tiquié. Estiveram presentes todos os atuais 22 AIMAs dessa região, representando 18 comunidades de seis etnias (Tukano, Desana, Tuyuka, Yebamasa, Tariana e Yuhupdeh).
Participaram ainda três conhecedores: Nazareno Marques (Tukano de Moopoea), Teodoro Barbosa (Yebamasa de Pinokope) e Januário Alves (Tuyuka de Ahkãrabua), além de moradores do local, uma equipe do ISA (Aloisio Cabalzar e Danilo Parra, Mauro Pedrosa, com a cineasta Mariana Lacerda).
Além das anotações trazidas pelos AIMAs em seus diários, são levadas para esses encontros informações produzidas em outros contextos e escalas espaciais, que possam contribuir na interpretação do ciclo anual. A principal delas são as narrativas que explicam a estrutura e o funcionamento do território-cosmos tukano, comentadas pelos especialistas presentes.
Na oficina, no primeiro momento, os diários foram lidos e alguns de seus aspectos foram destacados: os pulsos do rio com os nomes das estações, as etapas do trabalho agrícola, as migrações e reproduções dos peixes, e as florações e frutificações das plantas.
Em seguida, foi elaborada uma linha do tempo horizontal, tendo como primeira referência o nível do rio, plotando os outros temas em níveis inferiores do papel. Finalizada essa parte, foram escritos três textos sobre o ano completo, um por sub-região – Alto Tiquié, Rio Castanha e Médio Tiquié – divididos em seções para cada uma das principais constelações que marcam as estações do ano. Ao mesmo tempo, foram elaboradas representações gráficas do calendário anual, também uma para cada sub-região. São desenhos grandes compostos coletivamente.
Um assunto que foi desenvolvido nesse encontro com os conhecedores foi a estrutura do universo em camadas e como elas estão interrelacionadas, como o manejo do mundo feito pelos especialistas requer manejar energias, água, ar e outras substâncias vitais entre elas. Essas camadas também estão estruturadas a partir de instrumentos de criação, assim como o corpo humano – banco, suporte-de-cuia, cuia, lança-chocalho, dentre outros.
A cura de doenças é concomitante à cura do mundo em seus devidos tempos. Foram identificadas 13 camadas, começando pela mais profunda, Wamudia, o Rio Umari, até a mais alta, Karãkoditapati, lago de sumo de frutos doces, situada acima da camada das estrelas e da qual se pode buscar alívio para os períodos de quentura extrema.
Em duas rodas de conversa noturnas, esse tema foi exposto pelos conhecedores, assim como benzimentos relacionados. Na segunda sessão noturna, também foram colocadas questões específicas sobre aspectos que chamaram a atenção no ciclo anual que se encerrou.
Esse é o segundo ano de seca extrema em toda a Amazônia, com déficits significativos de chuvas e muitos rios atingindo seus níveis mais baixos já registrados. É o caso dos rios Solimões, Purus e Madeira, cujos leitos se transformaram em extensos bancos de areia, prejudicando o abastecimento de água, o transporte e a pesca.
No porto de Manaus, o Rio Negro atingiu o segundo recorde consecutivo de seca, algo inédito em mais de 120 anos de registros. Como esse local está próximo à confluência com o Solimões, essa medição reflete a influência de ambos, com o Solimões drenando as águas do Negro.
Os pontos de medição do Rio Negro acima também mostraram vazões acentuadas, mas não alcançaram níveis extremos, até porque o período de maior vazão acontece nos primeiros meses do ano nos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel e Barcelos.
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Impactos na agricultura e na pesca
O Alto Rio Negro, mesmo sendo uma região significativamente mais chuvosa, teve o segundo ano consecutivo com períodos mais secos e quentes entre os meses de agosto e outubro, com impactos na agricultura familiar e na pesca, principais atividades da economia e soberania alimentar das comunidades indígenas.
Segundo os AIMAs, os tubérculos plantados nas roças não resistiram e tanto as mandiocas quanto frutíferas plantadas e silvestres, secaram com as altas temperaturas. Por outro lado, os verões com vários dias de sol e calor intenso propiciaram a queima de maior número de áreas abertas para novos roçados. Com a queima das roças, apareceram muitos besouros mereasipama nos ingazeiros, que são comestíveis.
Observaram também muitas florações na floresta no final do ciclo passado e nesse, como japurá da beira do rio, mas nem toda floração frutificou. As frutas que produziram muito foram patauá (wahkarika), uacu, umari, pupunha e ingá-de-metro; mas deu pouco buriti e ucuqui.
Aves como tucano, japus e japins apareceram mais nesse último ciclo e migrações dos animais também continuaram, como caititu, queixadas e macacos-barrigudos. Porco caititus e macacos atacaram mais as roças em todo o Rio Tiquié, comendo as frutas plantadas que são alimento. O mesmo aconteceu com periquitos e papagaios comendo muito os frutos das palmeiras ao redor das comunidades.
A pesca ficou mais difícil com a estiagem e a seca dos rios, muitos frutos dos quais os peixes se alimentam nos igapós caíram no solo seco da mata, assim os peixes ficaram magros e sem gordura. As grandes estiagens facilitaram também o emprego de práticas de pescaria mais predatórias, como mergulhos, arrasto com redes nas praias e tinguijamentos nos afluentes, levando os peixes a fugirem para outros lugares. Isso causou a escassez de peixes no Rio Tiquié.
No Alto Tiquié, não foram observadas piracemas de aracu-riscado (Leporinus agassizii) e araripirá (Chalceus macrolepidotus). Também não aconteceram migrações de sarana (Curimatella alburna), já que o rio secou muito.
Tanajuras (dusa) revoaram o ano todo, depois que chovia bastante, e não apenas nas esperadas épocas de reprodução – fenômeno atribuído às mudanças recentes nos ciclos.
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O que chamou mais a atenção foram os verões intensos nos últimos meses do ano indígena do Rio Tiquié. Como tem sido repetidamente reportado pelos AIMAs nos últimos anos, o calor forte dificulta a lida nas roças, reduzindo o horário de trabalho às horas de sol menos intenso, e também desregula vários ciclos de vida.
Em 2024, houve o agravante de chegar muita fumaça de longe, com a piora da qualidade do ar, provocando mais doenças, como doenças respiratórias, diarreia e malária. Por outro lado, houve redução do número de suicídios nas festas, com mais preocupação e realização de proteção pelos conhecedores dos rituais.
Os AIMAs seguem vivenciando seus espaços no rio, na floresta, nas roças e capoeiras onde fazem seu manejo cotidiano. Suas anotações, ao longo do tempo, ajudam a entender como essas paisagens vão se reproduzindo e as relações que as constituem se renovam.
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Levantamento identificou a presença de 241 organizações em todos os estados brasileiros. Em quatro anos, o movimento organizado das mulheres indígenas no Brasil cresceu duas vezes e meia
Mulheres indígenas, em todos os biomas, organizam-se em coletivos, movimentos, departamentos e outros tipos de organizações. E não há um estado do país em que elas não estejam organizadas em torno de pautas como saúde, educação, combate à violência contra mulher e defesa do território.
É o que revela o Mapa das Organizações das Mulheres Indígenas no Brasil 2024, uma parceria inédita entre as pesquisadoras da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga) e do Instituto Socioambiental (ISA).
Os resultados deste mapeamento estão reunidos em uma publicação que será lançada em 29 de novembro, na primeira etapa da Conferência das Mulheres Indígenas 2024/2025, na Terra Indígena Limão Verde, em Amambai (MS). Fruto de uma articulação entre a Anmiga e os Ministérios dos Povos Indígenas e das Mulheres, o evento acontece durante a XII Grande Assembleia da Kuñangue Aty Guasu, o maior encontro das mulheres Kaiowá e Guarani de Mato Grosso do Sul.
