A Hutukara Associação Yanomami cobrou que as autoridades investiguem as circunstâncias e os responsáveis pelo ataque a tiros a um grupo de indígenas Yanomami que matou uma mulher e deixou um homem ferido. O caso é extremamente incomum em Boa Vista e ocorreu em local público, no bairro São Vicente, próximo ao centro da capital.
Conforme declarações da Polícia Militar, duas pessoas que estavam em bicicletas fizeram disparos e fugiram em seguida. No local, foram encontradas cápsulas de calibre 9 milímetros. Os cerca de 30 indígenas estavam reunidos na Feira do Produtor, um local comum de estadia dos Yanomami quando estão de passagem pela cidade.
Para a Hutukara, o caso precisa ser investigado como um crime de ódio. Crimes de ódio são aqueles onde há uma violência intencional, física ou não, direcionada contra um indivíduo ou grupo motivado por preconceitos e discriminação em razão de características como raça, origem, religião ou etnia.
“A presença do grupo de Yanomami que foi alvo de ataque na cidade tem sido constante motivo de queixas preconceituosas contra os mesmos, ignorando não só a situação de vulnerabilidade a que ficam sujetos quando estão na cidade como também alimentam a discriminação contra os indígenas em razão de suas particularidades culturais e modos de vida”, diz a Hutukara na nota.
O grupo que sofreu o ataque vive na região do Ajarani, onde os Yanomami sofreram contato forçado com não-indígenas durante a abertura da Perimetral Norte, que ocorreu durante a Ditadura Militar e antes da demarcação da Terra Indígena Yanomami, em 1992.
Segundo a nota da Hutukara, o projeto de infraestrutura levou à morte uma parcela significativa da população que vivia naquela região, bem como desestruturou as comunidades e os mecanismos de controle social. Uma Ação Civil Pública, ajuizada pelo Ministério Público Federal (MPF), reconheceu a responsabilidade do Estado pela situação em que os indígenas de Ajarani foram deixados.
O Conselho Indígena de Roraima (CIR) também pediu investigação para descobrir quem mandou executar o ataque. Nessa segunda-feira (14/11), o CIR protocolou ofícios na Polícia Federal, no MPF e no Grupo de Atuação Especial de Minorias e Direitos Humanos.
Por meio das redes sociais, a deputada federal Joenia Wapichana (REDE-RR) afirmou que pedirá investigação por parte da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal.
Diante do ataque ao grupo de indígenas Yanomami na Feira do Produtor, em Boa Vista, ocorrido ontem, quando desconhecidos atiraram contra os indígenas, deixando uma mulher morta e um ferido, solicitarei ao MJ, PF e a CDHM da Câmara, apuração e providências imediatas.
Comunicadores da floresta: Davi Kopenawa recebe em sua comunidade aprendizes da Terra Indígena Yanomami para oficina|Fabrício Araújo/ISA
Treze comunicadores de quatro comunidades da Terra Indígena Yanomami se reuniram na casa do xamã Davi Kopenawa, na comunidade Watorikɨ, Terra Indígena Yanomami, para aprender a fazer cinema. Uma oficina – ministrada por cineastas, indígenas e antropólogos – ensinou ao longo de 15 dias os participantes a contar as histórias da floresta.
Os comunicadores, com idades entre 13 e 38 anos, aprenderam a manusear equipamentos, técnicas, elaboração de roteiro e storyboard, além de movimentação de câmeras e edição de imagens.
Todas as manhãs, o grupo acordava ao redor das 6h, seguia para o banho no rio e café da manhã. Pouco antes das 08h30, horário de início das atividades, os alunos se reuniam na sala de aula construída com troncos de árvores e com vista para a Serra dos Ventos (ou Watorikɨ, em Yanomami).
O clima mesclava o entusiasmo dos comunicadores com a neblina que apareceu todas as manhãs em razão das chuvas na região do Demini. No primeiro dia, os jovens contaram o que costumam assistir: partidas de futebol, reportagens, filmes e documentários sobre povos indígenas.
No segundo e terceiro dias, os professores apresentaram técnicas de filmagem e incentivaram os comunicadores a pôr as mãos na massa. Eles gravaram nas trilhas da floresta, no rio em que tomam banho, no xapono (local em que vivem e dormem os Yanomami) e até no Posto de Saúde Indígena.
Depois de uma pausa para o almoço e descanso, todos se reuniam na sala de aula por volta das 14h30 para exibir as filmagens e pontuar o que precisava ser aperfeiçoado. Nestes momentos, as crianças e os mais velhos também aproximavam com curiosidade para observar o desempenho dos alunos.
Colocando sonhos em prática
A antropóloga Marília Senlle coordenou o processo a pedido da Hutukara Associação Yanomami, que desenvolve a formação de comunicadores da maior Terra Indígena do país. Para Senlle, a oficina prepara os indígenas para pôr sonhos em prática e ainda pode ser uma ferramenta para preservar os conhecimentos Yanomami.
“Produzir material audiovisual é uma possibilidade deles estarem falando por si mesmos. Também, é uma oportunidade para conversar com os mais velhos, aprender os conhecimentos e difundir entre eles”, explicou.
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Da esquerda para a direita: Edmar Yanomami, Otílio Yanomami, Juruna Yanomami e Pedro Portella durante oficina de cinema|Fabrício Araújo/ISA
Esta é a quarta oficina de comunicação desenvolvida pela Hutukara na Terra Indígena Yanomami, e o cinema foi escolhido como foco a pedido dos próprios indígenas. As duas primeiras ocorreram em 2018 e 2019 com ensino de fotografia e produção de boletins de áudio em Boa Vista, na sede da Hutukara.
No ano seguinte, houve uma pausa em razão da pandemia de Covid-19 e o retorno da formação aconteceu em dezembro de 2021, com a elaboração de produções audiovisuais a partir de celulares.
Desta vez, os comunicadores tiveram acesso a quatro câmeras profissionais com microfones, tripés e fones de ouvido, além de manuais de edição em Yanomae (uma das língua da família Yanomami) e três computadores para edição. Como todo o processo de formação e a produção dos vídeos ocorreu na floresta, o projeto também contemplou dois kits com placas solares para manutenção dos equipamentos.
“Foi escolhido o Watorikɨ porque é a casa do Davi e também porque é uma oficina audiovisual com a intenção de produzir filmes. Assim, era muito mais interessante poder elaborar a linguagem e as dinâmicas a partir do cotidiano que eles vivem, do que estar na cidade e ter que produzir conteúdos alheios à vivência deles”, afirmou Senlle.
Durante o dia, os alunos recebiam os conteúdos, faziam exercícios práticos e produziam partes de seus curtas. De noite, depois do banho e do jantar, um projetor no Xapono passava filmes, como Macunaíma. Durante as exibições, bancos eram arrastados para perto do projetor e toda a comunidade se reunia diante do ponto que, junto com as fogueiras, iluminava o local.
Todas as atividades foram supervisionadas por Davi. Ele disse estar feliz com a evolução dos comunicadores e que deseja ver filmes que fortaleçam a cultura Yanomami e circulando nos celulares dos jovens. “Os Yanomami aprenderam a fazer filmes entre nós. A nossa luta vai poder ser documentada e mostrada para os não-indígenas para que reconheçam a nossa cultura, o nosso jeito de pensar e toda a nossa luta. Esses filmes serão como flechas para atingir corações com a nossa mensagem”, pontuou.
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Davi Kopenawa: "Nossa luta vai poder ser documentada. Filmes serão como flechas para atingir corações com nossa mensagem"|Fabrício Araújo/ISA
Técnicas e aprendizados
Da região do Demini, onde está localizada a comunidade Watorikɨ, seis comunicadores participaram da oficina: Edmar Yanomami, Aida Yanomami, Kátia Yanomami, Severo Yanomami, Lindomar Yanomami e Otílio Yanomami. Deles, somente a jovem Aida e Edmar, de 38 anos, que também é xamã, já haviam participado de outras oficinas.
“Eu gostei de aprender a filmar. Vou poder fazer vídeos e até filmes. Depois, eu quero divulgar a minha cultura com isso”, contou Edmar. Ele, com outros garotos da região, trabalhou em um curta sobre as brincadeiras das crianças Yanomami.
Já Aida e Kátia se juntaram a Darysa Yanomami, jovem de 28 anos que vive na região da Missão Catrimani. Darysa participou de todas as oficinas para comunicadores feitas pela Hutukara e integra um grupo de pesquisadores Yanomami. O trio escolheu produzir um curta sobre as tradicionais pinturas com urucum.
“Eu gostei muito de participar desta oficina. A professora Louise ensinou muito bem. Agora, vou poder tentar usar mais a câmera depois dessa oficina. Tudo isso me deixou muito feliz, eu aprendi muito”, comemorou Darysa.
A professora citada por Darysa é a cineasta Louise Botikay, de 44 anos, que trabalha como diretora de fotografia em produções convencionais e produz filmes autorais como Um Filme para Ehuana, produção feita na própria comunidade Watorikɨ em 2017.
