Manchetes Socioambientais
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“O encontro entre índios e brancos só se pode fazer nos termos de uma necessária aliança entre parceiros igualmente diferentes, de modo a podermos, juntos, deslocar o desequilíbrio perpétuo do mundo um pouco mais para frente, adiando assim o seu fim.”
Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo, um dos fundadores do ISA
O tema "Povos Indígenas" está na origem da existência do Instituto Socioambiental. Lá se vão pelo menos quatro décadas de comprometimento e trabalho com o tema, produzindo informações para a sociedade brasileira conhecer melhor seus povos originários. Desde sua fundação, em 1994, o ISA dá continuidade ao trabalho do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), que havia sido iniciado em 1980 e que, por sua vez, remonta ao começo dos anos 1970, quando o então governo da ditadura militar lançava o Plano de Integração Nacional, com forte componente de obras de infraestrutura na Amazônia, região que era então descrita pelo discurso oficial como um "vazio demográfico".
Por meio dos relatos coletados, dados produzidos e pesquisas empreendidas por uma rede de colaboradores espalhada pelas diversas regiões do País, o Cedi ajudou a derrubar essa tese. Ao dar publicidade às informações levantadas por essa rede social do tempo do telex, o Cedi colocou, definitivamente, os povos indígenas e suas terras no mapa do Brasil. Seus integrantes ainda participaram ativamente no movimento de inclusão dos direitos indígenas na Constituição de 1988 e, juntamente com integrantes do Núcleo de Direitos Indígenas (NDI) e ativistas ambientais, fundaram o ISA em 1994.
De lá para cá, ampliando sua rede de colaboradores em todo o País, o ISA se consolidou como referência nacional e internacional na produção, análise e difusão de informações qualificadas sobre os povos indígenas no Brasil. O site "Povos Indígenas no Brasil", lançado em 1997, é a maior enciclopédia publicada sobre as etnias indígenas no Brasil, com suas línguas, modos de vida, expressões artísticas etc. O site é uma das principais referências sobre o tema para pesquisadores, jornalistas, estudantes e acadêmicos.
A atuação hoje é transversal aos territórios onde atuamos, especialmente na Bacia do Xingu, no Mato Grosso e Pará, e Bacia do Rio Negro, no Amazonas e Roraima, e também envolve povos indígenas de todo o Brasil, por meio da atualização permanente do site e de seus mais de 200 verbetes, inclusão de novos textos sobre etnias emergentes e indígenas recém-contatados, além do monitoramento e cobertura jornalística sobre situações de violência e perda de direitos contra estas populações. O tema "Povos Indígenas" ainda é tratado no site "PIB Mirim", voltado ao público infanto juvenil e de educadores.
O monitoramento de Terras Indígenas também é um eixo central do nosso trabalho com o tema, e remonta à sistematização de dados e divulgação de informações iniciada pelo Cedi em 1986, e se dá por meio da produção de livros impressos e mapas temáticos sobre pressões e ameaças, como desmatamento, mineração, garimpo, obras de infraestrutura, entre outras, além do site "Terras Indígenas no Brasil".
Confira os conteúdos produzidos sobre este tema:
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Em formato de enciclopédia, é considerado a principal referência sobre o tema no país e no mundo |
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A mais completa fonte de informações sobre o tema no país |
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Site especial voltado ao público infanto-juvenil e de educadores |
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Painel de indicadores de consolidação territorial para as Terras Indígenas |
Publicações bilíngues da Hutukara Associação Yanomami em parceria com o ISA apresentam o trabalho de pesquisadores indígenas
A coleção “Urihi anë thëpëã pouwi” (ou Saberes da Floresta Yanomami, em português), da Hutukara Associação Yanomami em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), foi selecionada como projeto de destaque da 14ª Bienal Brasileira de Design, na categoria profissional de Margens & Colunas – Livros de ficção e não ficção.
A seleção conta com dois títulos: Puu naki thëã oni: o conhecimento yanomami sobre abelhas; e Diários Yanomami: testemunhos da devastação da floresta. As publicações contaram com apoio da União Europeia (UE), Fundação Rainforest da Noruega, Embaixada da Noruega, Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do Centro de Documentação Indígena (Missionários da Consolata).
O projeto “Urihi anë thëpëã pouwi/Saberes da Floresta Yanomami” foi um dos 23 selecionados na categoria Margens & Colunas, na subcategoria Livro de ficção e não ficção, destinada aos projetos gráficos editoriais de livro de ficção, não ficção ou em quadrinhos, podendo ser edições isoladas ou coleções.
Em Puu naki thëã oni, os elementos gráficos de composição na página – ilustrações e aquarelas – complementam a produção científica sobre abelhas sociais, transmitindo os saberes e conhecimentos tradicionais yanomami. Por sua vez, Diários Yanomami desponta como uma publicação que oferece, em edição única, quatro diferentes estruturas textuais: diários, entrevistas, depoimentos e notas.
Os volumes são bilíngues, produzidos originalmente nas línguas Yanomami, por pesquisadores locais, e depois traduzidos para o português. Como parte das línguas indígenas brasileiras utilizam caracteres ausentes na maioria das fontes tipográficas comerciais, o emprego de uma fonte com suporte às línguas yanomami se tornou fundamental para a execução do projeto gráfico da coleção.
Promovida pela Hutukara e pelo ISA em 2022, a iniciativa tem como objetivos a valorização e fortalecimento dos saberes e das línguas yanomami, além de proteger a Terra Indígena Yanomami. A coleção divulga estudos de pesquisadores yanomami sobre diversas áreas do conhecimento, tradicional ou não, e reúne pesquisas realizadas em colaboração com especialistas napë pë (não-yanomami).
O projeto contou com os autores de design Felipe Cavalcante e Gabriel Menezes, a ilustração dos pesquisadores Yanomami e aquarelas de Hadna Abreu, e a diagramação de Felipe Cavalcante, Gabriel Menezes e Cecília Cartaxo.
Sobre a 14ª Bienal Brasileira de Design
A 14ª Bienal Brasileira de Design será sediada em Aracaju (SE), entre 6 e 20 de dezembro deste ano, com o tema “Giros: movimentos que dão voz às nossas histórias, culturas e identidades”. O tema desta edição resgata a herança sergipana, inspirado pela vibrante tradição conhecida como Parafuso, uma dança que celebra a cultura e a história ancestral de seu povo.
Em 2024, a curadoria da Bienal optou por selecionar projetos para destacar, buscando reconhecer aqueles que celebram e expandem o design brasileiro. Foram inscritos projetos realizados, produzidos e/ou publicados entre janeiro de 2019 e junho de 2024, no Brasil. As 15 categorias de destaque foram concebidas para representar de maneira mais lúdica e abrangente a diversidade do design brasileiro.
Esta será a primeira edição desde a pandemia de Covid-19: a última edição ocorreu em dezembro de 2019, no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba (PR). O momento sinalizou a necessidade de mudanças na Bienal, com desafios e novas pautas que visam aproximar a diversidade que almejamos para nosso país.
O evento é organizado pela Associação dos Designers Gráficos (ADG Brasil) em parceria com o governo do Estado de Sergipe, além de receber apoio do banco Itaú. A Bienal será montada no Centro de Convenções AM Malls Sergipe.
Diários Yanomami: testemunhos da destruição da floresta
O livro reúne uma coleção de textos produzidos por pesquisadores yanomami, entre 2019 e 2022, sobre os impactos negativos da exploração garimpeira no seu território. São diários, testemunhos e entrevistas, que se aprofundam nas transformações causadas pelo garimpo na vida yanomami nos últimos anos: na cultura, na natureza, na liberdade e nas relações pessoais.
Além de descrever a devastação da paisagem e a desestruturação social provocada pela mineração ilegal, a produção é um convite aos não indígenas para uma tomada de ação pelos direitos dos povos originários e o respeito ao seu território.
A produção editorial é assinada por Estêvão Senra, geógrafo do ISA, que também faz parte dos times de organização e edição junto a Alcida Ramos e Corrado Dalmonego. A tradução de Yanomae para Português foi feita por Dalmonego conjuntamente com os pesquisadores.
O livro foi produzido pela Hutukara Associação Yanomami e o ISA, com apoio do Fundo das Nações Unidas para a criança e adolescente (UNICEF), da Rainforest Foundation Norway e do Centro de Documentação Indígena (Missionários da Consolata). Também contribuem com apoio financeiro o Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária da União Europeia (ECHO) da União Europeia.
“Diários Yanomami” está à venda na loja online do ISA, que entrega para todo o Brasil
Puu naki thëã oni: o conhecimento yanomami sobre abelhas
Este livro apresenta os resultados de uma pesquisa sobre abelhas sociais realizada na aldeia Piau, na região do Toototopi, Terra Indígena Yanomami. O trabalho foi desenvolvido por jovens pesquisadores yanomami, orientados por velhos conhecedores de suas aldeias, com assessoria técnica do ISA.
A pesquisa transcorreu em quatro etapas, de abril de 2016 a março de 2018. Ao todo, o trabalho apresenta trinta e duas nomenclaturas de abelhas sociais. Para cada uma das abelhas listadas estão descritas a sua aparência, comportamento, características do mel, local de nidificação, aspectos do ninho e flores preferenciais.
Diante da emergente crise contemporânea da biodiversidade, o povo Yanomami tem prestado um serviço inestimável à conservação das florestas no norte da Amazônia. Nesta publicação, os yanomami fortalecem a associação entre o saber tradicional ao conhecimento técnico-científico, com valiosas informações para a salvaguarda das abelhas nativas.
