População de São Gabriel da Cachoeira celebra vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais|Raquel Uendi
São Gabriel da Cachoeira (AM), município mais indígena do Brasil, elegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 80,63% dos votos. O resultado é reflexo do descontentamento com a atual gestão de Jair Bolsonaro, marcada pelo aumento da pressão do garimpo, do turismo ilegal e das denúncias de tráfico, além das ameaças aos direitos constitucionais dos povos indígenas.
Em outras duas cidades da região, Lula também ganhou com ampla maioria: em Santa Isabel do Rio Negro, com 73,94% dos votos, e em Barcelos, 65,02%. Os três municípios ficam no Alto e Médio Rio Negro, em uma das regiões mais preservadas da Amazônia – com aproximadamente 750 comunidades indígenas de povos de 23 etnias.
Diretor-presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), Marivelton Barroso, do povo Baré, comemorou o resultado. Ele projeta uma reconstrução da política de direitos indígenas e o protagonismo dos povos indígenas no novo governo, com a ocupação de cargos de liderança no prometido Ministério dos Povos Indígenas ou Ministério dos Povos Originários e na Fundação Nacional do Índio (Funai).
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Marivelton Baré aposta na reconstrução do que foi perdido nos anos de governo Bolsonaro|Juliana Radler/ISA
“Primeiro, viva a nossa democracia. Agora temos democraticamente o presidente Lula eleito e a gente espera que, a partir do momento que ele assumir, possa buscar reconstruir toda uma política de direitos para os povos indígenas do Brasil que foi brutalmente acabada e desconstruída ao longo desse governo Bolsonaro”, disse Marivelton Baré.
“As pastas que são para trabalhar com os povos indígenas [devem ser ocupadas pelos povos indígenas] nessa construção participativa, seja no controle social, seja na implementação das ações, seja no protagonismo da política de gestão ambiental e territorial das terras indígenas”, afirmou.
Marivelton Baré também cobrou da nova gestão o respeito aos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) – instrumento da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (Pngati) – e aos protocolos de consulta. A região do rio Negro tem PGTAs elaborados e publicados, com propostas de gestão do território para áreas de economia da floresta, saúde, educação, cultura, entre outras.
O protocolo de consulta do Rio Negro deve ser concluído em assembleia geral da Foirn no final de novembro. Ao longo de 2022, foram realizados encontros regionais para garantir ampla participação na elaboração do documento.
“É necessário ainda que seja garantido o modelo de organização indígena, a partir das federações, das associações, das articulações e coordenações da Amazônia. A gente espera uma reconstrução de tudo aquilo que perdemos. Temos a expectativa de que o nosso presidente eleito vai fazer história para o protagonismo indígena no país”, desejou Marivelton Baré.
Em seu primeiro pronunciamento após o anúncio do resultado, Lula disse que tem compromisso com povos indígenas e que seu governo vai lutar pelo desmatamento zero da Amazônia. “Queremos a pacificação ambiental”, afirmou o presidente eleito.
Em São Gabriel da Cachoeira, após o resultado da eleição, as ruas do centro e da orla foram tomadas por carreatas e celebrações. A eleição aconteceu em clima de tranquilidade.
A Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas fez a cobertura do primeiro e do segundo turno. A comunicadora Juliana Albuquerque, do povo Baré, anunciou pelo Instagram o resultado da eleição ao vivo.
Na cidade, Jair Bolsonaro (PL) obteve somente 19,36% (4.103) dos votos. Branco ou nulo totalizaram 3,23%. Para governador, Eduardo Braga (MDB) recebeu 13.490 votos (64,69%) e o candidato à reeleição Wilson Lima (UNIÃO) 7.364 (35,31%). Lima venceu o pleito e governará o Amazonas por mais quatro anos.
A abstenção foi de 31,55% no segundo turno, ligeiramente menor que a do primeiro (32,4%).
Obstáculos para a votação
Dificuldades para votar foram enfrentadas por indígenas em todo o país, o que levou a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) a enviar um ofício ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e aos Tribunais Regionais Eleitorais requerendo oferecimento amplo de transportes e denunciando crimes eleitorais.
Em 18 de outubro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, decidiu que prefeituras e empresas de ônibus poderiam oferecer transporte público gratuito no segundo turno das eleições. No dia 30 de outubro, a Prefeitura de São Gabriel da Cachoeira ofertou ônibus gratuitos em algumas regiões da cidade.
Rosana Marques, do povo Baniwa, usou ônibus gratuito para chegar ao local de votação, na Escola Estadual Sagrada Família. Da comunidade de Santo Antônio, na estrada de Cucuí, ela contou aos comunicadores Juliana Albuquerque e Adelson Ribeiro que, se não fosse a gratuidade, não teria conseguido votar.
No entanto, o comunicador Moisés Baniwa relatou que moradores de comunidades localizadas na BR-307, na estrada de Camanaus, não contaram com a gratuidade. “Eu soube que muita gente da minha comunidade não foi votar”, relatou ele, que mora em Itacoatiara Mirim, comunidade indígena próxima ao centro urbano.
Outra questão que levou à alta abstenção foi o horário da votação, que este ano foi unificado em todo o país, não havendo diferenciação devido ao fuso. Dessa forma, na região do Alto Rio Negro a eleição aconteceu das 7h às 16h, o que confundiu os eleitores – principalmente no primeiro turno.
Dona Elza Tenório, do povo Tukano, que não conseguiu votar no dia 2 de outubro por ter chegado meia hora depois do horário – buscando preservar a filha com deficiência do sol quente –, votou cedo no domingo. Ela deu entrevista à Rede Wayuri e contou que estava feliz por poder exercer sua cidadania.
Em São Gabriel da Cachoeira, a eleição tem características complexas: são 33 pontos de votação, sendo cinco na área urbana e 28 em comunidades em meio à floresta. Dos 32.106 eleitores, 17.725 (55,2%) votam na área urbana, com 14.381 (44,7%) estando em comunidades. Entre as comunidades, Iauaretê (2.764 eleitores) e Pari-Cachoeira (1.028) são as que têm maior número de eleitores.
Para levar as urnas até esses pontos é necessária uma logística que envolve veículos, barcos e aeronaves. Nem todas as comunidades recebem urnas e muitos indígenas precisam sair dos locais onde moram para ir votar.
Os Yanomami que vivem na comunidade Maiá, no território Yanomami no Amazonas, votam em São Gabriel da Cachoeira. Para chegar à cidade, viajaram seis dias em voadeiras – pequenas embarcações a motor –, relatou Pauderney Rodrigues, filho da liderança Luciano Nascimento Figueiredo.
No segundo turno, cerca de 200 indígenas dessa comunidade saíram de suas casas para votar. Nessa época, o rio está mais seco, o que torna a viagem ainda mais demorada.
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Fila de eleitores na Escola Estadual Irmã Inês Penha; no segundo turno, as filas foram menores que as do primeiro|Mauro Pedrosa, povo Tukano/Rede Wayuri
Moradora de São Gabriel, Janete Farias, do povo Baniwa, votou na Escola Irmã Inês Penha. No primeiro turno enfrentou longas filas, chegou às 12h e saiu às 15h30. “Fiquei muito tempo em pé, outras pessoas cansaram de esperar. Agora vim mais cedo e levei cerca de 40 minutos até conseguir dar meu voto”, contou As longas filas registradas no primeiro turno também foram apontadas como fator da alta abstenção.
Ela é natural de Tapira Ponta, comunidade na bacia do Içana, e conta que há muitas dificuldades para votar no interior. Algumas comunidades recebem as urnas eletrônicas e os moradores de outras localidades precisam se deslocar por conta própria para dar seu voto. “Em Tapira Ponta não tem urna. Quem está lá tem que seguir até a Tunuí-Cachoeira”, conta.
Rede de comunicadores
A Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas, que conta com cerca de 50 integrantes na região do Alto e Médio Rio Negro, vem abordando desde julho as eleições no programa de rádio Papo da Maloca, que vai ao ar semanalmente na FM local.
Em seguida, o programa é editado e fica disponível como o podcast Wayuri nas principais plataformas de áudio.
No primeiro e no segundo turnos, os comunicadores que atuam em São Gabriel fizeram a cobertura ao vivo pelo Instagram. Já aqueles que estavam no território encaminharam fotos e informações da votação em suas comunidades.
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Comunicadores indígenas da Rede Wayuri entrevistam Elza Tenório, do povo Tukano, que não conseguiu votar no primeiro turno|Ana Amélia Hamdan/ISA
A professora Auxiliadora Fernandes, do povo Dâw, enviou foto de indígenas atravessando o Rio Negro de barco – entre a comunidade Waruá e a orla principal da cidade – para exercer a cidadania.Entre o primeiro e o segundo turno, a Rede Wayuri atuou para estimular o voto, produzindo cards e vídeos em português e nas línguas indígenas Nheengatu, Baniwa, Tukano e Yanomami.
Participaram da cobertura da eleição acompanhando a votação dos indígenas na área urbana os comunicadores Juliana Albuquerque, do povo Baré; Cláudia Ferraz, do povo Wanano, Adelson Ribeiro, do povo Tukano, Emerson Chaves de Oliveira, do povo Baré, Mauro Pedrosa, do povo Tukano, e Álvaro Socot, do povo Hupda.
O comunicador Ray Baniwa faz parte da rede desde a sua criação e atuou à distância. Os trabalhos foram feitos com o apoio da fotógrafa e web designer Raquel Uendi. A Rede Wayuri é vinculada à Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e tem parceria e assessoria do Instituto Socioambiental (ISA).
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Rede de produtores indígenas expande laços e experiências com a economia da floresta no Rio Negro
Encontro em São Gabriel da Cachoeira (AM) com representantes de oito estados da Amazônia Brasileira fortaleceu negócios da sociobiodiversidade
Uma rede de produtores indígenas do Rio Negro (AM) vai, pouco a pouco, tornando-se visível e fortalecida.
Na abertura do I Encontro Geral de Produtores Indígenas do Rio Negro, que aconteceu em São Gabriel da Cachoeira (AM) entre os dias 10 e 14 de outubro, indígenas reunidos em um círculo usaram um novelo para representar o momento. Enquanto o fio se desenrolava, cada um se apresentava e falava sobre sua produção, mostrando a diversidade de povos e produções da região.
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Dinâmica no início do encontro na Casa do Saber, em São Gabriel da Cachoeira (AM), formou uma rede entre os povos do Rio Negro e suas produções|Ana Amélia Hamdan/ISA
Durante a dinâmica, os trançados de tucum das mulheres Baré e Piratapuya foram se ligando à cestaria Yanomami, confeccionada com cipó e fungo përisi. A cerâmica Tukano se uniu à Baniwa, sem deixar de lado os produtos da roça e os utensílios ancestrais usados nessas atividades, como as peneiras e abanos. O trançado dos aturás (cestos) Hupda encontrou sementes e colares trazidos por outros povos.