“Essa oficina foi um sonho realizado. Eu comecei a pensar nela da última vez em que estive em Watorikɨ. Conversei com o Davi e decidimos que seria importante fazer este trabalho com os comunicadores, então escrevi o projeto junto ao Pedro”, contou Botikay.
O documentarista e antropólogo Pedro Portella, de 47 anos, foi a dupla de Louise para escrever o projeto de oficina. Ele costuma documentar povos indígenas e tem parceria de longa data com Morzaniel Irawari Yanomami, de 42 anos, que é reconhecido como o primeiro cineasta Yanomami e também participou das aulas de cinema para os comunicadores indígenas.
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Morzaniel Irawari Yanomami, considerado o primeiro cineasta Yanomami, participou da oficina para comunicadores no Demini|Fabrício Araújo/ISA
A inspiração de Morzaniel para trabalhar com o audiovisual foram jornalistas que chegavam à Terra Indígena Yanomami para entrevistar Davi. Os comunicadores explicavam que era uma forma de documentar a história, defender os direitos indígenas e apresentar os Yanomami ao mundo.
“Depois, eu tive vontade de fazer as minhas próprias imagens, para mostrar a nossa realidade de indígenas para indígenas. Ensinei um pouco sobre cinema para estes jovens Yanomami e fico muito emocionado, feliz, porque eles vão continuar fazendo esse trabalho e mandar nossa mensagem para os não-indígenas”, afirmou.
A dupla trabalhou nas duas produções mais conhecidas de Morzaniel, que são A Casa dos Espíritos e Curadores da Floresta, ambas exibidas dentro e fora do país.
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Da esquerda para a direita: Juruna Yanomami e Kennedy Yanomami durante atividade realizada na oficina de cinema no Demini|Fabrício Araújo/ISA
Assim como Morzaniel, o comunicador Juruna Maxapino Yanomami, de 30 anos, se inspira no jornalismo e sonha em um dia ser reconhecido como repórter na Terra Indígena Yanomami.
Juruna vive na região da Missão Catrimani e participou de todas as oficinas para comunicadores da Hutukara. Ele se juntou a Kennedy Yaripeiro Yanomami, que vive na região do Toototobi, para produzir um filme sobre as plantações feitas por indígenas.
“Os professores ensinam bem, eu aprendi muita coisa sobre foco e enquadramento. Eu gosto de fazer filmes e escolhi como tema o roçado para falar sobre a saúde na Terra Yanomami”, disse Juruna.
A intenção da dupla era explorar a saúde por meio da nutrição mostrando o trabalho que homens e mulheres Yanomami fazem para manter uma produção sustentável na comunidade Watorikɨ.
Para integrar os Yanomami com os Ye’kwana, que também vivem na Terra Indígena Yanomami, um trio da região de Awaris também foi ao Demini para participar da oficina. Jair Magalhães Rocha, Cleber Rui Magalhães Rodrigues e Misael Lopes foram os escolhidos.
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Jair Magalhães Rocha, um dos três comunicadores Ye'kwana da região de Awaris que participou da oficina no Demini|Fabrício Araújo/ISA
Conforme explica Maurício Ye’kwana, diretor da Hutukara, o critério de escolha dos três jovens foi apenas a vontade demonstrada por eles quando a oficina foi anunciada.
Morzaniel confirma: "perguntamos quem tinha interesse. Não usamos nenhum critério além da vontade de fazer. Esse trio se manifestou e os trouxemos à Terra Indígena Yanomami. Eles fizeram um filme sobre a experiência deles e escutaram bastante o Davi”.
Jair Magalhães Rocha, de 22 anos, contou que esta foi a sua segunda oficina e o que o motivou foi porque gosta de comunicação. Ele disse ainda que deseja se tornar jornalista ou cineasta. Assim como os outros dois Ye’kwana, esta foi a sua primeira vez em uma comunidade do povo Yanomami.
“Eu gostei dos montes, da serra e dessa comunidade, que eu só tinha visto por foto. Por isso, decidimos fazer um curta sobre a nossa experiência aqui, contando como chegamos e também uma entrevista com o Davi”, explicou.
A previsão é que todos os filmes produzidos pelos 13 comunicadores indígenas durante a oficina sejam disponibilizados em um canal da Hutukara Associação Yanomami.
De produção em produção, os Yanomami e Ye'kwana vão construindo memória de suas experiências e histórias e registrando a partir de suas perspectivas as "flechas" que contam ao mundo a realidade da Terra Indígena Yanomami.
Na floresta, comunicação e resistência caminham juntas.
A oficina contou com o apoio do Projeto Rumos Comunicadores Indígenas, financiado pelo Itaú Cultural, além do investimento da Rainforest Foundation Noruega e da União Europeia.
Da esquerda para a direita: Darisa Yanomami, Edimar Yanomami e Otílio Yanomami participam da oficina de cinema|Fabrício Araújo/ISA
Da esquerda para a direita: Severo Yanomami, Lindomar Yanomami, Otílio Yanomami, Morzaniel Yanomami e Pedro Portella gravam cenas para curta-metragem|Fabrício Araújo/ISA
Da esquerda para a direita: Marília Senlle, Maurício Ye’Kwana, Kleber Magalhães Rocha e Jair Magalhães Rocha em aula sobre técnicas de cinema|Fabrício Araújo/ISA
Da esquerda para a direita: Pedro Portella, Otílio Yanomami, Louise Botikay e Jair Magalhães Rocha, alunos e professores|Fabrício Araújo/ISA
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Indígenas do Rio Negro esperam participação ativa em novo governo Lula
Presidente eleito teve 80,63% dos votos em São Gabriel da Cachoeira; liderança aposta na reconstrução dos direitos dos povos indígenas
População de São Gabriel da Cachoeira celebra vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais|Raquel Uendi
São Gabriel da Cachoeira (AM), município mais indígena do Brasil, elegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 80,63% dos votos. O resultado é reflexo do descontentamento com a atual gestão de Jair Bolsonaro, marcada pelo aumento da pressão do garimpo, do turismo ilegal e das denúncias de tráfico, além das ameaças aos direitos constitucionais dos povos indígenas.
Em outras duas cidades da região, Lula também ganhou com ampla maioria: em Santa Isabel do Rio Negro, com 73,94% dos votos, e em Barcelos, 65,02%. Os três municípios ficam no Alto e Médio Rio Negro, em uma das regiões mais preservadas da Amazônia – com aproximadamente 750 comunidades indígenas de povos de 23 etnias.
Diretor-presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), Marivelton Barroso, do povo Baré, comemorou o resultado. Ele projeta uma reconstrução da política de direitos indígenas e o protagonismo dos povos indígenas no novo governo, com a ocupação de cargos de liderança no prometido Ministério dos Povos Indígenas ou Ministério dos Povos Originários e na Fundação Nacional do Índio (Funai).
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Marivelton Baré aposta na reconstrução do que foi perdido nos anos de governo Bolsonaro|Juliana Radler/ISA
“Primeiro, viva a nossa democracia. Agora temos democraticamente o presidente Lula eleito e a gente espera que, a partir do momento que ele assumir, possa buscar reconstruir toda uma política de direitos para os povos indígenas do Brasil que foi brutalmente acabada e desconstruída ao longo desse governo Bolsonaro”, disse Marivelton Baré.
“As pastas que são para trabalhar com os povos indígenas [devem ser ocupadas pelos povos indígenas] nessa construção participativa, seja no controle social, seja na implementação das ações, seja no protagonismo da política de gestão ambiental e territorial das terras indígenas”, afirmou.
Marivelton Baré também cobrou da nova gestão o respeito aos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) – instrumento da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (Pngati) – e aos protocolos de consulta. A região do rio Negro tem PGTAs elaborados e publicados, com propostas de gestão do território para áreas de economia da floresta, saúde, educação, cultura, entre outras.
O protocolo de consulta do Rio Negro deve ser concluído em assembleia geral da Foirn no final de novembro. Ao longo de 2022, foram realizados encontros regionais para garantir ampla participação na elaboração do documento.
“É necessário ainda que seja garantido o modelo de organização indígena, a partir das federações, das associações, das articulações e coordenações da Amazônia. A gente espera uma reconstrução de tudo aquilo que perdemos. Temos a expectativa de que o nosso presidente eleito vai fazer história para o protagonismo indígena no país”, desejou Marivelton Baré.
Em seu primeiro pronunciamento após o anúncio do resultado, Lula disse que tem compromisso com povos indígenas e que seu governo vai lutar pelo desmatamento zero da Amazônia. “Queremos a pacificação ambiental”, afirmou o presidente eleito.
Em São Gabriel da Cachoeira, após o resultado da eleição, as ruas do centro e da orla foram tomadas por carreatas e celebrações. A eleição aconteceu em clima de tranquilidade.
A Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas fez a cobertura do primeiro e do segundo turno. A comunicadora Juliana Albuquerque, do povo Baré, anunciou pelo Instagram o resultado da eleição ao vivo.
