Após deslocamento forçado pela ditadura e décadas de resistência, plano fortalece a gestão e autonomia

Até seu contato forçado, em 1975, o povo Panará ocupava uma vasta região que ia do leste da Serra do Cachimbo, no Pará, até onde hoje está o município de Colíder (MT), em várias aldeias até então em uma região remota.
A construção da BR-163, rodovia que liga Cuiabá a Santarém, atravessou de sul a norte seu território, levando ao genocídio de quase toda sua população. Os 79 Panará que restaram vivos foram então exilados no então Parque Indígena do Xingu, uma região ecologicamente muito diferente da que até então habitavam, de terra firme, em nascentes de rios, com matas mais densas, diferente de sua nova moradia forçada, de florestas mais baixas e mais abertas e extensas áreas de várzea próximas a grandes rios.
Na década de 1990, os Panará começaram uma grande luta para recuperar e voltar para seu território de origem, com o apoio do Instituto Socioambiental (ISA) e outros parceiros, fizeram expedições para o território original, constatando que o lugar de suas principais aldeias havia sido destruído pelo avanço das cidades, garimpo e desmatamento,
Porém, conseguiram identificar um pedaço de terra ao norte de seu território original ainda com a floresta em bom estado de preservação, e passaram a lutar com muita determinação para garantir que esse quinhão lhes fosse devolvido. Assim, em 1994, começaram a mudança para a aldeia Nãsêpotiti, dentro de um território demarcado e homologado como a Terra Indígena Panará, com 499 hectares, no norte de Mato Grosso e sul do Pará.


Atualmente, 750 pessoas vivem em sete aldeias ao longo do Rio Iriri, em uma área que representa apenas um décimo de seu território originalmente ocupado. O espaço reduzido impõe aos Panará desafios significativos para sua sobrevivência.
Nesse contexto, os Panará iniciaram um ciclo de reflexões que levaram à construção de seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA), com a participação ampla da comunidade. Os PGTAs são instrumentos contidos na Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas - PNGATI, instituída pelo Decreto nº 7.747/2012. Trata-se de uma política pública que visa fortalecer a gestão sustentável das Terras Indígenas, proteger a biodiversidade e os modos de vida tradicionais e promover a autonomia dos povos indígenas na gestão de seus territórios.

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Com uma população majoritariamente jovem — 600 dos 750 habitantes têm menos de 25 anos —, o PGTA se torna uma referência essencial para o bem viver do povo Panará. Há também a expectativa de que os órgãos públicos reconheçam sua importância e ofereçam o apoio necessário para sua implementação em todas as demandas. O objetivo é fortalecer o modo de vida Panará, assegurando que as futuras gerações possam viver com dignidade, com suas manifestações culturais preservadas, seu território protegido e acesso pleno à saúde.