Com identidade visual assinada pela artista Auá Mendes, indígena do povo Mura, a publicação possui um mapa com todas as organizações georreferenciadas alcançadas pelo mapeamento e uma listagem por estado em ordem alfabética. Ela conta ainda com artigos que se debruçam sobre a forma e as motivações das mulheres indígenas ao se organizarem, e também como a Anmiga tem desenvolvido conceitos próprios para pensar o presente das mulheres indígenas na política. Além disso, o material inclui uma linha do tempo que registra parte da história do associativismo de mulheres indígenas, destacando importantes marcos desse movimento.
O Mapa resulta de um levantamento iniciado no começo de 2024, desenvolvido com o objetivo de mostrar em números o crescimento expressivo da luta das mulheres indígenas no País. A pesquisa identificou 241 organizações, além de se aprofundar nas diversas razões que motivam mulheres indígenas a se organizarem.
Veja imagens de diversidade e luta contidas no mapa:
Algumas das pautas levantadas por essas mobilizações são saúde e educação diferenciadas e de qualidade; enfrentamento às violências contra as mulheres e em seus territórios; e pela valorização da alimentação tradicional e de seus modos de vida. Elas também se mobilizam com o objetivo de defender seus territórios, como as Guerreiras da Floresta (ou Tenetehar Kuzá Gwer Wá na língua guajajara), que somam forças aos Guardiães da Floresta, na proteção da TI Araribóia (MA).
Assim, o Mapa evidencia a potência do associativismo indígena, trazendo o número atualizado e a localização das organizações das mulheres indígenas. “O estudo também poderá contribuir com o fortalecimento das redes de mulheres, indicando possíveis caminhos de articulação política e ação. Além disso, ele ainda se propõe a ser uma ferramenta para identificação de zonas de concentração de organizações e possíveis lacunas do associativismo de mulheres”, afirma Luma Prado, pesquisadora do ISA e uma das organizadoras da publicação.
Mulheres indígenas sempre estiveram em luta. Nos últimos anos, no entanto, elas passaram, cada vez mais, a criar organizações próprias. “Ao se nomearem enquanto entidades ou coletivos, as mulheres indígenas enfatizam que sempre estiveram em movimento – ainda que sem o devido reconhecimento de sua participação e formas próprias de organização –, ao mesmo tempo em que fazem aparecer novos sujeitos políticos e instauram outras possibilidades de ação política”, afirma artigo contido no verso do Mapa.
Essa nova edição atualiza o Mapa das Organizações de Mulheres Indígenas, publicado em 2020. Desta vez, o novo levantamento foi realizado a partir de uma metodologia que uniu informações já sistematizadas em um dos bancos de dados do ISA à busca ativa construída e realizada em parceria com a Anmiga.
A partir dos resultados foi possível afirmar o que já vinha se mostrando ao longo da construção desta publicação: as formas de se mobilizar são múltiplas. As mulheres indígenas organizam-se em departamentos; núcleos; redes; uniões; conselhos; articulações; coletivos; associações; organizações; grupos; institutos; movimentos de mulheres indígenas; entre outras nomenclaturas. De diferentes abrangências, o levantamento identificou 174 organizações locais; 48 regionais; 14 estaduais; e 5 nacionais.
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O mapeamento também identificou o período de fundação das Organizações das Mulheres Indígenas no Brasil, com 2020 a 2024 apresentando a maior concentração de criação de organizações, quando 74 foram fundadas. Uma das caçulas é o Coletivo de Mulheres Fág Jãre Fag, que ganhou nome e corpo após intensa atuação nas consequências das enchentes no Rio Grande do Sul, em maio deste ano.
Conferência das Mulheres Indígenas 2024/2025
A Conferência das Mulheres Indígenas 2024/2025 é uma série de encontros realizados pela Anmiga, em parceria com o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e com o Ministério das Mulheres. Divididos em sete etapas regionais e uma nacional, a Conferência busca fortalecer a luta das mulheres indígenas a partir de trocas de experiências e da mobilização política e social, sobretudo acerca de temas como direito e gestão territorial, emergência climática, violência de gênero, saúde e educação e a transmissão dos saberes intergeracionais.
A primeira etapa, Aroeira, acontece em Amambai, na Terra Indígena Limão Verde, em Amambai (MS), entre os dias 29 e 30 de novembro. A última, por sua vez, acontece de 8 a 11 de março em Brasília, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães,. As demais ocorrem entre os meses de dezembro a fevereiro e devem reunir cerca de 700 mulheres indígenas.
Assembleia Kuñangue Aty Guasu
A 12ª Assembleia Geral da Kuñangue Aty Guasu acontece entre os dias 27 a 30 de novembro de 2024, no Território Indígena Limão Verde, em Amambai (MS). Conhecido como o maior encontro das Mulheres Indígenas Kaiowá e Guarani de Mato Grosso do Sul, o evento deste ano marca os 18 anos da articulação. Entre as pautas que serão discutidas estão a tese do “marco temporal”; a luta das Mulheres Kaiowá e Guarani pela demarcação das Terras Indígenas; o impacto do agrotóxico na saúde; entre outros.
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Com debates sobre saúde, cultura e enfrentamento à violência de gênero, a ATIX-Mulher reafirmou sua força na governança do território
O Movimento Mulheres do Território Indígena do Xingu (MMTIX) realizou, entre os dias 1 e 4 de novembro de 2024, a sua VII Assembleia Geral, no polo Pavuru, região do Médio Xingu, Mato Grosso, para eleger a nova coordenadora executiva que representará as mulheres indígenas de 16 povos instalados em cerca de 200 aldeias situadas no Território Indígena do Xingu (TIX).
O MMTIX, ou ATIX-Mulher, foi fundado em 2019 e busca articular e unir as mulheres indígenas para a emancipação e participação nas decisões políticas, tanto dentro como fora de suas aldeias.
O encontro reuniu mais de 300 pessoas, entre homens e mulheres, representando diversas etnias, como os povos Yawalapiti, Kalapalo, Kaiabi, Matipu, Yudja, Ikpeng, Trumai, Kuikuro, Suiá, Kamaiurá, Mehinako, dentre outros.
Também participaram mulheres que fazem parte da Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt Mulher), da Takiná - Organização das Mulheres Indígenas do Mato Grosso, da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (UMIAB), da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA) e da Rede de Cooperação Amazônica (RCA), composta por 14 organizações indígenas e indigenistas, possibilitando o intercâmbio entre os povos e etnias.
Nos quatro dias de reunião, além das apresentações culturais, foram debatidos temas sobre a gestão e governança da ATIX-Mulher, como a prestação de contas, avaliações e a eleição da nova coordenadora, além de assuntos que afetam a vida dos indígenas no território nas áreas da saúde, da cultura e a violência contra a mulher.
Na abertura da assembleia, a mesa foi composta por mais de dez cacicas e lideranças femininas do Xingu. Alguns caciques também participaram da abertura e demonstraram apoio ao movimento das mulheres indígenas.
Durante o debate sobre a estratégia de incidência política, algumas mulheres solicitaram a melhoria na qualidade do atendimento nas Casas de Saúde Indígena (CASAI), especialmente em Canarana (MT), alegando que o tratamento tem sido inadequado com os pacientes, sobretudo os idosos, além da falta de infraestrutura no local.