Na cidade, Jair Bolsonaro (PL) obteve somente 19,36% (4.103) dos votos. Branco ou nulo totalizaram 3,23%. Para governador, Eduardo Braga (MDB) recebeu 13.490 votos (64,69%) e o candidato à reeleição Wilson Lima (UNIÃO) 7.364 (35,31%). Lima venceu o pleito e governará o Amazonas por mais quatro anos.
A abstenção foi de 31,55% no segundo turno, ligeiramente menor que a do primeiro (32,4%).
Obstáculos para a votação
Dificuldades para votar foram enfrentadas por indígenas em todo o país, o que levou a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) a enviar um ofício ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e aos Tribunais Regionais Eleitorais requerendo oferecimento amplo de transportes e denunciando crimes eleitorais.
Em 18 de outubro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, decidiu que prefeituras e empresas de ônibus poderiam oferecer transporte público gratuito no segundo turno das eleições. No dia 30 de outubro, a Prefeitura de São Gabriel da Cachoeira ofertou ônibus gratuitos em algumas regiões da cidade.
Rosana Marques, do povo Baniwa, usou ônibus gratuito para chegar ao local de votação, na Escola Estadual Sagrada Família. Da comunidade de Santo Antônio, na estrada de Cucuí, ela contou aos comunicadores Juliana Albuquerque e Adelson Ribeiro que, se não fosse a gratuidade, não teria conseguido votar.
No entanto, o comunicador Moisés Baniwa relatou que moradores de comunidades localizadas na BR-307, na estrada de Camanaus, não contaram com a gratuidade. “Eu soube que muita gente da minha comunidade não foi votar”, relatou ele, que mora em Itacoatiara Mirim, comunidade indígena próxima ao centro urbano.
Outra questão que levou à alta abstenção foi o horário da votação, que este ano foi unificado em todo o país, não havendo diferenciação devido ao fuso. Dessa forma, na região do Alto Rio Negro a eleição aconteceu das 7h às 16h, o que confundiu os eleitores – principalmente no primeiro turno.
Dona Elza Tenório, do povo Tukano, que não conseguiu votar no dia 2 de outubro por ter chegado meia hora depois do horário – buscando preservar a filha com deficiência do sol quente –, votou cedo no domingo. Ela deu entrevista à Rede Wayuri e contou que estava feliz por poder exercer sua cidadania.
Em São Gabriel da Cachoeira, a eleição tem características complexas: são 33 pontos de votação, sendo cinco na área urbana e 28 em comunidades em meio à floresta. Dos 32.106 eleitores, 17.725 (55,2%) votam na área urbana, com 14.381 (44,7%) estando em comunidades. Entre as comunidades, Iauaretê (2.764 eleitores) e Pari-Cachoeira (1.028) são as que têm maior número de eleitores.
Para levar as urnas até esses pontos é necessária uma logística que envolve veículos, barcos e aeronaves. Nem todas as comunidades recebem urnas e muitos indígenas precisam sair dos locais onde moram para ir votar.
Os Yanomami que vivem na comunidade Maiá, no território Yanomami no Amazonas, votam em São Gabriel da Cachoeira. Para chegar à cidade, viajaram seis dias em voadeiras – pequenas embarcações a motor –, relatou Pauderney Rodrigues, filho da liderança Luciano Nascimento Figueiredo.
No segundo turno, cerca de 200 indígenas dessa comunidade saíram de suas casas para votar. Nessa época, o rio está mais seco, o que torna a viagem ainda mais demorada.
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Fila de eleitores na Escola Estadual Irmã Inês Penha; no segundo turno, as filas foram menores que as do primeiro|Mauro Pedrosa, povo Tukano/Rede Wayuri
Moradora de São Gabriel, Janete Farias, do povo Baniwa, votou na Escola Irmã Inês Penha. No primeiro turno enfrentou longas filas, chegou às 12h e saiu às 15h30. “Fiquei muito tempo em pé, outras pessoas cansaram de esperar. Agora vim mais cedo e levei cerca de 40 minutos até conseguir dar meu voto”, contou As longas filas registradas no primeiro turno também foram apontadas como fator da alta abstenção.
Ela é natural de Tapira Ponta, comunidade na bacia do Içana, e conta que há muitas dificuldades para votar no interior. Algumas comunidades recebem as urnas eletrônicas e os moradores de outras localidades precisam se deslocar por conta própria para dar seu voto. “Em Tapira Ponta não tem urna. Quem está lá tem que seguir até a Tunuí-Cachoeira”, conta.
Rede de comunicadores
A Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas, que conta com cerca de 50 integrantes na região do Alto e Médio Rio Negro, vem abordando desde julho as eleições no programa de rádio Papo da Maloca, que vai ao ar semanalmente na FM local.
Em seguida, o programa é editado e fica disponível como o podcast Wayuri nas principais plataformas de áudio.
No primeiro e no segundo turnos, os comunicadores que atuam em São Gabriel fizeram a cobertura ao vivo pelo Instagram. Já aqueles que estavam no território encaminharam fotos e informações da votação em suas comunidades.
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Comunicadores indígenas da Rede Wayuri entrevistam Elza Tenório, do povo Tukano, que não conseguiu votar no primeiro turno|Ana Amélia Hamdan/ISA
A professora Auxiliadora Fernandes, do povo Dâw, enviou foto de indígenas atravessando o Rio Negro de barco – entre a comunidade Waruá e a orla principal da cidade – para exercer a cidadania.Entre o primeiro e o segundo turno, a Rede Wayuri atuou para estimular o voto, produzindo cards e vídeos em português e nas línguas indígenas Nheengatu, Baniwa, Tukano e Yanomami.
Participaram da cobertura da eleição acompanhando a votação dos indígenas na área urbana os comunicadores Juliana Albuquerque, do povo Baré; Cláudia Ferraz, do povo Wanano, Adelson Ribeiro, do povo Tukano, Emerson Chaves de Oliveira, do povo Baré, Mauro Pedrosa, do povo Tukano, e Álvaro Socot, do povo Hupda.
O comunicador Ray Baniwa faz parte da rede desde a sua criação e atuou à distância. Os trabalhos foram feitos com o apoio da fotógrafa e web designer Raquel Uendi. A Rede Wayuri é vinculada à Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e tem parceria e assessoria do Instituto Socioambiental (ISA).
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Rede de produtores indígenas expande laços e experiências com a economia da floresta no Rio Negro
Encontro em São Gabriel da Cachoeira (AM) com representantes de oito estados da Amazônia Brasileira fortaleceu negócios da sociobiodiversidade
Uma rede de produtores indígenas do Rio Negro (AM) vai, pouco a pouco, tornando-se visível e fortalecida.
Na abertura do I Encontro Geral de Produtores Indígenas do Rio Negro, que aconteceu em São Gabriel da Cachoeira (AM) entre os dias 10 e 14 de outubro, indígenas reunidos em um círculo usaram um novelo para representar o momento. Enquanto o fio se desenrolava, cada um se apresentava e falava sobre sua produção, mostrando a diversidade de povos e produções da região.
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Dinâmica no início do encontro na Casa do Saber, em São Gabriel da Cachoeira (AM), formou uma rede entre os povos do Rio Negro e suas produções|Ana Amélia Hamdan/ISA
Durante a dinâmica, os trançados de tucum das mulheres Baré e Piratapuya foram se ligando à cestaria Yanomami, confeccionada com cipó e fungo përisi. A cerâmica Tukano se uniu à Baniwa, sem deixar de lado os produtos da roça e os utensílios ancestrais usados nessas atividades, como as peneiras e abanos. O trançado dos aturás (cestos) Hupda encontrou sementes e colares trazidos por outros povos.
No início do encontro, a rede envolveu boa parte dos 23 povos que vive na região do Rio Negro e no dia seguinte se expandiu, contando também com aproximadamente 20 produtores indígenas de oito estados da Amazônia Brasileira, por meio de Intercâmbio de Cadeias de Valor da Rede de Cooperação Amazônica (RCA), composta por 14 associações indígenas e indigenistas.
O I Encontro Geral de Produtores Indígenas do Rio Negro e o Intercâmbio de Cadeia de Valor da RCA foram promovidos na Maloca – Casa do Saber da Foirn pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) e a própria RCA.
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Feira foi realizada durante o I Encontro Geral de Produtores Indígenas do Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira|Ana Amélia Hamdan/ISA
Diretor-presidente da Foirn, Marivelton Barroso, do povo Baré, falou da riqueza da economia da floresta e do fortalecimento das cadeias de valor do Rio Negro, que geram renda preservando a floresta. Segundo ele, a estrutura do Departamento de Negócios da Sociobiodiversidade da Foirn vem se fortalecendo mesmo diante das pressões políticas que propõem modelos não sustentáveis dentro de Terras Indígenas.
Uma das principais pautas do encontro de produtores foi a assinatura do termo de pactuação política e acordo de cogestão da Wariró – Casa dos Produtores Indígenas do Rio Negro, que fica em São Gabriel da Cachoeira e comercializa os produtos da região.
O documento é um instrumento de consolidação de gestão de negócios de excelência, participativa, transparente, envolvendo os povos representados, funcionários, diretores da Foirn e a assessoria do ISA.