No início do encontro, a rede envolveu boa parte dos 23 povos que vive na região do Rio Negro e no dia seguinte se expandiu, contando também com aproximadamente 20 produtores indígenas de oito estados da Amazônia Brasileira, por meio de Intercâmbio de Cadeias de Valor da Rede de Cooperação Amazônica (RCA), composta por 14 associações indígenas e indigenistas.
O I Encontro Geral de Produtores Indígenas do Rio Negro e o Intercâmbio de Cadeia de Valor da RCA foram promovidos na Maloca – Casa do Saber da Foirn pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) e a própria RCA.
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Feira foi realizada durante o I Encontro Geral de Produtores Indígenas do Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira|Ana Amélia Hamdan/ISA
Diretor-presidente da Foirn, Marivelton Barroso, do povo Baré, falou da riqueza da economia da floresta e do fortalecimento das cadeias de valor do Rio Negro, que geram renda preservando a floresta. Segundo ele, a estrutura do Departamento de Negócios da Sociobiodiversidade da Foirn vem se fortalecendo mesmo diante das pressões políticas que propõem modelos não sustentáveis dentro de Terras Indígenas.
Uma das principais pautas do encontro de produtores foi a assinatura do termo de pactuação política e acordo de cogestão da Wariró – Casa dos Produtores Indígenas do Rio Negro, que fica em São Gabriel da Cachoeira e comercializa os produtos da região.
O documento é um instrumento de consolidação de gestão de negócios de excelência, participativa, transparente, envolvendo os povos representados, funcionários, diretores da Foirn e a assessoria do ISA.
Para garantir a legitimidade dos processos, representantes das cinco coordenadorias da Foirn - Nadzoeri, Diawii, Caibrm, Caiarnx e Coidi (ver abaixo o significado das siglas) participaram do encontro, analisaram e aprovaram o acordo de cogestão em assembleia.
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Encontro é importante para o fortalecimento de laços com as bases, diz Luciane Lima, da Foirn|Ana Amélia Hamdan/ISA
Para a coordenadora do Departamento de Negócios da Sociobiodiversidade da Foirn, Luciane Lima, do povo Tariano, esse processo garante a transparência das decisões e aproxima os artesãos da Casa Wariró.
“O encontro de artesãos é muito importante para o fortalecimento dos laços com as bases. É importante ressaltar o papel das associações de base na economia da floresta”, disse.
Assessora em gestão de negócios indígenas do ISA, a economista Ana Letícia Pastore Trindade contou que a Wariró está em um processo de expansão, com geração de renda para os povos indígenas e sustentabilidade.
“Crescer é um desafio enorme, pois envolve respeito à floresta. A Wariró traz a proposta de comercializar com sustentabilidade financeira e ambiental. Não é possível aumentar a oferta com a degradação do equilíbrio ambiental. Então, a produção é ligada também às pesquisas interculturais, ao cuidado com a matéria-prima”, explicou.
Um dos indicadores desse crescimento é o aumento de 78% do número de artesãos que vendem produtos para a Wariró, passando de 60 no primeiro semestre de 2021 para 107 no mesmo período de 2022.
Entre 2021 e 2022, a Wariró fez compras no valor de quase R$ 260 mil. Os produtos mais vendidos foram a cestaria Yanomami, a cestaria de arumã do povo Baniwa, a cerâmica Tukano e a cerâmica Baniwa.
Os produtos indígenas são vendidos principalmente no Amazonas e também em São Paulo, Rio de Janeiro e no exterior.
Também foram apresentadas no encontro as experiências da Casa de Frutas, em Santa Isabel do Rio Negro, e de apoio ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). As ações, desenvolvidas em conjunto por Foirn e ISA, fortalecem a economia da floresta e, ao mesmo tempo, protegem o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro (SAT-RN), registrado como patrimônio cultural imaterial brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
O encontro contou com a participação do assessor técnico do Projeto Cadeias de Valor do ISA em São Gabriel da Cachoeira, João Gabriel Raphaelli. Iniciativas desenvolvidas pelo ISA em Roraima foram compartilhadas pela engenheira de produção Amanda Latosinski, que trabalha com os povos Yanomami, Ye’kwana e Wapichana, e pela assessora técnica Stephany Caroline Rodrigues, que assessora o povo Wai Wai.
Supervisor comercial do ISA em São Paulo, Sérgio Marques falou sobre a experiência da loja do ISA, inaugurada na Galeria Metrópole, e que vende produtos da sociobiodiversidade de territórios onde a organização atua. Segundo ele, mais da metade dos produtos comercializados no espaço vem do Rio Negro. “A loja é um difusor de parcerias dentro do ISA”, destacou.
Cultura
Coordenador-adjunto do Programa Rio Negro do ISA, Aloisio Cabalzar falou sobre a importância e a riqueza cultural da economia da floresta, inclusive como forma de proteger a cultura dos povos do Rio Negro.
O líder indígena André Baniwa também compartilhou seus saberes no encontro de produtores, analisando que os índices mostrados pela Casa Wariró indicam que o fortalecimento dos negócios anda junto com a cultura. “As peças mais originais, como a cestaria Yanomami ou os aturás do povo Hupda, estão atraindo maior interesse. São peças que contam uma história”, detalhou.
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Produtos que contam história estão atraindo maior interesse dos consumidores, analisa André Baniwa|Ana Amélia Hamdan/ISA
Uma dessas histórias é contada pela artesã Verônica Ramos Pena, do povo Hupda, que mora na comunidade de Vila Fátima, no Rio Uaupés, e confecciona o tradicional aturá de seu povo. “A gente pega o cipó lá no mato. É muito perigoso entrar no mato, enfrentar cobra, aranha. E, para apanhar o cipó, a gente tem que dormir na floresta por causa da distância. Depois, queima o cipó lá na floresta mesmo e queima a mão”, relatou. Em seguida, a matéria-prima é levada para a comunidade, onde vai ser entrelaçada para se transformar em cestaria.
Vice-presidente da Associação de Mulheres Yanomami Kumirayoma (Amyk), Lídia Santos da Silva conta que, para dar início ao trabalho de confecção da cestaria Yanomami, é preciso paciência. Primeiro, para procurar o cipó. E também para achar uma boa quantidade de përisi, fungo utilizado na cestaria.
“Algumas vezes levamos os homens para tirar o cipó grande, que é o ambé. Depois voltamos para a comunidade para fazer o artesanato”, contou.
Vivendo em Iauaretê, no Uaupés, Dona Jacinta Araújo Alves, povo Desana, e seu marido Benjamim Antônio Montalvo Cardoso, Piratapuya, ajudaram a criar o Clube dos Casais para produção de artesanato e repasse de saberes aos mais jovens.
Todo domingo, o grupo – formado por cerca de 20 casais – se reúne para trabalhar e compartilhar conhecimentos.
Os homens trabalham com o arumã, fazendo tipitis, cumatás, abanos, peneiras e urutus. As mulheres trabalham com o tucum, porta-jóias, colares, brinco, novelos e bolsas.
Intercâmbio
Além das experiências do Rio Negro, os participantes do encontro de produtores puderam conhecer iniciativas de outros Estados da Amazônia Brasileira por meio de intercâmbio sobre cadeias de valores promovido pela RCA.
“A experiência entre diferentes territórios e realidades promove cooperação, aprendizado e construção conjunta”, afirmou Luis Donisete Benzi Grupioni, secretário executivo da RCA.
“Estamos dando os primeiros passos conhecendo as ações do Rio Negro, que tem experiência em cadeias produtivas diversificadas, com erros, acertos e desafios”, disse.
Assessora técnica da Secretaria Executiva da RCA, Patrícia de Almeida Zuppi destacou a importância do encontro entre os povos indígenas. “O intercâmbio no território é muito potente, pois a experiência compartilhada sai da linha narrativa e vai para a mão na massa.”
Uma das experiências desenvolvidas no Rio Negro é o turismo de pesca esportiva de base comunitária desenvolvido no Rio Marié. Integrantes da Foirn e da RCA foram até a comunidade de Tapuruquara Mirim, que beneficia 14 comunidades indígenas.
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Povo Tuyuka fez apresentação de dança tradicional durante o encontro de produtores em São Gabriel da Cachoeira|Ana Amélia Hamdan/ISA
Ianukula Kaiabi Suiá, presidente da Associação Terra Indígena Xingu (Atix), em Mato Grosso, considerou a troca de experiências inspiradora. Ele ressaltou que os povos indígenas vêm passando por um momento de pressão política, o que pode dificultar a estruturação de cadeias produtivas da sociobiodiversidade.
Vindo do Oiapoque, no Amapá, Diemisom Sfair dos Santos, do povo Karipuna, mostrou a experiência do Empório Uasei, que quer dizer “açaí”. A iniciativa foi construída com o apoio do Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepe). “A venda de açaí pelos indígenas era desordenada, com muitos atravessadores. Agora compramos o açaí e revendemos in natura ou batido no Empório Uasei, garantindo uma relação mais justa com os indígenas”, explicou.
Diemisom dos Santos trouxe a experiência da comercialização do açaí e levou para Oiapoque o exemplo de gestão da Wariró. Assim, as trocas entre os povos dos Estados da Amazônia mostram que as redes para fortalecimento dos negócios da sociobiodiversidade vão se expandindo.
* Organizações da Foirn
Nadzoeri (Organização Baniwa e Koripako), Diawii (Coordenadoria das Organizações Indígenas do Tiquié, Uaupés e Afluentes), Caibrm (Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro), Caiarnx (Coordenadoria das Associações Indígenas do Alto Rio Negro e Xié); e Coidi (Coordenadoria das Associações Indígenas de Iauaretê).
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
It's time to give back to the people who care for the forests
Public policy and the sensibility of productive sectors towards the issue are still a hiccup of recognition in the face of racism and the brutal appetite of those who want less forest, more monocultures and fast money at any cost
Deborah Lima
- Presidente do conselho diretor do ISA
Nature is the basis for the existence of human societies. There are no human societies if there is no suitable climate, fertile soil, clean oceans and so forth.
The hegemonic economy, however, was shaped by colonialism and a war against nature. Since the scientific revolution of the 17th century, part of humanity has sought at any cost to become master and mistress of the very nature on which it fundamentally depends for survival.
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Deforestation, burning, mining, land grabbing and other aggressions against the forest and its people are taking us to a point of no return|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
We have reached a turning point in which the ruins of this war have been transformed into scorched earth by a denialist government that has pushed to the limit the idea that protected areas and the people who live in them — indigenous people, quilombolas, riverside-dwellers and traditional communities — are obstacles to the economic development of the country.