O tema da cultura, que abordou diversos aspectos como a natureza e as manifestações culturais através das danças, cantos, grafismos e rituais, também foi amplamente debatido pelas participantes.
Para a prestação de contas, a coordenadora executiva da MMTIX, Watatakalu Yawalapiti, listou os projetos realizados e em execução na região do Xingu e os recursos adquiridos através das parcerias com a Fundação Rainforest da Noruega, a Embaixada da Noruega no Brasil, o Instituto Socioambiental (ISA), a Rewild Brasil e, mais recentemente, com o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), a ONU Mulheres e o governo da França.
De acordo com Watatakalu Yawalapiti, que está na coordenação da ATIX-Mulher desde 2019, a iniciativa que resultou na criação de um departamento voltado para as mulheres na Associação Terra Indígena do Xingu (ATIX) surgiu pela falta de representatividade e visibilidade das mulheres indígenas dentro e fora do território.
“O MMTIX possibilitou que ocupássemos os espaços de tomada de decisão sobre os nossos direitos e modo de vida, por exemplo”, contou a coordenadora. “Também havia um conflito entre as lideranças na região e as mulheres ajudaram a mudar este quadro, pois, através da captação de recursos, beneficiamos todo o Xingu com projetos que buscavam a geração de renda nas comunidades e mantivessem a floresta em pé”, constatou Yawalapiti.
“Agora, após seis anos de coordenação, vejo que criamos uma rede gigante de multiplicadoras para a garantia dos nossos direitos e a construção de um futuro diferente para as nossas filhas”, finalizou.
Violência contra as mulheres indígenas
A pauta específica sobre violência contra a mulher contou com a facilitação da psicóloga Iterniza Pereira, do povo Macuxi, que faz parte do Conselho Indígena de Roraima e atua profissionalmente no Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) como ponto focal da Saúde Mental.
Pereira explicou para a plenária os tipos de violência praticados contra as mulheres, salientando que não se resumem à agressão física, mas incluem também a psicológica, a sexual, a moral, a patrimonial e a institucional.
Após a explicação da psicóloga, as mulheres se dividiram em grupos e realizaram uma dinâmica para análise e identificação das violências às quais poderiam estar submetidas. Em seguida, fizeram proposições para o enfrentamento às violências.
No final do exercício, algumas mulheres relataram violências sofridas nas aldeias ou fora delas. Uma das formas de violência relatada se referia ao costume indígena de casamentos forçados e/ou arranjados, na maioria das vezes quando a mulher ainda está na fase da adolescência. A situação foi narrada por algumas mulheres como algo violento e que pode resultar em doenças mentais graves.
Para concluir a dinâmica, várias participantes dos grupos apresentaram soluções, sobretudo a partir da educação e dos diálogos intrafamiliares e nas aldeias, assim como palestras com especialistas sobre direitos indígenas e o acompanhamento psicológico disponível nos Polos Base do Xingu.
O tema foi debatido pela primeira vez na assembleia da ATIX-Mulher, mas, em 2023, foi abordado amplamente na 3ª Marcha das Mulheres Indígenas, que resultou, inclusive, num manifesto contra a violência de gênero, proposto pela ANMIGA.
Outra forma de violência debatida no encontro foi a virtual, já que este ambiente tem criado novos meios de violência contra as mulheres. Com a facilidade dos acessos aos smartphones e à internet, a divulgação de imagens de forma inadequada e relacionadas à cultura indígena se transformou em um grande problema em diversas aldeias, sendo necessária uma conscientização constante, principalmente para os jovens, sobre os benefícios e malefícios do uso da internet para a cultura dos povos indígenas.
Eleição da nova coordenadora da ATIX-Mulher
No último dia da assembleia, foi realizada a eleição da nova coordenadora executiva da ATIX-Mulher. As duas candidatas indicadas foram Amairé Kaiabi Suaiá e Alawero Meynako.
Na votação por delegadas, divididas entre mulheres do Leste, Médio, Baixo e Alto Xingu, ocorreu um empate e a vencedora foi escolhida após a consulta direta na plenária. Assim, a nova coordenadora executiva eleita foi Alawero Meynako, que atua como vice-coordenadora executiva da ATIX-Mulher, atualmente.
“Eu dedicaria a minha vida para a ATIX-Mulher. Eu dedicaria a minha vida por cada uma de vocês, porque a gente está aqui por causa de vocês. Quem vai me dar força são vocês, mulheres”, declarou a nova coordenadora executiva.
Os encaminhamentos e o resultado da eleição foram apresentados durante a reunião das lideranças da ATIX, no dia 12 de novembro, que reconheceram o resultado das eleições da ATIX-Mulher.
A realização da 29ª Assembleia Geral Ordinária da ATIX, que aconteceria nesta data, foi adiada para 2025, por causa do falecimento de uma liderança do povo Kawaiwete, que morava no local de realização da assembleia, no Polo Diauarum.
Para o coordenador adjunto do Programa Xingu do ISA, Ivã Bocchini, a crescente participação das mulheres indígenas xinguanas nos últimos anos tornou a sua atuação imprescindível nas decisões sociais e políticas do território.
“A Assembleia da ATIX encerrou este ano um ciclo dos dois mandatos da liderança de Watatakalu Yawalapiti e consolidou um espaço de articulação e formação política das mulheres xinguanas. Com isso, elas ocupam, de forma definitiva, um espaço de participação na governança do Território Indígena do Xingu com a relevância e legitimidade que merecem”, afirmou Bocchini. “Atualmente, é impossível pensar qualquer política ou projeto para o território sem ouvir de forma paritária, homens e mulheres.”
Resultados da última gestão do MMTIX
Na primeira edição do Encontro das Mulheres do Território Indígena do Xingu, foram eleitas Watatakalu Yawalapiti e Amairé Kaiabi Suaiá como coordenadora executiva e coordenadora de campo, respectivamente. Em 2021, as duas foram reeleitas.
Neste período, foram desenvolvidos projetos como o PPP-ECOS, que visa gerar renda com foco na gestão participativa, na formação de produtores e na paisagem produtiva ecossocial. As aldeias atendidas foram equipadas com utensílios domésticos para produção e comercialização de produtos como farinha, polvilho, sal de aguapé e mel.
Em 2020 e 2021, a ATIX-Mulher enfrentou a pandemia com ações emergenciais e campanhas de arrecadação de fundos para a aquisição de alimentos e distribuição nas aldeias isoladas por causa da doença.
Desde 2022, o movimento conta com o REM (REDD Early Movers) Projetos Estruturantes, uma iniciativa da cooperação bilateral Brasil-Alemanha com apoio do governo do Reino Unido, que apoia ações voltadas para a redução do desmatamento e a manutenção do clima.
A partir de 2025, a nova coordenadora executiva da ATIX-Mulher, Alawero Meynako, será a responsável por captar e conduzir projetos e ações voltadas para o fortalecimento das mulheres e a sustentabilidade dentro do território.
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Durante Assembleia Geral, os jovens deram continuidade a preparação da Carta de Direitos Climáticos da Juventude Indígena do Rio Negro, que será levada à COP 30 de Belém
*Com colaboração da Rede Wayuri
Adolescentes e jovens indígenas, reunidos no municípios de São Gabriel da Cachoeira (AM) para a V Assembléia Geral Eletiva do Departamento de Adolescentes de Jovens Indígenas do Rio Negro (Dajirn), refletiram sobre os efeitos da crise climática e do racismo ambiental sentidos e observados em umas das regiões mais preservadas do Brasil: o Alto Rio Negro, no noroeste do Estado do Amazonas
Participaram da assembleia, realizada entre os dias 23 e 26 e outubro, cerca de 100 jovens representantes das coordenadorias das associações do alto rio Negro e Xié (Caibarnx), do médio e baixo rio Negro (Caimbrn), do Distrito de Iauaretê (Coidi), do baixo Tiquié, Uaupés e afluentes (Diawi’i), Baniwa e Koripako (Nadzoeri) e da sede de Sao Gabriel da Cachoeira.