Para garantir a legitimidade dos processos, representantes das cinco coordenadorias da Foirn - Nadzoeri, Diawii, Caibrm, Caiarnx e Coidi (ver abaixo o significado das siglas) participaram do encontro, analisaram e aprovaram o acordo de cogestão em assembleia.
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Encontro é importante para o fortalecimento de laços com as bases, diz Luciane Lima, da Foirn|Ana Amélia Hamdan/ISA
Para a coordenadora do Departamento de Negócios da Sociobiodiversidade da Foirn, Luciane Lima, do povo Tariano, esse processo garante a transparência das decisões e aproxima os artesãos da Casa Wariró.
“O encontro de artesãos é muito importante para o fortalecimento dos laços com as bases. É importante ressaltar o papel das associações de base na economia da floresta”, disse.
Assessora em gestão de negócios indígenas do ISA, a economista Ana Letícia Pastore Trindade contou que a Wariró está em um processo de expansão, com geração de renda para os povos indígenas e sustentabilidade.
“Crescer é um desafio enorme, pois envolve respeito à floresta. A Wariró traz a proposta de comercializar com sustentabilidade financeira e ambiental. Não é possível aumentar a oferta com a degradação do equilíbrio ambiental. Então, a produção é ligada também às pesquisas interculturais, ao cuidado com a matéria-prima”, explicou.
Um dos indicadores desse crescimento é o aumento de 78% do número de artesãos que vendem produtos para a Wariró, passando de 60 no primeiro semestre de 2021 para 107 no mesmo período de 2022.
Entre 2021 e 2022, a Wariró fez compras no valor de quase R$ 260 mil. Os produtos mais vendidos foram a cestaria Yanomami, a cestaria de arumã do povo Baniwa, a cerâmica Tukano e a cerâmica Baniwa.
Os produtos indígenas são vendidos principalmente no Amazonas e também em São Paulo, Rio de Janeiro e no exterior.
Também foram apresentadas no encontro as experiências da Casa de Frutas, em Santa Isabel do Rio Negro, e de apoio ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). As ações, desenvolvidas em conjunto por Foirn e ISA, fortalecem a economia da floresta e, ao mesmo tempo, protegem o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro (SAT-RN), registrado como patrimônio cultural imaterial brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
O encontro contou com a participação do assessor técnico do Projeto Cadeias de Valor do ISA em São Gabriel da Cachoeira, João Gabriel Raphaelli. Iniciativas desenvolvidas pelo ISA em Roraima foram compartilhadas pela engenheira de produção Amanda Latosinski, que trabalha com os povos Yanomami, Ye’kwana e Wapichana, e pela assessora técnica Stephany Caroline Rodrigues, que assessora o povo Wai Wai.
Supervisor comercial do ISA em São Paulo, Sérgio Marques falou sobre a experiência da loja do ISA, inaugurada na Galeria Metrópole, e que vende produtos da sociobiodiversidade de territórios onde a organização atua. Segundo ele, mais da metade dos produtos comercializados no espaço vem do Rio Negro. “A loja é um difusor de parcerias dentro do ISA”, destacou.
Cultura
Coordenador-adjunto do Programa Rio Negro do ISA, Aloisio Cabalzar falou sobre a importância e a riqueza cultural da economia da floresta, inclusive como forma de proteger a cultura dos povos do Rio Negro.
O líder indígena André Baniwa também compartilhou seus saberes no encontro de produtores, analisando que os índices mostrados pela Casa Wariró indicam que o fortalecimento dos negócios anda junto com a cultura. “As peças mais originais, como a cestaria Yanomami ou os aturás do povo Hupda, estão atraindo maior interesse. São peças que contam uma história”, detalhou.
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Produtos que contam história estão atraindo maior interesse dos consumidores, analisa André Baniwa|Ana Amélia Hamdan/ISA
Uma dessas histórias é contada pela artesã Verônica Ramos Pena, do povo Hupda, que mora na comunidade de Vila Fátima, no Rio Uaupés, e confecciona o tradicional aturá de seu povo. “A gente pega o cipó lá no mato. É muito perigoso entrar no mato, enfrentar cobra, aranha. E, para apanhar o cipó, a gente tem que dormir na floresta por causa da distância. Depois, queima o cipó lá na floresta mesmo e queima a mão”, relatou. Em seguida, a matéria-prima é levada para a comunidade, onde vai ser entrelaçada para se transformar em cestaria.
Vice-presidente da Associação de Mulheres Yanomami Kumirayoma (Amyk), Lídia Santos da Silva conta que, para dar início ao trabalho de confecção da cestaria Yanomami, é preciso paciência. Primeiro, para procurar o cipó. E também para achar uma boa quantidade de përisi, fungo utilizado na cestaria.
“Algumas vezes levamos os homens para tirar o cipó grande, que é o ambé. Depois voltamos para a comunidade para fazer o artesanato”, contou.
Vivendo em Iauaretê, no Uaupés, Dona Jacinta Araújo Alves, povo Desana, e seu marido Benjamim Antônio Montalvo Cardoso, Piratapuya, ajudaram a criar o Clube dos Casais para produção de artesanato e repasse de saberes aos mais jovens.
Todo domingo, o grupo – formado por cerca de 20 casais – se reúne para trabalhar e compartilhar conhecimentos.
Os homens trabalham com o arumã, fazendo tipitis, cumatás, abanos, peneiras e urutus. As mulheres trabalham com o tucum, porta-jóias, colares, brinco, novelos e bolsas.
Intercâmbio
Além das experiências do Rio Negro, os participantes do encontro de produtores puderam conhecer iniciativas de outros Estados da Amazônia Brasileira por meio de intercâmbio sobre cadeias de valores promovido pela RCA.
“A experiência entre diferentes territórios e realidades promove cooperação, aprendizado e construção conjunta”, afirmou Luis Donisete Benzi Grupioni, secretário executivo da RCA.
“Estamos dando os primeiros passos conhecendo as ações do Rio Negro, que tem experiência em cadeias produtivas diversificadas, com erros, acertos e desafios”, disse.
Assessora técnica da Secretaria Executiva da RCA, Patrícia de Almeida Zuppi destacou a importância do encontro entre os povos indígenas. “O intercâmbio no território é muito potente, pois a experiência compartilhada sai da linha narrativa e vai para a mão na massa.”
Uma das experiências desenvolvidas no Rio Negro é o turismo de pesca esportiva de base comunitária desenvolvido no Rio Marié. Integrantes da Foirn e da RCA foram até a comunidade de Tapuruquara Mirim, que beneficia 14 comunidades indígenas.
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Povo Tuyuka fez apresentação de dança tradicional durante o encontro de produtores em São Gabriel da Cachoeira|Ana Amélia Hamdan/ISA
Ianukula Kaiabi Suiá, presidente da Associação Terra Indígena Xingu (Atix), em Mato Grosso, considerou a troca de experiências inspiradora. Ele ressaltou que os povos indígenas vêm passando por um momento de pressão política, o que pode dificultar a estruturação de cadeias produtivas da sociobiodiversidade.
Vindo do Oiapoque, no Amapá, Diemisom Sfair dos Santos, do povo Karipuna, mostrou a experiência do Empório Uasei, que quer dizer “açaí”. A iniciativa foi construída com o apoio do Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepe). “A venda de açaí pelos indígenas era desordenada, com muitos atravessadores. Agora compramos o açaí e revendemos in natura ou batido no Empório Uasei, garantindo uma relação mais justa com os indígenas”, explicou.
Diemisom dos Santos trouxe a experiência da comercialização do açaí e levou para Oiapoque o exemplo de gestão da Wariró. Assim, as trocas entre os povos dos Estados da Amazônia mostram que as redes para fortalecimento dos negócios da sociobiodiversidade vão se expandindo.
* Organizações da Foirn
Nadzoeri (Organização Baniwa e Koripako), Diawii (Coordenadoria das Organizações Indígenas do Tiquié, Uaupés e Afluentes), Caibrm (Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro), Caiarnx (Coordenadoria das Associações Indígenas do Alto Rio Negro e Xié); e Coidi (Coordenadoria das Associações Indígenas de Iauaretê).
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
It's time to give back to the people who care for the forests
Public policy and the sensibility of productive sectors towards the issue are still a hiccup of recognition in the face of racism and the brutal appetite of those who want less forest, more monocultures and fast money at any cost
Deborah Lima
- Presidente do conselho diretor do ISA
Nature is the basis for the existence of human societies. There are no human societies if there is no suitable climate, fertile soil, clean oceans and so forth.
The hegemonic economy, however, was shaped by colonialism and a war against nature. Since the scientific revolution of the 17th century, part of humanity has sought at any cost to become master and mistress of the very nature on which it fundamentally depends for survival.
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Deforestation, burning, mining, land grabbing and other aggressions against the forest and its people are taking us to a point of no return|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
We have reached a turning point in which the ruins of this war have been transformed into scorched earth by a denialist government that has pushed to the limit the idea that protected areas and the people who live in them — indigenous people, quilombolas, riverside-dwellers and traditional communities — are obstacles to the economic development of the country.