Despite everything, we have made progress with practical experiences in the relationship between these peoples and the markets (public, private, national, international), helping to strengthen a new economy that cannot be compared to subsidized monocultures, predatory and illegal activities, and synthetic products.
This economy is a contribution to a sustainable future and is already part of the daily life of indigenous peoples, quilombolas and traditional communities in their territories. It already is a circular economy. A bioeconomy. An agroecology, agroforestry. A regenerative economy. There already is bio-construction. There has been for centuries.
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Indigenous people have practiced the care economy as a way of life for centuries and are the ones who protect the forests the most|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
This is an innovative model, practiced for millennia. Economies that, in addition to monetary results, care for both people and nature at the same time.
This model has enormous potential to be developed, as well as a didactic capacity to transform the future by putting people, life and diversity first. That is why we call them socio-biodiversity economies.
Strengthening, recognizing and valuing socio-biodiversity economies, however, involves a major transformation in the understanding that these populations and their territories are producers of knowledge, contributions and services that are fundamental for life on the planet.
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Riverines of Xingu are an example of positive management of biodiversity, extracting Brazil nuts for fair marketing|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
A study published by ISA shows that these peoples and their economies are responsible, jointly, for the protection of one third of the forests in Brazil. In the last 35 years, Indigenous Lands alone have protected 20% of Brazil's national forests.
Studies in archaeology and landscape ecology show that landscape management, based on the lifestyles and culture of indigenous peoples and traditional communities, was and is responsible for the formation of environments in different Brazilian biomes, including the Amazon.
This landscape management is the foundation of Traditional Agricultural Systems, which have been transforming forest into forest for millennia, ensuring the reproduction of ecosystems. These are traditional practices of planting, gathering and extraction that generally sustain landscapes and have a very low environmental impact, especially when compared to other modes, such as monocultures.
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With the Traditional Quilombola Agricultural System, communities in Vale do Ribeira (SP) feed those who need it most and strengthen family farming|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
Human practices of very low environmental impact not only enable greater diversification of forest plots but also the maintenance of the landscape itself, guaranteeing the continuity of the ecosystem services generated by it for society, such as biodiversity, maintenance of CO2 storage, water, pollination, among others.
Traditional peoples and communities largely view natural entities as agents endowed with intentionalities, and with whom relations must be established to achieve good management of the territory and social life itself.
As such, there is an evident need to advance the understanding of Payment for Environmental Services (PES), established by Law 14.119 of January 13, 2021.
Based on the interpretation of the law and the understanding of the relevance of the environmental contributions and services generated by the ways of life of indigenous peoples, quilombolas and traditional communities, we are proposing a complementary and specific definition for Socio-environmental Contributions and Services.
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The Xingu Seeds Network, which operates in the Amazon and Cerrado, uses ancestral management practices to sow the forests of the future|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
Socio-environmental Contributions and Services are individual or collective activities/practices associated with the ways of life, knowledge, culture and landscape management of indigenous peoples and traditional communities in their territories, which favor the reproduction, recovery or improvement of ecosystem services, and which update and produce cultural diversity.
The recognition of these contributions and services by appropriate public policy is essential for strengthening sociobiodiversity economies and containing the advance of the hegemonic economic model over traditional territories, creating mechanisms to promote local ways of life.
The Food Purchase Program (PAA), the National School Meals Program (PNAE) and the Policy to Guarantee Minimum Prices for Sociobiodiversity Products (PGPM-Bio) are examples of public policies that, even with scarce resources, make it possible to create positive cycles.
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The strengthening of socio-biodiversity economies and the knowledge of forest peoples is the key to stopping the destruction of the planet|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
At the same time, companies that pay attention to the wellbeing of communities and care for their territories have played an important role in fostering these economies, elevating traditional peoples and communities to the forefront and launching initiatives for fair benefit sharing.
Within the millenary and ancestral history of these peoples, however, public policy and the sensibility of productive sectors towards the issue are still a hiccup of recognition in the face of racism and the brutal appetite of those who want less forest, more monocultures and fast money at any cost.
Now is the time to innovate, with more prominence for communities in technological development and a fair distribution of benefits for joint work. To innovate with ways of recognising and valuing these peoples for the services they provide to the planet. And to innovate in guaranteeing and improving their rights, with public policies that promote their ways of living.
It is time to give back to these populations and learn from their way of life. It is time to care for health, life, the present and future. The future can be different.
Translator: Philip Somervell
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
É hora de retribuir os povos que cuidam das florestas
É quase nula a valorização das economias da sociobiodiversidade diante do racismo e do apetite brutal dos que querem menos floresta, mais monoculturas e dinheiro rápido a qualquer custo
Deborah Lima
- Presidente do conselho diretor do ISA
A natureza é a base para a existência das sociedades humanas. Não há sociedades humanas se não houver clima adequado, solos férteis, oceanos limpos e assim por diante.
A economia hegemônica, porém, foi moldada no colonialismo e em uma guerra contra a natureza. Desde a revolução científica, no século 17, parte da humanidade busca a qualquer custo tornar-se mestre e senhora da natureza da qual fundamentalmente depende para sobreviver.
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Desmatamento, queimadas, garimpo, grilagem e outras agressões contra a floresta e seus povos estão nos levando a um ponto sem retorno|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
Chegamos a um ponto de inflexão em que as ruínas dessa guerra se transformaram em terra arrasada por um governo negacionista que levou ao limite a ideia de que áreas protegidas e os povos que vivem nelas - indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades tradicionais - são entraves para o desenvolvimento econômico do país.
Apesar de tudo, avançamos em experiências práticas na relação entre esses povos e os mercados (públicos, privados, nacionais, internacionais), contribuindo para fortalecer uma nova economia que não pode ser comparada a monoculturas subsidiadas, atividades predatórias e ilegais e produtos sintéticos.
Essa economia é uma contribuição para um futuro sustentável e já faz parte do dia a dia de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais em seus territórios. Já é economia circular. Bioeconomia. Agroecologia, agrofloresta. Economia regenerativa. Já tem bioconstrução. Há séculos.
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Povos indígenas praticam a economia do cuidado como modo de vida há séculose são os maiores responsáveis pela preservação das florestas|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
Trata-se de um modelo inovador, praticado há milênios. Economias que, para além do resultado monetário, cuidam ao mesmo tempo das pessoas e da natureza.
Há a partir desse modelo um enorme potencial a ser desenvolvido, além da capacidade didática de transformar o futuro ao colocar em primeiro lugar as pessoas, a vida e a diversidade. Por isso, chamamos de economias da sociobiodiversidade.
Fortalecer, reconhecer e valorizar as economias da sociobiodiversidade, porém, passa por uma importante transformação no entendimento de que essas populações e seus territórios são produtores de conhecimento, contribuições e serviços fundamentais para a vida no planeta.
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Ribeirinhos do Xingu são exemplo do manejo positivo da biodiversidade, extraindo a castanha-do-Parápara a comercialização justa|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
Estudo publicado pelo ISA mostrou que esses povos e suas economias são responsáveis, juntos, pela proteção de um terço das florestas no Brasil. Nos últimos 35 anos, somente as Terras Indígenas protegem 20% do total de florestas nacionais.
Os estudos de arqueologia e ecologia da paisagem mostram que os manejos da paisagem, baseados nos modos de vida e na cultura de povos indígenas e comunidades tradicionais, foram e são responsáveis pela formação de ambientes de diferentes biomas brasileiros, inclusive a Amazônia.
Esse manejo da paisagem fundamenta os Sistemas Agrícolas Tradicionais, que têm transformado floresta em floresta por milênios, garantindo a reprodução dos ecossistemas. São práticas tradicionais de plantio, coleta e extrativismo que, no geral, mantêm as paisagens com baixíssimo impacto ambiental, especialmente quando comparado a outros modos, como as monoculturas.
Práticas humanas de baixíssimo impacto ambiental não só possibilitam maior diversificação de parcelas de floresta como a própria manutenção da paisagem, também garantindo a continuidade dos serviços ecossistêmicos gerados por ela para a sociedade, como biodiversidade, manutenção do estoque de CO2, água, polinização, entre outras.
Perspectivas de povos e comunidades tradicionais, em grande parte, enxergam entes da natureza como agentes dotados de intencionalidades e com os quais é preciso estabelecer relações para alcançar uma boa gestão do território e da própria vida social.
Com isso, fica evidente a necessidade de avançar sobre o entendimento de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), instituído pela Lei 14.119 de 13 de janeiro de 2021.
Com base na interpretação da lei e no entendimento da relevância das contribuições e serviços ambientais gerados pelos modos de vida de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, estamos propondo uma definição complementar e específica para Contribuições e Serviços Socioambientais.
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A Rede de Sementes do Xingu, que atua na Amazônia e no Cerrado, utiliza práticas ancestrais de manejo para semear as florestas do futuro|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
Contribuições e Serviços Socioambientais são atividades/práticas individuais ou coletivas associadas aos modos de vida, conhecimento, cultura e manejo da paisagem de povos indígenas e comunidades tradicionais em seus territórios, que favorecem a reprodução, a recuperação ou a melhoria dos serviços ecossistêmicos, e que atualizam e produzem a diversidade cultural.
O reconhecimento dessas contribuições e serviços por políticas públicas adequadas é fundamental para fortalecer as economias da sociobiodiversidade e conter o avanço do modelo econômico hegemônico sobre os territórios tradicionais, criando mecanismos de promoção dos modos de vida locais.
O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e a Política de Garantia de Preços Mínimos para os Produtos da Sociobiodiversidade (PGPM-Bio) são exemplos de políticas públicas que, mesmo com recursos escassos, possibilitam criar ciclos positivos.
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O fortalecimento das economias da sociobiodiversidade e do conhecimento dos povos da floresta é a chave para deter a destruição do planeta|Adams Carvalho/Cama Leão/ISA
Ao mesmo tempo, empresas atentas ao bem-viver das comunidades e ao cuidado com os territórios têm assumido um papel importante ao fomentar essas economias, alçando ao protagonismo povos e comunidades tradicionais e dando início a experiências de justa repartição de benefícios.
Na história milenar e ancestral desses povos, porém, as políticas públicas e a sensibilidade de setores produtivos para o tema ainda são um soluço de valorização diante do racismo e do apetite brutal dos que querem menos floresta, mais monoculturas e dinheiro rápido a qualquer custo.
Agora é hora de inovar, com mais protagonismo das comunidades no desenvolvimento tecnológico e com a justa repartição de benefícios pelo trabalho conjunto. Inovar com formas de reconhecer e valorizar esses povos pelos serviços prestados ao planeta. E inovar na garantia e aprimoramento de seus direitos, com políticas públicas que promovam seus modos de vida.