A assembleia é promovida pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn).
Os representantes de 24 etnias das cinco coordenadorias regionais da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) relataram o aumento do calor que prejudica o trabalho nas roças, a insegurança alimentar causada pelas secas e grandes enchentes, a ausência de saneamento básico e acesso à água tratada.
O encontro dá continuidade a um caminho trilhado por lideranças jovens da região, junto com o movimento socioambiental, para a construção da Carta de Direitos Climáticos da Juventude Indígena do Rio Negro.
A carta tem o objetivo principal de apresentar as demandas prioritárias dos territórios sob a perspectiva da juventude indígena e promover o diálogo com a sociedade, incidir nos espaço de decisão e gerar impacto na Conferência do Clima da ONU de Belém (PA) em 2025 - a COP 30 - espaço onde os países signatários negociam acordos sobre a mudança climática que afetam diretamente a vida das comunidades locais.
Os povos indígenas estão entre as populações que menos contribuem para as emissões de gases de efeito estufa (GEE) no mundo, são os que mais contribuem para a preservação das florestas e rios, mas estão entre as populações que mais são impactadas pelos efeitos da crise climática, escancarando o racismo ambiental e as injustiças climáticas, conceitos e pautas muitas vezes distanciadas dos territórios.
Por um futuro ideal nas comunidades
Os eixos temáticos prioritários definidos pelos jovens durante o encontro foram: 1. gestão do lixo; 2. segurança alimentar; 3. saúde; 4. segurança para atuação em defesa das comunidades e do meio ambiente; preservação da cultura, diálogo geracional, conhecimento e saberes indígenas em diálogo com a ciência; 5. política ambiental na pauta dos governos estaduais e municipais.
A partir das vivências e observações do contexto local e global, os jovens destacaram que as populações indígenas, ribeirinhas, mulheres, crianças e idosos são os grupos mais afetados pelas mudanças climáticas no mundo. “Os ricos não vão ser afetados, né, porque eles têm tecnologia. Eles poluem, mas quem são afetados somos nós os ribeirinhos, os favelados, e nós indígenas principalmente”, observa Osvaldo Cardoso da Silva, do povo Baniwa, articulador Nadzoeri.
Fenômenos como o excesso de calor, verão fora de época, enchentes e secas sem controle foram os impactos mais mencionados. “Com secas mais prolongadas e chuvas intensas em períodos inesperados, isso afeta a agricultura local, dificultando o cultivo e a segurança alimentar, já que muitas comunidades dependem da agricultura”, relataram as representantes da Caimbrn, Mariete e Francicleia, do povo Baré.
“Esse é um desequilíbrio não é natural, ele é provocado por uma atividade predadora, e é uma realidade que a gente tá vivendo”, afirmou João Alex, do povo Yanomami, integrante da delegação Caimbrn.
No exercício de imaginar como seria um futuro ideal para as suas comunidades, o acesso a água tratada, a saúde de qualidade e a fontes renováveis de energia foram alguns dos pontos apresentados, além da coleta e destinação adequada do lixo, saneamento básico e investimento em tecnologias e alternativas de geração de renda que respeitem os modos de vida das comunidades, suas culturas e o meio ambiente.
“Mais saúde e bem-estar para todos. Imagine uma comunidade livre de doenças e com água potável e saneamento básico. Que a cultura e a tradição indígena sejam preservadas e celebradas. Imagine uma comunidade orgulhosa da sua história e identidade, transmitindo seus valores para as futuras gerações”, representante da sede.
A partir das discussões e a coletas das ideias apresentadas pelos grupos de trabalho da assembleia, as lideranças do Dajirn seguem para a etapa de escrita da Carta de Direitos Climáticos, que prevê ainda um retorno do texto aos territórios para revisão e aprovação junto às comunidades e associações até chegar a sua versão final a ser apresentada na COP 30.
‘Pelas novas gerações’
Jucimery Teixeira Garcia, do povo Tariano, foi eleita a nova coordenadora do Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas da Foirn pelos próximos quatro anos. Representante das associações do Distrito de Iauaretê, ela agradeceu emocionada aos votos de confiança da família, da comunidade e dos adolescentes e jovens presentes na assembleia.
“Eu quero que vocês, juventude, estejam sempre ativos juntamente comigo, assim uniremos forças”, disse ela, reforçando o desejo do reconhecimento das vozes jovens tanto nos territórios quanto fora.
Em seu discurso, Jucimery lembrou que o trabalho à frente do departamento, além de fortalecer a autoestima dos jovens, é também pelas próximas gerações. “A gente também tem que trabalhar para os que vão vir, para as nossas crianças, para nossos irmãos, nossos primos, e até futuros filhos também”, finalizou.
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Resultado da oficina, os produtos em áudio poderão ser acessados por jovens do mundo inteiro por meio da plataforma U-Report da Unicef
Durante dois dias, lideranças juvenis e de grêmios estudantis de São Gabriel da Cachoeira (AM) participaram de oficina de Rádio e Podcast promovida pela Rede Wayuri de Comunicadores Indigenas do Rio Negro e Organização Viração Educomunicação.
Aprendendo na prática, os estudantes levantaram diversos temas de interesse e produziram conteúdos que poderão ser acessados por pessoas do mundo inteiro por meio da plataforma U-Report, desenvolvida pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), que busca promover a participação cidadã de adolescentes de jovens por meio das redes sociais.
A atividade aconteceu na sala Dagoberto Azevedo, no Telecentro do Instituto Socioambiental (ISA), em São Gabriel da Cachoeira (AM).
Prestes a completar sete anos de criação, a Rede Wayuri, ligada à Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e com parceria do ISA, vem neste período atuando em todo o território que abrange os municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, onde estão cerca de 750 comunidades de povos de 23 etnias.
Como primeiro exercício, os participantes da oficina foram convidados a fecharem os olhos e identificarem sete diferentes sons ao redor. Cachoeira, pássaros diversos, vassoura varrendo o chão e os ventiladores ligados foram os que mais se destacaram. A proposta era entender as diferentes camadas de sons que compõem um ambiente e que ajudam a contar uma história a partir de um local.
Em seguida, divididos em grupos, os estudantes fizeram rodadas de discussão e levantaram as pautas de interesse para os exercícios de produção, seguindo as etapas de proposição, planejamento, criação e avaliação, conduzido pelo educomunicador Nilson Mangin Junior.
“A gente conseguiu entender um pouco as necessidades dos jovens e dar espaço nos áudios, com o rádio, para eles poderem falar, se expressar e aprender um pouco como fazer e um pouco como isso é potente”, avalia Nilson.
Planos de continuidade dos estudos, saúde mental, identidade cultural do Rio Negro e participação política dos jovens estiveram entre os temas escolhidos e discutidos, que geraram episódios de podcasts que poderão ser acessados em breve por meio da plataforma U-report.
A estudante Naira Estefani, do povo Baniwa, participou da produção sobre a cultura no Rio Negro, em que o grupo ressaltou a impotancia da valorização das tradições, especialmente da língua. “Eu achei essa oficina ótima e uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a parte de aprender a fazer um podcast. Eu diria que uma frase que eu deixo pra hoje é saber se comunicar, saber falar com as pessoas. Aqui eu aprendi com pessoas incríveis, sobre várias coisas incríveis e conheci pessoas incríveis”, avaliou.