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Mudanças climáticas são consideradas por órgãos de saúde como fatores de risco para comunidades amazônidas
Atenção: a reportagem a seguir aborda temas sensíveis, como saúde mental e suicídio, que podem gerar gatilhos. Se você precisar de apoio, contate o Centro de Valorização à Vida (CVV) pelo telefone 188 (ligação gratuita), pelo site, ou busque unidades de saúde na sua cidade.
O município de São Gabriel da Cachoeira, localizado ao noroeste do estado do Amazonas, apresenta um cenário preocupante de saúde pública relacionado aos índices de suicídio registrados na região. De acordo com dados da Vigilância Epidemiológica do município, de 2020 a 2023, foram registrados 77 casos de tentativas de suicídio/autolesão. Só em 2024, até o início do mês de setembro, esse número já chega a 34. Questões ambientais relacionadas às mudanças climáticas, como a estiagem cada vez mais severa na região, já são compreendidas como fatores de risco a serem monitorados pelos órgãos de saúde do Amazonas.
Ainda de acordo com os dados da Vigilância, foram 71 registros de mortes por suicídio no mesmo período (2020 a 2023), sendo 14 só até o inicio de setembro deste ano. Com 98 % de sua população autodeclarada indígena, o cenário exige atenção contínua e estratégias diferenciadas para prevenção.
Diante disso, o Comitê Municipal de Prevenção ao Suicídio e Automutilação lançou na última semana o Plano Municipal de Prevenção ao Suicídio, documento que prevê uma série de ações multidisciplinares e intersetoriais com objetivo principal de reduzir essas taxas por meio do fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial, capacitação de profissionais, campanhas de conscientização, integração com as comunidades indígenas, monitoramento e avaliação das ações.
Se tratando de uma população majoritariamente indígena, o plano destaca a promoção de um diálogo intercultural e interinstitucional para se pensar estratégias de prevenção que respeitem e integrem as tradições e os conhecimentos dos povos, como o mapeamento de conhecedores tradicionais para apoio e acolhimento de pessoas em sofrimento mental e itinerários terapêuticos que incluam benzimentos e a medicina tradicional.
O comitê municipal é o primeiro a ser implementado no Amazonas, de acordo com a Secretária de Estado de Saúde, e é composto por representantes do Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro (DSEI/RN), Diocese de São Gabriel da Cachoeira, Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), Instituto Federal do Amazonas (IFAM), Instituto Socioambiental (ISA), Secretaria Municipal de Assistência Social, Secretaria Estadual de Educação, Secretaria Municipal de Juventude, Esporte e Lazer e Secretária Municipal de Saúde.
O ISA tem participado do Comitê Municipal de Enfrentamento ao Suicídio desde sua criação, em 2019, junto com as instituições locais. Neste período, seu funcionamento passou por alguns altos e baixos, como a pandemia de Covid-19 e ainda a rotatividade de pessoas que o compunham. “Temos percebido que isso enfraquece as ações institucionais e a do próprio Comitê”, explica Dulce Morais, antropóloga e representante do ISA na composição.
Dulce conta que desde o ano passado houve um esforço do grupo para a retomada dos encontros e neste ano, a partir de uma formação oferecida pela Diocese de São Gabriel, conseguiram avançar nas discussões e na elaboração do Plano Municipal de Enfrentamento ao Suicídio.
Até o momento, o Comitê tem realizado reuniões periódicas e mantido membros fixos de cada instituição que o compõem. Segundo a antropóloga, um dos principais desafios antes da elaboração do plano era a falta de acesso aos dados epidemiológicos, o que dificultava a criação de ações de prevenção e cuidados mais direcionados. "Com essas informações, podemos identificar quais povos são mais vulneráveis e entender os fatores sociais que agravam essa vulnerabilidade", explicou.
A partir do plano, foram pensadas ações iniciais, voltadas para um trabalho colaborativo que respeite as especificidades dos povos indígenas. Entre elas, estão o estudo dos dados sobre o suicídio no município e a análise do Plano de Gestão Territorial e Ambiental em Terras Indígenas (PGTA), que contém demandas relacionadas ao bem-viver e pode contribuir para a redução dos casos de suicídio.
Subnotificação
“Os índices estão aumentando, mas estamos falando de subnotificação. A situação de São Gabriel da Cachoeira é ainda mais alarmante”, alertou a gerente da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM), Diana Oliveira da Silva, durante oficina de Capacitação de Assistência à Saúde Mental sobre os agravos relacionados à violência autoprovocada realizada em São Gabriel da Cachoeira.
Promovida pelas Secretária Municipal e Estadual de Saúde (SEMSA e SES-AM) e Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS), a atividade reuniu profissionais da Saúde, Educação, Juventude, organização indígena e sociedade civil durante dois dias, a fim de reforçar a importância da notificação e o seu preenchimento correto para o fortalecimento de políticas públicas de prevenção e acolhimento dos casos.
Em sua fala, Diana incentivou que outros setores, além da Saúde, também contribuíssem com o reporte junto à Vigilância Epidemiológica do município: “a obrigação de relatar é do profissional da Saúde e da Educação Estadual, mas todos podem e devem contribuir”.
A notificação de casos suspeitos de tentativa de suicídio no Brasil, assim como de violência sexual, é obrigatória e deve ser feita em até 24 horas para que medidas urgentes de acolhimento e prevenção às vítimas possam ser tomadas.
É com base nessas notificações, que geram dados robustos e confiáveis, que ações de prevenção, enfrentamento e promoção da saúde podem ser discutidas e estruturadas nos municípios.
Suicídio e populações indígenas
Na contramão da média global, os índices de suicídio no continente americano apresentaram um crescimento de 17% entre os anos de 2000 e 2019, com o Brasil figurando entre os países com o aumento mais significativo (43%), de acordo com estudo desenvolvido pelo Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), em colaboração com pesquisadores de Harvard.
Ainda de acordo com a pesquisa, num recorte de raça e etnia, a população indígena apresentou as maiores taxas de notificação de autolesão e suicídio, com mais de 100 casos a cada 100 mil pessoas.
Entre os anos de 2019 e 2022, o Amazonas foi o estado brasileiro que mais registrou casos de suicídios entre indígenas, de acordo com o Relatório da Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil divulgado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Foram 535 no país, sendo 208 registrados no Amazonas, seguido do Mato Grosso do Sul, com 131 casos, e Roraima, com 57.
Com sua população estimada em mais de 51 mil pessoas, São Gabriel da Cachoeira é considerada a cidade com o maior número de pessoas no país que se autodeclaram indígenas. Segundo o Sistema de Informação da Atenção Indígena (SIASI DSEI ARN, 2024), 25.177 indígenas residem nas comunidades rurais do município, distribuídos em 595 aldeias ao longo dos rios existentes na região (Içana, Negro, Waupés, Xié, Tiquié) (SIASI, 2023).
Além de São Gabriel, o Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro (DSEI/ARN) abrange ainda as popualções dos municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, totalizando uma extensão territorial de 138.020,94 quilômetros quadrados, que inclui uma área de fronteira com a Colômbia e a Venezuela.
Neste contexto multiétinico e complexo, conforme o boletim epidemiológico n.º 01/2024 da Atenção Psicossocial do DSEI/ARN, do ano de 2006 até o primeiro semestre de 2024, foram registrados pela distrito sanitário 238 óbitos por suicídio, sendo os anos de 2022 e 2020 os que apresentaram maior quantitativo, respectivamente, com uma média de 23,8 mortes por suicídio por ano. Mais de 70% dos casos são de pessoas do sexo masculino e a faixa etária mais atingida é de 15 a 19 anos, seguido da faixa etária de 20 a 29 anos.
Estar localizado em uma área fronteiriça, explica o enfermeiro do DSEI/ARN Sediel Ombrósio, do povo Baré, contribui para uma grande variação nos dados de atendimento do distrito, uma vez que muitos indígenas que vivem nesta faixa acabam buscando atendimento no território brasileiro. “Então são 23 etnias do território [Alto Rio Negro] e mais de 60 que circulam e que nós atendemos”, detalha.
A questão do suicídio indígena é um fenômeno epidemiológico, complexo e multifatorial e, embora haja estudos, não há respostas conclusivas quanto às causas e fatores de risco. Entretanto, de acordo com os relatos de trabalhadores da saúde e das próprias comunidades onde os casos ocorrem, há uma forte associação ao uso prejudicial de bebidas alcoólicas.
“O suicídio às vezes tem a parte do alcoolismo, da bebida. E há outras características também, de brigar com a namorada, de brigar com a família, de querer alguma coisa e não ter. E não é [característico] só de um grupo, ele é num contexto geral, é nacional. Se olhar o que motiva, o que dá coragem para a pessoa se suicidar, é quando ela bebe ou ela usa alguma outra coisa ruim”, relata Sediel.
Ainda de acordo com o enfermeiro, em algumas situações, quando há óbito autoprovocado em uma família, outros registros de tentativa ou consumação podem ocorrer dentro do mesmo núcleo. O que leva à importância da atenção e acompanhamento das famílias no pós suicídio também como medida de prevenção e enfrentamento a novos casos.
As mudanças sociais e culturais vividas pelos indígenas também apresentam hipóteses dos fatores que predispõe ao suicídio, como a perda das práticas dos rituais de passagem, como da infância para a vida adulta.
Fatores ambientais
Como levantado pela gerente da Rede de Atenção Psicossocial do Amazonas, além das questões socioculturais, em um contexto de mudança climática que é global, fatores ambientais também são entendidos como fatores de risco não só para as populações indígenas do Amazonas, mas também ribeirinhas, quilombolas e extrativistas.