É hora de retribuir essas populações e aprender com seu jeito de viver. É hora de cuidar de saúde, vida, presente e futuro. O futuro pode ser outro.
Cuidar dos igarapés, das áreas de pescaria, ter escola e manter o território protegido. Essas foram algumas das reivindicações feitas pela liderança indígena Américo Socot, do povo Hupda, pouco antes de votar no primeiro turno das eleições que aconteceram em 2 de outubro para presidente, governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais.
“E não pode esquecer: eu e meu povo estamos lá [no território]", reforçou ele, dirigindo-se aos candidatos. Seu Américo é um dos 32.106 eleitores de São Gabriel da Cachoeira (AM), município conhecido por ter a maior concentração de população indígena do país.
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Álvaro Socot Hupda, comunicador indígena, faz entrevista com jovem na Escola Sagrada Família, um dos pontos de votação de São Gabriel|Ana Amélia Hamdan
Américo deu a entrevista ao filho, Álvaro Socot, integrante da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas, que fez a cobertura do 1º turno das eleições em São Gabriel da Cachoeira. A Rede Wayuri é vinculada à Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e tem parceria e assessoria do Instituto Socioambiental (ISA).
Os comunicadores receberam e divulgaram notícias do processo eleitoral nas comunidades dos povos Baniwa, Yanomami, Tukano, Baré, entre outros. O lema escolhido pelo grupo foi "Vote pelo Coletivo e pelos Direitos Indígenas".
Desde as 6h30 até o início da noite, os comunicadores percorreram os pontos de votação ouvindo os indígenas sobre seus anseios e reivindicações, acompanhando o momento democrático e repassando informações.
A Rede Wayuri já tinha trabalhado na cobertura de outras eleições. Mas essa foi a primeira vez que foram divulgadas informações ao vivo, com a produção para o Instagram e WhatsApp. Conhecedores indígenas, famílias, jovens, idosos, pessoas de várias idades e etnias foram ouvidas.
Algumas entrevistas podem ser conferidas no Instagram da Rede Wayuri:
Por volta das 19h30, a comunicadora Juliana Albuquerque, do Povo Baré, encerrou os trabalhos repassando numa transmissão ao vivo pelo Instagram o resultado parcial das eleições para presidente em frente ao Cartório Eleitoral.
No município, o candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou à frente, com 79,12% dos votos, enquanto Jair Bolsonaro (PL) recebeu 17,52% dos votos. Em seguida vieram Simone Tebet (MDB), com 1,97%, e Ciro Gomes (PDT), com 0,83%, seguidos dos demais candidatos. O índice de abstenção foi de 32,47%.
Além de Juliana Albuquerque e Álvaro Socot, também integraram a equipe que cobriu as eleições em São Gabriel da Cachoeira o comunicador Adelson Ribeiro, Tukano, e Emerson Chaves de Oliveira, Baré. Os comunicadores Ray Baniwa e Cláudia Ferraz, do Povo Wanano, fazem parte da Rede desde a sua criação e atuaram à distância. Os trabalhos foram feitos com o apoio da fotógrafa e web designer Raquel Uendi.
“Foi muito importante participar da cobertura, ouvir os eleitores, saber o desejo deles. Pelo que percebi, todos que entrevistamos querem que o país melhore. Mas não é só um desejo individual, é sempre pensando no coletivo”, observou o comunicador Adelson Ribeiro.
Essa é a primeira cobertura de eleições que ele participa. Na opinião dele, um dos pontos marcantes foi ouvir os jovens. “A gente percebeu que a juventude quer mudanças”, disse. Os jovens ouvidos reivindicaram, entre outros pontos, a melhoria do acesso às universidades e à educação em geral.
Para a comunicadora Cláudia Ferraz, “as eleições são importantes porque é um momento em que todos vão às urnas para depositar o seu voto de confiança e escolher candidatos que de fato possam representar a população”, refletiu. Nas eleições municipais de 2020, ela entrevistou os candidatos a prefeito de São Gabriel da Cachoeira junto com a comunicadora Daniela Villegas, do povo Yebamasã.
Cláudia Wanano e Juliana Baré são as locutoras do programa de rádio Papo de Maloca, que vai ao ar semanalmente na FM local. Em seguida, o programa é editado e fica disponível em plataformas de áudio como o podcast Wayuri.
Votação
Ainda bem cedo, logo ao chegar ao Colégio São Gabriel — um dos pontos de votação na sede do município —, Juliana já se atentou para os folhetos impressos pela Justiça Eleitoral com a “cola”, ou seja, espaços em branco para os eleitores anotarem os números de seus candidatos.
A comunicadora pegou o folheto e repassou a informação pelo Instagram, prestando um serviço para evitar uma questão que foi enfrentada durante o dia todo: em vários pontos do país, inclusive em São Gabriel, foram registradas longas filas. Os próprios comunicadores tiveram que esperar cerca de duas horas para votar.
Em São Gabriel da Cachoeira, a eleição tem características especiais: são 33 pontos de votação, sendo cinco na área urbana e 28 em comunidades.
Dos 32.106 eleitores, 17.725 (55,2%) votam na área urbana e 14.381 (44,7%) em comunidades. Entre as comunidades, Iauaretê (2.764 eleitores) e Pari-Cachoeira (1.028) são as que têm maior número de eleitores.
Para levar as urnas até esses pontos é necessária uma logística que envolve veículos, barcos e aeronaves. A distribuição é organizada pela Justiça Eleitoral de São Gabriel. Mas alguns indígenas precisam sair de suas comunidades para votar em São Gabriel da Cachoeira.
É o caso dos Yanomami que vivem na comunidade Maiá. Eles enfrentaram cerca de três dias de viagem em voadeiras — pequenas embarcações a motor — da comunidade até a sede do município.
No território do Rio Negro, onde a Rede Wayuri atua, são cerca de 23 povos vivendo em 750 comunidades e sítios em área dos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.
E, mesmo com limitações de acesso à internet, chegaram informações de algumas comunidades. Em Tunuí-Cachoeira, na Bacia do Rio Içana, houve a participação do comunicador Plínio Guilherme, Baniwa. Na comunidade de Nazaré, também na região do Içana, Therezinha Evangelista, Baré, acompanhou a votação.
Passando para o Rio Uaupés, na comunidade de Taracuá, o comunicador Irinelson Piloto Freitas, Tukano, acompanhou a chegada das urnas, os preparativos e a votação. Também foram encaminhadas notícias do território Yanomami, da comunidade Maturacá, onde o comunicador Valdemar Lins mora.
Da cidade de Barcelos, a comunicadora Neide Dantas também mandou informações. Nilza Pinheiro, da Associação Indígenas de Barcelos (Asiba), mostrou um grupo de Yanomami recebendo informações sobre como votar na urna eletrônica.
Os comunicadores também atuam combatendo fake news. Informações duvidosas são compartilhadas no WhatsApp dos comunicadores para que seja feito o devido esclarecimento sobre a veracidade do dado. Em seguida, a informação correta é passada adiante.
Em maio, a Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas recebeu o Prêmio Estado de Direito 2022, do World Justice Project (WJP), na cidade de Haia, na Holanda, durante o Fórum Mundial de Justiça 2022. A rede foi reconhecida pela inovação e o combate à desinformação na Amazônia brasileira.
Além disso, a Rede foi reconhecida pelo Repórteres Sem Fronteiras (RSF) por seu trabalho durante a pandemia. Durante o ano de 2022, a organização promoveu oficinas e intercâmbios que fortaleceram a atuação da Rede Wayuri, o que se refletiu na cobertura eleitoral.
Povos indígenas nas eleições
Esta eleição é considerada histórica especialmente para os povos indígenas. Frente aos ataques e à ameaça de retirada de direitos,os povos indígenas, por meio de suas federações e associações, se organizaram no movimento “Aldear a Política”, buscando aumentar a sua representatividade nas Casas Legislativas.
Nesta eleição, cinco pessoas autodeclaradas indígenas foram eleitos para a Câmara dos Deputados, entre eles se destaca Sônia Guajajara, que foi eleita pelo PSOL de São Paulo e recebeu 156.966 votos. Já a professora indígena Célia Xakriabá foi eleita pelo PSOL de Minas Gerais, com 101.154 dos votos. Ambas tiveram o apoio do movimento indígena e se alinham às pautas coletivas defendidas pelo movimento.
Buscando atuar no fortalecimento do Estado de Direito e pelos direitos dos povos indígenas, a Rede Wayuri abordou o tema da eleição durante o ano todo, principalmente a partir de julho. Foram convidados para participar do programa Papo da Maloca pessoas que deram esclarecimentos sobre o processo eleitoral, como a Defensora Pública do Polo Alto Rio Negro, Daniele Mascarenhas.
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Da esquerda para direita, Emerson de Oliveira Baré, Juliana Alburquerque Baré, Adelson Ribeiro Tukano e Álvaro Socot Hupda|Ana Amélia Hamdan/ISA
Também foi abordado o tema "Juventude e Mulheres nas Eleições 2022", com a presença de uma das coordenadoras do Departamento de Mulheres Indígenas da Foirn (Dmirn), Dadá Baniwa, e do coordenador do Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas da Foirn, Elson Kene. Foi feito um programa especial sobre Eleições e Pessoas com Deficiência, com a participação do chefe do Cartório Eleitoral, Renato Crespo.
O comunicador Ray Baniwa, mestrando da UFRJ e comunicador da Rede Wayuri, escreveu sobre o tema “Eleições e primeira infância”, em projeto selecionado pelo coletivo Nós, mulheres da periferia.
Na quarta-feira (28/9) que antecedeu o primeiro turno foi realizado o Papo da Maloca – Especial Eleição 2022 com a presença da também coordenadora do Dmirn, Belmira Melgueiro, do povo Baré, e da coordenadora do Departamento de Educação e Patrimônio Cultural da Foirn, Lorena Araújo, do povo Tariano, que falaram sobre a importância do voto e de se informar bem sobre os candidatos.
Renato Crespo retornou ao Papo da Maloca para dar as últimas orientações sobre as eleições, com destaque para dois pontos: não levar celular para a cabine de votação e prestar atenção ao horário, pois neste ano, no Amazonas, os pontos de votação ficaram abertos das 7h às 16h, não havendo alteração devido ao fuso.
Uma das últimas pessoas a ser entrevistada pela Rede Wayuri no domingo de eleição foi Elza Tenório Vieira, indígena do povo Tukano, que não conseguiu votar justamente por causa do horário. Ela chegou às 16h30, levando sua filha cadeirante, mas os portões já estavam fechados.