Judite Loretta, do povo Piratapuia, é responsável pelo acompanhamento do Núcleo de Cidadania de Adolescentes (NUCA) de São Gabriel da Cachoeira. Para ela, a oficina tem uma grande importância porque, “além de despertar ideias, renovação, faz com que eles também tenham novas expectativas de multiplicar para outros adolescentes”. “Eu vejo uma grande importância estar sempre motivando para que eles possam despertar melhores ideias de uma forma mais cultural e Indígena aqui na cidade de São Gabriel”, afirmou.
Ao final da oficina, os estudantes experienciaram o funcionamento de uma rádio na prática e fizeram a leitura dos roteiros produzidos ao vivo através da programação online da Rádio Wayuri.
Coordenadora da Rede Wayuri, Claudia Ferraz, do povo Wanano, explica que este é o início da realização de um projeto antigo de trabalhar a Educominucação nas escolas da rede pública e também nas comunidades indígenas do Rio Negro.
Os próximos passos incluem não só a ampliação das oficinas, mas também da programação da rádio online. “Vamos continuar com as oficinas, com cada grêmio em suas escolas e o objetivo principal é de criar um programa de rádio que irá fazer parte da grade da programação da rádio online Wayuri”, finaliza.
U-Report
Luiza Gianesella, analista de projetos da Viração, explica que, além de possibilitar o acesso a todas as informações disponibilizadas pela plataforma, o objetivo é também entender o que jovens e adolescentes de todo o país desejam e anseiam, por meio das enquetes feitas pelo chatbot Iuri através do WhatsApp, Facebook e Telegram.
“A gente quer que eles pensem essa ferramenta como uma possibilidade de levar mais longe aquilo que eles criam. Então os produtos comunicativos, todas as ações de comunicação que a rede [de comunicadores] pensa, pode ter uma parceria muito legal com o que a gente faz no U-report”. Uma vez na plataforma, os conteúdos podem ser acessados por pessoas do mundo inteiro.
Para conversar com o Iuri, basta enviar COMEÇAR pelo chat na página do Facebook ou no WhatsApp para (61) 9687-1768. No Telegram, basta buscar pelo canal @ureportbrasil.
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Encontro na aldeia Khikatxi, Terra Indígena Wawi, no leste do Mato Grosso, fortaleceu a luta na defesa da biodiversidade e dos direitos territoriais
Os comunicadores da Rede Xingu+ se reuniram em um grande encontro para reforçar a união entre seus povos e fortalecer a defesa do Corredor de Sociobiodiversidade do Xingu. Este vasto território se estende por 26,7 milhões de hectares entre os biomas Amazônia e Cerrado e abrange Áreas Protegidas nos estados do Pará e Mato Grosso.
Fundada em 2019, a Rede Xingu+ surgiu em resposta ao avanço das ameaças e pressões sobre o Corredor, demonstrando ao longo dos anos que sua atuação é crucial para a proteção do território e para o enfrentamento à crise climática.
A rede congrega 53 organizações e movimentos indígenas, ribeirinhos e da sociedade civil, que operam nas nove Unidades de Conservação e 22 Terras Indígenas da Bacia do Xingu, articulados em torno da proteção das vidas do Xingu.
Essa união ganhou ainda mais força com os 32 comunicadores da Rede Xingu+, que, nos últimos seis anos, têm documentado as ameaças que pesam sobre os modos de vida que há milênios sustentam a floresta, cujo alcance atravessa os limites entre Mato Grosso e Pará.
Para reafirmar e atualizar seus acordos, os comunicadores da Rede Xingu+ se reuniram no território do povo Khisêtjê, de 16 a 22 de agosto, na aldeia Khikatxi, Terra Indígena Wawi, no leste do Mato Grosso.
Sonhar a comunicação xinguana
A aldeia Khikatxi desenvolveu um sistema de comunicação próprio, contou Winti Suya durante o encontro: “os comunicadores são muito importantes no sistema de comunicação criado pelos Khisêtjê para compartilhar com o mundo as nossas lutas.”
Mais de 100 Khisêtjê se reuniram na ngo, a casa dos homens no centro da aldeia Khikatxi, para receber os comunicadores. Durante a mesa da abertura, organizada pela diretoria da Associação Indígena Khisêtjê (AIK), Kamani Trumai, pai do comunicador Kamikia Kisedje falou sobre o orgulho que sente do filho e contou que, quando criança, Kamikia gostava de brincar de fazer enquadramento com os talos de macaxeira como se fosse sua câmera.
Hoje, a brincadeira se tornou realidade e o comunicador Khisêtjê tem inspirado novas gerações a seguir o caminho da comunicação engajada, que é produzida coletivamente nos territórios e não se separa da vida dos comunicadores. A cobertura do encontro dos comunicadores foi realizada por ele.
Kamikia Kisedje, do povo Khisêtjê, é um comunicador indígena da Terra Indígena Wawi, no Mato Grosso. Desde 2000, documenta encontros e mobilizações dos povos indígenas do Território Indígena do Xingu (TIX), capturando eventos como reuniões, celebrações e diversas manifestações culturais e políticas.
Reconhecido por sua ampla atuação no movimento indígena e por seu trabalho sobre mudanças climáticas, Kamikia tornou-se uma importante referência para povos indígenas e cineastas em formação, atuando como agente multiplicador ao ministrar oficinas de formação audiovisual por todo o país.
Todas as nove aldeias da Terra Indígena Wawi contam com comunicadores, que segundo Kamani Trumai, têm feito um trabalho fundamental para visibilizar o pensamento xinguano. “Comunicadores, eu parabenizo o trabalho de vocês. É um trabalho muito importante que vocês estão fazendo. Vocês que vão registrar as coisas que estão acontecendo nos nossos territórios para mostrar para o mundo”.
Os comunicadores Khisêtjê e da Rede Xingu+ mergulharam juntos em seis dias de trocas intensas sobre os modos de pensar e fazer comunicação nos territórios.
O encontro reuniu o diretor Alberto Alvares Guarani, o editor de redes sociais do ISA, Ariel Gajardo, a editora assistente de redes sociais do ISA, Tauani Lima, o repórter da Rede Globo Caco Barcellos, o jornalista Erisvan Guajajara e a diretora Renne Nader.
Todos ficaram impactados pela devastação do fogo no entorno da aldeia Khikatxi, que durante o encontro estava totalmente tomada pela fumaça dos incêndios nas fazendas próximas ao limite da Terra Indígena Wawi. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), cerca de 25.670 focos de calor foram detectados esse ano na bacia do Xingu.
Durante o encontro, os comunicadores da Rede Xingu+ produziram um vídeo manifesto contra a destruição dos seus territórios, alertando o mundo para os riscos dos incêndios ilegais, que estão sufocando as vidas de importantes espécies que regulam os ciclos vitais para a manutenção do clima do planeta.
Assista ao vídeo:
“Antigamente, tinham poucos comunicadores indígenas, agora têm muitos e é muito importante vocês contarem suas próprias histórias. Muitas vezes usamos telefones para filmar, isso também é jornalismo, como vocês fizeram na aldeia Khikatxi ao registrar o incêndio na fazenda que está próxima no limite da aldeia”, afirmou Caco Barcellos.
“O que é mais importante para a manutenção de um coletivo de comunicação indígena?”. Foi com essa pergunta que o comunicador da AIK Produções, Khumtá Suya, iniciou o segundo dia do encontro. A pergunta foi direcionada para o jornalista e um dos fundadores do coletivo de comunicação Mídia Indígena.