“O que saúde mental tem a ver com a estiagem? Tudo. Vem a estiagem, o rio seca, já começa o processo de isolamento. A maioria dessas comunidades têm algum tipo de relação com os seus pólos base, seja para acessar serviços ou insumos, ou se comunicam com outras comunidades ribeirinhas. Ou seja, o rio seca e impede o acesso. As pessoas podem dizer que isso já acontece há muito tempo e, sim, acontece, mas tem se agravado muito nos últimos anos”, avalia Diana.
Ela reflete ainda sobre o impacto dos eventos extremos nas roças, na pesca, com reflexos na segurança alimentar e subsistência das famílias. “Às vezes o homem, que é responsável pela manutenção dessa família, não consegue fazer nada disso, não consegue prover sua família, e pode ser levado a um estado agudo de sofrimento”.
Por fim, completa Diana, é preciso entender a questão dos fatores que provocam o sofrimento mental e que essa compreensão não é só uma questão de diagnóstico. “Eu posso ter sofrimento quando eu vivo em um ambiente de violência, se eu perdi um emprego, se não tenho segurança alimentar”, diz, o que exige um envolvimento e diálogo de todos os equipamentos públicos e da sociedade como um todo.
Semana de discussões
Nesta semana, ainda dentro da temática do enfrentamento ao sucicídio, o Cine Japu - iniciativa ISA com participação da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas - trouxe em sua programação a exibição do vídeo manifesto “A Saúde Mental é Assunto de Todas as Pessoas”, produzido pelo Instituto Cactus e pelo Coletivo Bodoque.
A animação ilustra a presença da saúde mental em todas as esferas da vida, reforçando a importância da ampliação do debate sobre o tema.
Em roda de conversa após a exibição, os convidados bateram um papo com o público sobre a importância de se falar abertamente sobre o tema, aspectos da questão no contexto da saúde indígena e a formação de profissionais, inclusive indígenas, que levem em consideração os conhecimentos e medicinas tradicionais.
Participaram da roda o enfermeiro do DSEI Sediel Ambrósio, o diretor Federção dos Povos Indígenas do Rio Negro (FOIRN) Hélio Gessem, do povo Baré, e a diretora da Secretaria Municipal de Juventude Esporte e Lazer (SEMJEL) e articuladora do Selo Unicef-SGC Edneia Teles, do povo Arapaço.
O Papo de Maloca, programa de rádio da Rede Wayuri, também destacou a temática nesta semana, com a participação do enfermeiro Sediel, que tirou dúvidas dos ouvintes sobre saúde mental dos povos indígenas.
“Acredito que é importante falar sobre este tema dentro de um programa de rádio, porque os ouvintes, no caso a população gabrielense, ficam informados sobre as ações e trabalhos que estão sendo realizados na sede [do município] e no interior sobre esta temática. Assim podem compartilhar essas informações para os seus parentes que estejam passando por algum problema ou não, e tudo isso já seria uma forma de poder ajudar alguém. E o rádio é um meio de comunicação muito importante para abordar vários temas relevantes para a população em geral”, reforça a comunicadora da Rede Wayuri Cláudia Ferraz.
O programa Papo de Maloca vai ao ar todas às quartas-feiras, das 10h às 12h, na rádio FM O Dia (92,07).
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Indígenas preservam saberes tradicionais e mantêm a luta viva em meio à crise humanitária e ao confinamento na "periferia" de cidade sul-mato-grossense
Em um sábado de manhã, cerca de 20 crianças se reúnem com Dona Floriza, rezadora guarani kaiowá, em uma sala de aula na aldeia Jaguapiru, na Reserva Indígena (RI) de Dourados. Lá, elas aprendem os cantos-rezas, a língua guarani, ouvem histórias, e assim, o ñandereko, modo de existência guarani, é passado de uma geração a outra.
“Tá ensinando essa criançada é muito bom. Se a gente não deixar essa palavra, eles não vão saber não, porque a criança de hoje fala mais o karai reko (modo não indígena), fala só em português, a mãe também, o avô talvez já não fala mais guarani e já perdeu o idioma, não canta mais a reza. Isso também dói pra gente”, desabafou Dona Floriza, depois de explicar aos alunos como as sementes deram origem aos alimentos.
“Quando o Kuarahy [Sol] chegou, só tinha a iluminação só um pouquinho.
O Kuarahy então perguntou ao Jasy [Lua]:
– O que nós vamos fazer nessa semente?
Ao que o Jasy respondeu:
– Vamos plantar porque essa semente vai gerar para todo o país”.
O projeto desenvolvido por Floriza Souza e seu marido, o rezador Jorge da Silva, foi uma das maneiras encontradas pelo casal de perpetuar os saberes e práticas tradicionais guarani kaiowá, mesmo no contexto adverso de uma Reserva criada para confinar indígenas e liberar suas terras para colonização.
“Nós, juventude, que damos mais força tanto para liderança, quanto para ñandesy [rezadora em guarani] e ñanderu [rezador em guarani], porque a juventude que leva mais e tem que aprender mais, porque a liderança, a ñandesy, o ñanderu já tá um pouco cansado. Por isso que nós, da juventude, temos que aprender tudo isso, rezar na língua, de aprender como é que ele faz, ouvir a história deles”, defende Michele Concianza, que, além de cineasta do povo Guarani Kaiowá, é filha de rezadora e vive na Terra Indígena Panambizinho, também no município de Dourados.
Dos anciãos à juventude, as formas de resistência encontradas pelos indígenas guarani kaiowá são múltiplas, mesmo em meio à escalada de violência e ataques a seus territórios. Da Reserva de Dourados surgiram nomes como os rappers Brô Mc’s e Jovens Conscientes, as cineastas Graciela Guarani e Michele Concianza, além de acadêmicos como Indianara Ramires Guarani Kaiowá e Izaque João.
Localizada entre as cidades de Itaporã e Dourados (MS), a Reserva Indígena de Dourados, com seus 3.500 hectares, abriga mais de 13 mil indígenas (IBGE) dos povos Guarani Ñandeva, Guarani Kaiowá e Terena. O número equivale a mais de 10% de todos os indígenas no estado do Mato Grosso do Sul, segundo dados do Censo 2022. Apesar disso, a área reservada a eles possui uma densidade demográfica mais de três vezes maior que a da capital do estado em que está localizada, Campo Grande.
Dados do Distrito Sanitário Especial Indígena do Mato Grosso do Sul (DSEI-MS) apontam que a população da Reserva é ainda maior do que a registrada no Censo de 2022, com ao menos 16 mil indígenas vivendo dentro da Reserva e em seus entornos, como explica o antropólogo Diógenes Cariaga em artigo publicado no livro Povos Indígenas no Brasil 2011-2016 sobre os cem anos da Reserva.
“De 2011 para cá [2016], muitas famílias passaram a retomar áreas contíguas às reservas, como uma forma acelerar a publicação dos relatórios de identificação de terras tradicionalmente ocupadas, iniciados em 2007. Entre a primeira retomada em 2011, Ñu Verá, e as mais recentes, somam-se em 2016 cerca de dez”, explica o professor da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) e membro da Rede de Apoio e Incentivo Socioambiental (RAIS).
Apesar do IBGE ainda não ter divulgado dados específicos referentes à presença indígena nos entornos da Reserva, o deslocamento de indígenas para essas aldeias reocupadas já começa a aparecer nos números do Censo 2022, como aponta a demógrafa indígena Rosa Colman, da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e também da RAIS. “Comparando 2010 com 2022, podemos observar um pequeno aumento da população indígena da reserva, mas, sabemos que muitas pessoas da reserva se mudaram para os vários acampamentos que foram se formando e ampliando no entorno da reserva de Dourados”, afirma.
“Só aqui no município de Dourados tem 15 retomadas", explica a professora Teodora Souza, do povo Guarani Ñandeva, que vive na Reserva e é Coordenadora Regional da Funai em Dourados. Dessas áreas, segundo ela, 13 ainda não estão incluídas em nenhum estudo de identificação e delimitação pela Funai e são alvo de ataques frequentes, inclusive com uso de armas de fogo e de um trator blindado, chamado pelos indígenas de “caveirão”. O ataque mais recente aconteceu em agosto de 2023 no tekoha Avaete, conforme noticiou o Conselho Indigenista Missionário (Cimi).
Das pessoas que vivem na Reserva, mais da metade se encontra na faixa etária entre 0 e 29 anos. Ao contrário da média nacional (48,5%), a maioria dos jovens são do sexo masculino (53%). “Dá para perceber que a pirâmide [etária] está mais arredondada, o que significa uma distribuição melhor da população em todas as idades, mas a juventude ainda concentra a maior parte. Isso indica que já diminuiu um pouco o número de filhos”, avalia a demógrafa .
Para esses jovens, a realidade vivida perpassa o racismo e a falta de acesso a direitos básicos como água, alimentos, saneamento, energia, segurança e oportunidades. A pesquisa “Insegurança Alimentar entre famílias indígenas de Dourados, Mato Grosso do Sul, Brasil”, por exemplo, identificou a prevalência de insegurança alimentar em quase 65% das famílias entrevistadas na RI.
“A água falta muito nas casas. Então existe uma dependência muito grande da cidade por conta mesmo dessa insegurança alimentar, que hoje não tem espaço para você reproduzir e plantar e mesmo que demarca, hoje nem todo mundo ia ter instrumento [conhecimento] para poder então plantar”, explica Indianara Ramires Machado.
Nascida na aldeia Bororó, dentro da Reserva, a doutoranda e enfermeira guarani kaiowá atua desde a adolescência em uma organização de jovens, a Ação dos Jovens Indígenas de Dourados (AJI).