“Eu venho nesse horário, sempre, para evitar o sol forte por causa da minha filha. Queria muito votar, ver meu candidato ganhar”, disse. No segundo turno, ela irá votar. E a Rede Wayuri estará, novamente, acompanhando as eleições 2022!
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Rede Wayuri participa da cobertura das Eleições 2022 com foco nos direitos indígenas
Com cerca de 50 integrantes atuando em áreas urbanas e comunidades da região do Rio Negro, coletivo de comunicadores indígenas circula informações confiáveis sobre o processo eleitoral
Em São Gabriel da Cachoeira, capacitação para as eleições de 2022 aconteceu no Cartório da 19ª Zona Eleitoral|Ana Amélia Hamdan/ISA
A eleição no município de São Gabriel da Cachoeira é única. A cidade, localizada no Noroeste do Amazonas, é banhada pelo Rio Negro e cercada pela floresta amazônica e por comunidades indígenas, algumas de difícil acesso e com pouca comunicação. Para a eleição de 2022, são 33 pontos de votação, sendo cinco na área urbana e 28 em comunidades, com a logística para entrega das urnas eletrônicas envolvendo barcos e aeronaves.
Com todos esses desafios, a Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas está fazendo circular informações sobre o processo eleitoral de 2022, tendo como lema Vote pelo Coletivo e pelos Direitos Indígenas. As informações estão sendo registradas no Instagram da Rede e circulando em grupos de WhatsApp, sempre com a preocupação de serem usadas fontes confiáveis como forma de combater as fake news.
No domingo (02/10), data das eleições para presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual, a Rede Wayuri estará nas ruas para ouvir os eleitores indígenas. Comunicadores que estiverem no território também vão compartilhar informações sobre a votação.
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Urnas eletrônicas chegam a Taracuá, no Rio Uaupés, Terra Indígena Alto Rio Negro|Irinelson Piloto, povo Tukano/Rede Wayuri
A próxima eleição é considerada histórica especialmente para os povos indígenas. Frente à atual gestão do Governo Federal, que vem promovendo ataques e a retirada de direitos dos indígenas, as federações e associações se organizaram no movimento d“Aldear a Política”, buscando aumentar a representatividade dos povos tradicionais nas Casas Legislativas.
Em São Gabriel da Cachoeira, o município com maior concentração de população indígena do país, são 32.106 eleitores. Do total de eleitores, 17.725 votam na área urbana, o que representa 55,2%. Outras 14.381 pessoas(44,7%) votam em comunidades. Entre elas, as que têm maior número de eleitores são Iauaretê (2.764 eleitores) e Pari-Cachoeira (1.028).
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Participantes do programa Papo da Maloca, produzido pela Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas, em imagem de abril de 2021|Ana Amélia Hamdan/ISA
As urnas começaram a ser enviadas ao território indígena pelo Cartório da 19ª Zona Eleitoral em São Gabriel da Cachoeira. As comunidades que já receberam os equipamentos até a sexta-feira (30/9) são Juiviteira, Aracu Cachoeira, Canadá, Caruru Cachoeira, Boca da Estrada, Maturacá, Taracuá, Pari Cachoeira, Iauaretê, São Joaquim, Coraci, Querari, Anamoin, Tunuí, Castelo Branco, Assunção do Içana e Nazaré do Cubate.
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Lideranças indígenas denunciam invasão garimpeira no Rio Negro
Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) cobra retirada de dragas; atividade ilegal ameaça turismo sustentável e principal reduto de tucunarés gigantes da Amazônia
O vídeo de uma draga de garimpo de ouro entrando ilegalmente em território indígena na região do Rio Negro, no Amazonas, foi postado nas redes sociais pelo diretor-presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), Marivelton Barroso, do povo Baré, em 17 de setembro. Passados 13 dias e após a federação encaminhar a denúncia a órgãos públicos, o problema persiste.
Na quarta-feira (28/09), Marivelton Baré voltou a utilizar as redes sociais para exigir que os órgãos públicos reajam às denúncias feitas. “A gente vem a público pedir que as instituições e órgãos de controle do Estado brasileiro possam reagir às nossas denúncias e pedido de desintrusão das dragas de garimpo que estão hoje nas Terras Indígenas Médio Rio Negro I e Médio Rio Negro II. Sobretudo na localização do Rio Marié, onde estão plenamente em operação”, narrou.
Segundo a Foirn, há pelo menos três dragas de garimpo na região. Além de expor a riscos a população indígena, a ação ilegal prejudica as atividades de turismo sustentável de pesca esportiva que ocorrem no Rio Marié.
“A gente não quer que o território do Rio Negro fique como outras áreas que não fizeram nada e [logo] a ilegalidade tomou conta”, completou. A Foirn encaminhou um ofício em 23 de setembro com pedido de providências a órgãos como Ministério Público Federal (MPF), Fundação Nacional do Índio (Funai) e Exército. No dia 29, voltou a pedir novas providências ao MPF.
Em julho, Marivelton Baré e o vice-presidente da Foirn, Nildo Fontes, do povo Tukano, entraram com pedido para integrar ação popular contra o que denominam de “loteamento do Rio Negro” para fins minerários.
No vídeo divulgado nesta semana, o diretor-presidente da Foirn informa que uma operação envolvendo órgãos públicos chegou a fazer a abordagem da draga de garimpo ilegal, mas a embarcação e seus responsáveis foram liberados. Eles teriam mostrado licença para estudo de viabilidade de extração de ouro.
De acordo com a Constituição Federal, tanto a pesquisa como a lavra das riquezas minerais em Terras Indígenas só podem ser efetivados mediante lei específica, que ainda não foi editada pelo Congresso Nacional. “Mas que licença de autorização é essa que viola nossos direitos?, questionou Marivelton Baré.
Além da necessidade de lei específica, a Constituição Federal prevê que empreendimentos de pesquisa (incluindo pesquisa de viabilidade) e lavra de riquezas minerais também necessitariam, após a edição da lei, de autorização do Congresso Nacional, oitiva das comunidades afetadas e sua participação nos resultados da lavra.
Atividades deste porte demandariam, também, licenciamento ambiental. Tudo isso deveria ser capitaneado por órgãos federais, já que as Terras Indígenas estão entre os bens da União. Nada disso foi realizado, o que faz com que a atividade seja absolutamente ilegal, a configurar, inclusive, possível crime ambiental.
Turismo sustentável
De acordo com a Foirn na região onde as dragas estão atuando, no Rio Marié, está em pleno desenvolvimento o projeto de turismo de pesca esportiva e de base sustentável, que vem sendo executado após a elaboração de um plano de visitação realizado de forma participativa pelas comunidades que vivem ena região de Santa Isabel do Rio Negro. O projeto tem aprovação da Fundação Nacional do Índio (Funai) e contou com estudos ambientais elaborados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a fim de manter a integridade ambiental da região.
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Embarcação de turismo sustentável de pesca esportiva no Rio Marié, no Rio Negro, em imagem de 2017|Marcos Hlace
O Marié é o principal reduto de tucunarés gigantes na Amazônia. O rio está inteiramente localizado dentro de um extenso território indígena, uma área com cerca de 2 milhões de hectares. Com mais de 800 quilômetros de rio, 180 igarapés e 60 lagos mapeados, esse importante afluente do rio Negro é uma área altamente preservada e, por isso, com condições para os peixes gigantes crescerem. Tudo isso está seriamente ameaçado com a recente invasão de dragas garimpeiras.
Diretor da Associação das Comunidades Indígenas do Baixo Rio Negro (Acibrn), Gelvani da Costa Silva, do povo Baniwa, reforça que os impactos ambientais causados pelas dragas podem também inviabilizar a atividade do turismo sustentável que vem gerando renda para a famílias indígenas.
A concepção do projeto turístico garante o diálogo entre os modos de vida das comunidades, respeitando sua autonomia e investindo em relações inovadoras entre empresas e comunidades.
Aumento de denúncias
O aumento da pressão do garimpo ilegal sobre as Terras Indígenas do Rio Negro está colocando a população em risco e levando ao crescimento de denúncias. Em 2021, indígenas relataram ameaças por pessoas estranhas que pretendiam exercer atividade mineral na região. Há denúncias de dragas nos rios Cauburis, Inambu, Arichana, Aiari, entre outros.
Levantamento realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA) mostra que há cerca de 77 requerimentos minerários ativos para pesquisa e lavra nas áreas que compreendem as terras indígenas Jurubaxi-Téa, Rio Téa, Yanomami, Médio Rio Negro I, Médio Rio Negro II e Cué-Cué Marabitanas.
Somente nas TIs Médio Rio Negro I e Médio Rio Negro II, são 20 requerimentos ativos. Referentes a ouro são 60 e os outros 17 a estanho, cassiterita, nióbio, cascalho e areia.
A Agência Nacional de Mineração (ANM) vem liberando requerimentos minerários em áreas ne leito do Rio Negro, dentro de Terra Indígena o que compromete os modos de vidas dos indígenas e ameaça a integridade ambiental da área.
“Nós lutamos para demarcar esse território exatamente para podermos preservar e trabalhar nossas atividades produtivas. Brigamos muito para manter ele de forma preservada. Não foi favor de governo nenhum, foi a luta de lideranças que nos antecederam. E a gente não quer que esses intrusos fiquem dentro do nosso território. Então a gente fala: ‘fora garimpo, fora mineração e fora também esse desgoverno’, que não está atuando de forma alguma para coibir e barrar a entrada dessas atividades ilegais e ilícitas no território”, finaliza Marivelton Baré.
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O Rio Negro pede socorro
Uma das ameaças que mais cresceu nos últimos anos é o garimpo ilegal. Com o desmonte dos órgãos de fiscalização e controle, como o Ibama e a Funai, o Rio Negro e alguns de seus afluentes vêm sendo cada vez mais invadidos
Casa de Warir, espírito "dono" das plantas não cultivadas, de acordo com a mitologia dos povos indígenas do Alto Rio Negro|Beto Ricardo/ISA
O Rio Negro é o maior rio de águas pretas do mundo e o sétimo maior em volume de água. Chamado de rio de leite pelos povos originários do Noroeste amazônico, é o rio da vida, o rio por onde a cobra canoa navegou dando origem a povos originários no Amazonas, como os Tukano, Desano, Piratapuia, Tuyuka, Wanano e outros. Em seu curso de cerca de 1.700 quilômetros, que nasce na Colômbia e chega ao Brasil, existem “casas sagradas”, nas quais devemos ter cuidado e respeito se quisermos manter o equilíbrio da vida no mundo.