“União e confiança, são sentimentos fundamentais para conectar um coletivo de diversos povos, de culturas e histórias. Para a gente apresentar ao mundo o que acontece nas Terras Indígenas, é necessário ter várias opiniões e muito diálogo, porque estamos compartilhando a realidade de muitos povos diferentes. Sempre escutamos todos, com muito respeito", afirmou.
Para inspirar os comunicadores da Rede Xingu+ sobre as histórias que podem compartilhar nas redes sociais, Ariel Gajardo, do ISA, relembrou uma fala marcante de Kamani Trumai, pai de Kamikia, durante a mesa de abertura: “Ele olhou para vocês e disse: 'Nós confiamos em vocês.'” Gajardo destacou a profundidade desse gesto, pessoalmente e nas falas de Caco Barcellos, que discutiu o conceito de jornalismo e o papel da reportagem.
“Vocês estão no território. Ninguém está mais em campo do que vocês, que veem a fumaça chegar, presenciam a morte dos peixes na piracema, testemunham os Kwarup e também as coisas boas, a cultura viva, a língua sendo falada, os ensinamentos das lideranças e dos anciãos. Vocês são os verdadeiros repórteres. É por isso que a comunidade confia no trabalho que fazem — os beiradeiros e indígenas da Rede de Comunicadores do Xingu+.”
Clique aqui para seguir o perfil dos Comunicadores da Rede Xingu+
Para incentivar os comunicadores a compartilharem suas reflexões, Gajardo usou a metodologia da foto-voz, na qual cada comunicador escolheu e apresentou uma fotografia que representa algo significativo para ele.
Tairu Kayabi Juruna mostrou um registro feito na aldeia Piaraçu, em 2020, durante o grande encontro convocado pelo cacique Raoni. “Esse foi um momento marcante na minha vida, quando pude mostrar a todos a força do meu olhar”, relatou o comunicador ao apresentar a imagem.
“Precisamos trazer nosso próprio olhar”
Para aperfeiçoar os conhecimentos dos comunicadores da Rede Xingu+ sobre ferramentas que podem ser utilizadas para contar suas histórias, o diretor e cineasta Alberto Alvares Guarani exibiu a sua produção mais recente, Yvy Pyte – Coração da Terra, que segundo o diretor, nasceu do seu desejo de registrar o seu retorno à sua aldeia.
Entre deslocamentos e fronteiras, o cineasta levou os comunicadores da Rede Xingu+ para o território sagrado dos Guarani, que enxergam suas casas como uma morada livre, que “dança” entre as fronteiras impostas pelos processos de territorialização vividos pelos povos indígenas na América do Sul.
Para Alberto Alvares Guarani, a noção de casa pode ser comparada ao sentimento dos Guarani sobre ser “um pássaro no coração da Terra”. O cineasta compartilhou em detalhes como foi o processo de roteirização, filmagem e finalização do filme, que recentemente foi exibido no 21.º Festival Internacional de Cinema Doclisboa.
“Esse filme foi criado coletivamente, através da câmera contamos nossa histórias, vocês veem que cada povo tem sua realidade e pensamento?”, perguntou o cineasta aos comunicadores da Rede Xingu+.
“Vocês já sabem fazer documentários; nosso olhar tem poder. Muitas vezes, os não indígenas chegam prontos para filmar em nossos territórios, impondo a visão deles sobre nossas histórias. Para evitar isso, precisamos trazer nosso próprio olhar. Se não fosse por esse filme, eu não estaria aqui com vocês agora. Ele nasceu em 2017, ao redor de uma fogueira, e trouxe algo muito maior com ele. Esse filme é importante porque leva nossas lutas para outros espaços, amplificando nossa voz e nossas causas.”
Renée Nader, diretora dos filmes Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos e Flor de Buriti, elaborado coletivamente com o povo Krahô da aldeia Pedra Branca, da Terra Indígena Krahô, Tocantins, também participou do encontro dos comunicadores da Rede Xingu+.
“O cinema é uma linguagem, mas também é uma forma de se comunicar e de criar aliados de lutas”, disse.
Segundo ela, na comunidade Pedra Branca há um grupo de jovens que registra tudo o que acontece na comunidade e que os mais velhos os escolheram com a missão de documentar sua cultura e história.
Renée Nader apresentou um filme de ficção produzido pelo coletivo de cinema Krahô Metwaje, que trata sobre os impactos do consumo de álcool na aldeia. “Eu achei muito bom o filme, isso é muito bom para nós comunicadores, porque muitas vezes, alguns jovens querem falar o que está errado, o que está acontecendo na comunidade e produzindo filmes a gente pode falar mais alto”, refletiu o comunicador Arewana Juruna.
Os comunicadores foram divididos em quatro grupos para investigar o tema mais relevante para os Khisêtjê na produção de uma peça audiovisual. Durante as entrevistas, os mais velhos do povo Khisêtjê relataram que viveram por décadas afastados do TIX, longe de seu território. Em 2025, eles celebram 25 anos da demarcação da Terra Indígena TI Wawi. Durante esse período de distanciamento, os Khisêtjê estavam preocupados com as fazendas de gado e pescadores que provocavam o desmatamento na região.
Agora, 24 anos após seu retorno ao território tradicional, as pressões permanecem: as ameaças aumentaram com o avanço do desmatamento, o uso de agrotóxicos nas proximidades e os incêndios nas bordas da TI Wawi.
Para mitigar os impactos do desmatamento, os Khisêtjê têm plantado pequi e recuperado áreas degradadas. Essa ação não apenas aumenta a produção de alimentos para a comunidade, mas também gera uma renda sustentável com a comercialização do óleo de pequi, resultando na restauração de 63 hectares.
Os comunicadores da Rede Xingu+ concordaram que sua próxima produção abordará a história de resistência do povo Khisêtjê. Ame Suyá, liderança Khisêtjê, destacou que a produção audiovisual será uma estratégia importante de enfrentamento ao risco imposto pela Lei do Marco Temporal ao território Khisêtjê.
Acordos e protocolos
Ao longo do encontro, os comunicadores da Rede Xingu+ revisaram e atualizaram seu regimento interno, que foi elaborado em 2023. Com apoio do presidente da Associação Terra Indígena Xingu (Atix), os comunicadores revisitaram os acordos mútuos estabelecidos entre indígenas e beiradeiros, suas associações e a Rede Xingu+, para orientar as atividades e governança – e participar de encontros com parceiros para expandir o potencial de comunicação do grupo.
Ao longo da produção do documento, os comunicadores puderam refletir com o presidente da Atix sobre as melhores maneiras de registrar e divulgar assembleias importantes para as lideranças do Xingu em parceria com os presidentes das associações indígenas e beiradeiras.
O regimento dos Comunicadores do Xingu+ prevê a estruturação de parcerias entre comunicadores, associações xinguanas, conselheiros do Xingu+ e assessoria técnica da Rede Xingu+ para o alinhamento das coberturas de assembleias e reuniões nas aldeias e localidades do Xingu.
Nos esforços dos comunicadores indígenas e ribeirinhos do Xingu pela defesa dos direitos territoriais na Bacia do Xingu, a comunicação se estabelece como uma ferramenta política indispensável. A reunião ressaltou que, com a flecha da comunicação em mãos, os comunicadores continuarão sua luta, defendendo não apenas seus próprios mundos, mas também o futuro de todos nós.