Ela complementa ainda que o contexto da juventude na RI é tão violento que a demanda por território, por vezes, acaba ficando em segundo plano diante de necessidades tão básicas.
“Os meus avós foram trazidos forçadamente para cá. Eles já vieram desse contexto do tekoha [aldeia em guarani] e eles têm essa percepção de como era o tekoha e como é importante o território, mas a juventude de hoje, ela já nasce nesse contexto de fragilidade social, de vulnerabilidade, de terra arrasada”.
A criação da Reserva em 1917 pelo Serviço de Proteção aos Índios (SPI) – órgão indigenista anterior à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) – fez parte de uma política de esbulho e confinamento dos povos indígenas no Mato Grosso do Sul, estabelecida no começo dos anos XX como um incentivo à colonização do Centro-Oeste.
O resultado foi uma série de violações e expulsões que levaram indígenas de outras aldeias e territórios ao então chamado Posto Indígena Francisco Horta Barbosa, criado por meio de um decreto estadual pelo governador do então Estado de Mato Grosso, Caetano Manuel de Faria e Albuquerque, sem estudo prévio que garantisse a conexão da área demarcada com as terras tradicionalmente ocupadas por eles – como garante hoje o pelo artigo 231 da Constituição Federal.
Atualmente, o perímetro urbano de Dourados avança sobre a Reserva, separada apenas por um anel viário, local onde ao menos cinco indígenas morreram atropelados nos últimos anos, incluindo uma criança. A RI, também cortada pela rodovia estadual MS-156, possui uma boa parte de seu entorno ocupada por fazendas de milho e soja. Além disso, um muro a separa de condomínios de luxo, que ilustra a violenta relação da cidade de Dourados com população indígena.
Segundo Aline Crespe, professora da UFGD e pesquisadora da RAIS, o avanço do perímetro urbano sobre a Reserva e as ocupações no entorno se intensificaram a partir da década de 1970, mas é nos anos 2000, com a construção do anel viário, que surgiram condomínios como o Ecoville e o Hectares. “Em 2011, foi ampliado o perímetro urbano de Dourados e desde então os condomínios passaram a se multiplicar rapidamente. E esses condomínios de luxo próximos ao anel viário começam a implementar muros grandes e altos que inviabilizam o tráfego das famílias indígenas que precisam sair da Reserva e acessar a cidade para trabalhar, fazer compras, produzido um impacto na circulação dos indígenas”, explica a pesquisadora.
“Parece que em Dourados já é tudo cidade, quase dominaram todas as aldeias. E principalmente milho, soja, não tem mais mato lá. Os fazendeiros derrubaram os matos. Bem na frente da nossa aldeia tinha matos grandes, enormes. E lá que a gente sempre pegava a madeira para construir a casa de reza. Aí em pouco tempo eles queimaram esse mato, derrubaram porque eles viram muitos indígenas pegarem madeira lá para construir a casa. Aí eles queimaram e desmataram tudo, isso que a gente sente mais dor”, lamentou Michele Concianza.
É nesse contexto que surgem as organizações de jovens que se mobilizam em coletivos como a AJI e a Retomada Aty Jovem Guarani Kaiowá. “A Aty Jovem é uma retomada para que os jovens tenham um conhecimento sobre a educação, saúde, demarcação. A gente sempre discute sobre isso porque nós somos a juventude, somos uma futura liderança”, explica a cineasta.
O 9 ° Encontro da Juventude Guarani Kaiowá, a última reunião do coletivo formado por jovens dos povos Guarani Kaiowá e Guarani Ñandeva de todo o Mato Grosso do Sul aconteceu entre os dias 22 e 26 de julho, na Terra Indígena Taquaperi, em meio a ataques aos indígenas da Terra Indígena Panambi Lagoa Rica. Em razão disso, das 700 pessoas esperadas, apenas 300 conseguiram chegar ao local do encontro, que reuniu também lideranças da Aty Guasu, a grande assembleia dos povos Kaiowá e Guarani.
As questões enfrentadas pelos jovens dentro e fora da Reserva são expressas em músicas pelo grupo indígena de rap Brô Mc’s. O grupo formado em 2009 por Charlie Peixoto, Bruno Veron, Clemerson Batista e Kelvin Mbaretê traz em suas rimas a luta e resistência de seu povo. “Sei que quando eu passo, me olha diferente. E a gente luta para manter a nossa crença. E o homem branco traz doença, dizimou o nosso povo, causou a nossa miséria e agora me olha com nojo. Sou um índio sim, vou até falar de novo Guarani, Kaiowá e me orgulho do meu povo”, cantam em um dos trechos da música “A Vida Que Eu Levo”.
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Para Indianara Ramires Machado, a vantagem que os jovens da Reserva possuem em relação aos mais velhos é o acesso potencializado aos estudos e tecnologias. À exemplo disso, hoje, os 800 alunos indígenas matriculados na UFGD correspondem a quase 15% de todos os discentes da instituição. “Eu vejo que hoje eles têm muito mais acessos, então eles podem ir muito mais longe. Eles têm mais acesso também à faculdade e aos cursos técnicos. É claro que isso precisa ser melhorado e potencializado também para que eles cheguem ainda mais longe, mas também a gente precisa dar esse suporte para esse entendimento da importância da luta dos povos indígenas”, pondera.
Michele Concianza vê sua atuação como comunicadora como uma força da juventude para se representar a partir de seu olhar e também para resistência do seu povo. “Nós indígenas, a gente fala o que é realidade, a gente fala o acontecimento pela realidade do povo Guarani Kaiowá”, afirma, trazendo também a importância de comunicadores indígenas para produzirem sobre outras realidades além da Reserva de Dourados, como é o caso das ações de recuperação territorial realizadas pelo povo Guarani e Kaiowá – que são chamadas de retomadas pelo movimento indígena e acontecem desde os anos 1970.
“Às vezes que eu lembro como que faz o nosso parente de retomada, na vivência da retomada, é muito difícil. E principalmente nós Guarani Kaiowá que sofreram muitas ameaças. Por isso que nós queremos mostrar através da mídia sobre isso, nos filmes, documentários, porque isso é o que é mais importante para nós”, conclui.
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Exibições em cinema itinerante, movido a energia solar, acontecem a partir de 25 de setembro na Aldeia Nasepotiti e em quatro cidades
O documentário Kati Rapari Kin - Será que você está ouvindo? Eu quero que você escute, tem pré-estreia na Aldeia Nasepotiti do povo Panará no dia 25 de setembro. A produção, que mergulha na realidade e resistência dos Panará, será exibida pelo CineSolar, o primeiro cinema itinerante movido a energia solar do Brasil. Após a exibição na aldeia, o projeto seguirá para quatro cidades de Mato Grosso: Matupá (26/09), Guarantã do Norte (27/09), Peixoto de Azevedo (28/09) e Sinop (29/09).
Com direção de Sérgio Gag e produção de Well Darwin, o documentário foi filmado em agosto do ano passado, na Terra Indígena Panará, localizada entre o norte de Mato Grosso e o sul do Pará. O filme traz como protagonista Akã, ancião da aldeia, que conta a história de seu povo, desde o traumático contato com o homem branco, que quase os dizimou, na década de 1970.
Veja o especial:
Panará, a volta por cima dos índios gigantes
Na época, a construção da Rodovia Cuiabá-Santarém cortou as terras tradicionais do Povo Paraná e eles foram forçadamente transferidos para o Parque Indígena do Xingu (PIX), em Mato Grosso. Na década de 1990, conseguiram reconquistar parte do território tradicional, onde o documentário foi gravado.
Os relatos de Akã e das mulheres indígenas Tepipio Panará e Jôôpyti Panará se articulam ao cotidiano de trabalho, à preparação da comida, ao trabalho na roça e às festas na Aldeia Nasepotiti, afirmando a força da cultura e a identidade do povo Panará.
“Quando a gente está na Aldeia Nasepotiti, é difícil imaginar todo o percurso que o povo Panará teve que fazer para chegar até aqui. E ouvir esse relato da boca do Akã, que viveu o primeiro contato com o homem branco, há mais de 50 anos, que passou pelo exílio no Xingu e que trouxe seu povo de volta ao território original, é uma baita lição de vida”, diz o diretor Sérgio Gag.
“Uma das coisas mais legais da produção são os desafios que os filmes nos trazem. Para mim, filmar no território Panará foi estar em contato com a natureza amazônica e com a riqueza da cultura desse povo, que enfrenta o desafio de conciliar as suas tradições com o impacto socioambiental trazido pelo homem branco”, completa o produtor Well Darwin.
A equipe do filme contou diretamente com a participação de indígenas Panará como produtores locais. Pasyma Sankuê Panará, que é presidente da Associação Indígena Iakiô Panará, deu todo o suporte nas gravações, e Kunity Metuktire Panará atuou como segunda câmera e, em São Paulo, fez a tradução das falas.
“Fico muito feliz de estar participando desse trabalho, aprendi muita coisa, que eu nem imaginava. Vai ser melhor ainda quando a gente transmitir, passar o filme, estou muito ansioso de estar novamente com a equipe”, afirma Pasyma Sankuê Panará.
Serão exibidos também curtas-metragens ambientais e curtas produzidos por estudantes que estiveram em oficinas de educação ambiental e linguagem audiovisual. A entrada é livre e os filmes contam com recursos de acessibilidade.
A 8ª edição do CineSolar é viabilizada pela Lei Federal de Incentivo à Cultura, com apoio da DGT Filmes e da Associação Indígena Iakiô Panará, e é realizada pela Brazucah Produções, Ministério da Cultura e Governo Federal.