Na Nova Zelândia, em 2017, o rio Whanganui, terceiro maior do país e vital para o povo Maori, ganhou personalidade jurídica, dada pelo Parlamento neozelandês por reconhecer a relação do rio com os Maori. “A nova legislação é um reconhecimento da conexão profundamente espiritual entre o iwi (tribo) e o seu rio ancestral Whanganui. Agora, o rio passa a ter sua própria identidade jurídica, com todos os direitos e deveres correspondentes”, comemorou o então ministro da Justiça neozelandês, Chris Finlayson, em 2017.
Para a lei neozelandesa, inédita no mundo, “o rio é um ser vivo único que vai das montanhas ao mar, incorporando seus afluentes e todos os seus componentes físicos e metafísicos". Por isso, deve ser tratado como um indivíduo e ter seus direitos respeitados. Após essa conquista, na Índia, o gigante rio Ganges, sagrado para os hindus, também ganhou status de pessoa jurídica, na qual a justiça indiana declarou: “é uma entidade viva com o estatuto de uma pessoa legal”. Os indianos esperam, assim, ter mais força para livrar o Ganges da poluição que vem degradando e ameaçando seu curso.
No Amazonas, convivemos com esse milagre vivo que é o Rio Negro. Suas praias de areia branca, seus igapós, pedras e ilhas, formam paisagens paradisíacas, responsáveis por boa parte do turismo, lazer e beleza do estado. Na capital temos o encontro das águas, um dos símbolos maiores da Amazônia e do Brasil, com os dois gigantes se encontrando e formando o maior rio do mundo: o Amazonas. Porém, para nosso desencanto, presenciamos o avanço da ilegalidade e do profundo desrespeito e descaso com a vida do Rio Negro e tantos outros rios amazônicos. Um verdadeiro show de horrores e de ignorância diante de tanta vida em abundância.
Uma das grandes ameaças ao Negro que mais cresceu nos últimos anos é o garimpo ilegal. Com o desmonte dos órgãos de fiscalização e controle, como o Ibama e a Funai, o Negro e alguns de seus afluentes, vêm sendo cada vez mais invadido por balsas de garimpo, que sequer respeitam as terras indígenas demarcadas e as comunidades que vivem nas suas margens. Em busca de ouro lançam mercúrio nas águas do Negro, contaminando seus peixes, e levando perigo à sobrevivência de milhares de indígenas e ribeirinhos que dependem diretamente de suas águas para viver.
Além disso, todos nós que vivemos no Amazonas e temos a sorte de nos banharmos nas águas do Negro, estamos ameaçados pela contaminação de suas águas por metais pesados oriundos de atividades ilegais predatórias, que mais parecem sair da Idade Média. Em nenhum país sério do mundo, as autoridades do Estado permitiriam tamanha agressão a um patrimônio natural deste porte, responsável por imensa geração de renda pelo seu potencial turístico, assim como por sua sacralidade como um corpo vivo, cuja história se relaciona com os povos originários da Amazônia.
A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), que atua em defesa das 750 comunidades e dos 23 povos indígenas rionegrinos, vem denunciando seguidamente e enviando ao Ministério Público Federal (MPF-AM), uma série de fotos, vídeos e relatos sobre essas invasões, grande parte delas ocorridas na região do Médio Rio Negro. O Rio Negro é reconhecido como maior área úmida do planeta de interesse internacional, denominado sítio Ramsar pela Convenção de proteção das áreas úmidas mundiais. Sua bacia é uma das regiões mais ricas em biodiversidade do planeta e na região da Cabeça do Cachorro (Alto Rio Negro) se formam os grandes rios voadores, nuvens que levam chuva para demais regiões do país, promovendo o equilíbrio climático e colaborando com a produção agrícola brasileira.
Seja na perspectiva dos povos da Amazônia ou dos Maori na Nova Zelândia, os valores indígenas de ligação com a natureza - numa relação ética de reciprocidade e de dimensão do sagrado diante da criação - são essenciais para que possamos resolver os grandes problemas ambientais que enfrentamos. O nosso Rio Negro pede socorro e todos nós que já nos banhamos em suas águas pretas devemos nos comprometer a protegê-lo. É no mínimo um dever ético com as nossas crianças, jovens e as gerações que estão por vir.
* Juliana Radler é jornalista com especialização em meio ambiente e analista de políticas socioambientais do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA). Artigo originalmente publicado no jornal A Crística
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Documentário traz raro registro da troca de conhecimentos ancestrais entre indígenas na Amazônia
Gravado na comunidade de Serra de Mucura, Alto Rio Negro, filme mostra práticas de cura e proteção usadas no enfrentamento à Covid-19
Encontro de conhecedores na Serra de Mucura que deu origem ao filme Pamurimasa Masise|Ana Amélia Hamdan/ISA
A comunidade de Serra de Mucura, no município de São Gabriel da Cachoeira (AM), guarda algumas das Casas dos Conhecimentos da região do Rio Tiquié, na Bacia do Rio Negro, segundo a tradição indígena. Ao chegar à aldeia, em meio à floresta amazônica, é possível ver grandes pedras e, na localidade, há quatro grutas que representam Casas de Conhecimento Yepamasã. Mais conhecidas como malocas, delas teriam se originado alguns dos povos da região e que, antes de virem ao mundo, viajaram no bojo de uma grande cobra. São os Pamurimasa – Gente de Transformação, na tradução da língua Tukano. Gente que detém um conjunto de conhecimentos – masise - para cura e proteção.
Pamurimasa masise – A Ciência da Gente da Transformação é um documentário produzido em conjunto pelo Instituto Socioambiental (ISA) e pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e traz o raro e delicado registro das conversas e troca de saberes entre esses conhecedores.
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Maracás e chocalhos usados durante o ritual na Serra de Mucura|Ana Amélia Hamdan/ISA
O filme será lançado em 23 de setembro em Manaus, no Centro de Medicina Indígena (Bahserikowi), com a presença dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (Aimas) e conhecedores Damião Amaral Barbosa, Yebamasã, morador de São Felipe, e de Rogelino da Cruz Alves Azevedo, Tukano, da comunidade de São José, ambas comunidades na região do Tiquié.
Em seguida, no dia 26, haverá novo lançamento, dessa vez em São Gabriel da Cachoeira, na Maloca – Casa do Saber da Foirn, com a presença do antropólogo indígena e assessor e analista de pesquisa e desenvolvimento socioambiental do ISA, Dagoberto Azevedo, além de Damião e Rogelino.
O documentário foi gravado na comunidade de Serra de Mucura, em dezembro de 2020, quando aconteceu o 1º Encontro de Conhecedores Tradicionais Indígenas sobre a Covid-19, reunindo etnias como Tukano, Desano, Tuyuka, Tariano, Yebamasã e Makuna.
Debates, entrevistas, conversas e rituais foram gravados pelo documentarista Christian Braga, pelo Aima Mauro Pedrosa, do povo Tukano, integrante da Rede Wayuri de Comunicadores Indígena, e Edilson Villegas, do povo Tuyuka.
Registrado em línguas indígenas da região, principalmente o Tukano, Pamurimasa masise não só mostra os saberes indígenas, mas traz a reflexão sobre a necessidade de valorização dos povos indígenas, sua ciência e sua medicina, integradas a um conjunto de conhecimentos cosmológicos.
No cenário de incerteza causado pela pandemia da Covid-19, os moradores da região do Rio Negro aplicaram seus próprios conhecimentos para proteção e cura, envolvendo desde o uso de plantas dos quintais, das roças e da floresta para chás, benzimentos e curações. Entre as práticas protetivas estão os basese (benzimentos) e rituais de proteção.
E no relato desses povos – são 23 etnias convivendo no território do Alto e Médio Rio Negro em área dos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos – a pandemia só não causou mais danos devido aos cuidados indígenas.
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Documentarista Christian Braga e o fotógrafo Paulo Desana registram os debates entre os conhecedores|Ana Amélia Hamdan/ISA
“Os Pamurimasa têm seu próprio conhecimento, seu próprio modo de explicar. Por isso Ciência dos Pamurimasa. O filme trata de como os Kumûa (pajés/especialistas) puderam trazer conhecimentos muito importantes sobre prevenir, corrigir, neutralizar algumas doenças. O uso desse conhecimento na língua Tukano chama basese. Isso que trata este documentário”, explica o antropólogo indígena Dagoberto Azevedo.
Ele diz que o filme ajuda não indígenas a compreenderem o conjunto de conhecimentos que formam a ciência dos indígenas, além de ser uma importante forma de buscar o reconhecimento desse sistema complexo de saberes.
“A partir desse documentário, convidamos o não indígena ao diálogo sobre tratamentos e atendimentos conjuntos unindo os saberes dos Pamurimasa e dos não indígenas. E buscar que essa prática conjunta possa ser reconhecida e incentivada por políticas públicas”, afirma.
Participaram do encontro em Serra de Mucura cerca de 60 pessoas entre especialistas, conhecedores, professores, agentes de saúde indígena (AISs), Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (Aimas) e comunicadores da Rede Wayuri. O único pajé Yaí a participar foi Jairo Lodoño, sendo essa especialidade rara atualmente.
Coordenador-adjunto do Programa Rio Negro do ISA, o antropólogo Aloísio Cabalzar considera que a reação dos indígenas do Rio Negro à pandemia da Covid-19 reforçou a autonomia desses povos. “É uma maneira própria de enfrentamento e tem um lado também de autoconfiança, pois os indígenas têm os próprios recursos para lidar com isso, sem tanta dependência”, explica.
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Pajé Jairo Villegas, ao lado de Damião Amaral, em ritual de proteção contra a Covid-19 durante o encontro de conhecedores|Ana Amélia Hamdan/ISA
Vice-presidente da Foirn, Nildo Fontes, do povo Tukano, alerta que a valorização desses conhecimentos de cura e proteção é primordial para a sustentabilidade da região, pois fazem parte de um sistema complexo e integrado de saberes que envolve ciclos ambientais, trocas, cultura e saúde. “Esse encontro e o filme criam a expectativa de valorização. A tendência, se não for feito isso, é que as pessoas detentoras desses conhecimentos não consigam dar continuidade a seus trabalhos”, defende.
São Gabriel é o município do país com maior concentração de população indígena e foi fortemente atingido pela Covid-19, chegando a ocupar o primeiro lugar no ranking de cidade com maior índice de contaminação no comparativo por 100 mil habitantes. Temia-se uma tragédia, com grande número de mortos, pois na região há dificuldades de acesso aos serviços de saúde e, além disso, os indígenas são considerados mais vulneráveis a determinadas doenças respiratórias.