O encontro dos Comunicadores da Rede Xingu+ e esta reportagem foram produzidos com apoio da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), da Fundação Rainforest da Noruega, da União Europeia e do Fundo de Defesa Ambiental (EDF). As opiniões expressas na reportagem não refletem necessariamente as opiniões dos parceiros apoiadores.
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A mostra ocorre simultaneamente em mais de 200 cidades brasileiras nesta segunda-feira (28/10)
O Cine Japu foi uma das iniciativas selecionadas para compor o circuito nacional da mostra de curtas-metragens no Dia Internacional da Animação, celebrado na próxima segunda-feira (28/10), com exibições simultâneas em todo o país.
Em São Gabriel da Cachoeira, a programação terá início às 19h no telecentro do ISA - localizado na rua Projetada, nº 70 - Centro - com entrada gratuita.
O Dia Internacional da Animação é uma mostra de animação com filmes nacionais e internacionais que ocorre em mais de 200 cidades em todas as regiões do país.
No Amazonas, além de São Gabriel da Cachoeira, ela também ocorre em Manaus, Itacoatiara, Presidente Figueiredo e Tefé. Em 2024 o evento comemora 21 anos desde sua primeira edição.
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Criado em 2023, o Cine Japu é uma iniciativa do ISA com participação da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas do Rio Negro, que promove sessões quinzenais de cinema e rodas de conversa, com o objetivo de ampliar os diálogos, compartilhar olhares e saberes entre as comunidades e instituições da região, promovendo o fortalecimento das culturas indígenas por meio da arte e do lazer.
A programação do especial do cine clube contará com a exibição de filmes da Mostra Nacional e Internacional, com classificação a partir de 14 anos. Confira:
MOSTRA NACIONAL
Maré Braba
Dir. Pâmela Peregrino - stop motion - 07:16 - 2023 - Porto Seguro/BA
Ela, que conecta a todos pelas suas águas, observa e opera as mudanças decorrentes do aquecimento global. O povo à beira-mar é o primeiro a sentir suas agitações e mudanças de humor.
Manu Sonha com Onças
Dir. Daniel Og - 2D - 05:32 - 2023 - Rio de Janeiro/RJ
Manu Sonha com Onças é a história de um sonho da menina Manuela que essa noite se encontra com os felinos que habitam sua imaginação e a ajudam a despertar sempre um pouco mais pra quem ela é e o que quer ser no mundo.
Hoje Eu Só Volto Amanhã
Dir. Diego Lacerda - 2D, 3D, Colagens - 08:00 - 2024 - Recife/PE
Cada pessoa é um Carnaval e Marina sabe qual o dela. Nas ladeiras de Olinda ela busca o êxtase da folia carnavalesca, a música, a gritaria, o calor, a alegria, o amor.
Alguns Sinaes
Dir. Samu Mariani - Stop Motion com objetos - 01:23 - 2023 - São Paulo/SP
O vazio constitui o cheio. É como a fofoca científica diz afinal: os átomos contém mais espaço que matéria. Numa boa ficção, podem ser espaços que formas de vida de lógica ainda desconhecida ocupem de forma criativa.
O Nome da Vida
Dir. Amanda Pomar - 2D/3D - 13:00 - 2024 - Juiz de Fora/MG
O Governo Geisel ostentava um discurso moderado, prometendo a famigerada transição democrática enquanto continuava a perseguir os opositores do regime militar. Exemplo dessa dissimulação, o Massacre da Lapa foi arquitetado para aniquilar os dirigentes do PCdoB em dezembro de 1976.
O Futuro Que Me Alcance
Dir. Nat Grego - 2D tradigital - 04:35 - 2023 - São José dos Campos/SP
O Futuro Que Me Alcance é um videoclipe animado da canção de Reynaldo Bessa que nos leva por uma viagem surreal e existencial pelas memórias e afetos do eu-lírico.
Absorta
Dir. Luiza Pugliesi Villaça - 2D - 08:00 - 2023 - São Paulo/SP
Nara, uma jovem adulta exausta, decide tomar um banho após um longo dia. Mas ao submergir na banheira para relaxar, seu momento de introspecção é interrompido por um peixe preso no ralo. Águas profundas e desconhecidas serão exploradas à medida que ela é invadida por diferentes fases da sua vida.
Receita de Vó
Dir. Carlon Hardt - Stop Motion - 03:10 - 2024 - Curitiba/PR
‘Minha vó dizia: menina, não chore pitanga. Cê não queria? Então chupa essa manga!’. “Receita de Vó” nos leva ao quentinho da casa da vó, onde comidas cantam e dançam ao som do mundo mágico do Hip Hop.
MOSTRA INTERNACIONAL
Después del eclipse
Dir. Bea R. Blankenhorst - stop motion - 12:08 - 2019 - Argentina
Argentina, década de 1920. Em um pequeno povoado agrícola, o Club Social anuncia uma grande noite de festa. Dois jovens apaixonados esperam ansiosos pelo momento de se encontrar e dançarem
Le renard et l'oisille
Dir. Fred & Sam Guillaume - 3D - 12:06 - 2018 - Suíça
Uma raposa solitária precisa improvisar a paternidade para um bebê pássaro recém-nascido. Dois caminhos se cruzam e uma família é formada, até que o destino mostra para cada um a vida que devem levar.
Six plain hot dogs
Dir. Joël Vaudreuil - Stop-motion, Animação 2D - 14:59 - 2011 - Canadá
No leste de Montreal, um garoto vai ao restaurante local para buscar cachorros-quentes para ele e sua avó, que está debilitada. No local, ele encontra uma garçonete angustiada por estar sozinha no atendimento.
Black Slide
Dir. Uri Lotan - 3D - 11:12 - 2021 - Israel
Eviah, uma criança jovem e tímida no início da puberdade e seu melhor amigo, Tsuf, entram de fininho no Black Slide, o toboágua mais assustador de Aqua Fun. Lá, Eviah tem visões que irão prepará-lo para os eventos que estão prestes a acontecer em sua casa.
Ila, la niña tejedora
Dir. Edna Y. Higuera Peña - 2D/3D - 04:01 - 2023 - Colômbia
Ila é uma menina do campo que tece o sol com a lua, a terra e a água, através da sua voz, das suas perguntas, da sua imaginação e de suas brincadeiras com o seu amigo, Guardião. Todos os tecidos que esta aventureira produz brotam da ternura e da sua admiração pela grandeza da natureza.
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Dados mostram que 38 Terras Indígenas superam a média nacional de alfabetização, mas lideranças apontam desafios na educação escolar indígena
Na primeira sexta-feira de outubro, às 12h, cerca de 200 indígenas Guarani da Terra Indígena Tenondé Porã (SP) foram à prefeitura de São Paulo, sob a gestão de Ricardo Nunes (MDB), para protestar pelo cumprimento do direito constitucional à educação escolar diferenciada e por melhorias na gestão dos Centros de Educação e Cultura Indígena (Ceci).
Horas antes, às 10h, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lançava os dados do Censo 2022 sobre alfabetização, registros de nascimentos e características dos domicílios da população indígena no Brasil.
Enquanto os dados recém-lançados apontavam uma queda de 35% nas taxas de analfabetismo entre indígenas, além de ao menos 38 Terras Indígenas cujo índice de alfabetização superaram a taxa nacional (93%), na TI Tenondé Porã, os números trazem indicadores importantes, que podem apoiar na implementação da educação escolar indígena.