O CineSolar também realiza a Oficinema Solar com estudantes e moradores das comunidades. Na Aldeia Nasepotiti será com alunos da TI Panará. Em Matupá, com alunos da ETEC de Matupá e da EE Jardim das Flores e em Peixoto de Azevedo na Escola Estadual Kreen Akarore.
Os encontros on-line, que têm como objetivo sensibilizar os estudantes sobre as questões ambientais, introduzem aspectos básicos da linguagem audiovisual com a técnica de animação em stop motion. Com celular e tablet, as crianças e jovens constroem coletivamente a história, protagonizam e roteirizam um curta, que é exibido na sessão de cinema à noite para toda a população.
Nesta edição, a curadoria dos curtas-metragens é do FicaEco (Festival Internacional de Cinema Agroecológico), que tem como viés principal promover produções audiovisuais socioambientais, sobre a biodiversidade, os povos tradicionais e originários, as questões de gênero, a educação e movimentos sociais.
PROGRAMAÇÃO
Aldeia Nasepotiti - Comunidade TI Panará - Altamira/PA
Sessões de Cinema
(filmes com recursos de acessibilidade)
Data: Quarta-feira (25/09)
Horários: 18h - 1ª sessão: curtas-metragens ambientais do FicaEco
19h - 2ª sessão: “Kati Rapari Kin”
Atração: pipoca de graça e visita ao furgão do CineSolar
Local: Comunidade TI Panará
Matupá/MT
Sessões de Cinema
(filmes com recursos de acessibilidade)
Data: Quinta-feira (26/09)
Horários: 18h - 1ª sessão: curtas-metragens ambientais do FicaEco
19h - 2ª sessão: “Kati Rapari Kin”
Entrada: livre - não precisa de ingresso
Atração: pipoca de graça e visita ao furgão do CineSolar
Local: Concha Acústica (Lago Municipal) Avenida Irmã Adélis, 388 - Centro - Matupá/MT
Local em caso de chuva: Mini Ginásio Jardim das Flores - Rua 05 N - Jardim das Flores
Guarantã do Norte/MT
Sessões de Cinema
(filmes com recursos de acessibilidade)
Data: Sexta-feira (27/09)
Horários: 18h - 1ª sessão: curtas-metragens ambientais do FicaEco
19h - 2ª sessão: “Kati Rapari Kin”
Entrada: livre - não precisa de ingresso
Atração: pipoca de graça e visita ao furgão do CineSolar
Local: Praça da Cultura - Avenida Jatobá, 830-1006 - Centro - Guarantã do Norte/MT
Local em caso de chuva: Igreja Matriz Paróquia Nossa Senhora do Rosário - Avenida Cambará, 863 - Centro
Peixoto de Azevedo/MT
Sessões de Cinema
(filmes com recursos de acessibilidade)
Data: Sábado (28/09)
Horários: 18h - 1ª sessão: curtas-metragens ambientais do FicaEco
19h - 2ª sessão: “Kati Rapari Kin”
Entrada: livre - não precisa de ingresso
Atração: pipoca de graça e visita ao furgão do CineSolar
Local: Praça dos Três Poderes (próximo DelMoro Supermercado) - Rua Pedro Álvares Cabral, com Teotônio Vilela - Industrial - Peixoto de Azevedo/MT
Local em caso de chuva: Vila Olímpica - Rua Teotônio Vilela, 170 - Centro
Sinop/MT
Sessões de Cinema
(filmes com recursos de acessibilidade)
Data: Domingo (29/09)
Horários: 18h - 1ª sessão: curtas-metragens ambientais do FicaEco
19h - 2ª sessão: “Kati Rapari Kin”
Entrada: livre - não precisa de ingresso
Atração: pipoca de graça e visita ao furgão do CineSolar
Local: Parque Jardim Botânico - Avenida das Itaúbas - Jardim Celeste - Sinop/MT
Atendimento à imprensa - CineSolar
Benu Comunicação - (16) 99331-9036
Fernanda Martins - fernanda@benucomunicacao.com.br
Irinea Donizete - benucomunicacao@gmail.com
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Diálogos entre indígenas das bacias dos rios Tiquié e Içana aconteceram no âmbito da Cooperação e Aliança no Noroeste Amazônico (Canoa)
Por meio do fortalecimento cultural e uma agenda territorial transfronteiriça, os encontros da Cooperação e Aliança no Noroeste Amazônico (Canoa) tem como propósito promover cuidados relacionados ao ecossistema e à biodiversidade cultural da região norte do Rio Amazonas. Para isso, torna-se fundamental o diálogo e troca de experiências entre as comunidades indígenas no Rio Tiquié e no Rio Içana, na fronteira entre Brasil e Colômbia.
Em maio de 2024, depois de mais de uma década, aconteceu o reencontro da Canoita no rio Tiquié, em que a pauta da violência contra as mulheres indígenas surgiu antes mesmo de chegarmos em Bellavista, comunidade colombiana que sediou o encontro.
No encontro da Canoa, realizado em Punta Tigre em 2023, no Rio Içana, surgiu a demanda de realizar um encontro de mulheres Koripako e Baniwa, que aconteceu em julho de 2024, na comunidade Camanaus, fronteira entre Brasil e Colômbia. Nesse encontro, o intercâmbio de experiências e conhecimentos entre as mulheres indígenas foram relacionados ao artesanato, a saúde e bem estar das mulheres do Rio Içana.
Pauta de violência contra a mulher na Bacia do Rio Tiquié
Durante a subida no Rio Tiquié para a realização da Canoita na comunidade Bellavista, no período de 16 e 20 de maio de 2024, escutamos diversas histórias — narradas por homens indígenas — sobre casos de violências físicas contra mulheres naquela região. Alguns casos ganharam maior destaque nas narrativas pela percepção de brutalidade e gravidade explicitada pelos interlocutores.
A primeira história contada foi narrada por um viajante, indígena da região, que relacionou dois casos de violência física contra mulheres e um caso de suicídio de uma jovem com o uso exagerado de bebidas alcoólicas. Durante a conversa, foi mencionado que, ao contrário da Colômbia, no Brasil esses casos ficam sem resoluções.
A comparação deve-se a um caso recente de feminicídio, em investigação, que aconteceu em comunidade indígena colombiana no Rio Tiquié. Também ressaltou que os profissionais de saúde do Polo Base, localizado na área de abrangência em que tais violências ocorreram, realizaram palestras sobre o enfrentamento da violência contra a mulher, mas que os agressores não compareceram.
Alguns homens que comentaram a respeito das violências sofridas pelas mulheres no percurso do Tiquié acreditam que as mulheres indígenas se sentem amparadas pela Lei nº 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha e, por isso, “querem ser mais que os homens”, e que também “cometem violências contra os homens”. Outros entendem que as próprias mulheres se alcoolizam e, por isso, são violentadas.
Já em Bellavista, no igarapé Abiu, afluente do Alto Tiquié, as mulheres brasileiras ressaltaram a demanda para falar e estudar, de forma contínua, a questão de violências contra as mulheres nos encontros das Canoitas, para que juntas possam conhecer melhor as leis que devem protegê-las.
Em um segundo momento de atividade, junto com as companheiras colombianas, a maioria concorda que essa temática é fundamental, tendo em vista os acontecimentos frequentes em ambos os países, nos territórios das mulheres presentes.
Bem-estar da mulher indígena e convivência comunitária na Bacia do Içana
Para além das diferenças socioculturais, a subida pelo Içana para a realização do I Encontro de Mulheres Koripako e Baniwa, no período de 22 a 24 de julho, foi completamente diferente que a do Tiquié. Foram poucos os encontros com viajantes e moradores das comunidades. Desse modo, também foram poucas as conversas e relatos sobre o território do Içana.
O I Encontro de Mulheres Koripako e Baniwa teve três momentos para abordar as temáticas de interesse das mulheres indígenas: i. práticas e conhecimentos associados à produção de artesanatos no que se refere à proteção e revitalização do trabalho da mulher no manejo do território; ii. saúde e bem-estar das mulheres com o objetivo de valorizar as práticas culturais e conhecimentos tradicionais das mulheres; iii. bem-estar das mulheres e a boa convivência comunitária, que objetivou a promoção de reflexões das próprias mulheres indígenas sobre seu bem-estar, cuidados com a vida comunitária e violências no território.
Durante a atividade, uma liderança indígena fala sobre “violência intrafamiliar”. A fala chamava a atenção para a importância de falar sobre o tema e convidava os homens a estarem presentes para ouvir o que as mulheres têm vivenciado no território. Também tivemos conhecimento sobre casos de violência sexual contra crianças e agressões físicas contra mulheres indígenas, além da violência psicológica que apareceu nos grupos de trabalho.
Como observação inicial, percebe-se que as mulheres Koripako e Baniwa compreendem que a boa convivência comunitária as deixam felizes, evidenciando um cuidado com o coletivo para o bem-estar das mulheres. O acesso à comida no território, a aproximação dos filhos e a união entre os indígenas são alguns dos exemplos apresentados pelas mulheres.
Nessa mesma perspectiva, porém, a falta de união e de saúde na comunidade as deixam tristes. Além disso, compartilharam que, quando o marido não ajuda no trabalho da roça e com a produção dos artesanatos, também há o sentimento de tristeza.