Segundo informações do Governo do Estado do Amazonas, até 14 de setembro, o número de casos da Covid-19 chegava a 615.181 confirmados, com 14.307 óbitos – uma taxa de letalidade de 2,3%. Em São Gabriel da Cachoeira eram, até essa data, 11.033 casos e 113 óbitos (taxa de letalidade de 1%). No município de Santa Isabel do Rio Negro eram 3.194 casos e 57 óbitos, enquanto em Barcelos são 5.359 confirmações e 60 mortes. Esses são os três principais municípios da região do Alto e Médio Rio Negro.
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Pamurimasa Masise – A Ciência da Gente de Transformação
Sinopse:
Práticas ancestrais de proteção e cura utilizadas por povos indígenas do Rio Negro, no Amazonas, foram fortalecidas durante a pandemia da Covid-19.
Frente à ameaça do vírus e ao cenário de incerteza mundial, esses povos aplicaram seus próprios conhecimentos para criar um protocolo que envolveu desde o uso de plantas dos quintais, das roças e da floresta para chás, benzimentos e defumações, incluindo a realização de rituais sagrados.
Ao final de 2020, encontro realizado na comunidade Serra de Mucura, no rio Tiquié, município de São Gabriel da Cachoeira (AM), numa das áreas mais preservadas da Amazônia, reuniu especialistas indígenas de etnias como Tukano, Desano, Tuyuka, Tariano, Yebamasã e Makuna para intercâmbio de conhecimentos.
A maior parte das trocas de experiência aconteceu na língua Tukano. O Pamurimasa masise – Ciência dos Pamurimasa ou Ciência da Gente de Transformação – é um documentário que traz o delicado e raro registro dessa troca de saberes entre os conhecedores.
Lançamento em Manaus:
23 de setembro, sexta-feira
Centro de Medicina Indígena • Bahserikowi
Rua Bernardo Ramos, 97, Centro
Lançamento em São Gabriel da Cachoeira:
26 de setembro, segunda-feira
Maloca - Casa do Saber da Foirn
Avenida Álvaro Maia, 79, Centro
A comunidade indígena de São Roque, no município de Barcelos (AM), fica às margens do Rio Caurés, afluente do Rio Negro, que é difícil de ser encontrado devido ao labirinto de ilhas e canais situados em sua foz, só identificada por quem conhece a região. Nos últimos seis anos, a paisagem nessa área e em outros rios do município está mudando. Grandes extensões de árvores queimadas — algumas com partes submersas — passaram a fazer parte do ambiente de rios como o Aracá, Demeni, Rio Preto, Quiuini, Padauiri, além do Caurés e do próprio Negro.
Esse cenário impactante é resultado de eventos climáticos extremos ocorridos nos últimos anos. Em 2016, uma grande seca causou incêndio em áreas de igapós (floresta inundada), que secaram. Sobrou um rastro de troncos queimados. Já em 2021 e 2022, foram registradas duas cheias recordes consecutivas, deixando muitas áreas submersas.
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Expedição a áreas atingidas por incêndios e cheias no Rio Caurés. Na foto, Rodrigo Silva, do povo Baré (blusa preta); Maria Yrinéia, do povo Tukano; Francisco Saldanha, do povo Baré; Ezequias Pereira (blusa cinza) e o coordenador do grupo, Clarindo Chagas Campos, do povo Tariano|Ana Amélia Hamdan
Conhecedores relatam prejuízos para as roças e a floresta e percebem a perda de algumas espécies de árvores. Há risco de insegurança alimentar, pois os moradores da região dependem da produção das roças, da caça e da pesca,que sofreram com as alterações climáticas.
Os eventos extremos e seus efeitos para as famílias que vivem em comunidades do município estão sendo acompanhados pela Rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (Aimas), que atua no Médio Rio Negro. Entre os dias 29 de agosto e 2 de setembro, a comunidade de São Roque recebeu a III Oficina dos Aimas de Barcelos, com troca de experiência entre os participantes e expedições aos locais atingidos.
Durante o encontro, o conhecedor e pesquisador indígena Clarindo Chagas Campos, do povo Tariano, foi escolhido como coordenador dos pesquisadores indígenas em Barcelos.
O projeto é desenvolvido em conjunto pelo Instituto Socioambiental (ISA) e pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e reúne, no total, cerca de 50 Aimas que atuam no Médio Rio Negro e no Alto Rio Negro, nas regiões dos rios Tiquié, Uaupés, Içana (veja o mapa). Em Barcelos, o projeto conta com o apoio da Associação Indígena de Barcelos (Asiba).
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Durante as expedições, os Aimas e conhecedores da região indicaram pontos de queimadas e, ainda, onde a vegetação ajudou a segurar as chamas, como nas áreas de mologonzais - com concentração de molongós pretos. Também explicaram que o fogo só diminuía após alcançar a floresta em terra firme, fora das áreas de igapós. É possível ver os restos das árvores queimadas, com parte dentro d'água e, nelas, as marcas da cheia recorde, uma vez que o nível do rio já está mais baixo.
O agricultor Pedro Raimundo Fernandes, do povo Baré, foi criado na região do Caurés e vive em São Roque. Ele é um entusiasta da pesquisa e colaborador do jovem Aima local, Ezequias Pereira, também do povo Baré, e faz anotações diárias das observações dos eventos ambientais. Ele participou da oficina e das expedições, relatando o impacto dos incêndios e das cheias não só para as roças, mas também para a floresta.
“A floresta onde não estava acostumada a ir para o fundo, entrar n'água, elas (as árvores) morreram. Com a enchente do ano passado, até o nível que ela chegou, morreram muitas árvores e muitas palmeiras também. Eu não sei explicar. Essa enchente deste ano para nós foi maior. Talvez ela tenha feito um dano também, só que nós ainda não procuramos andar para ver o que aconteceu”, disse Seu Pedro durante a expedição, em meio à área atingida tanto por queimadas quanto por enchentes.
Sobre o incêndio, ele destacou a gravidade da situação. “Foi uma grande seca que tivemos aqui na região do Rio Negro e causou devastação na floresta aquática (igapós). Estou com 62 anos e me criei nesse Rio Caurés. Nunca tinha visto uma enchente dessa e nem uma seca do ano que aqui pegou fogo, nunca tinha visto”, lamentou.
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Paisagens alteradas: incêndios em áreas de igapós registrados em 2016 e cheias extremas ocorridas em 2021 e 2022 estão mudando a floresta|Ana Amélia Hamdan/ISA
A percepção de Seu Pedro pode ser comprovada por dados. A plataforma Global Forest Watch (GFW), que fornece ferramentas para o monitoramento de florestas, indica que de 2001 a 2021 Barcelos perdeu 130 mil hectares de cobertura arbórea por queimadas e 20,7 mil hectares devido a todos os outros fatores. O ano com a maior perda de cobertura arbórea devido a queimadas durante o período citado acima foi 2016, com 104 mil hectares perdidos por queimadas.
Outro dado que mostra a intensidade do problema indica que os focos de incêndio em 2015 foram 196 e, em 2016, passaram para 14.321, conforme o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A alta entre um ano e outro foi de 7.200%.
No outro extremo, o Amazonas passou por uma cheia recorde em 2021, com o nível do Rio Negro atingindo 30,02m em Manaus, o maior índice desde o início da medição, em 1902. Este ano, a cheia na capital não ultrapassou o período anterior, mas ainda assim a enchente foi extrema.
No município de Barcelos foram duas cheias recordes seguidas no Rio Negro: em 2021, o nível chegou a 10,46m, sendo o recorde até então. Em 2022, a água ultrapassou essa marca, chegando a 10,52m, segundo dados do Serviço Geológico do Brasil - CPMR.
Na comunidade de Cauburis, no Rio Negro, os moradores marcaram na escada de acesso o nível da água na cheia de 2021 e observaram que, em 2022, o nível foi além. O Aima Rodrigo da Silva Gomes, do povo Baré, que vive em Cauburis, disse que os espaços para fazer roça na comunidade já estão ficando difíceis devido aos eventos climáticos e pressão por terra.
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O Aima Rodrigo Gomes, morador da comunidade de Cauburis, mostra marca da enchente de 2022, que atingiu nível acima à do ano anterior|Ana Amélia Hamdan/ISA
“Foi enchente grande sim. A gente já está se acostumando com enchente grande. Por aqui a gente fala assim que dá para matar macaco de cacete. Porque o rio sobe e quem está nas embarcações dá de acertar os macacos que ficam no alto das árvores. Clima, tempo, enchentes, muita coisa não regula mais”, relatou.
A comunidade também passou pelos impactos do incêndio, mas Rodrigo não estava lá na época. Ele estava trabalhando em áreas de piaçabais — um dos recursos naturais da região, ampla e historicamente explorado —, onde via cinzas caindo do céu.
O Aima Ezequias Pereira, que mora em São Roque, lembra a agonia na época dos incêndios. “A gente não respirava o ar natural por causa da fumaça. O céu escurecia mais cedo, o sol ficava avermelhado”. Nascido na comunidade de Manapana, que significa "borboleta", em Barcelos, o Aima Ezequias foi criado em São Roque. Foi ele quem conduziu o barco, que saiu de Barcelos com o grupo de pesquisadores indígenas, quando a embarcação entrou no Rio Caurés, atravessando as ressacas à noite, guiando-se por seus conhecimentos e pela lua nova.
Também morador da comunidade de São Roque e conhecedor da região, o Agente Indígena de Saúde (AIS) Ely Gomes Pereira, do povo Baré, pai de Ezequias, fala dos impactos de outro extremo climático: as enchentes. Ele chegou a se mudar com a família para o barco durante as inundações de 2022. “Nunca tinha morado em barco antes”, disse ele, que passou cerca de 2,5 meses na embarcação.
"O que eu vi da enchente é que era só um mar de água. Houve diminuição dos peixes, que acharam muito espaço. Caçar ficou mais difícil. Era preciso mais de seis horas remando para alcançar a terra e encontrar a caça. O barco foi meu abrigo, meu socorro."
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Ely Gomes Pereira, do povo Baré, saiu de casa e foi morar com a família no barco devido às cheias: "Era um mar de água"|Ana Amélia Hamdan/ISA
A casa de forno comunitária de São Roque também ficou cheia de água. “Eu olhava para o rio subindo e só pedia para secar de volta, que não enchesse muito”, afirmou Iranilda Sales Santana, esposa de Ely. O agente de saúde fala sobre a cheia, mas ainda guarda na memória os incêndios de 2016. “Foi um desespero. Para onde a gente ia, tinha fogo. As chamas chegaram muito perto das casas. O fogo durou cerca de um mês, mas a agonia continuou por cerca de três meses devido à fumaça”, lembrou.