Despite everything, we have made progress with practical experiences in the relationship between these peoples and the markets (public, private, national, international), helping to strengthen a new economy that cannot be compared to subsidized monocultures, predatory and illegal activities, and synthetic products.
This economy is a contribution to a sustainable future and is already part of the daily life of indigenous peoples, quilombolas and traditional communities in their territories. It already is a circular economy. A bioeconomy. An agroecology, agroforestry. A regenerative economy. There already is bio-construction. There has been for centuries.
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Indigenous people have practiced the care economy as a way of life for centuries and are the ones who protect the forests the most|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
This is an innovative model, practiced for millennia. Economies that, in addition to monetary results, care for both people and nature at the same time.
This model has enormous potential to be developed, as well as a didactic capacity to transform the future by putting people, life and diversity first. That is why we call them socio-biodiversity economies.
Strengthening, recognizing and valuing socio-biodiversity economies, however, involves a major transformation in the understanding that these populations and their territories are producers of knowledge, contributions and services that are fundamental for life on the planet.
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Riverines of Xingu are an example of positive management of biodiversity, extracting Brazil nuts for fair marketing|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
A study published by ISA shows that these peoples and their economies are responsible, jointly, for the protection of one third of the forests in Brazil. In the last 35 years, Indigenous Lands alone have protected 20% of Brazil's national forests.
Studies in archaeology and landscape ecology show that landscape management, based on the lifestyles and culture of indigenous peoples and traditional communities, was and is responsible for the formation of environments in different Brazilian biomes, including the Amazon.
This landscape management is the foundation of Traditional Agricultural Systems, which have been transforming forest into forest for millennia, ensuring the reproduction of ecosystems. These are traditional practices of planting, gathering and extraction that generally sustain landscapes and have a very low environmental impact, especially when compared to other modes, such as monocultures.
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With the Traditional Quilombola Agricultural System, communities in Vale do Ribeira (SP) feed those who need it most and strengthen family farming|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
Human practices of very low environmental impact not only enable greater diversification of forest plots but also the maintenance of the landscape itself, guaranteeing the continuity of the ecosystem services generated by it for society, such as biodiversity, maintenance of CO2 storage, water, pollination, among others.
Traditional peoples and communities largely view natural entities as agents endowed with intentionalities, and with whom relations must be established to achieve good management of the territory and social life itself.
As such, there is an evident need to advance the understanding of Payment for Environmental Services (PES), established by Law 14.119 of January 13, 2021.
Based on the interpretation of the law and the understanding of the relevance of the environmental contributions and services generated by the ways of life of indigenous peoples, quilombolas and traditional communities, we are proposing a complementary and specific definition for Socio-environmental Contributions and Services.
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The Xingu Seeds Network, which operates in the Amazon and Cerrado, uses ancestral management practices to sow the forests of the future|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
Socio-environmental Contributions and Services are individual or collective activities/practices associated with the ways of life, knowledge, culture and landscape management of indigenous peoples and traditional communities in their territories, which favor the reproduction, recovery or improvement of ecosystem services, and which update and produce cultural diversity.
The recognition of these contributions and services by appropriate public policy is essential for strengthening sociobiodiversity economies and containing the advance of the hegemonic economic model over traditional territories, creating mechanisms to promote local ways of life.
The Food Purchase Program (PAA), the National School Meals Program (PNAE) and the Policy to Guarantee Minimum Prices for Sociobiodiversity Products (PGPM-Bio) are examples of public policies that, even with scarce resources, make it possible to create positive cycles.
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The strengthening of socio-biodiversity economies and the knowledge of forest peoples is the key to stopping the destruction of the planet|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
At the same time, companies that pay attention to the wellbeing of communities and care for their territories have played an important role in fostering these economies, elevating traditional peoples and communities to the forefront and launching initiatives for fair benefit sharing.
Within the millenary and ancestral history of these peoples, however, public policy and the sensibility of productive sectors towards the issue are still a hiccup of recognition in the face of racism and the brutal appetite of those who want less forest, more monocultures and fast money at any cost.
Now is the time to innovate, with more prominence for communities in technological development and a fair distribution of benefits for joint work. To innovate with ways of recognising and valuing these peoples for the services they provide to the planet. And to innovate in guaranteeing and improving their rights, with public policies that promote their ways of living.
It is time to give back to these populations and learn from their way of life. It is time to care for health, life, the present and future. The future can be different.
Translator: Philip Somervell
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É hora de retribuir os povos que cuidam das florestas
É quase nula a valorização das economias da sociobiodiversidade diante do racismo e do apetite brutal dos que querem menos floresta, mais monoculturas e dinheiro rápido a qualquer custo
Deborah Lima
- Presidente do conselho diretor do ISA
A natureza é a base para a existência das sociedades humanas. Não há sociedades humanas se não houver clima adequado, solos férteis, oceanos limpos e assim por diante.
A economia hegemônica, porém, foi moldada no colonialismo e em uma guerra contra a natureza. Desde a revolução científica, no século 17, parte da humanidade busca a qualquer custo tornar-se mestre e senhora da natureza da qual fundamentalmente depende para sobreviver.
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Desmatamento, queimadas, garimpo, grilagem e outras agressões contra a floresta e seus povos estão nos levando a um ponto sem retorno|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
Chegamos a um ponto de inflexão em que as ruínas dessa guerra se transformaram em terra arrasada por um governo negacionista que levou ao limite a ideia de que áreas protegidas e os povos que vivem nelas - indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades tradicionais - são entraves para o desenvolvimento econômico do país.
Apesar de tudo, avançamos em experiências práticas na relação entre esses povos e os mercados (públicos, privados, nacionais, internacionais), contribuindo para fortalecer uma nova economia que não pode ser comparada a monoculturas subsidiadas, atividades predatórias e ilegais e produtos sintéticos.
Essa economia é uma contribuição para um futuro sustentável e já faz parte do dia a dia de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais em seus territórios. Já é economia circular. Bioeconomia. Agroecologia, agrofloresta. Economia regenerativa. Já tem bioconstrução. Há séculos.
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Povos indígenas praticam a economia do cuidado como modo de vida há séculose são os maiores responsáveis pela preservação das florestas|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
Trata-se de um modelo inovador, praticado há milênios. Economias que, para além do resultado monetário, cuidam ao mesmo tempo das pessoas e da natureza.
Há a partir desse modelo um enorme potencial a ser desenvolvido, além da capacidade didática de transformar o futuro ao colocar em primeiro lugar as pessoas, a vida e a diversidade. Por isso, chamamos de economias da sociobiodiversidade.
Fortalecer, reconhecer e valorizar as economias da sociobiodiversidade, porém, passa por uma importante transformação no entendimento de que essas populações e seus territórios são produtores de conhecimento, contribuições e serviços fundamentais para a vida no planeta.
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Ribeirinhos do Xingu são exemplo do manejo positivo da biodiversidade, extraindo a castanha-do-Parápara a comercialização justa|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
Estudo publicado pelo ISA mostrou que esses povos e suas economias são responsáveis, juntos, pela proteção de um terço das florestas no Brasil. Nos últimos 35 anos, somente as Terras Indígenas protegem 20% do total de florestas nacionais.
Os estudos de arqueologia e ecologia da paisagem mostram que os manejos da paisagem, baseados nos modos de vida e na cultura de povos indígenas e comunidades tradicionais, foram e são responsáveis pela formação de ambientes de diferentes biomas brasileiros, inclusive a Amazônia.
Esse manejo da paisagem fundamenta os Sistemas Agrícolas Tradicionais, que têm transformado floresta em floresta por milênios, garantindo a reprodução dos ecossistemas. São práticas tradicionais de plantio, coleta e extrativismo que, no geral, mantêm as paisagens com baixíssimo impacto ambiental, especialmente quando comparado a outros modos, como as monoculturas.
Práticas humanas de baixíssimo impacto ambiental não só possibilitam maior diversificação de parcelas de floresta como a própria manutenção da paisagem, também garantindo a continuidade dos serviços ecossistêmicos gerados por ela para a sociedade, como biodiversidade, manutenção do estoque de CO2, água, polinização, entre outras.
Perspectivas de povos e comunidades tradicionais, em grande parte, enxergam entes da natureza como agentes dotados de intencionalidades e com os quais é preciso estabelecer relações para alcançar uma boa gestão do território e da própria vida social.
Com isso, fica evidente a necessidade de avançar sobre o entendimento de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), instituído pela Lei 14.119 de 13 de janeiro de 2021.
Com base na interpretação da lei e no entendimento da relevância das contribuições e serviços ambientais gerados pelos modos de vida de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, estamos propondo uma definição complementar e específica para Contribuições e Serviços Socioambientais.
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A Rede de Sementes do Xingu, que atua na Amazônia e no Cerrado, utiliza práticas ancestrais de manejo para semear as florestas do futuro|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
Contribuições e Serviços Socioambientais são atividades/práticas individuais ou coletivas associadas aos modos de vida, conhecimento, cultura e manejo da paisagem de povos indígenas e comunidades tradicionais em seus territórios, que favorecem a reprodução, a recuperação ou a melhoria dos serviços ecossistêmicos, e que atualizam e produzem a diversidade cultural.