Parcerias e trabalhos do movimento de mulheres indígenas do Rio Negro
A dificuldade em abordar nos territórios as violências vivenciadas pelas mulheres ainda é um grande desafio. Compreender o contexto cultural, a língua indígena falada pelas mulheres, bem como as relações de aliança, parentesco, organização social e poder são fundamentais para os estudos sobre (formas de lidar com) violências de gênero contra as mulheres indígenas. Nesse sentido, torna-se necessário mais estudos e pesquisas sobre a temática, tendo em consideração as especificidades de cada povo e comunidade.
Em São Gabriel da Cachoeira, o Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (DMIRN/FOIRN) vem desenvolvendo um trabalho consistente de pesquisas, conversas e oficinas no enfrentamento às violências contra as mulheres indígenas, em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP) e o Observatório da Violência de Gênero no Amazonas da Universidade Federal do Amazonas (OVGAM/UFAM).
Para compreender melhor essa temática de violência, o DMIRN apoiou e participou do desenvolvimento de um processo de pesquisa que inclui trabalho de campo etnográfico, entrevistas, rodas de conversas, levantamento e sistematização de notícias, trabalhos colaborativos com instituições locais e, especialmente, parcerias com pesquisadoras e professores das universidades mencionadas.
Os trabalhos realizados envolvem dados quantitativos e qualitativos relacionados a Boletins de Ocorrência com vítima mulher na Delegacia Interativa de São Gabriel da Cachoeira, como apresentado no relatório Tecendo a vida sob braços fortes: caracterização da violência contra mulheres na cidade de São Gabriel da Cachoeira/AM, produzido em 2023 pelo OVGAM/UFAM.
Segundo dados desse relatório, referentes ao período de 2010 a 2019, vemos que 66,9% das violências são cometidas por homens. Além disso, 98,8% das vítimas não tiveram sua etnia/raça informada, o que demonstra uma falta de dados sobre estas especificidades.
A caracterização da violência contra mulheres reportada e registrada na delegacia da cidade de São Gabriel da Cachoeira pode ser visualizada na tabela abaixo.
É importante mencionar que esses dados não correspondem à realidade quantitativa de violências vivenciadas pelas mulheres indígenas do município de São Gabriel da Cachoeira, porque não estão registrados os episódios de violência no interior do município.
Sempre vale ressaltar que tanto processos de alcoolização quanto a violência contra mulheres não ocorrem apenas nos territórios e com povos indígenas. No entanto, no Brasil, há uma invisibilidade das violências contra as mulheres indígenas quando olhamos para os dados oficiais.
Na pesquisa “De documentos, cactos e vírus: violência sexual, mulheres indígenas e Estado em São Gabriel da Cachoeira” (2022), podemos ver um Estado tecnicamente precário quando se trata de casos de feminicídios e violências sexuais contra mulheres indígenas. Um exemplo é a ausência de um médico legista na cidade que atue frente a casos recorrentes de “afogamento” e “estrangulamento” de mulheres que, muitas vezes, são lembrados por parentes e moradores da cidade como sendo mortes que envolvem violência sexual. Geralmente, a violência sexual não é registrada nas Declarações de Óbitos, por exemplo.
Para além da falta de registro da violência, também ocorre a falta de informação sobre raça e etnia nos documentos, o que dificulta a realização de trabalhos especializados e diferenciados no Rio Negro. A diversidade étnica e linguística, a subnotificação de casos de violência contra a mulher e a falta de documentação pessoal para registros nas instituições do Estado são aspectos relevantes em São Gabriel da Cachoeira.
De acordo com informações do Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro (DSEI-ARN), no primeiro trimestre de 2024, sete mulheres que residem nas comunidades indígenas do Tiquié estão sendo acompanhadas devido às situações de violências. Os dados mostram ainda que, no mínimo, 40 casos de violência contra a mulher no Rio Tiquié foram notificados nos anos de 2021 e 2022 pelo DSEI-ARN. Além dessas informações, nos dados disponibilizados pela instituição consta que 12 pessoas estão sendo acompanhadas pela equipe de saúde devido ao uso prejudicial de bebidas alcoólicas.
Já no Içana, no primeiro semestre de 2024, são quatro os casos de violência contra a mulher que estão em acompanhamento pelo DSEI-ARN. Em 2021 e 2022, nove casos sobre violências contra a mulher foram notificados e, apesar dos relatos frequentes sobre o pouco consumo de bebidas alcoólicas na região, o DSEI-ARN registrou que há o acompanhamento de 20 pessoas que estão em situação de uso abusivo do álcool.
Esses dados são importantes para evidenciar as situações de violências que as mulheres indígenas vêm vivenciando dentro de seus territórios. Violências que recorrentemente aparecem nos discursos e relatos de homens e mulheres, jovens e adultos, na cidade e nas comunidades indígenas. Observamos que tal como o alto indíce de violências, o processo de alcolização também tem se tornado um problema grave de saúde pública no Brasil, e no Rio Negro não é diferente.
Para além das pesquisas e trabalhos de caráter mais quantitativo, o Departamento de Mulheres Indígenas também desenvolveu trabalho colaborativo que apresenta informações em uma linguagem acessível sobre os procedimentos envolvidos em casos de violências contra a mulher, a criança e o adolescente, que é a cartilha Violência doméstica e violência sexual em tempos de pandemia – redes de apoio e denúncias: você não está sozinha!
Para além dos acessos jurídicos do Estado, a cartilha orienta as mulheres a recorrerem às redes de alianças com amigas e parentes, bem como com recursos mais evidentes na própria cultura, como a realização de benzimentos e o uso de determinadas plantas.
Em 2021, o DMIRN, junto com o ISA, a FSP/USP e o OVGAM/UFAM, desenvolveu o primeiro módulo de formação de Promotoras Legais Populares Indígenas que teve como objetivo formar as mulheres sobre seus direitos, Estado, Leis, documentos e, também, que pudesse proporcionar trocas de experiências e conhecimentos para se pensar e construir estratégias comunitárias de enfrentamento às violências que sofrem.
No inicío de 2024, o Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas do Rio Negro (DAJIRN) da FOIRN, junto com o ISA e o DMIRN, produziu com instituições locais a cartilha Cuidados com o uso de bebidas alcoólicas na região do Rio Negro, com o objetivo de oferecer orientações sobre os prejuízos do consumo exagerado de bebidas alcoólicas industrializadas, problemática que aparece em diversos relatos interseccionada com as violências contra as mulheres, casos de suicídios e acidentes na região do Alto e Médio Rio Negro.
Apesar dos esforços do movimento de mulheres indígenas do Rio Negro em articular trabalhos com instituições locais e de pesquisa, as violências são experiências cotidianas na vida delas. Assim, elas questionam constantemente sobre a proteção que o Estado deveria proporcioná-las.
Diferenciam-se de mulheres não indígenas que, às vezes, conseguem ter seus direitos garantidos, como trouxe uma das participantes durante a primeira atividade em grupo na Canoita em Bellavista: “Essa lei Maria da Penha serve para quê? É só para as mulheres brancas e não serve para as indígenas? Vemos vários tipos de violências e não sabemos como resolver, e nunca é discutido nas reuniões [...] Acho que é um bom tema para ser trabalhado, não só com as mulheres, mas com os homens e as crianças também. Às vezes falam que é porque estão bêbados, mas conscientes mesmo fazem essas coisas.”
Para atender algumas das demandas apresentadas durante as atividades no Tiqué, as mulheres indígenas solicitaram a realização de encontros de mulheres no âmbito da Canoita. O intuito desses encontros seria proporcionar trocas de experiências, conhecimentos e saberes entre elas, para aprender sobre culinária, comidas típicas, novas técnicas de produção de artesanatos e, especialmente, para abordar e conhecer os direitos das mulheres indígenas para o enfrentamento das violências.
Já no I Encontro de Mulheres Koripako e Baniwa, as mulheres demonstraram interesse nos saberes sobre a saúde e bem-estar da mulher, bem como na troca de conhecimentos relacionados à produção de artesanatos, em especial a cerâmica, e também ao processo de comercialização desses produtos locais.
Observamos que intercâmbios como estes fortalecem as mulheres e podem ser boas estratégias de cuidado e troca de experiências e conhecimentos entre elas. Além disso, apresentam-se como uma estratégia fundamental para que o movimento de mulheres indígenas se aproxime cada vez mais das mulheres que estão nos territórios mais distantes, para que adquiram e produzam conhecimentos para fomentar ainda mais os trabalhos de enfrentamento às violências no Rio Negro e o bem-estar das mulheres indígenas.
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Sessão de abertura acontece no Cine Brasília em 2 de outubro, às 19h, com a presença de André Baniwa, liderança do Rio Negro, e do presidente do ISA, Márcio Santilli
A Mostra Ecofalante de Cinema, o mais importante evento sul-americano para a produção audiovisual ligada às temáticas socioambientais, chega à Brasília exibindo 39 filmes, cujas temáticas incluem as mudanças climáticas e questões ligadas à mineração, trabalho, saúde, tecnologia e comunidades indígenas, quilombolas e periféricas. As exibições acontecem de 2 a 9 de outubro no Cine Brasília, com entrada franca.
Na sessão de abertura, na quarta-feira, 2 de outubro, às 19h, a atração é Mapear Mundos. O filme da diretora Mariana Lacerda articula preciosas imagens de arquivos indigenistas com testemunhos atuais para rememorar a importância de organizações da sociedade civil na luta indígena. Em um contexto de ditadura militar, atuando ao lado desses povos, elas foram cruciais para a garantia dos direitos dos povos originários no “Capítulo dos Índios”, da Constituição Brasileira de 1988.