Relatos semelhantes a esse foram coletados pelos Aimas em questionários aplicados nas comunidades. O pesquisador indígena e liderança Francisco Saldanha da Silva, do povo Baré, da comunidade Bacabal, Rio Demeni, também fala sobre a sua experiência à época. “O fogo chegou bem perto da comunidade. Ficamos agoniados com a fumaça. A gente tentava fechar a casa para evitar a fumaça, mas não dava. E tinha muito carapanã (pernilongo). Algumas vezes fomos dormir na praia, onde era mais fresco”, relatou.
Nas comunidades cercadas pelo fogo, os homens costumavam sair à noite para tentar conter as chamas, mas as ações não eram suficientes para conter os focos, que avançavam tanto pelas árvores, como debaixo da terra, na camada chamada de "bucha", formada pelas folhas caídas.
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Francisco Saldanha da Silva, do povo Baré, da comunidade Bacabau, Rio Demeni, faz anotações em seu diário de Aima|Ana Amélia Hamdan/ISA
Mais pesquisa
Renata Alves, ecóloga e analista de geoprocessamento do ISA, explica que, a partir da ocorrência dos incêndios, foi proposto aos Aimas como tema da pesquisa os impactos do fogo. Enquanto o estudo estava em andamento, veio o extremo das enchentes. Os dois eventos estão sendo acompanhados pelos pesquisadores indígenas, que anotam em diários suas observações e ainda fazem registros com tablets e celulares.
Ela conduziu a oficina dos Aimas em São Roque e explicou que as observações e anotações feitas pelos pesquisadores indígenas até agora apontam para uma maior imprevisibilidade dos eventos climáticos, o que está levando a uma mudança no manejo das roças e da floresta.
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Renata Alves, analista de geoprocessamento do ISA, conduz oficina dos Aimas em Barcelos. Presidente da Asiba, Rosilene Menez, do povo Baré, (blusa preta) acompanha o grupo|Ana Amélia Hamdan/ISA
“Os cuidados até então tomados durante a queima de roça ou nas fogueiras dos acampamentos não foram suficientes para evitar o incêndio de 2016. Novos cuidados passaram a ser tomados”, contou.
Os resultados parciais das pesquisas feitas pelos Aimas sobre os incêndios e enchentes entre 2016 e 2021, por meio de questionários aplicados aos moradores das comunidades, indicam que a maioria das pessoas (61%) mudou a forma como maneja o fogo para queimar a roça após os grandes incêndios de 2016. Também foram relatados impactos principalmente nas roças, mas também na pesca e na caça.
Roças
No Médio Rio Negro, a população indígena está organizada em associações como a Asiba e vem lutando por seus direitos, pelo reconhecimento do território tradicionalmente ocupado e por uma proposta participativa do ordenamento territorial.
Presidente da Asiba, Rosilene Menez da Silva, do povo Baré, participou da oficina em São Roque e explicou que a associação vem acompanhando os impactos dos eventos climáticos extremos. “A gente vê muita gente cultivando a roça de jeito tradicional. É um trabalho de muito tempo para derrubar, roçar, preparar o solo. Se o clima não ajuda, como essas pessoas vão tirar o sustento?”, questionou.
Mesmo quem não teve a roça atingida diretamente por queimadas ou enchentes relata que os eventos extremos estão impactando a produção tradicional, reduzindo a segurança alimentar. Um dos efeitos relatados é que com as manivas (mandiocas), principal alimento da região, estão “cozinhando” antes da colheita devido à terra ficar encharcada e sob forte temperatura, provocando um efeito que os indígenas estão chamando de isopor: o alimento acaba ficando muito mole, o que não é bom para a produção de farinha e outros produtos como o beiju e a tapioca.
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Maria Yrinéia Basílio Brazão, do povo Tukano, é a única Aima mulher da região de Barcelos|Ana Amélia Hamdan/ISA
Maria Yrinéia Basílio Brazão, moradora de Canafé, uma das Aimas mulheres da região de Barcelos, conta que para chegar à sua roça passou a ter que enfrentar um chavascal na área que sofreu com o excesso de chuva. Agora mudou o lugar de fazer o plantio para evitar esse trecho.
O relato dela é que a roça não foi inundada, mas muita mandioca se perdeu com a umidade e, logo em seguida, com o excesso de calor. “Está mais difícil fazer roça, tem que ir mais longe. Eu mudei minha roça para fugir o caminho difícil”, disse.
Além disso, há mais dificuldade de planejar o plantio, devido à falta de previsibilidade do período de seca e enchente. Pelo sistema tradicional, as roças são plantadas em áreas de floresta primária ou secundária, que são derrubadas, deixadas para secar e depois queimadas para, em seguida, ser feito o plantio. Por esse processo são primordiais os verões – períodos sem chuva.
Coordenador dos Aimas em Barcelos, Clarindo Chagas Campos, do povo Tariano, explica que os conhecimentos indígenas indicam que a natureza tem conexões com as constelações e essas ligações estão sendo rompidas com o abuso do ambiente provocado pelo homem. “É a invasão da casa dos espíritos da natureza, que ficam incomodados e começam a limpar. Estão vivos e reclamando”, avisou.
Em seu sítio, no lago Cunimaru, em Barcelos, ele acompanhou a cheia e fez marcações do nível do rio, observando que a enchente de 2022 atingiu 25cm a mais que a cheia de 2021. “O nosso conhecimento não tem mais valor. A lagartixa e o caracol, que são marcadores de cheias e nossos comunicadores, já não acertam mais”, lamentou.
Segundo ele, as lagartixas costumam subir até certo ponto de alguns troncos, marcando que o nível do rio chegará até essa altura. Já os caracóis colocam seus ovos no nível máximo a ser atingido pela água. “Não erravam nunca. Agora não acertam mais. A esperança de vida está em risco. Quem vive da natureza está apreensivo, preocupado."
Comunidade São Roque
Na comunidade de São Roque, às margens do Caurés, vivem 20 famílias das etnias Baré, Baniwa e Macuxi. Na frente de cada residência, um canteiro de temperos, um dos itens do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro (SAT-RN), mostrando que as roças tradicionais indígenas estão vivas por lá.
A caça e a pesca são fartas, sendo servidas durante os dias de oficina junto com produtos da roça e da floresta, como farinha e patauá. As mulheres também produzem os fogareiros de barro, muito utilizados em todo o Rio Negro. Outras atividades são a caieira para produção artesanal de carvão.
Na região, há turismo de pesca, uma das principais atividades econômicas de Barcelos, e parte dos comunitários trabalha como pilotos e práticos dos barcos turísticos. Um acordo feito entre comunidade e empresa de turismo prevê fornecimento de internet - disponível algumas horas por dia - e água encanada. Uma das famílias também mantém um estaleiro.
A agricultora Maria Teresa Sales Lopes, do povo Baré, nasceu e sempre viveu em São Roque, mostrou as roças que ela e sua família mantêm na comunidade, conservando o sistema tradicional. Ela passou pelo incêndio e pelas enchentes e mostra resiliência. “Continuamos plantando roça”, ressaltou.
Depoimento
Durante a II Oficina dos Aimas de Barcelos, na comunidade de São Roque, o grupo fez uma expedição às áreas que sofreram com incêndio e inundação. No local, o agricultor Pedro Raimundo Fernandes, do povo Baré, deu o depoimento abaixo:
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"Com a enchente do ano passado, morreram muitas árvores e muitas palmeiras também. Eu não sei explicar a razão", diz Pedro|Ana Amélia Hamdan/ISA
Esse incêndio foi muito grave, foi uma grande seca que tivemos aqui na região do Rio Negro e causou devastação na floresta aquática. Mas nós acreditamos que isso vai ser reflorestado de novo depois de muitos anos.
Logo que foi queimado, era difícil encontrar peixe. Mas agora já tem, porque já tem muitos matos que foram reflorestados e dão oportunidade dos peixes se alimentarem, mas a gente não vê, pois estão no fundo.
E essa queimada esfumaçou muito. Era muita fumaça por toda parte. O povo que andava nos recreios (barcos grandes de passageiros e carga) reclamava que era muita fumaça para eles dirigirem a embarcação. Foram queimadas graves que fizeram e vêm trazendo muito prejuízo à floresta e ao ambiente.
Depois disso, a cheia causou muito prejuízo também. Aqui foram poucas pessoas que tiveram as roças tomadas por parte da água, mas a floresta onde não estava acostumada a ir para o fundo, entrar n'água, as árvores morreram.
Andei no mato mostrando sorva (uma espécie de árvore) na água, onde nunca tinha entrado na água. Com a enchente do ano passado, até o nível que ela chegou, morreram muitas árvores e muitas palmeiras também. Eu não sei explicar a razão.
Essa enchente (de 2022) para nós foi maior. Talvez ela tenha feito o mesmo dano da outra, de matar outra parte da floresta, mas ainda não fomos andar, ver, conhecer. Talvez ela tenha feito um dano também, só que nós ainda não procuramos andar para ver o que aconteceu.
Essa área aqui (atualmente inundada) fica toda terra seca, não fica água, essa área aqui pegou fogo porque fica muito seca e o fogo se alastrou. Aí veio queimando os paus, as madeiras secas e aquela bucha vem queimando por cima e por baixo da terra, digamos assim.
A roça está ficando um pouco mais difícil porque as terras primárias estão ficando mais distantes, cada ano mais distante. Aí fica ruim o acesso de transporte para a gente conduzir mandioca, banana, cana e outras plantas. E a gente carrega nas costas e fica muito distante e aí é o passo da gente ocupar as terras secundárias que são as capoeiras que sempre estão mais próximas.
Em relação à pescaria, logo que foi queimado aqui, ficou um pouco ruim, mas agora está melhorando. Mas quando o rio enche muito, a pescaria é só no igarapé. Aí tem que fazer umas remadas prolongadas de três a quatro horas para chegar ao ponto que a pessoa começa a pescar. Para ir e regressar no mesmo dia fica difícil, porque a pessoa rema muito e lá pesca pouco.
No verão fica mais fácil da gente pescar porque pega tucunaré e piranha em toda parte do rio. No inverno fica mais difícil, quando os igapós ficam com profundidade elevada.
Estou com 62 anos e me criei nesse Rio Caurés. Nunca tinha visto uma enchente dessa e nem uma seca do ano que aqui pegou fogo, nunca tinha visto. Em 1975, teve uma cheia, mas não foi como essas duas dos anos passados.
E não secou tudo entre um ano e outro. Secou um pouco só, mas não chegou ao nível que antigamente a seca chegava. Quando o rio já começa a encher em março e já deram os repiquetes e a água não desceu mais. A enchente já pegou o rio um pouco cheio aí foi o passo de a enchente ter sido grande. Aí encheu na época que era para encher, mas só que as águas já estavam muito em cima e aí foi longe.
A enchente foi longa mesmo. E só parou na época que esses anos para mesmo, em junho. Esse ano encheu até o dia 23 de junho.
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