O reconhecimento dessas contribuições e serviços por políticas públicas adequadas é fundamental para fortalecer as economias da sociobiodiversidade e conter o avanço do modelo econômico hegemônico sobre os territórios tradicionais, criando mecanismos de promoção dos modos de vida locais.
O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e a Política de Garantia de Preços Mínimos para os Produtos da Sociobiodiversidade (PGPM-Bio) são exemplos de políticas públicas que, mesmo com recursos escassos, possibilitam criar ciclos positivos.
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O fortalecimento das economias da sociobiodiversidade e do conhecimento dos povos da floresta é a chave para deter a destruição do planeta|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
Ao mesmo tempo, empresas atentas ao bem-viver das comunidades e ao cuidado com os territórios têm assumido um papel importante ao fomentar essas economias, alçando ao protagonismo povos e comunidades tradicionais e dando início a experiências de justa repartição de benefícios.
Na história milenar e ancestral desses povos, porém, as políticas públicas e a sensibilidade de setores produtivos para o tema ainda são um soluço de valorização diante do racismo e do apetite brutal dos que querem menos floresta, mais monoculturas e dinheiro rápido a qualquer custo.
Agora é hora de inovar, com mais protagonismo das comunidades no desenvolvimento tecnológico e com a justa repartição de benefícios pelo trabalho conjunto. Inovar com formas de reconhecer e valorizar esses povos pelos serviços prestados ao planeta. E inovar na garantia e aprimoramento de seus direitos, com políticas públicas que promovam seus modos de vida.
É hora de retribuir essas populações e aprender com seu jeito de viver. É hora de cuidar de saúde, vida, presente e futuro. O futuro pode ser outro.
Cuidar dos igarapés, das áreas de pescaria, ter escola e manter o território protegido. Essas foram algumas das reivindicações feitas pela liderança indígena Américo Socot, do povo Hupda, pouco antes de votar no primeiro turno das eleições que aconteceram em 2 de outubro para presidente, governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais.
“E não pode esquecer: eu e meu povo estamos lá [no território]", reforçou ele, dirigindo-se aos candidatos. Seu Américo é um dos 32.106 eleitores de São Gabriel da Cachoeira (AM), município conhecido por ter a maior concentração de população indígena do país.
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Álvaro Socot Hupda, comunicador indígena, faz entrevista com jovem na Escola Sagrada Família, um dos pontos de votação de São Gabriel|Ana Amélia Hamdan
Américo deu a entrevista ao filho, Álvaro Socot, integrante da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas, que fez a cobertura do 1º turno das eleições em São Gabriel da Cachoeira. A Rede Wayuri é vinculada à Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e tem parceria e assessoria do Instituto Socioambiental (ISA).
Os comunicadores receberam e divulgaram notícias do processo eleitoral nas comunidades dos povos Baniwa, Yanomami, Tukano, Baré, entre outros. O lema escolhido pelo grupo foi "Vote pelo Coletivo e pelos Direitos Indígenas".
Desde as 6h30 até o início da noite, os comunicadores percorreram os pontos de votação ouvindo os indígenas sobre seus anseios e reivindicações, acompanhando o momento democrático e repassando informações.
A Rede Wayuri já tinha trabalhado na cobertura de outras eleições. Mas essa foi a primeira vez que foram divulgadas informações ao vivo, com a produção para o Instagram e WhatsApp. Conhecedores indígenas, famílias, jovens, idosos, pessoas de várias idades e etnias foram ouvidas.
Algumas entrevistas podem ser conferidas no Instagram da Rede Wayuri:
Por volta das 19h30, a comunicadora Juliana Albuquerque, do Povo Baré, encerrou os trabalhos repassando numa transmissão ao vivo pelo Instagram o resultado parcial das eleições para presidente em frente ao Cartório Eleitoral.
No município, o candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou à frente, com 79,12% dos votos, enquanto Jair Bolsonaro (PL) recebeu 17,52% dos votos. Em seguida vieram Simone Tebet (MDB), com 1,97%, e Ciro Gomes (PDT), com 0,83%, seguidos dos demais candidatos. O índice de abstenção foi de 32,47%.
Além de Juliana Albuquerque e Álvaro Socot, também integraram a equipe que cobriu as eleições em São Gabriel da Cachoeira o comunicador Adelson Ribeiro, Tukano, e Emerson Chaves de Oliveira, Baré. Os comunicadores Ray Baniwa e Cláudia Ferraz, do Povo Wanano, fazem parte da Rede desde a sua criação e atuaram à distância. Os trabalhos foram feitos com o apoio da fotógrafa e web designer Raquel Uendi.
“Foi muito importante participar da cobertura, ouvir os eleitores, saber o desejo deles. Pelo que percebi, todos que entrevistamos querem que o país melhore. Mas não é só um desejo individual, é sempre pensando no coletivo”, observou o comunicador Adelson Ribeiro.
Essa é a primeira cobertura de eleições que ele participa. Na opinião dele, um dos pontos marcantes foi ouvir os jovens. “A gente percebeu que a juventude quer mudanças”, disse. Os jovens ouvidos reivindicaram, entre outros pontos, a melhoria do acesso às universidades e à educação em geral.
Para a comunicadora Cláudia Ferraz, “as eleições são importantes porque é um momento em que todos vão às urnas para depositar o seu voto de confiança e escolher candidatos que de fato possam representar a população”, refletiu. Nas eleições municipais de 2020, ela entrevistou os candidatos a prefeito de São Gabriel da Cachoeira junto com a comunicadora Daniela Villegas, do povo Yebamasã.
Cláudia Wanano e Juliana Baré são as locutoras do programa de rádio Papo de Maloca, que vai ao ar semanalmente na FM local. Em seguida, o programa é editado e fica disponível em plataformas de áudio como o podcast Wayuri.
Votação
Ainda bem cedo, logo ao chegar ao Colégio São Gabriel — um dos pontos de votação na sede do município —, Juliana já se atentou para os folhetos impressos pela Justiça Eleitoral com a “cola”, ou seja, espaços em branco para os eleitores anotarem os números de seus candidatos.
A comunicadora pegou o folheto e repassou a informação pelo Instagram, prestando um serviço para evitar uma questão que foi enfrentada durante o dia todo: em vários pontos do país, inclusive em São Gabriel, foram registradas longas filas. Os próprios comunicadores tiveram que esperar cerca de duas horas para votar.
Em São Gabriel da Cachoeira, a eleição tem características especiais: são 33 pontos de votação, sendo cinco na área urbana e 28 em comunidades.
Dos 32.106 eleitores, 17.725 (55,2%) votam na área urbana e 14.381 (44,7%) em comunidades. Entre as comunidades, Iauaretê (2.764 eleitores) e Pari-Cachoeira (1.028) são as que têm maior número de eleitores.
Para levar as urnas até esses pontos é necessária uma logística que envolve veículos, barcos e aeronaves. A distribuição é organizada pela Justiça Eleitoral de São Gabriel. Mas alguns indígenas precisam sair de suas comunidades para votar em São Gabriel da Cachoeira.
É o caso dos Yanomami que vivem na comunidade Maiá. Eles enfrentaram cerca de três dias de viagem em voadeiras — pequenas embarcações a motor — da comunidade até a sede do município.
No território do Rio Negro, onde a Rede Wayuri atua, são cerca de 23 povos vivendo em 750 comunidades e sítios em área dos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.
E, mesmo com limitações de acesso à internet, chegaram informações de algumas comunidades. Em Tunuí-Cachoeira, na Bacia do Rio Içana, houve a participação do comunicador Plínio Guilherme, Baniwa. Na comunidade de Nazaré, também na região do Içana, Therezinha Evangelista, Baré, acompanhou a votação.
Passando para o Rio Uaupés, na comunidade de Taracuá, o comunicador Irinelson Piloto Freitas, Tukano, acompanhou a chegada das urnas, os preparativos e a votação. Também foram encaminhadas notícias do território Yanomami, da comunidade Maturacá, onde o comunicador Valdemar Lins mora.
Da cidade de Barcelos, a comunicadora Neide Dantas também mandou informações. Nilza Pinheiro, da Associação Indígenas de Barcelos (Asiba), mostrou um grupo de Yanomami recebendo informações sobre como votar na urna eletrônica.
Os comunicadores também atuam combatendo fake news. Informações duvidosas são compartilhadas no WhatsApp dos comunicadores para que seja feito o devido esclarecimento sobre a veracidade do dado. Em seguida, a informação correta é passada adiante.
Em maio, a Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas recebeu o Prêmio Estado de Direito 2022, do World Justice Project (WJP), na cidade de Haia, na Holanda, durante o Fórum Mundial de Justiça 2022. A rede foi reconhecida pela inovação e o combate à desinformação na Amazônia brasileira.