Assista ao trailer:
Trata-se de uma produção do Instituto Socioambiental (ISA), organização não governamental que comemora 30 anos de existência dedicada a defender bens e direitos sociais, coletivos e difusos, relativos ao meio ambiente, ao patrimônio cultural e aos direitos dos povos indígenas do Brasil. André Baniwa, liderança do Rio Negro, e o presidente do ISA, Márcio Santilli, têm presenças confirmadas na sessão.
A grade de programação em Brasília reúne destaques de diferentes seções da Mostra Ecofalante de Cinema: Panorama Internacional Contemporâneo, Competição Latino-americana, Panorama Histórico, Competição Territórios e Memória, Sessão Infantil e Sessões para Estudantes.
Estão presentes filmes recentes de diretores consagrados, como o cultuado alemão Werner Herzog e o vencedor do Oscar, Luc Jacquet, e filmes premiados na 13ª edição do evento, ocorrida em São Paulo no mês de agosto, como o longa-metragem peruano Céu Aberto, vencedor da competição latino-americana, e Rejeito, eleito melhor longa da competição Territórios e Memória.
Em O Fogo Interior: Um Réquiem para Katia e Maurice Krafft, o diretor Werner Herzog focaliza um casal pioneiro de vulcanólogos que se tornou notório por dedicar sua vida a documentar de perto a magnitude das erupções vulcânicas. Com impressionantes imagens desses fenômenos naturais, o longa foi o grande vencedor do importante festival DOC LA (EUA).
De Luc Jacquet, o diretor de A Marcha dos Pinguins (2005), vencedor do Oscar de melhor documentário, a Mostra Ecofalante de Cinema em Brasília apresenta Antártica: Continente Magnético. Esta é uma aventura visualmente deslumbrante que percorre os poucos milhares de quilômetros que separam a Patagônia do Polo Sul e fez parte da seleção do Festival de Locarno, o mais importante evento de cinema da Suíça.
Grandes personalidades emprestam seu prestígio à produção norte-americana Solo Comum, de Joshua Tickell e Rebecca Harrell Tickell, premiado no Festival de Tribeca. Participam dessa abordagem sobre agricultura regenerativa e seus benefícios para o solo os atores Laura Dern, Woody Harrelson, Donald Glover e Rosario Dawson.
Exibido em versão restaurada na seção Cannes Classics do Festival de Cannes, Amor, Mulheres e Flores é assinado por Marta Rodríguez e por seu parceiro e companheiro de vida Jorge Silva (1941-1987). Representante da seção Panorama Histórico da Mostra Ecofalante de Cinema, o filme foi realizado entre 1984 e 1988 e denuncia as precárias condições a que estão submetidas as trabalhadoras da agroindústria das flores, uma das maiores da Colômbia. Suas reivindicações passam por melhores condições de vida e saúde, para si e para seus filhos. Com carreira iniciada em 1971, Marta Rodríguez é considerada uma das primeiras mulheres documentaristas da Colômbia a alcançar repercussão internacional.
Confira a programação completa no site da Mostra Ecofalante de Cinema
Serviço:
Mapear Mundos na Mostra Ecofalante de Cinema em Brasília
Dia 2 de outubro, às 19h. Gratuito
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Filme tem a direção de Aida Harika Yanomami, Roseane Yariana Yanomami e Edmar Tokorino Yanomami
O curta-metragem Thuë Pihi Kuuwi - Uma Mulher Pensando venceu o prêmio Grande Otelo de Cinema 2024 na noite desta quarta-feira (28/08). A premiação existe há mais de duas décadas e reconhece profissionais e produções audiovisuais do Brasil. A obra Yanomami venceu a categoria de Melhor Curta-Metragem Documentário.
Uma Mulher Pensando tem a direção assinada por Aida Harika Yanomami, Roseane Yariana Yanomami e o xamã Edmar Tokorino Yanomami. O curta concorria com as produções As Marias, Cama Vazia, Eu, Negra e Macaléia.
Morzaniel Ɨramari, primeiro cineasta Yanomami, também fez captação de imagens para o filme e representou o time no evento. Ele recebeu o prêmio das mãos da atriz Dira Paes e do cantor Toni Garrido, que apresentaram a edição deste ano.
Veja como foi:
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“A minha prima Roseane, a minha cunhada Aida e meu tio Edmar e eu recebemos, pelas imagens que produzimos, e foi muito bom. Nunca imaginei que todos iríamos ganhar juntos, eu me senti muito honrado em receber o prêmio em nome deles. Fiquei cheio de alegria, estou feliz demais”, disse Morzaniel ao Instituto Socioambiental (ISA)
A estatueta do Grande Otelo é uma homenagem ao ator que dá nome à premiação. O seu design foi idealizado por Ziraldo Alves Pinto e a escultura é de Altair Souza.
Cinema Yanomami
A sinopse de Thuë Pihi Kuuwi - Uma Mulher Pensando descreve a história de uma mulher yanomami que observa um xamã durante o preparo da Yãkoana, alimento dos espíritos. A partir da narrativa de uma jovem mulher indígena, a Yãkoana que alimenta os Xapiripë e permite aos xamãs adentrarem o mundo dos espíritos, também propõe um encontro de perspectivas e imaginações.
Com produção de Aruac Filmes, o curta conta ainda com co-produção da Hutukara Associação Yanomami e produção associada da Gata Maior Filmes.
Durante as filmagens de Thuë Pihi Kuuwi - Uma Mulher Pensando, outros dois curtas-metragens foram produzidos pela Aruac Filmes: Mãri Hi – A Árvore do Sonho e Yuri Uxëa Tima Thë – A Pesca com Timbó.
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O trio de histórias independentes faz parte do projeto “A Queda do Céu”, que deve apresentar um longa-metragem que será como “um novo capítulo” para o livro do xamã Davi Kopenawa e do etnólogo Bruce Albert.
O filme Uma Mulher Pensando também conta com apoio de ISA, Porticus, Climate and Land Use Alliance (CLUA), Ford Foundation, Nia Tero, Foundation Cartier, Humanize, Arapyaú, Rainforest Foundation Norway (RFN), Norway's International Climate and Forest Initiative (NICFI), Rede de Cooperação Amazônica (RCA), Instituto Iepé, Instituto Meraki, International Resource for Impact and Storytelling (IRIS), Amazon Watch e Foundation AlterCiné.
Assista ao trailer:
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Artista do povo Mehinako, do Alto Xingu (MT), vai explorar no centro de São Paulo símbolos, significados e processos de criação; oficina é gratuita, inscreva-se!
No dia 7 de setembro, o Espaço Floresta no Centro, em São Paulo, vai oferecer a oficina "Arte e Saberes Mehinako", ministrada pelo artista, educador e professor Mayawari Mehinako, fundador do Instituto de Arte Indígena Brasileira Xepi.
O encontro, que acontece das 9h às 17h, na Galeria Metrópole, centro da capital paulista, tem como proposta apresentar o rico universo dos grafismos ancestrais do povo Mehinako, do Alto Xingu (MT), explorando seus símbolos, significados e processos de criação.
Inscreva-se!
A oficina tem somente 15 vagas. Interessados podem se inscrever no formulário
"Quero mostrar os grafismos que usamos nos rituais, nas práticas culturais, nas festividades", explica Mayawari Mehinako. "Cada povo tem suas histórias, crenças e línguas. Os grafismos fazem parte da nossa identidade", afirma ele.
Durante o dia, os participantes vão aprender sobre os conhecimentos aplicados na produção das artes indígenas, como remos e bancos de madeira, além de compreender o valor cultural e espiritual de cada peça, que vai além do aspecto comercial.
“A ideia é que todos os participantes conheçam e valorizem a nossa arte como arte ancestral, patrimônio cultural e artístico. Isso é o importante a ser divulgado", destaca o artista.
A oficina inclui todas as ferramentas e materiais necessários, como nanquim, pincéis e tábuas, e um equipamento audiovisual para as apresentações. Ao final do encontro, haverá uma apresentação dos projetos desenvolvidos pelos participantes.
Conheça os saberes Mehinako!
Serviço:
Dia: 07/09
Horário: das 9h às 17h
Local: Floresta no Centro - Loja 28, 2º andar da Galeria Metrópole, Av. São Luís, 187 - República. São Paulo (SP)
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Filme registra tributo da comunidade do Salgueiro à cosmologia dos Yanomami; assista!
Napê, nossa luta é sobreviver
Napê, não vamos nos render
Ya temi xoa, aê, êa
Ya temi xoa, aê, êa
“Ya Temi Xoa” foi o verso cantado a plenos pulmões por toda a comunidade negra da Acadêmicos do Salgueiro acompanhada de líderes Yanomami durante desfile na Avenida Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, em fevereiro deste ano. A frase, que traduzida para português significa “eu ainda estou vivo”, marcou o samba enredo “Hutukara” e agora também dá nome ao documentário que tem estreia online nesta segunda-feira (26/08).
Assista!
O curta de 20 minutos conta como a floresta amazônica se conectou com as favelas do Rio de Janeiro ao unir os Yanomami e o povo negro para fazer história. O filme mostra uma parte do desfile, os bastidores e as ideias que construíram o enredo inspirado na Hutukara - o céu que desabou na cosmologia Yanomami - que garantiu o 4º lugar à Salgueiro, ficando entre as seis campeãs do ano.
Uma parceria entre o Instituto Socioambiental (ISA) e a Hutukara Associação Yanomami (HAY), com a direção de Thomas Mendel, Ya Temi Xoa teve pré-estreia em Boa Vista, capital de Roraima. O evento recebeu lideranças indígenas e seus parceiros de organizações não governamentais, autoridades de órgãos federais, jornalistas e apoiadores da causa Yanomami.