Confira quais são as 10 Terras Indígenas com a maior porcentagem da população alfabetizada:
Terra Indígena Peruíbe (SP)
Terra Indígena Xapecó (Pinhalzinho-Canhadão) (SC)
Terra Indígena Sete de Setembro (RO,MT)
Terra Indígena Jarudore (MT)
Terra Indígena Padre (AM)
Terra Indígena Muã Mimatxi (Fazenda Modelo Diniz) (MG)
Terra Indígena Ofayé-Xavante (MS)
Terra Indígena Estação Parecis (MT)
Terra Indígena Tekoha Itamarã (PR)
Terra Indígena Jaraguá (SP)
Além disso, eles também demonstram a importância do ensino da língua materna para garantir melhores índices de alfabetização entre indígenas, uma vez que o IBGE considera alfabetizadas as pessoas que saibam ler e escrever na língua que conhecem. É o que defende Kerexu Mirim, professora e liderança da TI Tenondé Porã, que contou sua experiência em ensinar em Guarani.
“A gente viu que a criança aprende mais rápido do que entrar na escola com seis sete anos e já inserir a língua portuguesa. Por isso a gente luta e está também fazendo experiências, fazendo materiais didáticos na nossa língua para auxiliar na alfabetização das crianças em Guarani, para depois inserir o português”, conta.
Segundo o Censo 2022, a TI Tenondé Porã possui mais de 90% de sua população alfabetizada.
Localizados na zona sul da cidade de São Paulo (SP), os 16 mil hectares da TI foram declarados como posse permanente dos Guarani em 2016, após décadas de luta pelo reconhecimento de seus direitos territoriais e confinamento em apenas duas aldeias, de 26 hectares cada.
Com a demarcação e o processo de redispersão dos Guarani pelo território, a demanda por escolas cresceu, não só com relação aos Ceci, que atendem à faixa etária de 0 a 5 anos, mas também ao Ensino Fundamental e Médio, segundo as lideranças locais.
“O Ceci hoje já não é mais uma demanda de duas aldeias, são de 11 aldeias que estão inseridas no município [de São Paulo]. Então essa demanda que a gente traz há bastante tempo já é também desse reconhecimento do direito das crianças”, explica Karai Tataendy, liderança da TI Tenondé Porã. “A gente não está pedindo para fazer um Ceci em cada aldeia, mas sim que os equipamentos que estão já em nosso território se adequem ao nosso jeito, à nossa própria forma de entender a educação e que ela seja respeitada”, complementa.
Além de dois Ceci, a TI também conta com duas escolas estaduais indígenas, em que os indígenas lutam para efetivar uma educação específica, diferenciada, comunitária, intercultural e bilíngue – um direito conquistado pelos povos indígenas na Constituição Federal e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), entre outras normativas.
Avanços da alfabetização
Apesar dos desafios enfrentados pelos Guarani em São Paulo e por indígenas de norte a sul do Brasil pela efetivação de uma educação escolar indígena verdadeiramente diferenciada, o Censo 2022 aponta uma queda na taxa de analfabetismo entre indígenas em todo o país. Enquanto a porcentagem da população brasileira que não sabia ler nem escrever caiu 27% do Censo 2010 para o atual, a taxa de analfabetismo entre indígenas caiu cerca de 35%.
Além disso, considerando somente as TIs comparáveis, ou seja, aquelas em que já haviam sido alcançadas pelo Censo anteriormente, em 2022, mais de 90% das Terras Indígenas tinham mais de 50% de sua população alfabetizada, ante 60,6% em 2010. Isso significa um aumento de quase 50% no número de TIs que possuem a maior parte de sua população alfabetizada.
Para o IBGE, uma pessoa alfabetizada é aquela que consegue ler e escrever um bilhete simples ou uma lista de compras na língua que conhece, ou que utiliza o sistema Braille, uma forma de escrita tátil utilizada por pessoas com deficiência visual. “A pessoa não precisa estar frequentando a escola para ser alfabetizada”, afirma Marta Antunes, coordenadora do Censo de Povos e Comunidades Tradicionais - Alfabetização e Registros de Nascimento (Indígenas Censo 2022).
Os resultados do Censo indicam que todas as regiões apresentaram uma queda na taxa de analfabetismo entre indígenas, com destaque para a região norte, que teve uma queda de 51,2% das pessoas que não sabiam ler nem escrever, seguida pelo centro-oeste (38,8%); e sul (32,4%).
Já no âmbito municipal, as menores taxas de analfabetismo foram encontradas no Rio de Janeiro (3,1%), em São Paulo (4%) e no Distrito Federal (5,5%). A região sudeste, por sua vez, apresentou a menor taxa de analfabetismo no país entre pessoas indígenas (8,31%).
Ao contrário da média nacional, entretanto, a taxa de alfabetização entre mulheres apresentou um valor levemente abaixo em relação aos homens (1%) a partir da faixa etária de 35 anos.
Em todas as regiões, as quedas nas taxas de analfabetismo foram significativas entre os mais jovens. Nas faixas etárias até 39 anos, as taxas caíram pela metade, com avanços ainda significativos na faixa entre 40 e 44 (42%). Como nos dados gerais, a taxa de analfabetismo entre indígenas aumenta conforme o avanço na idade, principalmente nas faixas etárias a partir de 65 anos.
Na região Norte, onde houve a maior queda, as menores taxas de analfabetismo entre os indígenas se deram nos estados do Amapá (9,65%), Rondônia (12,88%) e Amazonas (14,06%).
Conquista do movimento indígena
No estado do Amazonas a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), organização representativa de 24 povos indígenas do Rio Negro, atua na promoção da educação escolar indígena. Melvino Fontes, do povo Baniwa e atual coordenador do departamento de educação escolar indígena da Foirn, atribui o avanço revelado pelo Censo 2022 à luta do movimento indígena pela valorização dos saberes tradicionais.
“A gente abraçou essa causa justamente para que de fato se pudesse ter nossos direitos preservados de acordo com o que nos garante a Constituição. Então dentro desse aspecto, a gente teve um salto muito positivo”, celebra Melvino. Ele também destaca que valorizar os saberes tradicionais não significa voltar atrás, mas fazer com que os conhecimentos indígenas e não indígenas possam caminhar juntos.
A dificuldade, segundo ele, está em garantir o respeito das secretarias de educação e outras instâncias governamentais aos modelos e projetos educativos dos povos indígenas no Rio Negro. “A nossa luta é para que se desenvolva a educação de baixo para cima, com a participação dos professores, alunos e comunidade nessa construção”, defende.
Morador da TI Tenondé, na capital paulista, Karai Tataendy, ponderou sobre a interpretação dos dados de alfabetização entre indígenas. Para ele, sem assegurar o direito à educação escolar diferenciada, se torna difícil fazer comparações baseadas em uma educação tradicional.
“Dentro das grandes cidades, por exemplo, não é a mesma coisa que em uma escola de campo, mesmo sendo de pessoas não-indígenas já tem essa diferença. Essa relação da vida, dos valores, é diferente. E em se tratando dos povos indígenas, é mais complexo ainda”, completou.
Assim como ele, Kerexu Mirim, professora da rede estadual de São Paulo e liderança na TI Tenondé Porã (SP) também partilha dos mesmos desafios e que as escolas indígenas guarani ainda sofrem com a imposição de estruturas e parâmetros curriculares estranhos a seus saberes e modos de existência.
“A gente deveria ter uma inscrição específica com temas específicos para nossa realidade, porque a gente que está na aldeia, não é que não entendemos o que acontece lá fora, mas vivemos uma realidade diferente”. Ela ainda complementa: “A gente quer uma educação diferenciada, porque a gente tem esse direito”.
É o que também busca Karai Tataendy: “O que a gente pede é só que seja respeitado mesmo esse direito ao ensino diferenciado que temos a garantia na Constituição Federal”.
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