Além disso, a Rede foi reconhecida pelo Repórteres Sem Fronteiras (RSF) por seu trabalho durante a pandemia. Durante o ano de 2022, a organização promoveu oficinas e intercâmbios que fortaleceram a atuação da Rede Wayuri, o que se refletiu na cobertura eleitoral.
Povos indígenas nas eleições
Esta eleição é considerada histórica especialmente para os povos indígenas. Frente aos ataques e à ameaça de retirada de direitos,os povos indígenas, por meio de suas federações e associações, se organizaram no movimento “Aldear a Política”, buscando aumentar a sua representatividade nas Casas Legislativas.
Nesta eleição, cinco pessoas autodeclaradas indígenas foram eleitos para a Câmara dos Deputados, entre eles se destaca Sônia Guajajara, que foi eleita pelo PSOL de São Paulo e recebeu 156.966 votos. Já a professora indígena Célia Xakriabá foi eleita pelo PSOL de Minas Gerais, com 101.154 dos votos. Ambas tiveram o apoio do movimento indígena e se alinham às pautas coletivas defendidas pelo movimento.
Buscando atuar no fortalecimento do Estado de Direito e pelos direitos dos povos indígenas, a Rede Wayuri abordou o tema da eleição durante o ano todo, principalmente a partir de julho. Foram convidados para participar do programa Papo da Maloca pessoas que deram esclarecimentos sobre o processo eleitoral, como a Defensora Pública do Polo Alto Rio Negro, Daniele Mascarenhas.
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Da esquerda para direita, Emerson de Oliveira Baré, Juliana Alburquerque Baré, Adelson Ribeiro Tukano e Álvaro Socot Hupda|Ana Amélia Hamdan/ISA
Também foi abordado o tema "Juventude e Mulheres nas Eleições 2022", com a presença de uma das coordenadoras do Departamento de Mulheres Indígenas da Foirn (Dmirn), Dadá Baniwa, e do coordenador do Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas da Foirn, Elson Kene. Foi feito um programa especial sobre Eleições e Pessoas com Deficiência, com a participação do chefe do Cartório Eleitoral, Renato Crespo.
O comunicador Ray Baniwa, mestrando da UFRJ e comunicador da Rede Wayuri, escreveu sobre o tema “Eleições e primeira infância”, em projeto selecionado pelo coletivo Nós, mulheres da periferia.
Na quarta-feira (28/9) que antecedeu o primeiro turno foi realizado o Papo da Maloca – Especial Eleição 2022 com a presença da também coordenadora do Dmirn, Belmira Melgueiro, do povo Baré, e da coordenadora do Departamento de Educação e Patrimônio Cultural da Foirn, Lorena Araújo, do povo Tariano, que falaram sobre a importância do voto e de se informar bem sobre os candidatos.
Renato Crespo retornou ao Papo da Maloca para dar as últimas orientações sobre as eleições, com destaque para dois pontos: não levar celular para a cabine de votação e prestar atenção ao horário, pois neste ano, no Amazonas, os pontos de votação ficaram abertos das 7h às 16h, não havendo alteração devido ao fuso.
Uma das últimas pessoas a ser entrevistada pela Rede Wayuri no domingo de eleição foi Elza Tenório Vieira, indígena do povo Tukano, que não conseguiu votar justamente por causa do horário. Ela chegou às 16h30, levando sua filha cadeirante, mas os portões já estavam fechados.
“Eu venho nesse horário, sempre, para evitar o sol forte por causa da minha filha. Queria muito votar, ver meu candidato ganhar”, disse. No segundo turno, ela irá votar. E a Rede Wayuri estará, novamente, acompanhando as eleições 2022!
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Rede Wayuri participa da cobertura das Eleições 2022 com foco nos direitos indígenas
Com cerca de 50 integrantes atuando em áreas urbanas e comunidades da região do Rio Negro, coletivo de comunicadores indígenas circula informações confiáveis sobre o processo eleitoral
Em São Gabriel da Cachoeira, capacitação para as eleições de 2022 aconteceu no Cartório da 19ª Zona Eleitoral|Ana Amélia Hamdan/ISA
A eleição no município de São Gabriel da Cachoeira é única. A cidade, localizada no Noroeste do Amazonas, é banhada pelo Rio Negro e cercada pela floresta amazônica e por comunidades indígenas, algumas de difícil acesso e com pouca comunicação. Para a eleição de 2022, são 33 pontos de votação, sendo cinco na área urbana e 28 em comunidades, com a logística para entrega das urnas eletrônicas envolvendo barcos e aeronaves.
Com todos esses desafios, a Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas está fazendo circular informações sobre o processo eleitoral de 2022, tendo como lema Vote pelo Coletivo e pelos Direitos Indígenas. As informações estão sendo registradas no Instagram da Rede e circulando em grupos de WhatsApp, sempre com a preocupação de serem usadas fontes confiáveis como forma de combater as fake news.
No domingo (02/10), data das eleições para presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual, a Rede Wayuri estará nas ruas para ouvir os eleitores indígenas. Comunicadores que estiverem no território também vão compartilhar informações sobre a votação.
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Urnas eletrônicas chegam a Taracuá, no Rio Uaupés, Terra Indígena Alto Rio Negro|Irinelson Piloto, povo Tukano/Rede Wayuri
A próxima eleição é considerada histórica especialmente para os povos indígenas. Frente à atual gestão do Governo Federal, que vem promovendo ataques e a retirada de direitos dos indígenas, as federações e associações se organizaram no movimento d“Aldear a Política”, buscando aumentar a representatividade dos povos tradicionais nas Casas Legislativas.
Em São Gabriel da Cachoeira, o município com maior concentração de população indígena do país, são 32.106 eleitores. Do total de eleitores, 17.725 votam na área urbana, o que representa 55,2%. Outras 14.381 pessoas(44,7%) votam em comunidades. Entre elas, as que têm maior número de eleitores são Iauaretê (2.764 eleitores) e Pari-Cachoeira (1.028).
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Participantes do programa Papo da Maloca, produzido pela Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas, em imagem de abril de 2021|Ana Amélia Hamdan/ISA
As urnas começaram a ser enviadas ao território indígena pelo Cartório da 19ª Zona Eleitoral em São Gabriel da Cachoeira. As comunidades que já receberam os equipamentos até a sexta-feira (30/9) são Juiviteira, Aracu Cachoeira, Canadá, Caruru Cachoeira, Boca da Estrada, Maturacá, Taracuá, Pari Cachoeira, Iauaretê, São Joaquim, Coraci, Querari, Anamoin, Tunuí, Castelo Branco, Assunção do Içana e Nazaré do Cubate.
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Lideranças indígenas denunciam invasão garimpeira no Rio Negro
Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) cobra retirada de dragas; atividade ilegal ameaça turismo sustentável e principal reduto de tucunarés gigantes da Amazônia
O vídeo de uma draga de garimpo de ouro entrando ilegalmente em território indígena na região do Rio Negro, no Amazonas, foi postado nas redes sociais pelo diretor-presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), Marivelton Barroso, do povo Baré, em 17 de setembro. Passados 13 dias e após a federação encaminhar a denúncia a órgãos públicos, o problema persiste.
Na quarta-feira (28/09), Marivelton Baré voltou a utilizar as redes sociais para exigir que os órgãos públicos reajam às denúncias feitas. “A gente vem a público pedir que as instituições e órgãos de controle do Estado brasileiro possam reagir às nossas denúncias e pedido de desintrusão das dragas de garimpo que estão hoje nas Terras Indígenas Médio Rio Negro I e Médio Rio Negro II. Sobretudo na localização do Rio Marié, onde estão plenamente em operação”, narrou.
Segundo a Foirn, há pelo menos três dragas de garimpo na região. Além de expor a riscos a população indígena, a ação ilegal prejudica as atividades de turismo sustentável de pesca esportiva que ocorrem no Rio Marié.
“A gente não quer que o território do Rio Negro fique como outras áreas que não fizeram nada e [logo] a ilegalidade tomou conta”, completou. A Foirn encaminhou um ofício em 23 de setembro com pedido de providências a órgãos como Ministério Público Federal (MPF), Fundação Nacional do Índio (Funai) e Exército. No dia 29, voltou a pedir novas providências ao MPF.
Em julho, Marivelton Baré e o vice-presidente da Foirn, Nildo Fontes, do povo Tukano, entraram com pedido para integrar ação popular contra o que denominam de “loteamento do Rio Negro” para fins minerários.
No vídeo divulgado nesta semana, o diretor-presidente da Foirn informa que uma operação envolvendo órgãos públicos chegou a fazer a abordagem da draga de garimpo ilegal, mas a embarcação e seus responsáveis foram liberados. Eles teriam mostrado licença para estudo de viabilidade de extração de ouro.
De acordo com a Constituição Federal, tanto a pesquisa como a lavra das riquezas minerais em Terras Indígenas só podem ser efetivados mediante lei específica, que ainda não foi editada pelo Congresso Nacional. “Mas que licença de autorização é essa que viola nossos direitos?, questionou Marivelton Baré.
Além da necessidade de lei específica, a Constituição Federal prevê que empreendimentos de pesquisa (incluindo pesquisa de viabilidade) e lavra de riquezas minerais também necessitariam, após a edição da lei, de autorização do Congresso Nacional, oitiva das comunidades afetadas e sua participação nos resultados da lavra.