Em meio a uma tragédia humanitária, escancarada ao mundo em janeiro de 2023, os Yanomami chamaram a atenção da escola de samba. Com uma pesquisa e aprofundamento na obra A Queda do Céu de Davi Kopenawa e Bruce Albert, os responsáveis pelo enredo entenderam que os Yanomami tinham muito mais a mostrar do que uma tragédia.
“Fiquei três ou quatro meses lendo muita sobre a cosmologia do povo yanomami, mas eu digo que o que mais me tocou foi ter o olhar do Davi”, afirma Igor Ricardo, jornalista e enredista da Salgueiro.
Igor conta que um dos esforços para construção do desfile foi justamente o de não colocar o povo Yanomami na posição de “coitados”. O conceito do espetáculo foi construído sob a ótica da exaltação à cosmologia e rica cultura destes indígenas. “A ideia da Hutukara era apresentar o povo Yanomami pela lógica do que eles são verdadeiramente e não pela ótica que a sociedade não indígena costuma ver na televisão, que é a ótica da tragédia. Então, quando pensamos nesse “Hutukara”, foi para mostrar a beleza desse povo, sobre quem é esse Omama, que é o deus da criação dele, sobre Yoasi, que é o deus da morte e destruição”, explica.
A Salgueiro foi a terceira escola a desfilar na primeira noite de apresentações. Além do homenageado Davi Kopenawa, líder e xamã dos Yanomami, outras 13 lideranças Yanomami estiveram presentes no carro “Por um Brasil Cocar”.
Meu Salgueiro é a flecha
Pelo povo da floresta
Pois a chance que nos resta
É um Brasil cocar
Para fugir dos estereótipos, a escola pediu a assessoria de Davi Kopenawa na construção das alegorias. O xamã também participou da escolha da canção que emocionou a Salgueiro - recebendo 10 de todos os jurados em seu respectivo requisito. “Neste lugar estão trabalhando em algo muito importante e estão fazendo um bom trabalho para ajudar na nossa luta, ajudar a defender o meu povo, ajudar a defender o nosso direito. Fiquei contente que estão trabalhando e fazendo as coisas para sair bonito e mostrar para toda a cidade”, conta o xamã em trecho do documentário que mostra sua visita à escola de samba durante os preparativos para o desfile.
Hutukara, ê! Sonho e insônia
Grita a Amazônia, antes que desabe
Caço de tacape, danço o ritual
Tenho o sangue que semeia a nação originalEu aprendi português
A língua do opressor
Pra te provar que meu penar também é sua dorFalar de amor enquanto a mata chora
É luta sem flecha, da boca pra fora
Floresta e morro se encontram
O real encontro de Davi Kopenawa com o povo do Salgueiro se deu meses antes do desfile na Sapucaí. Davi foi convidado para estar presente na final da escolha do samba, em 13 de outubro de 2023. Eram 23 sambas inscritos falando sobre a Hutukara e nesse dia um deles seria escolhido para ser cantado na avenida.
Ao chegar no Rio de Janeiro, Davi seguiu para o Morro do Salgueiro, no Caxambu, centro cultural que guarda as tradições afro-brasileiras da comunidade. Foi recebido com uma apresentação de Dança de Jongo, onde ao som de tambores, as matriarcas da escola cantaram e dançaram para recepcionar o líder Yanomami. Momentos depois, Davi disse que ficou emocionado ao ver as mulheres dançando e que elas o fizeram se lembrar de suas tias, que são as guardiãs da cultura yanomami.
No morro, Davi conversou com muitas delas e conheceu o trabalho das erveiras, mulheres conhecedoras das plantas que curam e que mantêm um projeto para registro e aprendizado desse conhecimento pelas novas gerações.
Ao descer o morro, Davi disse que já esteve muitas vezes no Rio de Janeiro, que foi levado para pontos turísticos, prédios bonitos e praias, mas que essa tinha sido a primeira vez que ele conheceu o povo que construiu a cidade e que depois foi empurrado para morar no morro, em cima das pedras, onde não é possível plantar.
Noite do desfile
Com diversas referências à cosmologia Yanomami, criticando a falsa “família de bem” e relembrando o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips, assassinados em 2022, o samba da Salgueiro mostrou a força, beleza e resistência do povo da maior Terra Indígena do Brasil na primeira noite do Carnaval do Rio de Janeiro.
Antes da sua bandeira, meu vermelho deu o tom
Somos parte de quem parte, feito Bruno e Dom
Kopenawas pela terra, nessa guerra sem um cesso
Não queremos sua ordem, nem o seu progresso
“A Salgueiro vai emocionar na avenida e mostrar a importância que é a gente cuidar da nossa terra e dos povos originários”. afirmou a rainha de bateria da Salgueiro, Viviane Araújo, minutos antes do desfile.
Para embalar a escola de samba e a arquibancada, a Salgueiro levou elementos do conhecimento milenar dos Yanomami e contou a história da Hutukara, que na cosmologia Yanomami representa o céu que desabou os levando para o plano em que vivem hoje.
“Os Yanomami trouxeram uma parte cultural que nós não tínhamos conhecimento. Eles são bem enfáticos ao dizer ‘Ya Temi Xoa’ porque querem dizer que estão vivos, que a floresta está viva e acho que chegou a hora do Brasil entender esse povo que está aqui antes da colonização e que ainda têm força para dizer ‘estamos vivos’”, disse Silvania de Sant’anna, integrante da torcida oficial Amigos do Salgueiro.
A identidade dos Yanomami chegou à avenida com uma preparação que começou antes mesmo do desfile. Os indígenas escolheram usar suas pinturas tradicionais, além de acessórios feitos com sementes, penas e pequenas lascas de flechas.
“A nossa história vive da mata, da selva, das frutas. Para nós, isso não é só um momento de tristeza, mas também temos alegria e precisamos ser valorizados”, disse Carlinha Santos, que além de professora é presidente da Associação das Mulheres Yanomami Kumirayoma (AMYK).
Encontro de lutas
A Terra Indígena Yanomami enfrenta uma invasão garimpeira e uma crise sanitária, ambas intensificadas no período de 2019 a 2022.
Em 21 de janeiro de 2023, menos de um mês após assumir o governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) visitou Boa Vista e chamou a atenção do mundo para os altos números de casos de malária e desnutrição entre os Yanomami. Um dia antes, uma Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (Espin) foi instaurada.
Em março de 2023, durante as comemorações de seus 70 anos, a Salgueiro anunciou “Hutukara” como o tema do seu desfile em 2024, mais uma vez chamando a atenção para a grave situação dos Yanomami.
“É muito importante e tudo foi muito lindo. É muito importante que a Salgueiro tenha encontrado o nome do povo Yanomami, mesmo que tenha demorado, porque assim nós também encontramos o povo negro que também foram sofredores”, resumiu Kopenawa sobre a conexão entre a floresta amazônica e as favelas do Rio de Janeiro na parceria entre a Salgueiro e a Hutukara Associação Yanomami (HAY).
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Primeira exibição será para lideranças indígenas e seus parceiros no dia 16 de agosto
O filme Ya Temi Xoa, que registrou a trajetória dos Yanomami no Carnaval de 2024, terá sua pré-estreia em uma sala de cinema nesta sexta-feira (16/08), em Boa Vista (RR). A exibição ocorrerá na Playarte Cinemas do Roraima Garden Shopping, localizado no bairro Paraviana, zona leste da capital.
A primeira exibição acontece para lideranças indígenas Yanomami e parceiros de organizações não governamentais, autoridades de órgãos do governo federal, jornalistas e membros da sociedade civil.
Outros 77 ingressos serão distribuídos para estudantes da Universidade Federal de Roraima (UFRR), Universidade Estadual de Roraima (UERR) e do Instituto Federal de Roraima (IFRR). Os interessados devem preencher o formulário e aguardar o envio do ingresso no e-mail.
Além do desfile da comunidade da Acadêmicos do Salgueiro em 11 de fevereiro, o filme, que tem 25 minutos de duração, mostra os bastidores dessa história, como uma visita do xamã Davi Kopenawa à quadra da escola e os preparativos finais dos Yanomami para desfilar na Avenida Marquês de Sapucaí.
Uma parceria entre a Hutukara Associação Yanomami e o Instituto Socioambiental (ISA), o filme tem a direção assinada por Thomas Mendel e produção de Ariel Gajardo, Carolina Fasolo, Evilene Paixão, Fabrício Araújo, Marina Terra e Roberto Almeida. A narrativa é centrada no encontro de lutas entre a comunidade negra das favelas do Rio de Janeiro e os Yanomami, que vivem na maior Terra Indígena do Brasil, localizada na Floresta Amazônica.
Sobre o desfile
O enredo “Hutukara”, que garantiu o 4º lugar e colocou a Salgueiro entre as seis campeãs do Carnaval do Rio de Janeiro em 2024, exalta a cosmologia e cultura dos Yanomami. Entre as referências para construção do espetáculo está o livro A Queda do Céu - Palavras de um Xamã, escrito por Davi Kopenawa em parceria com o antropólogo francês Bruce Albert.
Kopenawa também votou o samba enredo da escola - que recebeu 10 de todos os jurados - e auxiliou os carnavalescos na escolha das alegorias a fim de evitar que os Yanomami fossem retratados de forma genérica.
Dos bastidores à apuração do resultado, o filme compila toda a história de união de lutas da comunidade Salgueiro e dos indígenas Yanomami. Após o lançamento em Boa Vista, o filme deve ganhar uma estreia nacional, sendo disponibilizado online.
Serviço
Pré-estreia do filme Ya Temi Xoa
Sexta-feira, 16 de agosto de 2024
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