Atividades deste porte demandariam, também, licenciamento ambiental. Tudo isso deveria ser capitaneado por órgãos federais, já que as Terras Indígenas estão entre os bens da União. Nada disso foi realizado, o que faz com que a atividade seja absolutamente ilegal, a configurar, inclusive, possível crime ambiental.
Turismo sustentável
De acordo com a Foirn na região onde as dragas estão atuando, no Rio Marié, está em pleno desenvolvimento o projeto de turismo de pesca esportiva e de base sustentável, que vem sendo executado após a elaboração de um plano de visitação realizado de forma participativa pelas comunidades que vivem ena região de Santa Isabel do Rio Negro. O projeto tem aprovação da Fundação Nacional do Índio (Funai) e contou com estudos ambientais elaborados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a fim de manter a integridade ambiental da região.
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Embarcação de turismo sustentável de pesca esportiva no Rio Marié, no Rio Negro, em imagem de 2017|Marcos Hlace
O Marié é o principal reduto de tucunarés gigantes na Amazônia. O rio está inteiramente localizado dentro de um extenso território indígena, uma área com cerca de 2 milhões de hectares. Com mais de 800 quilômetros de rio, 180 igarapés e 60 lagos mapeados, esse importante afluente do rio Negro é uma área altamente preservada e, por isso, com condições para os peixes gigantes crescerem. Tudo isso está seriamente ameaçado com a recente invasão de dragas garimpeiras.
Diretor da Associação das Comunidades Indígenas do Baixo Rio Negro (Acibrn), Gelvani da Costa Silva, do povo Baniwa, reforça que os impactos ambientais causados pelas dragas podem também inviabilizar a atividade do turismo sustentável que vem gerando renda para a famílias indígenas.
A concepção do projeto turístico garante o diálogo entre os modos de vida das comunidades, respeitando sua autonomia e investindo em relações inovadoras entre empresas e comunidades.
Aumento de denúncias
O aumento da pressão do garimpo ilegal sobre as Terras Indígenas do Rio Negro está colocando a população em risco e levando ao crescimento de denúncias. Em 2021, indígenas relataram ameaças por pessoas estranhas que pretendiam exercer atividade mineral na região. Há denúncias de dragas nos rios Cauburis, Inambu, Arichana, Aiari, entre outros.
Levantamento realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA) mostra que há cerca de 77 requerimentos minerários ativos para pesquisa e lavra nas áreas que compreendem as terras indígenas Jurubaxi-Téa, Rio Téa, Yanomami, Médio Rio Negro I, Médio Rio Negro II e Cué-Cué Marabitanas.
Somente nas TIs Médio Rio Negro I e Médio Rio Negro II, são 20 requerimentos ativos. Referentes a ouro são 60 e os outros 17 a estanho, cassiterita, nióbio, cascalho e areia.
A Agência Nacional de Mineração (ANM) vem liberando requerimentos minerários em áreas ne leito do Rio Negro, dentro de Terra Indígena o que compromete os modos de vidas dos indígenas e ameaça a integridade ambiental da área.
“Nós lutamos para demarcar esse território exatamente para podermos preservar e trabalhar nossas atividades produtivas. Brigamos muito para manter ele de forma preservada. Não foi favor de governo nenhum, foi a luta de lideranças que nos antecederam. E a gente não quer que esses intrusos fiquem dentro do nosso território. Então a gente fala: ‘fora garimpo, fora mineração e fora também esse desgoverno’, que não está atuando de forma alguma para coibir e barrar a entrada dessas atividades ilegais e ilícitas no território”, finaliza Marivelton Baré.
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O Rio Negro pede socorro
Uma das ameaças que mais cresceu nos últimos anos é o garimpo ilegal. Com o desmonte dos órgãos de fiscalização e controle, como o Ibama e a Funai, o Rio Negro e alguns de seus afluentes vêm sendo cada vez mais invadidos
Casa de Warir, espírito "dono" das plantas não cultivadas, de acordo com a mitologia dos povos indígenas do Alto Rio Negro|Beto Ricardo/ISA
O Rio Negro é o maior rio de águas pretas do mundo e o sétimo maior em volume de água. Chamado de rio de leite pelos povos originários do Noroeste amazônico, é o rio da vida, o rio por onde a cobra canoa navegou dando origem a povos originários no Amazonas, como os Tukano, Desano, Piratapuia, Tuyuka, Wanano e outros. Em seu curso de cerca de 1.700 quilômetros, que nasce na Colômbia e chega ao Brasil, existem “casas sagradas”, nas quais devemos ter cuidado e respeito se quisermos manter o equilíbrio da vida no mundo.
Na Nova Zelândia, em 2017, o rio Whanganui, terceiro maior do país e vital para o povo Maori, ganhou personalidade jurídica, dada pelo Parlamento neozelandês por reconhecer a relação do rio com os Maori. “A nova legislação é um reconhecimento da conexão profundamente espiritual entre o iwi (tribo) e o seu rio ancestral Whanganui. Agora, o rio passa a ter sua própria identidade jurídica, com todos os direitos e deveres correspondentes”, comemorou o então ministro da Justiça neozelandês, Chris Finlayson, em 2017.
Para a lei neozelandesa, inédita no mundo, “o rio é um ser vivo único que vai das montanhas ao mar, incorporando seus afluentes e todos os seus componentes físicos e metafísicos". Por isso, deve ser tratado como um indivíduo e ter seus direitos respeitados. Após essa conquista, na Índia, o gigante rio Ganges, sagrado para os hindus, também ganhou status de pessoa jurídica, na qual a justiça indiana declarou: “é uma entidade viva com o estatuto de uma pessoa legal”. Os indianos esperam, assim, ter mais força para livrar o Ganges da poluição que vem degradando e ameaçando seu curso.
No Amazonas, convivemos com esse milagre vivo que é o Rio Negro. Suas praias de areia branca, seus igapós, pedras e ilhas, formam paisagens paradisíacas, responsáveis por boa parte do turismo, lazer e beleza do estado. Na capital temos o encontro das águas, um dos símbolos maiores da Amazônia e do Brasil, com os dois gigantes se encontrando e formando o maior rio do mundo: o Amazonas. Porém, para nosso desencanto, presenciamos o avanço da ilegalidade e do profundo desrespeito e descaso com a vida do Rio Negro e tantos outros rios amazônicos. Um verdadeiro show de horrores e de ignorância diante de tanta vida em abundância.
Uma das grandes ameaças ao Negro que mais cresceu nos últimos anos é o garimpo ilegal. Com o desmonte dos órgãos de fiscalização e controle, como o Ibama e a Funai, o Negro e alguns de seus afluentes, vêm sendo cada vez mais invadido por balsas de garimpo, que sequer respeitam as terras indígenas demarcadas e as comunidades que vivem nas suas margens. Em busca de ouro lançam mercúrio nas águas do Negro, contaminando seus peixes, e levando perigo à sobrevivência de milhares de indígenas e ribeirinhos que dependem diretamente de suas águas para viver.
Além disso, todos nós que vivemos no Amazonas e temos a sorte de nos banharmos nas águas do Negro, estamos ameaçados pela contaminação de suas águas por metais pesados oriundos de atividades ilegais predatórias, que mais parecem sair da Idade Média. Em nenhum país sério do mundo, as autoridades do Estado permitiriam tamanha agressão a um patrimônio natural deste porte, responsável por imensa geração de renda pelo seu potencial turístico, assim como por sua sacralidade como um corpo vivo, cuja história se relaciona com os povos originários da Amazônia.
A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), que atua em defesa das 750 comunidades e dos 23 povos indígenas rionegrinos, vem denunciando seguidamente e enviando ao Ministério Público Federal (MPF-AM), uma série de fotos, vídeos e relatos sobre essas invasões, grande parte delas ocorridas na região do Médio Rio Negro. O Rio Negro é reconhecido como maior área úmida do planeta de interesse internacional, denominado sítio Ramsar pela Convenção de proteção das áreas úmidas mundiais. Sua bacia é uma das regiões mais ricas em biodiversidade do planeta e na região da Cabeça do Cachorro (Alto Rio Negro) se formam os grandes rios voadores, nuvens que levam chuva para demais regiões do país, promovendo o equilíbrio climático e colaborando com a produção agrícola brasileira.
Seja na perspectiva dos povos da Amazônia ou dos Maori na Nova Zelândia, os valores indígenas de ligação com a natureza - numa relação ética de reciprocidade e de dimensão do sagrado diante da criação - são essenciais para que possamos resolver os grandes problemas ambientais que enfrentamos. O nosso Rio Negro pede socorro e todos nós que já nos banhamos em suas águas pretas devemos nos comprometer a protegê-lo. É no mínimo um dever ético com as nossas crianças, jovens e as gerações que estão por vir.
* Juliana Radler é jornalista com especialização em meio ambiente e analista de políticas socioambientais do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA). Artigo originalmente publicado no jornal A Crística
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